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Índice por autores

 

 

O papel dos empréstimos na formação
do conjunto terminológico de telefonia celular no Brasil

Rosiane Cristina Gonçalves Braga
Universidade de São Paulo
Brasil

 

A língua não é estática, é mutável, está em contínua e paulatina mudança. Os neologismos são alguns dos elementos que garantem sua transformação e adaptação ao novo. Nestes estão incluídos os neologismos alogenéticos, ou empréstimos, que são o resultado do contato entre línguas, dialetos ou vocabulários.

Os empréstimos caracterizam-se pela adoção de traços lingüísticos e/ou de itens lexicais diversos dos do sistema da língua importadora. Assim sendo, são mecanismos diferentes de ampliação do acervo lexical da língua, já que os outros tipos de neologismos são marcados pela criação de elementos a partir de unidades lexicais e de processos inerentes ao sistema lingüístico. Os empréstimos, no caso do universo de discurso de telefonia celular, preenchem lacunas ocasionadas pela importação de um conceito para o qual não há denominação adequada no léxico da língua portuguesa, por isso, há o recebimento da noção estrangeira e de sua respectiva denominação. Podemos afirmar que os empréstimos são um dos instrumentos encontrados pela língua para cumprir seu papel de transmitir, expressar e consubstanciar idéias.

Os processos de criação/ampliação lexical podem ser resumidos em dois: formação dentro da própria língua e adoção e/ou adaptação a partir do conjunto lexical de uma língua estrangeira. A maioria dos termos da telefonia celular estudados por nós se constitui em empréstimo completo da língua inglesa. Consideramos empréstimo completo aquele em que há a transposição de todo o significado e do significante, com ou sem a tradução. As unidades que não se enquadram nesse tipo são: ANATEL, área de concessão, assinante visitante, usuário visitante, tele, clonagem, habilitar, cocélula, celular, setorização, taxa de habilitação e celular noturno.

As formações dessas unidades não são homogêneas, pois, em algumas delas, há certa influência de empréstimos da língua inglesa. Essa influência ocorre em duas situações diferentes: a primeira diz respeito à formação do termo a partir de um processo conjunto entre a adoção de parte do significado de um termo em inglês e de um dos mecanismos de formação neológica em português. Assim, a criação lexical seria o resultado de uma ação conjunta entre processos distintos: um inter-sistema lingüístico e outro intra-sistema lingüístico. Nesta, encaixam-se: habilitar, assinante visitante, usuário visitante (sinônimos) e taxa de habilitação. A segunda situação é caracterizada pela origem de uma unidade nacional a partir da tradução literal de uma estrangeira. É o caso de: clonagem, setorização, cocélula e celular (substantivo).

Nestas condições, os termos que podem ser considerados como formações legítimas do português, ou seja, sem nenhuma influência do inglês, são: ANATEL, área de concessão, tele e celular noturno. Assim, essa parte do trabalho trata dos termos que não são empréstimos completos e que se submetem a algum processo de formação portuguesa, separados conforme o tipo de criação lexical em que se encaixam.

Segundo Barbosa (1996:175), há quatro processos de formação neológica: fonológico (específico e complementar), semântico, sintagmático e alogenético, que podem ser complementares ou principais. Excetuando-se o último processo que, por ser o preferencial, será tratado separadamente, e o fonológico específico, todos os outros processos participam da formação dos termos supracitados.

A neologia semântica é caracterizada pela modificação do conjunto semêmico de uma unidade lexical. Nessas condições, ao terminologizar-se (Barbosa, 1998:33), a unidade lexical tem seu conteúdo sêmico mutado, o qual adquire e perde traços distintivos, para se adequar à nova realidade, é o caso de habilitar. Segundo o dicionário Aurélio (Ferreira, 1986:880), habilitar é: “1. Tornar hábil: Era incapaz mas a experiência habilitou-o. 2. Preparar, dispor. (...) 4. Tornar-se apto, capaz.” Ao se converter em termo da telefonia celular, o verbo em questão adquiriu os seguintes significados: a) ativar um telefone celular, colocando-o em funcionamento, através do registro de sua identificação e da programação das funções básicas por uma operadora e b) ativar um serviço móvel celular especial através da programação deste serviço no aparelho celular pela operadora.

A observação das duas definições mostra que o conjunto sêmico das acepções da língua comum e da área de especialidade mantêm uma área de intersecção: ao ativar um telefone celular há, implicitamente, a operação de torná-lo “capaz” de funcionar. Entretanto, a intensa modificação e adequação sêmica à visão de mundo da telefonia celular comprovam a passagem do verbo em questão pelo processo de neologia semântica. Habilitar é um caso a parte, como já comentado anteriormente, pois sua criação é o resultado de dois processos distintos: a adoção de parte do significado de activation aliada à terminologização acima exposta. Assim sendo, podemos dizer que a unidade terminológica supracitada é resultado de dois empréstimos: o externo, constituído da adoção de parte do significado do inglês, e o interno, composto pela escolha lexical e a terminologização da unidade habilitar.

Segundo Barbosa (1996:236) há um outro tipo de neologia semântica caracterizada pela conversão categorial. Nesta classificação, enquadra-se celular. Originalmente, advindo do inglês, no qual exerce a função de adjetivo, o termo manteve essa função ao passar para o sistema lingüístico português. Uma vez parte do conjunto terminológico da área no Brasil, sendo, desse modo, alvo de usos diversos, celular converteu-se em substantivo e mutou-se semanticamente, passando a denominar o aparelho telefônico usado em telefonia celular. A conversão categorial desencadeou a polissememia do termo.

Outro processo de criação lexical, ao qual parte do conjunto terminológico do campo-objeto se submeteu, foi o da neologia sintagmática. Tendo como fundamento a derivação lexical, o processo em questão divide-se em derivação: sufixal, prefixal, parassindética, regressiva e em composição.

A sufixação subjaz principalmente a formação de substantivos a partir de verbos, através da soma do sufixo ção: habilitar – habilitação. Há, também, um tipo de formação híbrida, na qual, a partir de um decalque (tradução literal), forma-se um outro item lexical. É o caso de setorização, formado a partir de setorizar, que adveio de setorizada, decalque de sector (sector antenna).

Ainda em sufixação, um exemplo interessante é o de clonar, verbo originado a partir de clone, termo decalcado do inglês. De clonar, formou-se clona-gem, substantivo que remete à ação do verbo.

Em relação à prefixação, há: cocélula ou co-célula, formado a partir de célula, decalque do termo em inglês cell. O prefixo co- indica “correspondência” de algum aspecto: o termo cocélula indica as células que possuem canais com mesma freqüência.

Outro exemplo é tele, termo importado da telefonia fixa (empréstimo intra-sistema lingüístico), que advém de teleoperadora, e se submete a dois processos: primeiro o da prefixação com o acréscimo de tele à operadora para restringir o significado desta a “empresa que opera telefones”. Depois, há a derivação regressiva, seguida de uma transformação fonológica complementar (Barbosa, 1996:189) e tele converte-se em termo. Nestas condições, concorre com operadora. Por fim, tele passou a denominar apenas as empresas estatais de telefonia celular e operadora, as empresas particulares.

A composição subjaz a formação de alguns termos complexos. Este processo caracteriza-se pela transformação de uma frase de base em uma unidade única. Assim, a taxa é de habilitação forma taxa de habilitação (substantivo + preposição + substantivo) que, por ser formada a partir do substantivo habilitação e do verbo habilitar, é influenciada pelo empréstimo de activation. Assinante visitante tem parte de seu significado importado de roamer, mas a seleção lexical e a formação sintagmática são processos que se dão dentro do sistema lingüístico nacional.

Os casos examinados até este ponto são formados a partir de empréstimos inter-sistemas lingüísticos, mas não se constituem como tais, como cocélula e clonar, ou constituem-se em empréstimos parciais, como habilitar e assinante visitante, sobre os quais comentamos no final deste item. Incluímos nesta parte, os empréstimos intra-sistema lingüístico e parciais. A seguir, serão discutidos os termos que foram transpostos de uma outra língua (inglesa) e que, nesta passagem, sofreram ainda influência de um processo complementar, sendo, em sua essência, portanto, empréstimos completos e inter-sistemas lingüísticos.

A neologia alogenética, constituída da transposição de termos de um sistema lingüístico a outro, é o processo principal de formação dos termos da telefonia celular. Os empréstimos dessa área, advindos todos do inglês, podem ser agrupados segundo tipo, processo de formação (Barbosa, 1996:175, 202, 290), origem (Barbosa, 1996:290), forma de derivação (Carvalho, 1989:49) e grau.

Quanto à tipologia, a análise dos termos permitiu uma adaptação da classificação de Alves (1994:72-80) de acordo com as especificidades da área. Dessa maneira, existem dois tipos básicos de empréstimo em telefonia celular: os integrados e os não-integrados. O critério para a inclusão de um termo em uma ou outra classificação é sua presença ou não no Glossário de Termos Técnicos de Telecomunicações, considerado, neste trabalho, como obra normalizadora. Tanto os integrados como os não integrados se subdividem em: decalque, estrangerismo, termo híbrido, termo adaptado e tradução livre.

O decalque é dividido em: total e parcial. Em sua essência, este tipo diz respeito à tradução literal de um termo advindo de uma língua estrangeira caracterizado por uma combinatória de semas ainda inexistente na sistema importador, entretanto alguns aspectos peculiares da área-tema justificaram a divisão deste tipo de empréstimo.

A telefonia celular é uma combinação entre elementos da tecnologia rádio e da telefonia fixa, por isso, alguns de seus termos são importados desses campos e, dentre os pertencentes ao rádio, há alguns que mantêm o significado da área de origem. Todavia, esse processo se deu intra-sistema da língua do país que iniciou o desenvolvimento do celular. O Brasil, praticamente, importou essa tecnologia através de empresas multinacionais como a AT&T e a Ericsson. Nessas condições, houve, senão o decalque dos termos, o uso de estrangeirismos e outras formas adaptadas do inglês. Por isso, o empréstimo entre as áreas se efetua dentro do sistema lingüístico do Brasil, por imposição da língua exportadora, o que denota um tipo de decalque peculiar: aquele em que, na tradução do termo, há uma correspondência de significados, já que a tecnologia rádio é mais antiga, com alguns termos já estabelecidos e integrados ao sistema lingüístico nacional. Para exemplificar estas afirmações, analisamos, esquematicamente, a inclusão dos termos faixa de freqüência e célula e seus percursos dentro da língua exportadora (SP1) e dentro da língua importadora (SP2):

 

No esquema 1 temos: MR (mobile radio), CPS (celular phone system), TR (tecnologia rádio) e TC (telefonia celular). No esquema 2, BI (biology) e BG (biologia). No primeiro, há a ilustração de um decalque parcial. Nele, o empréstimo entre as áreas MR e CPS dentro de SP1 e a área de intersecção entre as duas áreas resultante do processo são representados nos dois primeiros círculos. O terceiro denota a relação entre as áreas dentro da língua importadora. No recebimento de frequency band, há a tradução literal. O conteúdo desta coincide com o do termo já integrado faixa de freqüência da tecnologia rádio, que, por imposição da constituição da área no sistema lingüístico exportador, é emprestado pela telefonia celular, na língua importadora. O resultado é uma intersecção entre as áreas em SL2 em concordância com os aspectos da telefonia celular em SL1.

Já no esquema do decalque total, há o empréstimo inter-áreas em SL1. O campo-objeto adapta e modifica o conteúdo sêmico de cell de acordo com suas características e o integra ao seu conjunto terminológico. Em SL2, há o recebimento da unidade cell em uma combinatória nova, não coincidente com a do sistema. Então, há a tradução literal e a incorporação do novo conteúdo sêmico e do termo à telefonia celular em SL2.

A dissimilitude entre os dois processos reside nas características da adoção: no esquema 1 há a tradução do termo, a verificação da existência do conteúdo sêmico dentro de SL2 e a conseqüente intersecção entre as áreas imposta por SL1, enquanto que no esquema 2, há a adoção do termo e de sua nova acepção, sem correspondentes em SL2.

Nestas condições, outros termos não decorrentes de empréstimo inter-áreas, que são traduzidos literalmente e adotados juntamente com suas acepções, são considerados decalques totais, é o caso de: desvanecimento (fading), alocação de canais (channel allocation), reuso de freqüência (frequency reuse), macrocélula (macrocell), interface aérea (air interface), estação móvel (mobile station), múltiplo percurso (multipath), canal de controle (control channel), ERB- estação radiobase (RBS radio base station ou BS, base station),entre outros.

Em estrangeirismo, encaixa-se o termo que tiver sido transposto em sua forma original, sem adaptações, revelando-se estrangeiro na grafia e/ou nos fonemas, como: roaming, handoff, vocoder, time slot, hard handoff, soft handoff, etc.

O híbrido se constitui em uma mistura de estrangeirismo e/ou decalque e/ou tradução livre e/ou unidade lexical em português, é o caso de: tecla end, tecla send, pedido de handoff.

Já o termo adaptado é caracterizado pela adequação fonológica e/ou morfológica e/ou sintática e/ou semântica do empréstimo à estrutura da língua portuguesa: banda A, banda B, AMPS, TDMA, CDMA, BSC, BTS, IS-95, IS-136, SAT, SIM, entre outros. As extensões das siglas enumeradas são unidades originárias da língua inglesa (AMPS-advanced mobile phone system, SIM-subscriber identification module, etc); como as siglas em telefonia celular são usadas e consideradas como termos, foram estas formas e suas conseqüentes adaptações fônicas que constaram da análise dos empréstimos e não suas extensões.

A tradução livre é aquela que não é literal, ou seja, desrespeita algum aspecto do termo em inglês, por exemplo: telefone de bolso (pocket size telephone), serviço móvel celular (mobile radio service), CCC- central de comutação e controle (MSC- mobile switching center), sistema móvel celular (mobile radio system), fenômeno perto-longe (near-far effect), espalhamento espectral (spread spectrum), entre outros.

O termo adaptado, para ser considerado como tal, já deve ser aceito e utilizado por todos os especialistas da área em sua forma adaptada. Se ainda não o for, será considerado neologismo.

A análise quantitativa do corpus demonstra que a maior parte das unidades terminológicas se constitui em decalque e termo adaptado não integrados, como expõe o quadro abaixo:

Tipos de empréstimos
Porcentagem
Unidade
Não integrado
Integrado
Não integrado
Integrado
Decalque parcial
0%
3,4%
zero
5
Decalque total
48,9%
0%
70
zero
Adaptado
32,1%
0%
46
zero
Estrangeirismo
8,3%
0%
12
zero
Tradução livre
4,8%
0%
07
zero
Híbrido
2,0%
0%
03
zero

 

A tabela mostra que apenas a totalidade de decalques parciais forma o único conjunto de termos integrados. Este resultado se deve, possivelmente, à data de publicação da obra normalizadora, 1990. Nesta época, a telefonia celular estava começando a entrar no mercado brasileiro. Todavia, todos os termos adotados da tecnologia rádio constam no documento com a mesma acepção. A falta de outras unidades integradas demonstra a juventude da área e comprova sua rápida evolução em um curto espaço de tempo, já que foram elencados 309 termos.

Quanto ao processo de formação, o principal é o alogenético simples. A ele se sucedem o fonológico e o semântico, que serão considerados processos complementares. O alogenético se caracteriza pela passagem integral do significante e do significado do termo estrangeiro para a língua portuguesa. Este fato inclui os termos que foram decalcados ou traduzidos livremente, pois é o empréstimo que determina a especialização do termo em português. Assim sendo, neste processo enquadram-se os seguintes tipos de empréstimos: estrangeirismo, decalque, tradução livre e híbrido. Aqueles que se classificam em adaptado, são os que foram submetidos a algum processo complementar.

O processo fonológico é caracterizado por alguma mutação no significante do empréstimo que o adapte à estrutura morfossintático-fonológica da língua ou uma adaptação fonético-fonológica restrita à pronúncia (Carvalho, 1989:45). Não foi encontrado nenhum termo que exemplifique o primeiro caso. Alguns empréstimos siglados se submetem ao processo fonológico, pois passam de seqüências gráficas a fonológicas, coesas e rítmicas (Barbosa,1996:188). É o caso de A.M.P.S., T.I.A., S.A.T., N.A.M., E.R.B., que são realizados como AMPS, TIA, SAT, NAM e ERB. É importante lembrar que nem todos os empréstimos siglados tendem a mudar-se dessa maneira, é preciso haver uma certa articulação rítmica entre os elementos. Assim, T.M.S.I., C.D.M.A., T.D.M.A., E.N.S. não se realizam como o demonstrado acima.

Há, ainda, no caso dos empréstimos siglados, um outro tipo de adaptação da forma fônica: os empréstimos são pronunciados conforme os fonemas ingleses pelos especialistas estrangeiros e conforme os portugueses pelos brasileiros, configurando um processo fonológico. As siglas são exceção em relação aos outros estrangeirismos, pois, logo após sua transposição, parece haver a adequação fônica. A porcentagem elevada de termos adaptados se deve às essas adequações de pronúncia das siglas. Todavia, as extensões continuam como estrangeirismos, pois, como no caso de handoff e roaming, os especialistas procuram manter a pronúncia inglesa. [1]

O processo semântico complementar constitui-se, também, na modificação do significado do empréstimo, com a manutenção do significante. É o caso de banda A e banda B adaptados de band A e band B. Em inglês, esses termos designam faixa de freqüências diversas, em português, além de designarem variação de faixa, ainda diferenciam aquela pertencente às empresas estatais (banda A) e privadas (banda B) [2]. Assim, há um acréscimo semêmico ao conjunto herdado do inglês.

No que tange à origem, os empréstimos podem ser: externos e internos. O primeiro tipo diz respeito ao movimento que se realiza inter-sistemas lingüísticos, enquanto o segundo se dá inter-áreas ou intra-sistema lingüístico. Um empréstimo interno foi tratado no item anterior, por se submeter também ao processo de formação próprio da língua portuguesa (habilitar). Não há empréstimos inter-áreas na telefonia celular nacional, o que há é um tipo de empréstimo misto, no qual o empréstimo inter-áreas é determinado por um empréstimo inter-sistema lingüístico. É o que ocorre entre a telefonia celular e a tecnologia rádio, caso já exemplificado e comentado a propósito de decalque parcial através da análise do termo faixa de freqüência. Também são frutos de empréstimos mistos: espectro de freqüência e alguns dos derivados de faixa de freqüência (largura de faixa, faixa de guarda).

O empréstimo inter-áreas propriamente dito efetua-se na língua exportadora. É o que ocorre com o verbo comutar (to switch) que é o resultado do processo de neologia semântica entre as áreas de especialidade da telefonia fixa e da telefonia celular, que possuem muitos aspectos parecidos, fator que intensifica o empréstimo inter-áreas. Na primeira, comutar tem a acepção de interligar temporariamente dois telefones fixos e em telefonia celular, a de interligar temporariamente dois ou mais telefones celulares. Estas considerações também são válidas para o verbo registrar (to register), cujo um dos significados em telefonia fixa é: inscrever e cadastrar os dados do assinante e a identificação do telefone em uma central telefônica; e, em telefonia celular, inscrever e cadastrar os dados do assinante e a identificação da estação móvel em uma CCC (central telefônica celular). O termo canal (channel) e alguns de seus derivados (canal de voz (voice channel), canal de rádio (radio channel), entre outros) também se constituem empréstimos inter-áreas, mas da tecnologia rádio para a telefonia celular. Célula (cell), como já comentado na parte sobre decalque parcial, advém da biologia, assim como clone. Os dois termos mantém uma pequena área de intersecção semântica, no caso do clone, os semas comuns são os relativos a “cópia idêntica”.

Quanto à forma de derivação, os empréstimos externos podem ser: diretos ou indiretos. Os diretos são importados diretamente da língua fonte, enquanto os indiretos tem a língua fonte como intermediária. O único indireto identificado foi CCITT, sigla importada do inglês, língua que a estende como international telegraph and telephone consultative commitee, mas que é originalmente do francês, no qual a extensão é comité consultatif international télégraphique et téléphonique. Houve a mudança da extensão, através da tradução literal, mas a forma siglada permaneceu intacta.

O grau dos empréstimos são completos ou parciais. Completos são aqueles em que há a transposição do significante e do significado do termo, com ou sem modificações conseqüentes dos processos fonológico e semântico. Os parciais incluem os casos de adoção apenas do significado ou de parte dele. Neste tipo, encaixam-se habilitar e assinante visitante, termos já comentados. No primeiro caso, parte do significado advém do termo activation. Entretanto, a unidade terminológica estrangeira empresta apenas o significado 1 (ativar um telefone celular, colocando-o em funcionamento, através do registro de sua identificação e da programação das funções básicas por uma operadora) à forma brasileira. A segunda acepção foi adicionada pela telefonia celular nacional, ocasionando a mutação semântica que norteou a escolha lexical de habilitar (motivada pela acepção da unidade na língua comum) e sua conseqüente terminologização. As mesmas considerações cabem para taxa de habilitação, por ser um termo derivado de habilitar, já que tal taxa na língua fonte diz respeito apenas à ativação do telefone celular e não de serviços especiais. Assinante visitante adota apenas parte do significado de roamer (no que se refere ao estado de “visitante”, como aquele que está fora da área na qual foi registrado), mutando-o e somando outros semas. Essa adição semântica diferencia as acepções (já que roamer diz respeito ao aparelho celular e o termo em português, à pessoa que assina o serviço) e faz com que assinante visitante seja formado por um processo típico da língua portuguesa: a composição. Dessa maneira, tanto habilitar quanto taxa de habilitação e assinante visitante passam por três fases: a da adoção parcial do termo em inglês, a adição e mutação semânticas e a criação lexical a partir de um processo de formação intra-sistema lingüístico: neologia semântica (terminologização) e neologia sintagmática (composição).

Apesar da presença maciça de empréstimos, há um esforço no sentido de adaptar esses termos à estrutura lingüística e à visão tecnológica e comercial nacionais, como atestam as análises colocadas anteriormente. Contudo, com a privatização do sistema de telefonia celular e a conseqüente entrada de multinacionais, a produção de empréstimos lingüísticos tende a crescer e a obscurecer a reformulação do conjunto terminológico da área de acordo com os processos de criação lexical da língua portuguesa.

 

Bibliografia Básica

ALVES, I. (1994). Neologismos. 2ª edição. São Paulo: Ática.

BARBOSA, M. A. (1996). Léxico, produção e criatividade. 3ª edição. São Paulo: Plêiade.

BARBOSA, M. A., (1998). «Terminologização, vocabularização, cientificidade, banalização: relações». In: Acta semiótica e lingüística. São Paulo: Plêiade, v. 7.

CÂMARA JR., J. M., (1973). Princípios de lingüística geral. 4 ªedição. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica.

CARVALHO, Nelly, (1989). Empréstimos lingüísticos. São Paulo: Ática.

 

[1] Consideramos apenas os neologismos fonológicos admitidos pelos especialistas. Aqueles que são frutos da adaptação inconsciente ao aparelho fonador dos especialistas brasileiros foram ignorados.

[2] Com a privatização das estatais em 1998, os termos banda A e banda B praticamente retomaram o sentido dos termos band A e band B.

 

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