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Neologia, intervenção e planificação linguística:
um estudo preliminar para o português do Brasil

Éda Heloisa Pilla
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre/RS
Brasil

 

Já no ano de 1923, o lingüista O. Jespersen, em sua obra Language; its nature, development and origin, dizia que “as línguas são criações humanas, e contribuir para melhorá-las para as gerações futuras não é unicamente um direito, senão um dever que temos todos os seres humanos.”

A dedução de que as contingências políticas de então eram bem diferentes das atuais, só faz fortalecer o argumento do lingüista, hoje. Em tempos de globalização e luta pelo poder e supremacia econômica, muitos símbolos da democracia acabam sendo também subjugados, entre eles, as línguas nacionais.

Referimo-nos à constatação da situação caótica do português contemporâneo do Brasil em razão da invasão de terminologia estrangeira, começando pela área técnica e logo passando às demais.

O problema potencializa-se, por exemplo, se observado pelo prisma da atividade tradutória que, na busca de equivalências entre dois códigos, deve respeitar e proteger duas culturas através da preservação das línguas.

A literatura informativa divulgada no Brasil evidencia o uso abusivo de expressões estrangeiras como fast food, sale, off, dining-room, living-room, library, roaming, upgrading, lobby, além de siglas incoerentes como AIDS e UFO e outras tantas. Ora, quantos brasileiros entendem estas palavras E por que deveriam, se não estão escritas em sua língua materna

Em princípio, todo sistema linguístico deve ser capaz de desenvolver as ferramentas terminológicas necessárias para nomear todas as realidades que dizem respeito ao seu universo conceptual. Seria correto pensar que somente algumas línguas, ou uma, foi eleita para tal, sucumbindo as demais a esse determinismo insólito.

Exemplos nos dão conta de que as línguas indígenas (entre elas as 170 que existiram no Brasil), faladas por pequenas comunidades, dispunham de recursos lexicais e gramaticais suficientes para exprimir todas as suas necessidades linguísticas. A língua Hopi, usada por um grupo indígena da América do Norte, possuía nove vozes verbais, enquanto nós conhecemos apenas duas.

Nunca é demais lembrar o já surrado exemplo da língua esquimó, que conta com mais de oito palavras distintas para denominar o campo semântico relativo a “neve”. A importância dessa realidade naquela cultura impôs a existência de palavras diferentes para descrever todas as formas em que ela ocorre na natureza.

Também podemos criar palavras novas. Não nos falta nem criatividade nem recursos linguísticos para tal. Falta-nos, somente, a consciência desta possibilidade.

Em recente pesquisa, por nós realizada, coletamos, em órgãos da imprensa contemporânea, mais de 400 novas palavras criadas espontaneamente por falantes médios da língua portuguesa. Destes, não fazem parte lingüistas ou lexicógrafos, mas jornalistas, cronistas, enfim, usuários comuns da língua, movidos apenas pela mesma capacidade intuitiva que lhes permite reconhecer novas estruturas e decifrar novas entidades linguísticas. Essa competência linguística, fruto da internalização de uma “gramática” de sua língua materna, também dota o falante dos recursos necessários para expandir o léxico.

Ao contrário do que se poderia pensar, a criação de novos itens lexicais não resulta numa permissividade inconsequente ou em entropia na comunicação. Nossa pesquisa demostrou que o procedimento normal dos falantes tende a ser mais conservador do que arrojado. Em sua necessidade de se fazer entender por seus pares, o falante se conforma às regras linguísticas pré-existentes na língua.

O que precede a criação de novas palavras, segundo a pesquisa, é uma comparação mais ou menos inconsciente dos materiais depositados no tesouro da língua como sistema, os quais se alinham em comparações sintagmáticas e paradigmáticas para então dar orígem às novas entidades. Posteriormente a isto, toda nova criação sofre a sanção social. Na presença de novos signos, a sociedade age como um filtro em benefício da clareza e eficácia da comunicação, não deixando passar aqueles que contrariem os processos dos quais ela é guardiã, especialmente com relação aos neologismos gerados intralingualmente.

A norma social, representada pela reação da massa falante de uma dada comunidade linguística, entretanto, pode se deturpar em virtude das pressões político-sociais impostas pela ideologia. É o que se verifica, modernamente, tendo em vista a liberdade com que o estrangeirismo tramita em nosso meio.

O neologismo formal (representando quase a totalidade da criação lexical pesquisada) representado por palavras como: somatizar, sucatear, rotinizar, mimetizar, achismo, salvacionismo, aberturismo, reindexação, desinvestimento, praticidade, performático, terceirização, multirrelacional, antidroga, apart-hotel, infovia, agrovila, desimportância etc, indicam mudanças toleradas pelo léxico, e que atualizam este último. Os empréstimos estrangeiros, por sua vez, subvertem e perturbam o sistema. As primeiras se criam em relação e de acordo com o sistema; os últimos, não envolvem criatividade morfológica ou gramatical, mas apenas a transferência de um elemento totalmente formado, estranho à língua.

Desde que von Humboldt formulou, em 1835, a conexão vital entre língua, cultura e comportamento, os linguistas nunca mais abandonaram essa tese, dada a sua comprovada pertinência. Cem anos mais tarde, dois etnolinguistas americanos Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf (Language, thought and reality, 1958) reforçaram aquela visão ao determinar que o pensamento não precede a língua, mas, ao contrário, é condicionado por ela. Baseados em estudos detalhados de línguas exóticas, como as dos índios americanos, eles chegariam a conclusões desafiadoras, afirmando que, ao adquirir a língua materna, um falante estaria adquirindo uma maneira específica de interpretar o mundo, o que corresponde a dizer que cada sistema linguístico contêm em si uma análise do mundo que lhe é peculiar e diferente da de outras línguas. As formas e categorias através das quais o indivíduo se comunica, analisa a natureza e percebe os fenômenos e relações, acabam por moldar sua maneira de raciocinar.

A interação língua/cultura e língua/pensamento é forte e indissociável e seus constituintes condicionam-se mutuamente. O fato de as palavras estarem impregnadas da cultura a qual pertencem nos leva a afirmação, absolutamente plausível e constatável, de que, ao falarmos sobre o mesmo fato em duas línguas diferentes, jamais estaremos dizendo exatamente a mesma coisa.

Assim, se os brasileiros adotarem a expressão fast food, alegando que o fazem por acreditar não haver tradução total e completa para ela, cremos que isto constitui uma razão a mais para não usá-la, pois seu conteúdo nunca será igual àquele onde ela se originou . Como este conteúdo certamente vai adquirir “sabor” nacional, teremos mais uma razão para adotar também uma expressão vernácula ou, então , traduzir a expressão literalmente , o que, no caso, seria viável, dada a sua transparência.

Alegamos que qualquer que seja a etiqueta (ou nome) designada a um conteúdo, sua referência será forçosamente estabelecida pelos valores culturais da sociedade onde é usado, e sua abrangência semântica será delimitada pelo uso que essa mesma sociedade fará dela. Qualquer palavra é um símbolo, um envólucro, cujo interior será pragmaticamente determinado.

A arbitrariedade do signo, que corta qualquer elo racional entre significado e significante, e o torna uma referência, traz consigo a possibilidade de que os conteúdos se modifiquem (ampliando-se, restringindo-se e adaptando-se) independentemente de seu rótulo.

A pesquisa sobre a criação de novas palavras nos revelou uma atitude social espontânea que fundamenta um embasamento descritivo subjacente necessário às medidas prescritivas que possam ser tomadas para uma possível planificação linguística, já que a nacionalização de palavras entrangeiras, bem como a criação de novas não deve ocorrer a revelia de seus usuários. Tal medida contemplaria as tendências naturais da língua, pois contaria, antecipadamente, com a reação positiva do falante, oportunizando o sucesso da mesma.

A desorientação do falante diante da ausência de uma planificação linguística se faz notar na incoerência e inconsistência de um posicionamento único e bem fundamentado frente ao problema da nomeação de novos conceitos. Ora usamos termos traduzidos como tecnologia de ponta (para leading edge technology), ora adotamos o termo estrangeiro “ipsis literis” como flat, performance e design, ora vacilamos entre um e outro como entre e-mail e endereço eletrônico, para citar apenas alguns exemplos.

A intervenção e planificação da língua, preconizadas por Jespersen na frase epigrafada, assumem, hoje, importância fundamental para a sobrevivência da língua como instituição nacional, ao mesmo tempo em que ensejam a criação de uma atitude coletiva e uma postura política de incentivo à cultura e valores autóctones já que todas as funções sociais e políticas do indivíduo perpassam pelo uso eficaz da palavra.

Uma política de planificação linguística estabeleceria, também, suas estratégias de aplicação, como a formação de comissões de alto nível para analisar e definir posicionamentos que, sem dúvida, teriam que ter o comprometimento da imprensa e dos órgãos oficiais.

 

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