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A tradução de compostos químicos
em rótulos de produtos cosméticos

Cristiane Roscoe Bessa
Universidade de Brasília / Universidade de São Paulo
crbessa@unb.br

O processo tradutório de rótulos de cosméticos desdobra-se em algumas etapas: a leitura e interpretação inicial do rótulo original, a averiguação da legislação brasileira específica, a observação das principais marcas lingüísticas da linguagem apelativa para conferir autenticidade e fluência ao rótulo, considerações na medicina e toxicologia para que se chegue a um contra-rótulo [1] adequado que não ponha em risco a saúde e bem-estar do consumidor, e pressupõe ainda, objeto de análise desta exposição, considerações na área de química, principalmente no que concerne à nomenclatura de compostos químicos.

Tentarei expor, neste ensejo, procedimentos que podem auxiliar o tradutor a obter uma terminologia adequada na transferência do inglês para o português de compostos químicos, como averiguado durante o desenvolvimento da pesquisa que resultou na Dissertação de Mestrado intitulada “A Tradução de Rótulos de Comestíveis e Cosméticos”, defendida na Universidade de Brasília, em setembro de 2000. Não obstante a ausência de regras sistematizadas da química para a tradução de nomes de compostos químicos que entram na composição de produtos cosméticos, observaram-se constantes durante a prática desta atividade tradutória, as quais apresento como regras informais que muito podem auxiliar o tradutor a chegar aos termos corretos.

“Cada vez mais, empresas do mundo inteiro comercializam simultaneamente os mesmos produtos e serviços em diferentes ambientes culturais” (Nomura, 1999: 571). No Brasil, no início da década de 1990, houve uma avalanche de industrializados provenientes de países estrangeiros e, consequentemente, a necessidade de tradução desses rótulos para o português. Diante dessa realidade, percebi a ausência de manuais ou trabalhos acerca do assunto. Aos tradutores faltava material de apoio para o exercício desta prática; nem mesmo na Internet encontram-se ponderações sobre o tema. Nesse contexto, dei início à pesquisa de tradução de rótulos. A exposição de hoje se restringirá ao processo de aportuguesamento de nomes de compostos químicos.

Da Cunha afirma: “a normalização abrange quase todos os campos de atividades” (2001: 51). Esta afirmação, entretanto, não pode ainda ser verificada em todas as áreas do conhecimento. A própria tradutologia precisa ser sistematizada, para que se desenvolva como ciência e o saber se intensifique entre diferentes culturas. Emmel, ao fazer levantamento da referida terminologia, encontrou dificuldades devido à “falta de instruções para a elaboração de sistemas de conceitos” (1999: 568). Se a tradutologia, disciplina que é afim da terminologia, ainda não sistematizou sua nomenclatura, é de se esperar que outras ciências estejam em um estágio ainda menos avançado.

Maillot desaconselha o uso corrente de termos não científicos, denominados pelo autor “termos impróprios” (1975: 13). A padronização é, sem dúvida, desejável em quase todas as ciências, mas não é de fácil obtenção; especialistas não conseguem ter um controle rígido sobre o processo de nomeação. Como ressalta Aubert, “A neologia aparecerá freqüentemente como um derivativo não planejado, ou seja, como algo nascido de uma “geração espontânea”, como algo não previsto no quadro de um esforço padronizador, configurando-se, antes, em desvio ou oposição a tal esforço” (2001b: 14).

O autor chama também atenção para “as situações caóticas na nomenclatura dos objetos, conceitos e processos do saber e do fazer”, situação responsável pelo “travamento” e “ruído na comunicação” (Aubert, 2001a: 24). No que tange aos compostos químicos, o tradutor também enfrenta uma conjuntura confusa. A nomenclatura sistemática de muitos compostos é acompanhada de um nome comercial, ou mesmo vários nomes comerciais patenteados. Muitos carregam ainda um nome vulgar e informal, que pode passar a ser empregado depois de algum tempo, e, por fim, o nome industrial, coincidente ou não com os primeiros. Qualquer uma das variantes citadas pode eventualmente aparecer na composição de um produto, sendo os nomes comerciais veiculados com mais freqüência em cosméticos.

 

A padronização é possivel?

Existem tentativas de padronização na química. A IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry), nos Estados Unidos, determina a nomenclatura sistemática para substâncias químicas em língua inglesa. No vernáculo, também há algumas diretrizes a serem consideradas. Os profissionais da área conseguem lidar com as regras mais gerais, porém, para aplicá-las, é necessário um bom conhecimento na área de química. Em última análise, seria necessário conhecer a estrutura das moléculas, entre as quais algumas são de tamanha complexidade que deduzir o termo mais correto no vernáculo é um tarefa árdua até mesmo para o químico.

Porém, como poderia um especialista em tradução/terminologia dedicar tempo a um estudo mais detalhado de química antes de dar início a sua tradução propriamente dita? Essa hipótese não é factível diante das contingências da realidade profissional do tradutor/terminólogo Assim, a questão que norteia este estudo é: quais procedimentos podem ser adotados por esses profissionais a fim de chegar ao nome correto das substâncias, sem um conhecimento prévio mais aprofundado de química?

Depois de certa experiência e prática na área, constata-se a recorrência de alguns casos em número suficiente para caracterizar uma regra informal. O tradutor pode contar com alguns facilitadores, como o fato de a nomenclatura internacional provir, geralmente, do latim ou do grego. Apesar de todas as variações possíveis, a nomenclatura sistemática termina mudando pouco em muitas línguas do tronco indo-europeu. Não obstante, o tradutor depara-se com mais obstáculos do que facilidades no processo tradutório.

Mesmo no que tange à nomenclatura sistemática, profissionais e professores de química consultados desconhecem normas 100% aplicáveis. O próprio discernimento entre a nomenclatura sistemática e um nome comercial não é fácil tarefa. Superada esta etapa inicial, em caso de nomes comerciais, industriais ou vulgares, mais freqüentes em rótulos, não há regras institucionalizadas no português, tampouco no inglês, para a obtenção de nomes adequados. Esse processo ocorre de forma aleatória de forma a atender interesses de produtores e empresários.

A União Internacional de Química Pura e Aplicada e a comunidade internacional de química passaram por divergências para denominar elementos químicos, especificamente do número 101 a 109 (Rocha-Filho, 1995: 1). A nomeação vulgar, por sua vez, é um processo ainda mais conturbado, pois depende de um maior número de variáveis, entre elas a aceitabilidade do mercado.

Para exemplificar, de acordo com a nomenclatura sistemática pode haver diferentes maneiras de descrever um mesmo composto químico. Como exemplo, a vitamina PP (C 6 H 6 N 2 O) pode ser descrita como amida do ácido nicotínico, nicotinamida, amida do ácido 3-piridinocarboxilico. Acrescidas a estas, podem-se encontrar ainda como nomes comerciais Amida PP, Aminicotin, Benicot, Dipegyl, Niacinamide, Nicamindon, Nicofort, Nicotamide, Nicotilamide, Niozynin, Pelmin e Vi-nicotyl, todos patenteados nos Estados Unidos.

O Bio Soft é o mesmo composto que Poly-Tergent-J. Ambos, juntamente com Laureth, Alfonic ethoxilatoes, Brij, Dehijdol, EA, Emulphogene BC, Ethosperse, Eumulgin c, Ethoxol, Lipal, Lipocol, Macol, Polichol e Siponic, designam o álcool polixietileno.

 

Regras sugeridas

A tradução de compostos químicos pressupõe mais uma adaptação de nomes do que tradução strictu sensu, assim está-se diante de um processo de aportuguesamento .

Seguem-se as regras constatadas durante a pesquisa. Primeiramente, observa-se que e final, geralmente, transforma-se em a, e uma consoante final recebe a letra a em português.

dimethylamine – dimetilamina
triethanolamine - trietanolamina

niacin - niacina
riboflavin - riboflavina

Porém, como mencionado, regras 100% aplicáveis são almejadas, mas infelizmente, não exeqüíveis. Enquanto um químico parece dar preferência à palavra glicona, um biólogo se satisfaz com o termo glicona ou glicone. Tem-se, ainda, o e final transformado em o:

folate - falato
isobutane - isobutano

A letra y é substituída por i :

isopropyl - isopropil
pyridoxine - piridoxina

A combinação das letras ph transforma-se em f, ch em c e th em t.

tocopherol - tocoferol
methylchloroisothiazolinone - metilcloroisotiazolinona
methacrylate - metacrilato

O ol mantém-se ol em português:

ethanol - etanol
bisabolol - bisabolol

O cátion sucede o ânion em português, diferentemente do inglês.

tocopheryl acetate - acetato tocoferil
                            
acetato de tocoferil

Em português, acetato tocoferil constitui termo amplamente encontrado em rótulos e também aceito por químicos. Porém, a rigor, há necessidade de inserção da preposição de entre o ânion e o cátion, e o termo acetato de tocoferil seria mais correto. Da mesma forma, tem-se:

thiamine mononitrate - mononitrato de tiamina
retinyl palmitate - palmitato de retinil.

Os compostos inorgânicos geralmente não fogem à regra. Consegue-se também padronizar o aportuguesamento das terminações dos ânions. Ate corresponde a ato em português:

aluminium sulfate - sulfato de alumínio
sodium bicarbonate - bicarbonato de sódio

Ide geralmente transforma-se em eto :

sodium cloride _ cloreto de sódio
gallium arsenide - arseneto de gálio

Porém, para este último exemplo, pode-se ter também a variação ieto . Na física, é comum encontrar menção ao semicondutor de arsenieto de gálio (gallium arsenide). Para arsenide, existe ainda a variação arseniureto – também arseniuret. Entre todas as variações, arseneto de gálio é o termo correto.

Por fim, a terminação ite transforma-se em ito :

sodium hipobromite - hipobromito de sódio.

Com relação às terminações propostas, entre as poucas exceções estão oxide e hydroxide, que são óxido e hidróxido em português. Assim, sodium hydroxide é hidróxido de sódio.

Para adjetivos atributivos, os quais são antepostos em inglês, tem-se, de acordo com a regra geral, a ordem inversa no português:

hydrolized elastin - elastina hidrolizada
folic acid - ácido fólico.

Para siglas antepostas ou pospostas, não há um procedimento mais freqüente: ou a mesma ordem do inglês é mantida no português, ou pode haver uma inversão.

tetrasodium EDTA - EDTA tetrassódico
PEG-40 castor oil - óleo de rícino PEG-40

ou

lauramide DEA - lauramida DEA
DMDM hydantoin - DMDM hidontoína

As siglas são muito comuns em rótulos originais e geralmente são mantidas no português. Porém, em caso de dúvidas, o tradutor deverá pesquisar cada composto individualmente, a fim de evitar resvalar em erro.

A tendência geral é o composto químico ter no português a mesma ordem do inglês, salvo as exceções mencionadas ou casos específicos que não se enquadram em grupos maiores . No caso de nomes de compostos químicos formados por aglutinação ou justaposição, a mesma ordem é amiúde mantida no português:

methylparaben – metilparabeno
cocamidopropyl betaine- cocoamidopropil betaína
methylchloroisothiazolinone – metilcloroisotiazolinona

Há momentos que não se consegue extrair regras. Por exemplo: para alkine e alkene, alguns químicos usam alcine e alcene; outros utilizam alquine e alquene, por analogia com alkane, que é alcano. O primeiro grupo acha que deve prevalecer a grafia, o segundo, a fonia.

Uma estratégia válida é procurar produtos nacionais similares com rótulos já traduzidos, os quais freqüentemente trazem, em sua composição, vários dos compostos químicos presentes em industrializados provenientes de outros países. Aqui se está diante de uma situação delicada, pois farmacêuticos e produtores em geral não usam nomes com o mesmo critério que químicos, o que resulta em inadequações e incorreções em rótulos sob a óptica da química.

Pode-se, ainda, consultar alguns rótulos já traduzidos. Algumas empresas providenciam produtos com o rótulo no original, seguido de outras línguas, entre as quais se encontra, por vezes, o espanhol, ou o português, enquanto outros produtos já são importados para o Brasil com dizeres apenas no português. Deve-se ser muito cauteloso com essa referência, pois erros, resvalos e inadequações são mais recorrentes em contra-rótulos do que no original.

É importante ressaltar que, embora os cosméticos estejam sob o controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, há uma rigidez muito maior no que concerne aos medicamentos. O artigo 2º do Lei 6.480, de 01 de dezembro de 1977, proíbe “nomes ou designações de fantasia” em bulas ou rótulos e de drogas e insumos farmacêuticos, entretanto, em toda a legislação brasileira específica não se encontrou uma regulamentação semelhante para cosméticos.

Apesar de possíveis inadequações de um nome vulgar, não se pode esquecer que os rótulos devem ser transparentes para os consumidores, os quais conhecem apenas os nomes veiculados em produto já comercializado, que, por sua vez, são amplamente usados pela indústria brasileira, também aceitos e aprovados como tal pelo Ministério da Saúde. Não se está aqui preconizando um jargão pseudo-científico, todavia é importante que o consumidor reconheça as substâncias presentes na composição de um produto, o que só será possível se o contra-rótulo trouxer os termos conhecidos da população e aprovados pelo Ministério. Neste ínterim, o cotejo com o produto nacional é uma estratégia eficaz no processo de aportuguesamento.

 

Bibliografia auxiliar

Há poucos dicionários bilíngües disponíveis na área de química e aqueles existentes não incluem extensivamente os compostos químicos. De outro lado, os dicionários monolíngües veiculam verbetes explicativos ou a fórmula da substância, o que resulta em pouca ajuda para o tradutor/terminólogo.

O Merck Index (Índice Merck) é indispensável para tradutores que trabalham com nomes industriais e comerciais na área de química, assim como é uma referência para químicos também. A sua grande contribuição é a extensa relação da maioria dos nomes comerciais patenteados em língua inglesa. Apesar de monolíngüe, é um material bastante completo; os verbetes explicativos podem incluir: descrição, estrutura molecular, aplicações, outros nomes comerciais, entre eventuais dados adicionais.

Lucas (1950) elaborou um dicionário com a colaboração do farmacêutico Mário Sartini Lucas. Devido a este fato, o químico consegue reunir algumas variações de nomenclatura para um mesmo composto, inclusive nomes vulgares e, em alguns casos, os nomes comerciais usados pela indústria farmacêutica. Devido ao fato de aparecerem com freqüência em rótulos de cosméticos, este material pode ser eventualmente útil para a tradução.

Dicionários multilíngües podem ser úteis na medida em que o cotejamento entre língua do tronco indo-europeu pode indicar soluções, a partir de associações, eliminações.

 

Considerações finais

Aubert, ao destacar a confusão com a qual tradutores técnicos e especialistas são obrigados a conviver (2001a, 19), reconhece uma crescente necessidade de precisão no trabalho terminológico (ibidem, 23). No início desta pesquisa, almejei, em intercâmbio com químicos, conseguir uma sistematização da tradução para o português do nome dos compostos químicos em questão e elaborar um manual de consulta para diferentes profissionais. Percebi, entretanto, que isso representaria um trabalho em âmbito muito maior do que aquele previamente imaginado.

Apresentei, nesta oportunidade, apenas uma pequena amostragem da vasta gama de possíveis especificidades a serem encontradas durante o processo tradutório dos compostos químicos. Infelizmente, uma padronização extensiva não é factível e as regras sugeridas funcionam na maioria das vezes, mas nem sempre. Os profissionais envolvidos na produção dos rótulos de produtos cosméticos não têm preocupação com relação à lingüística ou à química, conseqüentemente, encontrar uma padronização para um processo que geralmente ocorre de forma intuitiva e assistemática pode ser uma tarefa árdua.

Os procedimentos aqui sugeridos não prescindem de uma pesquisa adicional para termos desconhecidos. Tradutores devem ser extremamente criteriosos com a tradução de substâncias químicas e fazer uma pesquisa adicional, em caso de dúvidas, pois qualquer deslize neste tipo de tradução pode ter conseqüências muito graves.

 

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[1] Designação comum para o rótulo traduzido.

 

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