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Diz-me como falas e dir-te-ei quem és
Acerca do galego-português e do galego-castelhano
Valentim Rodrigues Fagim
Aviso
Talvez a maioria das pessoas que me estão a ouvir ou a ler desconheçam a problemática galega. Para facilitar-lhes a conexão com ela, proponho uns exercícios de imaginação. Aqueles de língua espanhola pensem num Porto Rico que, sob a cerco [1] da cultura americana, tenta-se criar uma nova língua e cultura em torno ao spanglish intitulada porto-riquenha e desligada da língua e cultura hispana. Para os portugueses que não visionem, ainda, o galego como o seu particular porto-riquenho imaginem um processo similar em Olivença. Polo contrário, aos falantes de catalã só lhes resta fazer um exercício de recordação: Valência. Além disto, o meu propósito inicial de centrar-me em outros contextos internacionais viu-se, em parte, secundarizada pola publicação de novos contributos galegos que considerava interessante dar a conhecer..
Contexto: as três vias para o galego
A língua galega alcançou a sua individuação na Idade Média no ocidente peninsular em torno à cultura trovadoresca. Como aconteceu com outras realidades culturais, v.g. o valenciano e o provençal, sofreu um processo de perda de autonomia e lenta desintegração no interior de estruturas que a abrangiam questionando a individualidade atingida. No entanto, outras variedades do mesmo sistema cultural mantiveram a sua autonomia até os nossos dias, (no caso luso, com dificuldades durante o reinado dos Filipes): o português e o brasileiro.
Quando na segunda metade de XIX se colocou um processo de regeneração, a cultura e língua galegas desceram até um estádio de subcategoria da cultura e língua espanhola como podia ser o andaluz ou qualquer variedade hispano-americana. De não aparecer qualquer movimento regenerador, a sorte da língua galega seria a total desintegração, mantendo, isso sim, pinceladas regionais, no interior da língua espanhola. Esta será a que denominemos como primeira via para o galego. Na altura, muito escassas eram as vozes que reclamavam uma paridade categorial entre galego e castelhano mas quem o fazia sabia que o galego dispunha de instrumentos dos quais careciam, e carecem, a imensa maioria das culturas emergentes na Europa:
a) uma idade de ouro e de soberania datada na Idade Média e que a ligava ao português. [2]
b) a sua filiação com umas co-variedades soberanas, no nosso caso o português e o brasileiro.
Ambos os instrumentos foram utilizados profusamente polos regeneracionistas galegos até o golpe de estado franquista, focando-os em duas direcções:
1- Legitimando a emergência do galego e da Galiza a respeito do Espanhol. [3].
2- Descastelhanizando os registos linguísticos e as ligames culturais.
Esta dinâmica regeneradora será a que denominemos agora a da segunda via para o galego. No entanto, o conflito galego vai além de um conflito entre cultura emergente vs. cultura tecto, similar a muitos outros. Devemos somar um outro conflito, na nossa opinião inserido no anterior: a oposição entre uma leitura ampla da língua-cultura galegas, a incluir a lusofonia, e uma outra restrita, a excluir a lusofonia. Casos similares temo-los em Valência , na Provença, na Moldávia, e, no seu momento, na Flandres. Todos estes casos guardam, em diferentes graus, umas variáveis comuns:
a) Uma cultura emergente face uma outra dominante.
b) A cultura emergente teve uma idade áurea no passado que a ligava com outras variedades.
c) Essoutras variedades conservaram a soberania ou, no pior dos casos, mantiveram uma maior vitalidade e construíram sistemas soberanos, ou, no mínimo, menos dependentes que aqueloutros cobertos..
d) O conflito que se apresenta, a priori, é: 1- Regenerar a própria variedade atendendo a co-variedade soberana. 2- Iniciar um caminho desta variedade.
Como dissemos, isto é a priori. Neste relatório é a nossa intenção demonstrar como, a que a partir de agora chamaremos terceira via para o galego, não é mais do que uma ligação à primeira via, o sucursalismo do galego a respeito do castelhano.
Movimentos nos últimos 30 anos
O franquismo supus um corte traumático na regeneração galega. As mentes mais lúcidas e radicais foram apagadas ou obrigadas a exilar-se e o polissistema cultural galego-português que se estava a construir ficou cerceado [4]. O movimento regenerador subsequente tinha que ser, num primeiro momento, necessariamente, limitado. Em 1971 surge o Instituto da Língua Galega, a principal instituição partidária da terceira via. Na Galiza recebe os nomes de galego oficial, galego independentista, galego isolacionista, castrapo, galego pedagógico e galego-castelhano em função de quem seja o denominador. Por sua parte, a segunda via recebe na Galiza os nomes de galego reintegracionista, galego lusista, galego satelitizado, galego-português, portuxex e português, segundo, novamente, quem for o emissor.
Em 1980, a que seria a primeira normativa oficial do galego vê a luz. O presidente da comissão será Carvalho Calero, reintegracionista, e a natureza da normativa não pode ficar mais clara no prólogo: “Deixamos aberta a posibilidade de unha ortografía, pois, mais histórica, ou mais económica, ou mais solidária de outras formas do románico-hispánico ao que o galego pertence, non só como práctica usual no futuro, senón como anticipo, a título experimental, en círculos cultos, segundo, por outra parte, xa se ven ensaiando” [5]
Ainda hoje surpreende como o governo espanholista na altura, sancionou uma normativa que ligava ao galego e a Galiza com o português e Portugal, o que é o mesmo que permitir que:
1- todo o polissistema cultural lusófono fosse património da cidadania galega. Isto é, que se até a altura os galego-falantes tínhamos que acudir à cultura espanhola para satisfazer as demandas tipo de uma sociedade ocidental, a partir daquele momento podíamos fazê-lo desde a nossa própria cultura.
2- o problema galego deixava de ser um problema interno, como o era o catalã, e tornava, como o quebequês, um problema, no mínimo, bilateral senão internacional.
A reacção foi imediata. Três anos depois, subrepticiamente e sem dar nenhuma explicação ao respeito, uma outra normativa ocupava o seu lugar com uma filosofia bem diferente. Neste ponto, as similitudes com o conflito valenciano são diáfanas [6]. Escusa-se dizer que a nova normativa estava mais castelhanizada que a anterior. Assinavam o documento o ILGA e Real Academia Galega. Desde então, os agentes da cultura tecto têm-se revelado como os principais valedores da terceira via, mais e uma vez como no caso valenciano (ou no moldávio [7]).
Utilizando a normativa de 1980, conhecida como a dos mínimos reintegracionistas, isto é, uma ponte para a reintegração no sistema luso/brasileiro, estão as principais organizações do nacionalismo galego: o BNG, principal partido político, a CIGA, principal central sindical, A Nosa Terra, semanário de informação geral, AS-PG, principal central pedagógica, e a Mesa pola Normalización Lingüística, principal associação neste âmbito. Por outras palavras, o galeguismo é refractário à terceira via e a actual normativa oficial. Além destes, existem numerosos grupos, e muito dinâmicos, a sociabilizar já um galego totalmente desespanholizado, com ortografia portuguesa.
Este é o panorama actual a vista de pássaro:
O espanholismo dominante a ganhar terreno a grandes velocidades. [8]
A versão micro da língua dominando as instituições com o apoio imprescindível dos agentes do espanholismo. Poderíamos falar mesmo de bunkerização.
A versão macro da língua a habitar as organizações nacionalistas em especial aquelas mais dinâmicas..
Nem espanhol nem português: galego. A terceira via
Há dous factos objectivos:
1- Na Galiza existe um movimento que visa que a língua e a cultura galegas abandonem a periferia do sistema cultural espanhol e alcancem a soberania a respeito de aquele, chame-se galeguismo ou nacionalismo galego.
2- Dentro deste movimento galeguista ou nacionalista existem duas estratégias puras:
a- Alcançar a soberania e descastelhanização da sociedade e da língua através das variedades co-soberanas: português e brasileiro.
b- Alcançar isso mesmo sem as variedades co-soberanas, que são consideradas uma categoria aparte, e tentar aquilo desde materiais a priori autenticamente galegos: as falas vivas e a literatura galega contemporânea assim como os escritos medievais.
A este respeito, a normativa de 1983, elaborada pola terceira via, recolhe o seguinte catálogo de intenções:
1. “A lingua normativa (...) Ha de ser necesariamente continuadora da lingua falada pola comunidade e ha de achegarse canto sexa posible a ela (...) Debe acoller un galego fiel a si mesmo e limpo de canto de espúreo hai incrustado na fala pola presión do castelán”
2. “O galego normativo ten de se-lo vehículo expresivo común e válido para todo o pobo galego (...) Consecuentemente, o galego común non debe basearse nun único dialecto, senón que debe prestar atención á extensión xeográfica e demográfica das formas a escoller como normativas”
3. “O galego común debe segui-las boas tradicións da antiga lingua galega que sexan compatibles coa maneira de ser moderna da lingua, de xeito que as formas tradicionais sexan preferidas as mais innovadoras e evolucionadas”
4. “As escollas normativas han de ser harmónicas coas das outras linguas especialmente coas romances en xeral e coa portuguesa en particular, evitando que o galego adopte solucións insolidarias naqueles aspectos comúns a todas elas, tales como a adaptación de cultismos e de terminoloxía científica” (os negritos são nossos) [9]
Aliás, existem vários actores a interactuar dentro destas intenções: galego popular e medieval, castelhano e português. Carente o território galego de instituições na língua autóctone, como sim teve Portugal, o galego sofreu um processo de hibridação que lhe fez perder materiais genuínos, além de tomar como próprios os que entravam no espanhol, o qual leva irradiando sobre as falas galegas desde o mesmo século XIV. Se contrastamos os escritos galegos medievais mais serôdios com aqueles pioneiros, podemos advertir a progressiva castelhanização dos mesmos, paralela a desvertebração de uma cultura soberana galega no interior da espanhola. Sirvam apenas três indicadores:
a- a uma lírica galego-portuguesa sucede uma outra galego-castelhana.
b- o topónimo Galiza perde a sua predominância nos textos escritos segundo avança a cronologia destes, sendo substituída pola castelhana Galicia, por certo, a única forma legal.
c- Os textos escritos galegos posteriores ao declive medieval mostram um seguimento gráfico total com as convenções espanholas. Quando a RAE procede às reformas que eliminam os cê cedilhados e esses duplos, dos textos galegos não tardam em desaparecer mais do que nos textos espanhóis. A ortografia é, como se sabe, uma marca identitária vital e a ortografia actual do galego é espanhola remarcando a sua periferização a respeito da língua dominante [10].
No entanto, vamos centrar-nos mais no aspecto léxico e, em menor medida, morfológico. O castelhanismo nestes campos pode-se vertebrar em duas unidades e várias sub-unidades atendendo a sua genealogia e gestação:
a) Realidades presentes no galego medieval: Dios, pueblo, ventana, rodilla...
b) Realiadades modernas. Seguindo a Garrido [2000], “os ámbitos onde mais se sente a suplência lexical do castelhano no galego-português da Galiza actual correspondem, em geral, aos conceitos modernos, surgidos com posterioridade ao início da preteriçom sociocultural do galego e, em particular, a:
1) Conceitos abstractos e pertencentes ao mundo institucional e da cultura
2) Conceitos relativos a objectos concretos cujo aparecimento se produziu durante o dilatado período que abrange desde o início dos Séculos Escuros [11] até a actualidade.
3) Conceitos relativos a realidades exóticas.
4) Conceitos do mundo urbano (incluindo as gírias juvenis e o calom)
5) Conceitos especializados, exprimidos polas diversas línguas especializadas, como a administrativa, a jurídica, a eclesiástica, as das diversas profissons e as científico-técnicas.
Destes cinco domínios conceptuais, que nom som perfeitamente disjuntos e se imbricam, os que mais interessam ao léxico científico-técnico som:
Os objectos modernos: alcantarilla (esgoto), autopista (auto-estrada), bolígrafo (esferográfica), bombilla (por lâmpada), soplete (por maçarico).
As realidades exóticas: cacahuete (amendoim), cobra (cobra-capelo ou naja), guacamayo (arara), perezoso (preguiça, mamífero arborícola bradipodíneo), pipa (cachimbo), tiburón (tubarão)
mas, sobretudo, o próprio dos conceitos científico-técnicos.: a(né)mia [anemia], cloruro sódico [cloreto de sódio], Córvidos [Corvídeos], eritrocito ou glóbulo rojo [eritrócito ou glóbulo vermelho], gradilla para tubos de ensaio, hepatitis [hepatite], médula [medula], vacuna [vacina].”
É difícil fazer um cálculo de quantos castelhanismos moram no falante comum mas a sua importância qualitativa é fundamental como veremos posteriormente. No entanto, o conflito começa na hora mesmo de determinar o que é um castelhanismo. Desde a terceira via não se reconhece a mesma demografia que desde a segunda e isto por uma razão evidente: a epígrafe “galego-castelhano” não é uma boa carta de apresentação perante a cidadania e, especialmente, perante o galeguismo. Para evitar isto têm-se seguido duas tácticas [12] a fim de naturalizar o que é forâneo:
a) Adopção. Para isto é necessário cumprir uma premissa que a Terceira Via cumpre: morar no poder e na oficialidade. Só assim se pode sancionar como galego o que é castelhano seguindo uma política de factos consumados em torno a “A lingua normativa (...) Ha de ser necesariamente continuadora da lingua falada pola comunidade e ha de achegarse canto sexa posible a ela”. Por outras palavras, o que o povo fala, é a lei. Esta premissa, no porto-riquenho ou no chicano, (espanhol de EUA), levaria a sancionar o spanglish, em Quebeque o franglish e, no Vale de Aosta, o francitaliano, levaria, em consequência a criar uma nova língua que, num contexto de conflito linguístico, desligaria a essas variedades das outras variedades soberanas e aceleraria a sua diluição.
Dada a proximidade formal entre galego e castelhano, e desprezando o português como marcador de castelhanismos, é praticamente impossível dirimir o que é galego e o que não o é. Podemos servir-nos dos próprios exemplos de Carlos Garrido para constatar como: a) “O sistema depende por completo da arbitrariedade das autoridades lingüísticas e da sua incessante –e improvável- produçom de obras lexicográficas e terminográficas normativas” [13] b) A natureza essencialmente portunhola da terceira via. Relativamente aos exemplos citados polo autor:
Harmoniza com o português em: autoestrada, lámpada (mas também bombilla), cachimba (mas também pipa), vacina, hepatite, medula.
Sanciona o castelhano em: bombilla (ao lado de lámpada), bolígrafo, soprete (decalque de soplete) [14], pipa (ao lado de cachimba), cacahuete, cobra [15], guacamaio, cloruro, Córvidos, eritrocito, anemia [anémia]
Instaura “neologismos insolidários” em: sumidoiro (esgoto) [16], quenlla [17], pousatubos.
b) Baptismo: a evolução interna como consagradora de castelhanismos. Este mecanismo afecta mais a aspectos morfológicos do que puramente léxicos. Consiste em converter um hipotético castelhanismo numa forma genuinamente galega que seguiu um processo evolutivo autónomo, coincidente com o castelhano e divergente com o português. É o caso das terminações -ción, -sión, -cia, -cio, -eria que deixam de ser castelhanismo para tornar formas genuínas e que aparecem em inúmeras palavras, o que contribui a dar-lhe uma feição mesmo mais castelhanizada ao galego actualmente oficial.
A via ziguezagueante ou via slalom
A questão aonde queria chegar é que os materiais autenticamente galegos de que diz partir a terceira via não o são na imensa maioria das ocasiões. Partindo desde uma co-variedade soberana pode-se delimitar o que é próprio e o que é alheio. Isto não é o mesmo que certificar toda discordância com o português como uma interferência do espanhol. Existem formas genuínas galegas que em português foram deslocadas por formas espanholas: repolo (repolho) ou terreo (terreno). Por outra parte, existem formas comuns a ambas as variedades que apresentam diferentes graus de presença no território. Na Galiza predominam formas como leituga, pito, cordeiro/anho, e mugir entanto em Portugal predominam alface, frango, cordeiro/borrego e ordenhar. Neste ponto o galego apresenta uma natureza similar ao brasileiro dentro da lusofonia ou ao argentino dentro da hispanofonia: o estatuto de co-variedade. Ora, além disto, o português é essencial para dirimir o que não é genuíno. Temos que aperceber-nos de que esta distinção é tremendamente dificultosa em casos em que, como o nosso, a língua emergente e a língua dominante pertencem a mesma família e, ainda mais, são praticamente contíguas e altamente similares.
Desde a terceira via tem-se obviado todo isto na crença num independentismo de acção que, na prática, não se revelou como tal. Tomando como base as falas vivas ou a literatura contemporânea, elaborada por homens e mulheres escolarizados em espanhol quando não era o espanhol a sua língua infantil ou adulta, os logros regeneracionistas têm sido escassos e o objectivo de criar uma cultura soberana, através de uma língua soberana, falidos. Trasladado ao campo lexicográfico, as evidências disto são notórias como evidencia o magnífico trabalho de Carlos Garrido.
Os dous principais dicionários galegos são esclarecedores a este respeito. O realizado desde o galego-português, conhecido por Dicionário Estravis, recolhe quase 100.000 itens, sendo com diferença o mais completo dos existentes. O realizado desde a terceira via é conhecido como Diccionario Xerais e não alcança os 30.000 verbetes. Em ambos os casos é fácil especular sobre os dicionários que lhe têm servido de base. No primeiro caso, dicionários portugueses. No segundo, um dicionário espanhol, o Diccionario Anaya. [18]?. Em que se traduziu isto?:
No Diccionario Xerais são frequentes os casos onde são propostas umas formas como normativas para depois, nas definições doutras palavras, citar-se exemplos onde aparecem formas castelhanas. [19]
Todos aquelas palavras introduzidas nas línguas europeias depois da Idade Média e onde o galego, na sua mínima essência, carece de soberania para recolhê-las, são introduzidas sob a forma espanhola. (como comprovamos nos exemplos colocados por Carlos Garrido)
A imensa maioria daquelas palavras que apresentam ligeiras divergências entre espanhol e português são introduzidas sob a forma espanhola.: distorsión/distorção, analizar/analisar, visir/vizir, equipo/equipa... e também a imensa maioria das acentuações etimológicas: democracia [crá]/democracia, transistor [tór]/transístor, apotema/apótema, bosquimano/bosquímano...
De existir formas divergentes entre espanhol e português para realidades quotidianas, e as duas presentes na Galiza e Portugal, a forma dicionariada é a coincidente com a castelhana: enfadar/zangar, aforrar/poupar, racimo/cacho, cambio(câmbio)/troca, sacar/tirar, quedar/ficar, trampa/armadilha, presentar/apresentar, celos/ciumes, cabrón (cabrão)/bode. É mais, a maioria dos galegos desconhecem a forma divergente com o castelhano [20].
Consequências disto?: O galego da terceira via é, na realidade, galego-castelhano, isto é, um sub-sistema do espanhol que é, precisamente, a língua que questiona a sua soberania e mesma existência. A noção que têm a imensa maioria dos galegos a respeito da língua galega é, na verdade, de uma transcrição quase perfeita do espanhol através de determinadas regras fonéticas (p. e. ue>o, ie>e, ll->ch, g,j>x, -n->0, -ll->-l- ....) Isto provoca:
Nos falantes circunstanciais e nos neo-falantes, numa primeira fase, formas como *chear (por encher), *dó (por duelo) *ambente (por ambiente), *zoa (por zona), *brilar (brilhar),...
Nestes e nos falantes de berço, formas como *a raxatábla (à risca), *porteiro (guarda-redes/goleiro), *cruxentes (estaladiças), *lentiñas (lentes de contacto)*alevosia (aleivosia) *pepita (pevide) *vidrio (vidro)... [nestes últimos casos, ao não haver leis fonéticas que aplicar, o caminho para o castelhanismo torna auto-estrada]
E que se passa com o português, o único agente que pode garantir a sua plena desespanholização, quer dizer, a sua soberania? O português ocupa um lugar complementar com o castelhano uma vez que debaixo de cada castelhanismo aparece um lusismo. A recorrência ao português como co-variante que teve uma evolução soberana frente ao castelhano é quase simultânea ao próprio regeneracionismo galego assim como os ataques contra este. Pintos era acusado nos anos 70 do s. XIX de lusista por escrever rua (e não calle) e não muito depois, a inscrição no monumento aos mártires de Carral em que aparecia a legenda: “Aos mártires da liberdade”, provocava reacções como esta de um futuro académico galego: “Aos y liberdade no son palabras gallegas; y, por tanto, es un ataque permanente á la pureza de nuestro lenguaje regional”. [21]
Nos próprios dicionários e glossários galegos prévios aos estertores do franquismo aparecem abundantíssimos materiais que teriam permitido uma mais profunda descastelhanização [por outra parte, respeitando assim as suas próprias proclamas endógenicas]. Citamos alguns exemplos e entre parênteses e em itálicos as formas “legais”,
Treinar (adestrar), portagem (peaxe), capacete (casco), petisco (tapa), paul (pantano), parabém (noraboa), odor (olor, cheiro), esfregar (fregar), enforcar (aforcar).... Poderíamos ainda somar múltiplas formas que só recentemente alcançaram o grau de oficialmente galegas abandonando o de lusismos ou arcaísmos e que nestes dicionários galegos são moeda corrente: prezo, xustiza/justiza (justiça), emenda, doazón, achar, abenzoar/bencer (abençoar/benzer), xanela/janela...
No entanto, de que o hiato franquista não foi uma nimiedade dam fé os seguinte trechos tirados de Gallego 3 [22], manual de galego elaborado polo Ilga nos primeiros 70:
“Non se pode facer unha clasificación sistemática do lusismo porque os escritores galegos, en xeral, conocen bastante mal o portugués, razón pola cal sóio entran lusismos esporádicos, a maioría deles pertencentes o lésico. Exemplos: podemos considerar como mostra de lusismos fonéticos aqueles que consisten na eliminación dun yod: Estudar, muto, truta, nervoso (algúns deles vivos en dialectos galegos); morfolóxicos: ele no canto de “el”, a desinencia verbal –ste no canto de ches (cantaste por cantaches), o sufixo –bel ou –vel no canto de –ble (amável), entre outros; lésicos: achar “atopar”, ar “aire”, diabo “demo”, degredo “decreto”, banir “desterrar”, xanela “ventano”, isolado “illado”, garavata “corbata”, até “hastra”, próprio “propio”, mas “pro” “mais” [23]
Temos que recordar que as pessoas que detêm actualmente a autoridade linguística na Galiza som as mesmas ou os continuadores dos que alimentaram estas reflexões. A lexicografia que nasce destes postulados sanciona, de necessário, a castelhanização da língua galega e isto por duas razões:
a- Para ser fieis ao povo b- Para não tropeçar com o português [24]. No entanto, a única forma de lograr a emergência definitiva do galego a respeito do castelhano passa por descastelhanizar as falas do “povo” e a única forma é através do português, co-variedade que seguiu um percurso soberano desde a Idade Média até os nosso dias.
A terceira via poderia ser melhor chamada a via ziguezagueante. Desde que se concretizou institucionalmente em torno ao ILGA, a sua história é a história mesma do slalom, disciplina desportiva de inverno que consiste em descer por uma ladeira de neve esquivando marcos. O percurso que se tenciona sulcar é um equidistante entre o português e o espanhol. Com o fundo comum, ainda vivo, entre português e galego popular logra-se uma ligeira distância frente ao castelhano se bem a custa de ficar como um sub-sistema deste ao assumir a sua ortografia e todas as convenções gráficas, os nomes das letras, sufixos de grande rendibilidade como –ción, -sión, -ble, -ería, grupos cultos como nn (perenne), mn (himno), ct (lectura)... A isto há que somar, como já comprovamos, o vasto campo lexicográfico. Em resumo, quando falamos de escrita e modernidade, a sombra do espanhol, a primeira via, cobre perfeitamente a terceira via, talvez porque, no fundo, não sejam mais do que a mesma via.
Conclusões
1) Numa situação como na que está inserida o galego, só uma ruptura radical com o castelhanismo pode permitir a língua e a cidadania galega reencontrar-se com o português e permitir a sua plena individuação no que diz respeito da língua e cultura espanholas. Se alguma possibilidade tem a língua-cultura galegas de recuperar o espaço perdido, que é muito e em opinião de alguns irreversível, só pode ser através da sua plena descastelhanização já que só esta nos permite encontrar-nos com as outras co-variedades.
2) Sancionar um código misturado, num contexto de conflito cultural grave, nunca se tem resolvido satisfatoriamente para a cultura coberta. Que os principais valedores desta acção sejam os mesmos valedores do cultura dominante é um sintoma evidente. Como também o é que os adaís da terceira via não questionem nunca a unidade intrínseca de variedades que, como o valenciano, estão sumidas num conflito similar. [25]
3) Entre espanhol e português não existe qualquer espaço autónomo como tampouco existe entre catalã e espanhol em Valência ou entre inglês e espanhol em Porto Rico. A plena regeneração do galego exige a sua vertebração no mundo cultural lusófono para eludir o espaço que lhe tem reservado a cultura espanhola. Só assim se pode aspirar a conseguir que os cidadãos e cidadãs galegas deixem de associar galego com /rural/ ou com /resistência/e retomem uma das suas duas culturas, na verdade, a que categoriza a Galiza frente a Espanha.
4) Em 17 anos de ziguezague, os produtos culturais galegos elaborados em torno ao galego-castelhano que se oferece a cidadania não cobrem as demandas exigidas, e nada aponta que o vá conseguir nunca, em especial se temos em conta que o número de falantes, isto é, o mercado, mingua a grandes velocidades. Só a abertura maciça aos produtos culturais lusófonos pode permitir recuperar para o galego a muitos dos seus contingentes naturais e só se pode fazer através da leitura da língua galega como uma co-variedade soberana da lusofonia e nunca através de sancionar a sua involução como subsistema do espanhol.
Resumindo, uma regeneração e descastelhanização desde o galego português sempre será mais radical e íntegra que desde o galego-castelhano, é mais, é a única regeneração que pode receber tal denominação.
Anexo 1 [26]
Veronika decide morrer. Pergaminho. 1999.
“No dia 11 de Novembro de 1997, Veronika decidiu que havia – afinal! - chegado o momento de se matar. Limpou cuidadosamente o seu quarto alugado num convento de freiras, desligou o aquecimento, lavou os dentes e deitou-se./ Da mesa de cabeceira, tirou as quatro caixas de comprimidos para dormir. Ao invés de amassá-los e misturá-los com água, resolveu tomá-los um a um, já que existe uma grande distância entre a intenção e o acto, e ela queria estar livre para arrepender-se a meio do caminho. Entretanto, a cada comprimido que engolia, sentia-se mais convencida: no final de cinco minutos, as caixas estavam vazias.”
Veronika decide morrer. Galaxia. 2000-08-20
“O dia 11 de Novembro de 1997, Veronika decidiu que chegara, por fin, o momento de se matar. Limpou coidadosamente o seu cuarto alugado nun convento de monxas, apagou a calefacción, cepillou os dentes e deitouse./ Colleu da mesa de noite as catro caixas de pastillas para durmir. No canto de esmagalas e de mesturalas con auga, decidiu tomalas de unha en unha, pois hai unha gran distancia entre a intención e o acto e queria te-la liberdade de se arrependir no meio do caminho. Cada comprimido que tragaba facía que se sentise máis convencida e, ós cinco minutos, as caixas estaban baleiras”
Anexo 2
Concurso
Dadas as formas correspondentes às línguas portuguesa e espanhola, discrimine entre as propostas que lhes fazemos, qual é a forma galega legalizada: [27]

As soluções na última nota de rodapé [29]
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____ (2000). “Norma Lingüística e (inter-)sistema cultural”. In: O Caso Galego. Actas do I Encontro de Lusitanistas do Estado Espanhol. Cáceres.
[1] Este termo tomei-o de Torres Feijó [1996]
 [2] Que, no entanto, era semi-desconhecida para os primeiros regeneracionistas galegos o que patenteia o grau de fraqueza em que se achava a cultura galega.
 [3] Como disse Vicente Risco, “o principal factoto do nacionalismo galego”, em 1932, “Sen Portugal o nacionalismo galego non pasaria de un preito provincial”, citado em Torres Feijó [1996]
 [4] Sobre o polissistema cultural galego-português nesta altura é imprescindível Torres Feijó [1996].
 [5] Citado em Rodrigues Fagim [2000] Cap. 6.
 [6] A actual normativa oficial do valenciano nasceu sob o resguardo do Partido popular, no governo na década de 90 até hoje. Anteriormente, com o governo do PSOE, a normativa vigente era catalanista.
 [7] Foram Staline e a sua política russificadora, ao revestir ao moldávio com uma ortografia cirílica e uma terminologia russógena, os principais valedores da emergência de uma língua moldávia. Rodrigues Fagim [2000]
 [8] Entre os 16 e 25 anos apenas um 12,3% das pessoas nascidas num habitat urbano têm o galego como língua inicial. Fonte, VVAA, Lingua inicial e competencia linguistica, Vigo, Real Academia Galega, 1994.
 [9] Ilga-Rag [1992]
 [10] No que diz respeito do valor identitário da ortografia, Fagim [2000] Cap. 4.

[11] Assim é denominado o período que abrange desde finais da Idade Média até o Ressurgimento, na segunda metade de XIX e caracterizado pola carestia de textos em idioma galego.
 [12] Rodrigues Fagim [2000] Cap. 7.
 [13] Garrido, Carlos [2000], pag. 29, que também diz “Como a expurgaçom de castelhanismos suplente e a habilitaçom terminológica nom seguem pautas constantes e som processos discricionários e impredizíveis, sujeitos ao capricho das autoridades lingüísticas, o sistema, em princípio, nom é ampliável “desde abaixo”, desde o nível dos utentes (cientistas que redigem os seus trabalhos em galego, por exemplo), polo menos de forma ortodoxa.
 [14] Garrido, Carlos [2000]: “No seio da norma Rag-Ilga, o alargamento semántico das palavras vivas na fala espontánea galega apenas se produz de harmonia com o castelhano e nom com o português. Assim, sob o lema maçarico, o dicionário de Rag (1997) só oferece a acepçom de “ave limícola” (nom incluindo os outros significados que dam os dicionário portugueses: “instrumento para soldar”, “pessoa inexperiente”, etc.); como acepçom de grade só inclui a de “instrumento agrícola para esterroar (e nom as de armaçom ou caniçada” “locutório de convento ou cadeia”, “instrumento para cauterizar, “grelha de lámpada electrónica”, etc.)”
 [15] Garrido, Carlos [2000]: “As denominaçons castelhana, catalá, francesa, romena, inglesa e alemá destes ofídeos elapídeos (cobra e Kobra) provêm do galego-português (...) através da elipse do segundo componente do termo originário cobra-capelo.
 [16] Exerceria de modelo a forma espanhola “sumidero”?
 [17] Garrido, Carlos [2000], “Nom é conveniente que umha espécie receba a mesma denominaçom que o grupo a que pertence (cf. Al. Blaunhai/Hai, cast. Tintorera/tiburón, cat. Tintorera/tauró, fr. Requin bleu/requin, ing. Blue shark/shark) polo que resulta inaceitável utilizar o termo quenlha, mediante artificial alargamento semántico (...) Com esse sentido e de modo natural, económico e preciso, o galego deve acolher a voz tubarom, convenientemente adaptado do português tubarão” No que diz de preguiça “Como claro sinal de pobreza e limitaçom de horizontes do dicionário RAG (1997), nele nom se regista nengumha voz relativa ao animal preguiça. Sob o lema preguiça, na ausência de habilitaçom semántica, só figura, portanto, o significado de “indolência, aversom ao trabalho”
 [18] Desde há vários anos O grupo Xerais, editor do dicionário, faz parte do grupo Anaya. Além disto, é comum entre o reintegracionismo a anedota relativamente a primeira edição do dicionário Xerais onde num dos desenhos laterais aparecia uma inconfundível gralha, ave Corvídea, mas na legenda se lia urraca, nome castelhano da mesma ave. Em Estravis [87] 315-321, aparecem abundantes exemplos do mimetismo de ambos os dicionários.
 [19] Rodrigues Fagim [2000] Cap. 7. “A forma padrom é (aterrar) mas na definição de (pista) dá (aterrizaban); a forma padrom é (atmosfera) mas na definiçom de (tempo) dá (atmósfera); a forma padrom é (cirurxía) mas na definiçom de (tapón) da (microciruxía); a forma padrón é (comuñón) mas na definiçom de (recordatório) da (comunión); a forma padrom é (interese) mas na definiçom de (desinterés) dá (falta de interés)”

[20] Como tenho comprovado sobejamente nas minhas aulas de português para alunos galegos.
 [21] Aparece referenciado em Torres Feijó [1996] como estoutra também muito esclarecedora “[...respeto que se conserve el gallego como un monumento de cariño [...] pero no le alcemos gramáticas; dejémosle que viva descuidado y abandonado a si mismo, que así será más bello”
 [22] Citado em Rodrigues Fagim [2000] e Barbosa [1998].
 [23] Há muito que comentar deste trecho amplamente esclarecedor. Muto, Truta, -ste som dialectalismos galegos (como eles próprios dizem) A forma cantaches com -s analógico da P5 é considerado um plebeísmo tanto em castelhano como em português e em boa parte da Galiza não se emprega.. Nervoso vem do latim nervosu não do castelhano nervioso. Estudar é forma medieval galega. Ele é forma dicionariada por Rodriguez (1863), Valladares (1884) ou (Filgueira (1926) [vid. Santamarina, 2000] além de ser forma medieval galega. A terminação –bel esta actualmente padronizada ao lado de –ble. No entanto é o campo “lésico” (hoje léxico) o mais interessante: achar está hoje legalizada como o estava em quase todos os dicionários pré-Ilga; ar é forma medieval além de existir uma cámara municipal galega denominada Ares (hoje também semi-legalizada ao lado de Aire); diabo, hoje legalizada; degredo, patrimonialismo em português derivado de decretu que significa “efeito de degredar, exiliar” e que não se deve confundir com decreto, “disposição com força de lei, dimanada do Governo, do chefe de Estado ou da autoridade competente”; banir é forma medieval junto a desterrar (será que o galego não pode ser uma língua com sinónimos?); xanela, forma viva galega, amplamente dicionariada antes do 71 e actualmente legalizado embora se prefira fietra e ventá (A forma ventano é um sintoma de limitações auto-impostas); isolado, hoje legalizada embora se prefira illar/aillar (construídas sobre o espanhol aislar); garavata, hoje legalizado e corbata tornado um castelhanismo; até, forma medieval junto a ata (hastra foi banido da legalidade); próprio, forma medieval desaparecida por pressão da forma espanhola propio, que é a forma legalizada; mas, forma medieval junto a mais (pro, vulgarização de pero é suspeita de castelhanismo e hoje recuperou a forma plena sendo a mais usada frente a mais). Duas conclusões: O galego da terceira via é a)portunholesco. b) asinonómico [Em Estravis [87] pag. 295, encontramos exemplos a este respeito: “rematar” para “rematar”, “acabar”, finalizar”, “terminar”, “ultimar”... ou “atopar” para “achar”, “topar”, encontrar”...
 [24] É bom lembrar a seguinte frase de Pompeu Fabra citada por Sanchis Guarner, maximizador valenciano:”Jo mateix adoptava com a lema aquelles paraules de Pompeu Fabra, on deia que eles valencians el que han de fer és depurar el valencià de castellanismes, procurar acostar-se al llenguagte dels escriptors valencians de l´epoca clássica: si fan així, já es trovarian amb el català”
 [25] Recomendo a este respeito Rodrigues Fagim [2000], cap. 6, epígrafe 5 “O dilema de fundo: umha regeneraçom completa ou umha regeneraçom amputada”
 [26] Tomado de Rodrigues Fagim [2000] Cap. 3.
 [27] A maioria foram tomadas de Garrido [2000]
 [28] A forma espanhola para cu é culo.
 [29] Cabeceira, Carteleira, Osíxeno, Cu de tobbim, Percorrido, Elemental, Enruga/enrugar, Cazapo, Ouriños, Colo. Se deu no alvo em mais de oito palavras, pode considerar-se licenciada em “Conflito Linguistico Galego” mas se não foi assim, recomendamos a bibliografia que finaliza este documento.
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