Actas / Atas
1988-2002
Presentación / Apresentação
I Simposio (1988)
II Simpósio (1990)
III Simposio (1992)
IV Simposio (1994)
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VI Simposio (1998)
VII Simpósio (2000)
VIII Simposio (2002)
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Índice por autores

 

 

Neologia técnico-científica na imprensa brasileira contemporânea

Ieda Maria Alves
Universidade de São Paulo
Brasil
iemalves@uol.com.br

 

I. Introdução

O trabalho que apresentamos, concernente à Base de Neologismos do Português Brasileiro Contemporâneo, faz parte de um projeto mais amplo, o projeto Observatório de Neologismos Científicos e Técnicos do Português Contemporâneo (Projeto Integrado de Pesquisa junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), que, criado em 1988, tem a finalidade de coletar, analisar e difundir aspectos da neologia geral e da neologia científica e técnica do português contemporâneo do Brasil.

A Base de Neologismos do Português Brasileiro Contemporâneo tem o objetivo geral de coletar e analisar a neologia da língua geral do português contemporâneo do Brasil, observada em um corpus jornalístico, fornecendo subsídios para o estudo da evolução do léxico português (variante brasileira) e para a elaboração de repertórios de unidades lexicais neológicas.

Cumpre ainda os objetivos específicos de:

constituir um corpus para a elaboração de dissertações e teses;

constituir um corpus para a elaboração de um dicionário de neologismos do português brasileiro contemporâneo (década de 90) e de outros repertórios lexicográficos (dicionários de estrangeirismos, por exemplo);

fornecer subsídios para a elaboração de dicionários da língua geral do português brasileiro.

A observação sistemática da neologia, em um corpus jornalístico, permite-nos constatar:

processos de formação mais usuais no período e no corpus analisado;

elementos afixais (prefixos e sufixos) mais produtivos no período e no corpus analisado;

concorrência entre estrangeirismos e elementos vernáculos na evolução do léxico português;

emprego de unidades lexicais das ciências e das técnicas em textos jornalísticos.

Essa observação sistemática, também realizada em relação ao português europeu (Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal) e a outras línguas românicas (francês, no INaLF, Instituto Nacional da Língua Francesa, Nancy, França; espanhol europeu e catalão, na Universidade Pompeu Fabra, Barcelona, Espanha; galego, na Universidade de Vigo, Vigo, Espanha), permite-nos estabelecer comparações concernentes aos procedimentos neológicos adotados pelo português brasileiro, comparativamente ao português europeu e a outras línguas latinas.

Para a constituição da Base de Neologismos do Português Brasileiro Contemporâneo, estamos coletando um corpus constituído pelos jornais Folha de S. Paulo (FSP) e O Globo (G) e pelas revistas IstoÉ (IE) e Veja (V) a partir de 01-93, observado segundo um sistema de amostragem (um veículo por semana): jornal O Globo – primeiro domingo do mês; revista IstoÉ – segunda semana do mês; jornal Folha de S. Paulo - terceiro domingo do mês; revista Veja - quarta semana do mês. A escolha desses veículos não é fortuita. As revistas IstoÉ e Veja, de difusão nacional, dedicam-se a diversas áreas das línguas de especialidade, sem, no entanto, constituírem um corpus científico. Ao contrário, correspondem a um corpus de divulgação, em que matérias relativas a várias áreas técnicas e científicas são divulgadas para um público não-especializado. O mesmo ocorre com os jornais Folha de S. Paulo e O Globo - considerados por seus editores como os de maior circulação no Brasil -, que apresentam diversas áreas em seu interior (Política, Esportes, Artes...).

Nesses veículos, coletamos neologismos de caráter vernáculo (derivação, composição, truncação, transferência semântica...) e de caráter estrangeiro. Consideramos como neológicas as unidades lexicais que não estão incluídas em um corpus de exclusão , ou seja, o conjunto de dicionários da língua geral que nos servem de parâmetro para a determinação do caráter neológico de uma unidade lexical. Neste trabalho, integram o corpus de exclusão os seguintes dicionários:

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. 1 ed. 1975 (para o corpus correspondente ao período de 1993 a 1999)

___. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999. 1 ed. 1975 (para o corpus coletado a partir de 2000)

DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001. (para o corpus coletado a partir de 2002)

MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Melhoramentos, 1998. (para o corpus coletado a partir de 1999)

Consideramos ainda como integrante do corpus de exclusão o vocabulário ortográfico publicado pela Academia Brasileira de Letras, que, embora não seja um dicionário de língua, apresenta em sua macroestrutura um grande número de unidades lexicais que não integram outros repertórios:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Bloch, 1981 (para o corpus correspondente ao período de 1993 a 1997) e Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro, Academia, 1998. 1 ed. 1981 (para o corpus coletado a partir de 1999)

Iniciada em 1993, a coleta foi primeiramente efetuada por meio da leitura tradicional, com o registro das unidades lexicais neológicas em fichas que apresentam os seguintes campos: unidade lexical; sigla ou forma abreviada; referências gramaticais; contexto(s) e referências do(s) contexto(s); definição; área; subárea; observações lingüísticas; observações complementares; sinônimos; variantes; autor da ficha; revisor; data da criação da ficha; data de atualização da ficha. Os campos que, no momento, devem ser obrigatoriamente preenchidos são: unidade lexical; referências gramaticais; contexto(s) e referências do(s) contexto(s); observações lingüísticas; observações complementares; autor da ficha; revisor; data da criação da ficha; data de atualização da ficha.

As fichas são informatizadas com o auxílio do Programa ACCESS-Microsoft. A utilização do Programa Folio Builder 4.0 tem permitido a busca de unidades lexicais de forma informatizada (por meio de índice alfabético, busca de prefixos e sufixos e construção de concordâncias).

No momento atual, dispomos de textos informatizados para todos os veículos do corpus : jornal O Globo – extração de textos da Internet; revista IstoÉ - extração de textos da Internet; jornal Folha de S. Paulo – compra do CDROM; revista Veja – recebimento de textos informatizados por parte da Editora Abril.

 

II. Análise dos resultados

A Base conta, atualmente, com 7 800 (sete mil e oitocentas) unidades lexicais neológicas informatizadas. Deve-se salientar que as unidades lexicais registradas podem apresentar uma, duas ou mais ocorrências. Desse modo, se algumas apresentam apenas uma ocorrência e constituem hapax, unidades como drag queen e tucano (membro do partido político PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira), citadas a título de exemplo, apresentam várias ocorrências ao longo do período estudado e estão de fato integrando-se à língua portuguesa. O número de ocorrências da Base corresponde a cerca de 12 500 (doze mil e quinhentas).

Esse registro visa, primeiramente, a fornecer subsídios para o estudo da evolução do léxico português em sua variante brasileira. Por meio dele, estamos tecendo conclusões a respeito dos processos de formação mais produtivos contemporaneamente. Os dados até agora coletados têm-nos permitido constatar alguns fenômenos relativos aos aspectos morfológicos das unidades lexicais neológicas. Dentre os vários processos de formação encontrados nos materiais coletados, os mais produtivos são: derivação por prefixação; composição por subordinação; estrangeirismos de origem inglesa. A análise dos derivados sufixais tem mostrado que os sufixos que mais formam derivados são, em ordem de produtividade: - ismo, -ista, -ção e - eiro. Os prefixos que mais formam unidades lexicais neológicas são, em ordem de produtividade: anti-, não-, super-, auto- e mega-.

Nesta exposição, apresentamos dados referentes aos neologismos da Economia, bastante numerosos, observados principalmente nas seções de Economia, mas também em outras seções dos jornais e das revistas, como na seção de Política, tanto nacional:

Serviços estaduais serão privatizados ou <terceirizados>. (FSP, 18-09-94, p. Especial 7, c. 3, Eleições);

como internacional:

E sua recente associação com a France Télecóm (a estatal de telefonia e satélites, que deve ser privatizada em breve) também fortalece a França frente às <megafusões> americanas. (FSP, 06-03-94, p. 3.4, c. 4, Mundo);

na seção de Esportes:

A idéia de mudar é sempre boa, pois demonstra uma clara vontade de melhorar - e prova disso é que o mais estático de todos os esportes, o futebol brasileiro, está afundando numa imensa crise, gerada por seus métodos antiquados de gerência. Está à espera de que seus dirigentes despertem de um sono secular e o transformem, de fato, no <business> que a modernidade exige. (G, 02-06-96, p. 57, c. 1, Esportes);

e na seção de Televisão, entre outras:

Com uma dívida de 350 milhões de dólares, a Rede Manchete está se transformando numa superlocadora de um produto fluido: tempo. A rede é a campeã nacional de aluguel de horário na televisão brasileira - 45% de sua programação é <terceirizada> (veja quadro abaixo). É a própria rede que está saindo atrás de clientes em potencial. (V, 30-10-96, p. 132, c. 1, Televisão)

Os neologismos da área da Economia são os mais numerosos (cerca de 30%) dentre as várias áreas do conhecimento que produzem neologismos nos veículos analisados e representam várias subáreas da Economia, sobretudo as subáreas Economia Monetária e Fiscal, Crescimento, Flutuações e Planejamento Econômico, Economia Industrial e Economia do Bem-estar Social. Apresentamos, aqui, aspectos formativos dessa terminologia: recursos metafóricos para a formação de termos; concorrência entre formações vernáculas e empréstimos; aspectos da variação denominativa.

 

Recursos metafóricos para a formação de termos

Como nos lembra Canolla (2000: 55-6), se é desde a publicação do número 54 da revista Langages , em 1979, que os estudos sobre a metáfora ganharam um novo impulso, não se pode deixar de reconhecer que, a partir da publicação de Metaphors we live by, de Lakoff e Johnson (1980), muitos estudos sobre a metáfora em diversos tipos de discursos têm sido efetuados. Afirma a Autora que “a metáfora não é propriedade exclusiva de poetas. Se estudarmos textos científicos, jornalísticos, técnicos e mesmo a fala cotidiana, vamos encontrar enunciados metafóricos que nem sempre são percebidos como tais pelos interlocutores”. (p. 56)

A terminologia da Economia empregada em materiais jornalísticos, muitas vezes denominada economês, é plena de metáforas. O emprego figurado, presente na linguagem das ciências e das técnicas, como também nos sistemas semióticos utilizados nas ciências, não se mostra incompatível com a busca de precisão que caracteriza as terminologias, enfatiza Kocourek em seu estudo sobre a língua francesa empregada nos textos técnico-científicos (1991: 167). Assim, pelo procedimento da transferência semântica - que constitui, juntamente com as criações formais (derivação, composição, formações sintagmáticas e por siglas) e os empréstimos, uma das possibilidades de criação neológica (cf. Guilbert, 1975; Boulanger, 1979) -, os economistas vão atribuindo a unidades lexicais da língua geral e a termos de diferentes áreas técnicas um outro significado e criando, assim, termos da área da Economia.

Desse modo, unidades lexicais integradas por um substantivo próprio de outra terminologia como âncora, da terminologia relativa à Marinha e ataque e guerra, da terminologia bélica, se acrescidos de um adjetivo característico da Economia passam a fazer parte desse vocabulário:

Nos preços privados, em liberdade, a tendência é realmente declinante. E não por causa da <âncora cambial> que é pífia. Ou da âncora monetária, veneno disfarçado de remédio. Ou muito menos da <âncora fiscal>, ainda nas dores do parto de montanha do Congresso Nacional. O que fez o dragão perder o fogo foi o tripé desindexação, modernização, competição - comentado nesta coluna. (G, 07-07-96, p. 52, c. 1)

A crise cambial da Tailândia começou há três meses - quando a moeda local começou a sofrer <ataques especulativos> - e repercutiu por toda a região. (FSP, 23-09-97, p. 2.12, c. 4)

Para piorar as coisas, Reino Unido, França e Alemanha estão às portas de uma <guerra comercial>, motivada pela recusa dos países da Europa continental em comprar carne bovina britânica, por receio de que o risco da "doença da vaca louca", que surgiu há três anos, ainda não esteja totalmente dissipado. (FSP, 14-11-99, p. 2.4, c. 1)

As metáforas animais constituem uma perpétua fonte de imagens, enfatiza Ullmann (1964: 446-7). Exemplificamos essa fonte metafórica com os termos pato, que representa os novos investidores, e bull (touro) e bear (urso), que se referem, respectivamente, aos analistas de mercado otimistas e pessimistas:

Diante de tal desempenho, a Bolsa volta a atrair novos investidores - os chamados <"patos">, que sempre entram na alta e saem na baixa - e suscita a velha dúvida das épocas de vacas gordas: será que ainda há tempo de ganhar um dinheiro extra com ações? (FSP, 08-06-97, p. 1, c. 4)

O Dow Jones teve a segunda maior alta da história. A euforia certamente não foi provocada só por Abby, mas num país onde 40% da população tem dinheiro aplicado na bolsa, os analistas de mercado são alçados à condição de oráculos, celebridades com enorme influência sobre os investidores. No jargão do mercado, os otimistas são conhecidos como<bulls> (touros, em inglês), enquanto os que prevêem dias piores para a bolsa são chamados de <bears> (ursos). (G, 06-09-98, p. 32, c. 3)

Muitas das metáforas da terminologia econômica criadas na imprensa concernem a outro tipo de estruturação, baseada não propriamente na comparação, mas na organização de um completo sistema de conceitos que se relacionam uns com os outros. Esse tipo de organização metafórica, a que Lakoff e Johnson (1980: 15-21) se referem como metáfora orientacional - pois implica conceitos que refletem uma orientação espacial - está baseada em nossa experiência física e cultural. Esse tipo de estruturação metafórica pode ser exemplificado com os termos fundo do poço e pico , que designam, respectivamente, o valor mínimo e o valor máximo atingidos por um indicador econômico:

/.../ o salário real (calculado em URV ou dólar) se situava no <"pico">, próximo à média ou no <"fundo do poço"> em fevereiro. A URV deixou todos na média. (FSP, 27-03-94, p. 2.9, c. 2)

Essa orientação espacial está também presente na no sintagma verbal andar de lado, que, no jargão do mercado financeiro, significa “não apresentar rumo determinado, não ter uma tendência pré-definida”:

O mercado acionário <"andará de lado"> (sem tendência definida), na opinião dos analistas. A perspectiva só deverá ser revertida se o Copom surpreender com uma queda mais acentuada dos juros básicos. (FSP, 14-02-00, p. 2.2, c. 1)

 

Concorrência entre formações vernáculas e empréstimos

Empréstimos oriundos de línguas estrangeiras são comumente observados em todas as terminologias. Em relação à Economia esse fenômeno também ocorre e constitui uma outra característica do economês. Na Base de Neologismos do Português Brasileiro Contemporâneo, os estrangeirismos da área econômica correspondem a 9% do total dos elementos estrangeiros empregados.

O elemento estrangeiro, em um primeiro momento, é comumente seguido de tradução ou de uma definição em português. Esse fato explica-se pelo caráter de inovação da unidade lexical, que, sabe o enunciador, pode não ser conhecida pelo leitor não-especializado em Economia.

Desse modo, a tradução pode seguir-se ao emprego do termo estrangeiro, em geral de origem inglesa:

A preocupação é com a criação dos <cyberbanks> <(bancos cibernéticos)>, sistema de pagamento e transferência que usam Internet e <smart cards> <(cartões inteligentes>, que contém um chip). Os portadores desses cartões poderão levar fortunas no bolso, sem usar dinheiro ou cheques. (G, 03-11-96, p. 52, c. 2)

Segundo o advogado Felipe Leonardos, que representa a American Bank Note, nos próximos dias a empresa entrará com recurso no Supremo Tribunal Federal ou no Superior Tribunal de Justiça - ele ainda está decidindo qual é o órgão mais adequado - alegando que <bank note> é uma expressão usada no mundo inteiro por empresas deste ramo.

Essa expressão significa <nota bancária>. Várias empresas usam esse nome, como a Canadian Bank Note, por exemplo, e não há o menor problema - diz ele. (G, 08-09-96, p. 45, c. 1);

mas também por vezes oriundo de um outro idioma, como o espanhol:

A Folha percorreu uma série de pontos na Florida, a principal rua comercial de Buenos Aires. Não é difícil encontrar um <"chamador"> ou um <"arbolito">, os vendedores independentes, não ligados às redes. (FSP, 10-02-02, p. B.6, c. 5-6);

ou, ao contrário, precede o termo estrangeiro:

Uma delas chama-se <marcação a mercado> das carteiras dos fundos de investimento (<"Mark to Market">). Trata-se de uma convenção, recheada da mais pura lógica, em que as cotas dos fundos traduzem, ou procuram traduzir, periodicamente o real valor dos ativos que elas representam. (FSP, 10-01-00, p. 2.2, c. 5)

2. Os mercados financeiros são instáveis por natureza, e os mercados financeiros internacionais são especialmente instáveis. Os movimentos do capital internacional são notórios pelo seu padrão de <crescimento-retração>, <boom-crash>. Durante o boom, o capital voa do centro para a periferia, mas, quando a confiança é abalada, tende a retornar ao seu local de origem. (V, 24-12-97, banco de textos)

A definição é, não raro, empregada quando o jornalista não conhece um equivalente vernáculo:

"Alguns termos nem têm tradução, expressam um conceito. É o caso de <'disclosure'>, que é a política de uma empresa de bem informar o mercado", comenta ele. "Poderia ser substituído por transparência, mas não resolveria". (FSP, 13-11-00, p. F.7, c. 3-4)

O emprego do elemento estrangeiro vai, aos poucos, estabelecendo concorrência com o do termo vernáculo. Essa concorrência pode revestir-se de sua co-ocorrência com um elemento vernáculo em um sintagma nominal:

Uma significativa onda de remarcações "preventivas" já está em andamento, inclusive em <bens "non tradeables">. O grande desafio é justamente o de evitar que o aumento de preços dos <bens "tradeables"> se propague velozmente para os demais preços, recriando a indexação. (FSP, 28-02-99, p. 2.2, c. 6);

ou da substituição gradual do elemento estrangeiro por um elemento vernáculo, como se verifica em black / dólar paralelo e em agribusiness e sua variante agrobusiness / agronegócio :

Na quarta-feira, o <black> foi vendido a 30500 cruzeiros em São Paulo e no Rio, com variação de 8,16% em apenas três dias. (V, 14-04-93, p. 91, c. 1)

De qualquer forma, o <dólar paralelo> (<"black">) perdeu muito da importância que teve no passado. (FSP, 13-12-00, p. 3.1, c. 2-3)

A Cervejaria Brahma foi classificada como a maior companhia de <agribusiness> do País. É o que mostra a pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), na última semana, com as maiores representantes do setor. (IE, 16-10-96, p. 153, c. 1)

A crise econômica na Rússia já está preocupando os exportadores. Afinal, o país é o maior consumidor mundial dos principais produtos do <agrobusiness> brasileiro, como café e açúcar. (FSP, 18-08-98, p. 2.8, c. 4)

Dentro do Governo, os órgãos ligados à Câmara de Comércio Exterior (Camex) já tentam convencer o Ministério da Fazenda de que é necessária uma suplementação orçamentária, para que o Proex mantenha sua força e atenda a setores de peso, como de <agronegócios> e de transportes. No ano passado, os recursos do programa terminaram em agosto. (G, 06-08-00, p. 41, c. 2)

 

Aspectos da variação denominativa

A variação denominativa vai revestir-se, no corpus analisado, de diferentes aspectos morfossintáticos. Diferentes pesquisadores, como Miranda (1995), têm observado que a variação denominativa ocorre sobretudo em corpus de divulgação, como o que analisamos.

Dentre as possibilidades de variação denominativa – lembramos que, de acordo com Faulstich (1999), as variantes terminológicas lingüísticas podem ser morfossintáticas, lexicais, fonológicas e gráficas -, observa-se no corpus estudado um grande número de variantes morfossintáticas.

Uma possibilidade de variação morfossintática, muito empregada, diz respeito ao apagamento de elementos de um sintagma nominal, numa tentativa de tornar o sintagma mais curto e, portanto, mais econômico na estrutura frásica ( bens de consumo durável / bens duráveis, fundos de investimentos imobiliários / fundos imobiliários):

A alta de juros afeta de forma muito negativa os setores mais dinâmicos da economia. As indústrias de bens de capital e de <bens de consumo durável> (eletrônicos e automóveis) estavam crescendo muito, mas dependem de crédito, que ficou mais caro", diz Celso Martone, economista da USP (Universidade de São Paulo). (FSP, 24-06-01, p. B.3, c. 4-5)

Bosco não pensa assim: defende uma política industrial de longo prazo voltada para o desenvolvimento de setores que estejam crescendo acima da média do comércio mundial (como as dos <bens duráveis>): dos setores em que o Brasil é competitivo, diz, só o têxtil e calçados estão vendendo acima da média - e às custas de países asiáticos. (G, 02-02-97, p. 48, c. 3)

O gerente geral do mercado de capitais do Banco da Bahia, Augusto Brito, que está à frente do projeto dos <fundos de investimentos imobiliários> do banco, em parceria com a construtora Gafisa, ressalta que o produto possibilita financiar pequenos e médios investidores na construção de prédios residenciais, comerciais ou mistos. (G, 02-03-97, p. 3, c. 5 e 6)

Com o reaquecimento do mercado imobiliário do Rio de Janeiro e em São Paulo, as instituições financeiras estão buscando novas formas de captar recursos para o setor e, de quebra, criando alternativas de investimentos. Este é o caso dos <fundos imobiliários>, criados há três anos, que já contam com 29 carteiras constituídas e registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). (G, 02-03-97, p. 3, c. 5)

A redução caracteriza-se também pela perda do substantivo, fazendo com que ora o elemento prefixal receba a carga semântica desse substantivo (híper) ora seja empregado juntamente com esse substantivo (hiperinflação):

Resumo geral: independentemente do que ocorra com as candidaturas presidenciais, inclusive de FHC, é muito provável que neste ano não haja nada melhor senão esperar que a inflação não chegue a <híper>. (FSP, 30-01-94, p. 2.6, c. 4)

Riscos de <hiperinflação> podem reduzir capacidade de asiáticos de produzir mais para o mercado externo. (G, 01-02-98, p. 38)

Outro aspecto de que se reveste a variação denominativa concerne uma alternância morfológica, entre o adjetivo e o sintagma preposicional (de + adjetivo), que pode ser observada em mercado acionário e mercado de ações:

O estudo demonstra, no entanto, que o <mercado acionário> brasileiro ainda é mais influenciado por variáveis internas do que do exterior. (FSP, 31-03-96, p. 2.8, c. 2)

Já não é 100% verdade a máxima de que o <mercado de ações> no Brasil é fraco e vive uma dependência crônica do desempenho da Telebrás. (G, 05-04-98, p. 48, c. 3)

 

III. Considerações finais

A análise dos neologismos de Economia no corpus analisado tem-nos permitido verificar, também, alguns aspectos concernentes à variação de termos no âmbito discursivo, resultando no processo da nominalização (abrir a economia / abertura da economia, fechar o capital / fechamento de capital). Um exemplo, em que se observa o emprego do verbo captar e do substantivo captação:

Com a atual dificuldade de <captar recursos>, no mercado interno ou externo, as empresas brasileiras têm de pagar suas dívidas, adiando investimentos, ou renegociá-las a taxas mais altas, aumentando seus custos, diz Horácio Lafer Piva, da Fiesp. (FSP, 01-02-98, p. 2.2, c. 1)

Caio Auriemo diz que a parceria com o capital de risco do Patrimônio Private Equity é fator determinante para o crescimento do Delboni Auriemo. "Não há no Brasil uma forma de <captação de recursos> financeiros capaz de permitir os investimentos necessários para a viagem dos laboratórios nacionais da pré-história artesanal para o futuro da automação e da alta tecnologia." (FSP, 06-09-99, p. 3.4, c. 5)

Estudos sobre a neologia nas línguas românicas têm obtido resultados análogos aos que estamos observando. Desse modo, Enterría (2000: 82), em um estudo sobre os neologismos econômicos empregados na imprensa espanhola, assim destaca o alto número de formações metafóricas encontradas: “Las designaciones con sentido figurado constituyen el otro gran contingente de neologismos de la economía.”.

Os mesmos aspectos que salientamos (recursos metafóricos para a formação de termos; concorrência entre formações vernáculas e empréstimos; aspectos da variação denominativa) são também observados nos dados do Projeto Neologismos Económicos en la Prensa , coordenado pelo Instituto de Lingüística Aplicada da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha) e realizado no âmbito de Realiter (Rede Panlatina de Terminologia), criada pela União Latina e pela Délégation Générale à la Langue Française. Assim, a primeira fase desse projeto, relativa à elaboração de bases de dados nas principais línguas românicas com base em um corpus constituído por dois periódicos observados de abril a junho de 2001, já concluída, demonstra os mesmos fatos que observamos. Essa concordância demonstra que a neologia da Economia, observada na imprensa, segue padrões análogos nas línguas românicas.

 

Bibliografia

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