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Índice por autores

 

 

Terminologia técnico-científica: um estudo
sobre a terminologia do impacto ambiental
do litoral de Pernambuco

Janayna Cavalcante de Lima [*]
Universidade Federal de Pernambuco
Brasil

 

Considerações gerais

A terminologia vem se afirmando ao longo dos últimos dez anos como uma das áreas da Lingüística Aplicada mais importantes dentro das novas configurações políticas ligadas intrinsecamente ao desenvolvimento tecnológico, sendo importantíssimas as normalizações técnicas para os países interessados em não ser apenas receptores do processo de produção. Concomitantemente, tem-se tornado também uma alternativa profissional dentro dos cursos de Letras, conforme foi reconhecida recentemente durante a avaliação federal das graduações feita pelo MEC, pois representa uma das abordagens pragmáticas da ciência da linguagem, ao lidar com a realidade extra-lingüística num contexto quase imediato.

O estudo de uma língua de especialidade torna-se de importância estratégica na política lingüística do Português dentro de um mundo cada vez mais dominado pelas técnicas, e onde a informação circula sem fronteiras. A Linguagem de Especialidade, ao relacionar-se com o sistema geral da língua, atua prioritariamente como fornecedora de novos sentidos e formas, ao designar novos conceitos e realidades, por vezes restringindo as realções semânticas entre signo e significado, e por vezes gerando outras.

O resultado de um trabalho terminológico pode ser apresentado de várias formas, dicionários, glossários, vocabulários, cada uma correspondendo a uma abordagem de um universo discursivo específico e a um determinadpo usuário final. Atualmente, a disposição das informações obtidas em bancos de dados eletrônicos tem se mostrado a mais adequada, pois a rapidez e praticidade na hora de uma pesquisa determinam muitas vezes o sucesso de um documento dessa natureza. Ao desenvolver um produto terminológico, podemos pensar primeiramente nos indvíduos que utilizam a terminologia em seu cotidiano profissional, e, conforme colocam as orientações teóricas nas bibliografias lexicográfica e terminológica, este usuário seria o principal receptor de trabalhos dessa natureza. Porém, ao iniciar este estudo sobre a terminologia do litoral de Pernambuco, deparamo-nos com razões muito válidas para não pensarmos apenas nos técnicos e profissionais, entendidos por nás como usuários diretos.

No entanto, num sistema como o aqui tratado, a linguagem especializada aparece muito próxima do sistema geral e também compartilhando termos com as mais variadas especialidades. Dessa forma, trabalhamos com um inventário aberto em relação estreita com o sistema geral e com outros subsistemas especializados. Pois os termos encontrados não são particularizados nem permanecem apenas como linguagem técnica, mas escorregam para outros discursos (principalmente através da mídia) e são compartilhados por especialistas das mais variadas áreas, a exemplo do termo Impacto Ambiental que é encontrado no corpus de oceanografia biológica, de outras ciências da natureza e pertence também ao discurso referente à legislação ambiental. O RIMA, ou Relatório de Impacto Ambiental, é uma exigência legal feita a qualquer empreendimento de grande porte, pela resolução 001 de 1986 do CONAMA, assim como o artigo 225.31º IV, da Constitutição Federal, o RIMA é um documento gerado para ser lido por não especialistas.

O principal problema quanto à determinação de um campo diz respeito ao limite das linguagens especializadas com a linguagem geral da comunidade onde se insere esta subsistema. Temos as áreas tecnológicas e científicas como produtoras de um montante informativo jogado na população “leiga” pelos meios de comunicação, geralmente recaindo em erros. No caso do presente trabalho, o nosso tema é “alvo” de diversas publicações e constantes matérias nos veículos midiáticos. Até mesmo a idéia de educação ecológica pode indiretamente proporcionar distorções no discurso referentes ao tema Ecologia. Como palavra de ordem há mais de uma década, a defesa dos recursos naturais, e, especificamente, a questão dos litorais brasileiros, atualmente vítimas de exploração turística predatória, coloca-se como verdadeiro problema ideológico ao trabalho, no sentido de tornar o resultado de nossa prática mais que uma obra de consulta, um instrumento de informação adequada e acessível a diversos grupos de usuários.

A maneira de efetuarmos isto no trabalho foi, inicialmente, realizar o cotejo dos termos científicos com os termos populares que já existiam denominando as mesmas realidades. Este fator tornou-se condição primordial. Primeiramente porque não poderíamos desconsiderar a tradição cultural dos habitantes das regiões litorâneas ao descrever uma parte de seu léxico, aquela referente à natureza típica, o principal campo onde sua prática se encontra com a prática do pesquisador em oceanografia e biologia marinha, considerados como os usuários diretos da terminologia em estudo. Dessa forma, acrescentamos na microestrutura do vocabulário em formação o item Termo popular, pois acreditamos ser uma via de mão dupla: ajudar o técnico a se comunicar melhor nos seus locais de pesquisa, e tornar acessível ao leigo informações científicas. O produto terminológico resultante torna-se então uma obra que pertence também à comunidade de fala que habita, e não só à que trabalha, no litoral. Embora saibamos que a linguagem popular referente ao litoral e a linguagem dos pesquisadores e técnicos não é representada exclusivamente por uma obra lexicográfica, a contribuição de um instrumento dessa natureza é ilimitada, servindo como obra de consulta.

Para este estudo, encontramos a modalidade de variação topoletal, pois o subsistema-alvo usa palavras novas para denominar fenômenos e objetos que as populações de áreas costeiras já haviam denominado a seu modo. As duas outras modalidades citadas não são freqüentes porque existe uma tendência observada de conservação das formas. Além disso, o corpus escolhido foi a linguagem científica, onde se elaboram os conhecimentos, bastante regulares quanto à questão socioprofissional (são teses de mestrado e de doutorado). Não nos detivemos nos textos de divulgação, de nível variado de acordo com o órgão informativo. Foram anotadas ainda as relações de hierarquização semântica através da hiperonímia e da hiponímia.

Um dos fenômenos mais comuns no corpus foi quanto aos autores dos textos, que buscaram não repetir os termos utilizados – uma velha regra de estilística – que uma vez aplicada em textos científicos pode gerar confusões como a denominação ambiente costeiro, para o qual foram encontradas na presente pesquisa as seguintes denominações:

área litorânea, ambiente litorâneo, ecossistema costeiro, área costeira.

Pode-se argumentar, evidentemente, que em todos os casos é possível o entendimento pelo leitor da intenção comunicativa do autor, mas este entendimento é formado a partir da noção de litorâneo que todos nós possuímos, ou seja, área próxima ao mar, ou costa, no entanto, por se tratar de uma linguagem especializada, temos os sentido do termo delimitado pela extensão espacial do que os especialistas consideram como litorâneo (identificar esta extensão). É possível argumentar que o texto não foi feito originalmente para o leitor leigo mas para especialistas; neste caso, seria esperável que cada uma das denominações levantadas no corpus tivesse um significado específico aplicável à necessidade contextual do enunciado, e este contexto seria automaticamente identificado e compreendido pelos especialista / leitor em questão, o que determinaria, automaticamente também, uma esperada regularidade na aplicação dos termos, que não foi encontrada, pois então a análise identificaria contextos de uso diferenciados e específicos durante o preenchimento das fichas terminológicas.

Dessa forma, fica-nos a referência do uso desencontrado de termos no texto científico, como fenômeno freqüente no corpus analisado. Este fenômeno pode ser encarado como problema na medida em que partimos para termos em que o objecto determinado não esteja tão evidente para um leitor, ou que o termo tenha um significado original no sistema geral da língua que seja diverso do novo significado atribuído. Temos como exemplo o termo impactos ambientais.

Segundo definição da consultora Sigrid Neumann Leitão, especialista em oceanografia, este termo apresenta tecnicamente uma noção muito diversa daquela mais conhecida e utilizada:

“Impacto ambiental é qualquer alteração positiva ou negativa causada num determinado ecossistema pela ação humana.”

Normalmente o termo impacto aparece apenas com um traço distintivo na linguagem usual: o traço de negativo. A utilização que faz a mídia, principalmente, do sentido de destruição do equilíbrio ecológico quando utiliza este termo é um dos melhores exemplos do distanciamento entre a linguagem científica e sua comunicação com a população leiga.

Este trecho do corpus demonstra como, mesmo no interior de um texto científico, podemos encontrar exemplos de aplicação vacilante e imprecisa dos termos:

“Fornecer dados que num trabalho futuro sirvam de subsídio para o reconhecimento da influência da construção (...) sobre a fauna malacológica da região.”

A ciência deve buscar a precisão em suas descrições, ao menos nas palavras que utiliza. O termo em destaque – influência – apresenta quase a mesma noção do termo impacto, que seria mais adequado porque o fenômeno descrito já foi assim denominado, até mesmo por uma legislação federal (1986). Por isto as terminologias são tão importantes, pois garantem uma necessária conservação e organização das linguagens especializadas, tornando a comunicação mais eficiente, tanto entre os cientistas, quanto entre estes e a comunidade lingüística onde atuam. Casos como o acima descrito são muito comuns em áreas onde não existe ainda uma terminologia estabelecida, com documentação de consulta adequada. Nosso trabalho consiste em dar subsídios, através de uma análise lingüística, para o estabelecimento de uma terminologia para as áreas da oceanografia. O meio-ambiente dispõe de uma terminologia ainda pouco normatizada, muito confundida às vezes com termos da língua comum.

Até o momento foram recolhidos 326 termos, que estão sendo analisados. Estes termos foram inicialmente agrupados em uma lista em formato seguindo o modelo do Tesauro Spines (1988). Uma característica deste tipo de estudo é começar-se a observação partindo um inventário muito aberto, ou sistema, e paulatinamente descer-se à forma mais adequada de apresentação, no nosso caso, chegamos ao vocabulário terminológico, identificado com uma norma e uma unidade discursiva, ao seccionarmos a realidade trabalhada em seus níveis pragmáticos. O agrupamento em tesauro, utilizado em nosso caso apenas como agrupamento de trabalho, nos permite identificar as primeiras relações entre os termos levantados e fazer as marcas para as futuras remissivas, que serão determinadas quando o trabalho de análise for concluído. Na lista, os termos são organizados por entrada alfabética, em seguida são listados os termos que iniciam pelo mesmo hiperônimo. Os termos relacionam-se em campos semânticos onde a idéia central é fornecida pelo termo de entrada. Segundo Faulstich (1995) um dos maiores problemas do trabalho terminológico é a determinação da extensão das unidades complexas. Ela sugere dois tratamentos para esta análise, o morfossintático e o sintático-semântico, neste estudo verificamos a ocorrência de muitas unidades complexas representando quaso 91% do total. Ainda para a organização interna do trabalho, foram classificados em geral três contextos de ocorrência para cada termo, pois observamos que a utilização de apenas um contexto de ocorrência não proporcionaria uma análise tão detalhada, principalmente pelo fato, já discutido, de que o subsistema em estudo se apresenta numa confluência de diversos discursos.

Devido talvez a esta característica, foram encontrados muitos termos que sofreram alterações significativas em seus sentidos “originais”, como o vocábulo mangue, p. ex., que sofreu uma profunda alteração.

Este termo já possuiu por muito tempo uma conotação negativa, quando era sinônimo de zona de prostituição, ligado pejorativamente à lama e ambiente degradado, que deveria ser aterrado e banido, como aliás, era a política da época. Hoje, com as preocupações ecológicas e o reconhecimento de sua importância para a vida humana e para toda a cadeia alimentar, é defendido e preservado. Diante disso torna-se anacrônica a definição atual do termo. Este é um fato lingüístico muito interessante na atualidade, em nosso estado, porque observamos que a alteração do sentido do termo foi em parte provocada pela manifestação, na cultura, em suas várias expressões (na música, no teatro, na literatura) desse novo sentido, mostrando que uma parte da comunidade lingüística impulsionou o processo conscientemente. A origem da palavra mangue tem registro incerto nos dicionários de etimologia.

Os termos em outras línguas são muito comuns em áreas onde importamos mais informação. Em algumas áreas o processo de empréstimo e irreversível, como a Informática e as Telecomunicações. A adoção na língua denuncia um problema mais grave, de ordem político-econômica, que pode ser minimizado, em parte, pela conservação das estruturas lingüísticas e pela utilização das virtualidades criativas do nosso idioma, perfeitamente capaz de atualizar-se com a evolução tecnológica.

Grande parte dos termos encontrados nesta pesquisa não possui registros nos dicionários especializados, e quando isto ocorre, as definições são demasiadamente curtas ou incompletas, ou não há definição. A maioria das obras consultadas funciona como listas de termos com o objetivo de esclarecer dúvidas ortográficas.

Cada tipo de usuário exige uma quantidade de informação, assim como uma determinada forma de apresentação. Embora nunca saibamos com exatidão quem será o usuário real de uma obra de referência, esta é uma determinação apenas metodológica, pois no âmbito pragmático a questão toca no ponto de socialização da informação, que é um dos grandes problemas humanos da atualidade. Em princípio, fornecer informações “completas”, a prática terminológica se volta para essa questão quando estabelece a remissividade de uma terminologia com maior exatidão possível, o que proporciona conhecimento mais completo sobre o assunto.

O trabalho está sendo realizado, estando os verbetes em processo de elaboração, o que compreende análise e qpesquisa dos termos nas obras já existentes e redação dos verbetes dos termos não encontrados.

(Apoio: CNPq)

 

Bibliografia

Alves, Ieda Maria. A pesquisa em terminologia: algumas considerações.

Alves, Ieda Maria (Org.) (1996). “A constitutição da normalização terminológica no Brasil”. In: Cadernos de Terminologia, 1. São Paulo: FFLCH / CITRAT.

Barbosa, Maria Aparecida. “Dicionário, Vocabulário, Glossário: concepções”. In: Cadernos de Terminologia, 1. São Paulo: FFLCH / CITRAT.

Carvalho, Nelly (1989). Empréstimos lingüísticos. São Paulo: Ática.

Carvalho, Nelly (1991). A terminologia técnico-científica: aspetos lingüísticos e metodológicos. Recife: Ed. Universitária da UFPE.

Diário Oficial da União. Brasília, 17, fev., 1986. Seção I, p. 2548-2551.

Faulstich, Enilde (1995). Base metodológia para pesquisa em socioterminologia. Brasília: UnB.

Faulstich, Enilde (1997). “Da lingüística histórica à terminologia”. In: Revista Investigações Lingüística e Teoria Literária. Recife: Ed. Universitária. V. 7, set., pp. 71-101.

Revista Internacional de Língua Portuguesa (1996). Nº 15, Julho. Lisboa: Associação das Universidades de Língua Portuguesa.

Sager, J. C. (1997). Curso práctico sobre el procesamiento de la terminología: La dimensión cognoscitiva. Primera Escuela de Verano de Terminología. Barcelona: Institut Universitari de Lingüística Aplicada – UPF, 7-18 julho.

Vilela, Mário (1979). Estrturas léxicas do português. Coimbra: Livraria Almedina.

Vissodich, F. & O. Furlan (1995). Dicionário de novos termos de ciências e tecnologias. São Paulo: Pioneira.

UNESCO (1988). Tesauro Spines. Versão preliminar. Brasília: MCT, CNPq; IBICT, JNICT.

 

[*] Bolsista-IC, orientada por Nelly Medeiros de Carvalho.

 

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