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Índice por autores

 

 

A Terminologia (e as terminologias) e a Documentação

Marilda Lopes Ginez de Lara
Dep. de Biblioteconomia e Documentação
Escola de Comunicações e Artes
Universidade de São Paulo
Brasil

 

O objetivo principal deste trabalho é o de mostrar como a Documentação, ao operar no universo da linguagem, se apropria das contribuições teóricas e concretas da Terminologia.

Tal como os terminólogos, os intérpretes e os tradutores, o papel dos documentalistas é o de construir pontes entre linguagens. Frente ao especialista, esses profissionais conhecem a linguagem de uma disciplina, mas não conhecem como a ‘conhece’ um especialista. Além de linguagens diferentes, existem níveis de saber diversos, já que saber uma língua é diferente de saber construir uma ponte. Para Sager, o estudo da terminologia é complexo, pois deve satisfazer inquietudes distintas: dos especialistas da disciplina, do público em geral, e finalmente, a dos mediadores da comunicação, que têm que saber como fazer frente às necessidades de seus clientes (Sager, 1993, p.14).

O objetivo da normalização terminológica é a transferência do conhecimento. Por conseqüência, normalizar significa padronizar para melhor compreender: para Cabré, o empobrecimento da língua é feito em favor da comunicação. Porém, a transferência do conhecimento deve prever todos os domínios de comunicação onde a terminologia tenha um lugar, não se restringindo aos domínios de especialistas no seu sentido estrito (Cabré, 1991).

O objetivo da Documentação é o de transferir informação, operação realizada através de uma linguagem particular: a linguagem documentária. Num sistema documentário, a linguagem documentária funciona como o código através do qual são representadas, sinteticamente, as informações. As unidades desta linguagem são signos, ou designata, que estabelecem relações entre a forma física (os descritores da linguagem documentária) e o conteúdo informacional representado (seus referentes) (Hutchins, 1975). Não há, entretanto, uma relação biunívoca entre o que é representado e a forma da representação, já que a linguagem documentária é, em si, um sistema de significação construído a partir de uma hipótese de significação, o que significa dizer que ela é, também, um signo particular.

A construção do sistema de significação das linguagens documentárias tem como referência pelo menos duas linguagens: a linguagem do domínio ou área de atividade focalizada e a linguagem do usuário. Para funcionar como ponte, porém, tal sistema de significação deve se caracterizar, também, como sistema de comunicação. Por esse motivo, a construção de uma linguagem documentária tem como referência principal o conceito saussuriano de língua: por um lado, a língua é, fundamentalmente, um instrumento de comunicação; por outro, é um sistema de relações, tal que a significação de cada um de seus termos só pode ser inferida a partir de sua posição relacional.

Uma linguagem documentária só poderá ser propriamente linguagem se tiver características estruturais que a permitam funcionar como tal. É por essa razão que as linguagens documentárias mais modernas, como os tesauros, apresentam-se como estruturas, que compreendem relações de natureza lógica, ontológica, associativa e de equivalência. O léxico de uma linguagem documentária se organiza como uma rede paradigmática e dispõe de regras de combinação (rede sintagmática), que a despeito das diferenças relativamente à potencialidade de produzir enunciados como os de língua, permitem a formação de sintagmas, combinação de conceitos que podem expressar temas informacionais.

 

Exemplo de uma rede relacional: Thesaurus POPIN: Thesaurus Multilingüe de População

Distribuição espacial
UP          Distribuição da população
                Distribuição geográfica
                Distribuição territorial
     TE           Concentração demográfica
                Densidade demográfica
                ...
     TR           Espaço
                Geografia da população
                Habitat
                ...
Política demográfica
     UP           Política de população
                Política populacional
     TG           Políticas governamentais
     TE           Antinatalismo
               Política antinatalista
               Política de aborto
               Política de planejamento familiar
               Política migratória
               Política de redistribuição espacial
               ...
     TR           Controle da população
               Planejamento demográfico
               Política de saúde
               Política social
               População
               População ótima
               Programas demográficos

 

Exemplo de equação de busca a uma base de dados, utilizando o Thesaurus POPIN:

Distribuição espacial + Política demográfica
OBS.: A combinação de conceitos representados isoladamente no tesauro permite formar um sintagma documentário. Através dessa equação, pode-se recuperar, numa base de dados, documentos cujo tema é o resultado do cruzamento dos dois conceitos.

As terminologias específicas expressas em glossários e dicionários técnicos constituem fonte de descritores – além da literatura e da observação e registro das formas de uso. Além disso, permitem conferir referência às unidades das linguagens documentárias, já que as unidades da língua, por si só, têm apenas propriedades, que não são suficientes para descrever os objetos. As propriedades são apenas traços distintivos que permitem distinguir as palavras na língua, mas não permitem a determinação de classes de objetos, ou paradigmas, necessários ao estabelecimento da significação contextual (LE GUERN, 1988). Os glossários e dicionários técnicos construídos pelos terminólogos, ao contrário, permitem restituir a referência necessária à caracterização dos objetos nos domínios, uma vez que não relacionam, como nos dicionários de língua, palavras, mas termos. Os termos expressam conceitos que são predicados vinculados, permitindo que o processo de significação se desenvolva a partir de referências dos termos contextualizados nos discursos das áreas de especialidade. Para as linguagens documentárias, portanto, o veículo do conceito não é a palavra, mas o termo, unidade terminológica.

A simples extração de termos da literatura e a compilação de termos presentes nos instrumentos terminológicos, entretanto, não permite efetivamente configurar uma linguagem. Tal procedimento resulta da visão ingênua que associa o significado dos descritores de uma Linguagem Documentária com algo que está fora dela. O agrupamento de palavras típicas não é suficiente para caracterizar uma linguagem (TÁLAMO, 1997), somente sua organização ou arranjo relacional.

É sob este aspecto que é fundamental a contribuição da Terminologia teórica, particularmente quando ela se refere aos sistemas de conceitos, às características de uma definição e à identificação das relações entre conceitos. Essa contribuição se reflete através das normas terminológicas – particularmente a ISO704 e ISO1087 – como também na literatura teórico-metodológica. Exemplo disso se dá em relação às definições: embora tradicionalmente as linguagens documentárias não incorporem definições, o estabelecimento das relações hierárquicas entre os seus termos reproduz, a seu modo, uma definição semântica ou lógico-aristotélica: gênero próximo (TG – Termo Genérico), diferença específica (TE – Termos Específico), ou termo hiperônimo, termo(s) hipônimo(s). Utilizando o princípio da hierarquização, as linguagens documentárias representam, também, as relações de natureza ontológica-partitiva (TG – Termo Geral, ou o Todo, e TE, Termos Específicos, ou partes) que, embora não constituam hierarquias no sentido lógico, se apresentam como tal.

A Terminologia teórica provê elementos para a conceituação e identificação das relações que permitem caracterizar estruturas mínimas de significação através de operações de conjunção e disjunção (Greimas, 1976). Do mesmo modo, permite fundamentar o estabelecimento de relações entre termos coordenados do ponto vista lógico ou partitivo que, nas Linguagens Documentárias são representadas pelo símbolo TR – Termo Relacionado. Este símbolo marca, também, relações de contigüidade espaço-temporal (seqüenciais e pragmáticas), ou seja, relações entre termos que não se organizam ao modo hierárquico, mas que são resultantes de associações virtuais e temáticas, que se aproximam do que os lingüistas denominam valência semântica. O registro de tais relações é fundamental para sugerir associações não lineares entre termos, ou para reforçar a delimitação de seus campos semânticos. É necessário assinalar que, tanto a Terminologia como a Documentação não enfrentam convenientemente o problema dessas relações.

Adicionalmente, as normas terminológicas permitem compreender as relações de equivalência semântica (relações de sinonímia e quase-sinonímia), responsáveis pelo acesso aos sistemas documentários, a medida que realizam a compatibilização entre termos não-preferidos e termos preferidos. A observação da quase-sinonímia, do ponto de vista documentário, encerra outros parâmetros não compreendidos pelas normas terminológicas, como por exemplo, a utilização de deslocamentos genéricos – do gênero para a espécie ou da parte para o todo – , como medida de economia vocabular, quando a coleção em foco, mesmo tendo documentos sobre temas mais específicos, não justifica, pelo seu volume, uma entrada particular (Ex.: Laranja USE Frutas).

Recomendações para a construção de tesauros também são objeto de norma – a ISO2788, Diretrizes para o estabelecimento de tesauros terminológicos – porém seu uso deve ser associado às normas acima referidas, como modo de assegurar maior consistência à estruturação das linguagens.

As normas terminológicas e documentárias, entretanto, não esgotam o universo de problemas enfrentados na construção de linguagens documentárias. Se elas orientam a estruturação de mapas conceituais de domínio, arcabouços das linguagens documentárias, não são suficientemente potentes para sugerir procedimentos de incorporação de dados pragmáticos, preocupação apontada pela Socioterminologia quando esta discute a questão das práticas lingüísticas (Gaudin, 1993).

A forma de utilização das contribuições terminológicas varia conforme o domínio focalizado. A experiência mostra que a abordagem dessas contribuições deve ser feita equilibrando-se formalismo e necessidades pragmáticas. Isso responde a uma necessidade ditada pela própria natureza da atividade documentária. Ao considerar sua cararacterística essencialmente mediadora, ela não se pode furtar ao fato de que ao processo de mediação concorrem ‘várias línguagens’,a das práticas, inclusive.

A variação dos modos de assimilação das contribuições das diferentes escolas terminológicas corresponde aos diferentes aspectos enfatizados na mediação (que também caracteriza a atividade terminológica) e aos diferentes pressupostos utilizados: mais próximos à posição dos terminólogos ortodoxos, quando a tônica estiver centrada na lógica, na normalização e na prescrição; mais próximos à posição dos terminólogos que consideram a atividade terminológica como caracterizada pelo uso de vários subcódigos lingüísticos, quando a tônica recair na descrição.

Ao conceber a informação como algo ambivalente, não se pode conceber o enrijecimento das linguagens documentárias pela excessiva regulamentação. Quando “morrem as ambivalências, sucumbe o fundamento da informação (Baitello Júnior, 1994). As unidades das linguagens documentárias não são etiquetas a serem coladas às coisas, não constituem nomenclatura. Por esse motivo, não podem ser estruturadas como se existisse uma relação biunívoca entre a coisa ou fenômeno representado e a representação ela mesma. É na estruturação das linguagens documentárias que se definem os vínculos ou se fixam os pressupostos a partir dos quais se viabilizam hipóteses de interpretação.

A Terminologia prescritiva fornece respostas adequadas à Documentação quando as informações a serem representadas o podem ser a partir de vínculos claros, definidos a partir de padrões altamente compartilhados. Em certa medida (mas não totalmente) é o que acontece em relação a domínios que têm terminologia fixada e estabilidade conceitual e, portanto, interpretações razoavelmente canônicas. O mesmo não acontece, porém, com o tratamento de informações cujo estatuto não está assegurado, como ocorre com as áreas em formação ou transformação. Não há como ignorar, também, o fato de que a semiose, mesmo na presença de referenciais claros para a interpretação, não está livre de se desenvolver em função dos outros interpretantes da enciclopédia particular de cada usuário individual.

Frente a essas situações, a terminologia descritiva é mais adequada, porque mais flexível para permitir a representação de casos em que não há consenso sobre uma definição, ou nos quais os conceitos estão sujeitos a revisão. Como exemplo, veja-se a definição a seguir, construída para o acesso a dados pontuais, que pretende registrar um conceito cujos limites já não são absolutamente delimitados:

TAXA DE URBANIZAÇÃO
Percentual da população urbana em relação à população total calculado, geralmente, a partir de dados censitários, segundo a fórmula:
População urbana X 100
População total
OBS.:
1. As categorias rural e urbana de uma unidade geográfica são, no Brasil, definidas por lei municipal. Os critérios para determinar se um domicílio fica na zona rural ou urbana são políticos e variam, portanto, de um município a outro.
2. Em relação aos domicílios, o IBGE, órgão responsável pelo Censo Demográfico, identifica duas situações:
a) em “situação urbana” estão os domicílios que se localizam em áreas urbanizadas ou não, correspondentes às Cidades (sedes municipais), às Vilas (sedes distritais) ou às Áreas urbanas Isoladas;
b) em “situação rural” estão os domicílios que se localizam fora dos limites acima definidos, inclusive os Aglomerados Rurais de Extensão Urbana, os Povoados e os Núcleos.
As definições de Cidade, Vila, Área urbana Isolada, Aglomerado Rural de Extensão Urbana, Povoado e Núcleo são, em primeiro lugar, legais, seguidas de características relacionadas à presença ou não de construções, arruamentos, edificações e ocupação urbana. Uma vez que o critério para definir se uma área é urbana ou rural é eminentemente legal (conforme as Leis Municipais de Zoneamento), a interpretação das taxas de urbanização só poderá ser feita nos limites dessa definição.

FONTE: Base de dados terminológicos - Fundação SEADE

A terminologia descritiva é mais adequada do que a prescritiva para dar conta dos processos de comunicação que se preocupam com a recepção. A prescrição, tal como sugere a Terminologia clássica, muitas vezes funciona de modo extremamente coercitivo, como se o processo de comunicação pudesse estar centrado apenas no emissor (no especialista). A terminologia prescritiva não considera, também, o caráter pedagógico que uma definição pode assumir ao se explicitarem dúvidas quanto à sua delimitação. Do mesmo modo, não supõe que a interpretação é um processo que envolve a utilização de diversos subcódigos lingüísticos e, assim procedendo, acaba por não incorporar o receptor como sujeito da interpretação. Quando essa corrente terminológica vê no empobrecimento da língua o único meio de operar a circulação de informações, esquece-se de considerar seu caráter eminentemente comunicacional.

As linguagens documentárias consideradas como instrumento de mediação devem realizar, como observa Sager, a ponte entre distintos ‘léxicos’, corroborando uma hipótese de código que não trabalhe apenas com o código científico, mas também com o código semiótico que dê conta de necessidades socialmente fixadas. Como afirma Eco, existe um hiato entre certeza ‘científica’ e ‘certeza ‘social‘, que constitui a diferença entre leis e hipóteses científicas, de um lado, e códigos semióticos, de outro (ECO, 1991, p.49). Não é possível ignorar que para a interpretação de um código concorrem vários elementos – inclusive o pragmático – sendo a interpretação não um simples processo de equivalência mas, também, de inferências. “Basta que dois sistemas se entrelacem … e eis que o chamado código (já sistema de vários códigos) não é mais apenas um aparato que fornece equivalências, mas uma máquina que fornece instruções para manobrar diversos sistemas de equivalências em diversos contextos e circunstâncias” (idem ibidem, p. 284).

Na realidade, a mediação via códigos documentários é complexa, e se realiza como referência contínua de código a código. A interação é regulada por uma variedade de códigos – a terminologia entre eles – , a ponto de não se poder afirmar, mais, a preponderância da imposição de um código sobre outro. Existem códigos mais fortes e menos fortes, porém um código “não pode ser apenas uma cifra: será uma matriz que permite infinitas ocorrências, a nascente de um jogo” (idem ibidem, p. 290).

 

Bibliografia

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