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Índice por autores

 

 

Contribuições da terminologia para a organização
e divulgação de dados estatísticos na Internet

Marilda Lopes Ginez de Lara
Escola de Comunicações e Artes
Univ. de São Paulo
Brasil

 

Resumo:

Divulgar informações estatísticas na Internet não pode se reduzir à reprodução de conteúdos de publicações impressas. Muito embora uma forma de divulgação não substitua necessariamente outra, a mídia Internet tem características diferentes, e pode ser explorada em todo o seu potencial. O princípio que orienta a divulgação de informações sobre o Estado de São Paulo através do site da Fundação SEADE - Sistema Estadual de Análise de Dados, é o de que, além dos produtos normalmente elaborados para divulgação, deve-se fornecer ao usuário a possibilidade de que ele tenha acesso a variáveis isoladas, visando permitir que ele componha suas tabelas através de cruzamentos selecionados. O requisito básico para esse empreendimento requer que se organize, estruturalmente, o conjunto de informações disponíveis, desde as variáveis até suas formas de agregação temporais e geográficas. A Terminologia exerce, aqui, duas funções fundamentais: do ponto de vista teórico, fornece procedimentos para a estruturação lógico-semântica do universo de dados a ser coberto; do ponto de vista da terminologia concreta, definições (e procedimentos para a construção de definições) que possam sustentar as hierarquias e orientar o usuário na compreensão de seu significado. A operacionalização desse trabalho parte do pressuposto que, primeiro: a recuperação de dados pode ser facilitada através de sucessivas categorizações, tal como acontece em programas interativos, onde o usuário é encaminhado ao assunto desejado percorrendo organizações arborescentes; segundo: que usuários mais especializados, que têm familiaridade com dados estatísticos, podem dispensar esses recursos indo diretamente ao dado desejado. Para a construção dessa interface de recuperação desenvolvemos uma linguagem controlada, ao modo de um tesauro, que, ao mesmo tempo que estrutura o banco de dados estatísticos, controla as variantes de denominação e definições. Um banco terminológico, construído paralelamente, respalda as definições adotadas. Procura-se assegurar a consistência do sistema através de operações que tem como base a distinção entre “palavra” e “termo”: a palavra é característica do léxico (o usuário procura os dados por várias denominações e a própria instituição, ao longo de sua existência, nem sempre utiliza denominações homogêneas): já o termo é uma unidade da Terminologia, cujo significado está assentado em definições rigorosamente construídas. A interrelação palavra-termo é estabelecida através de um jogo de remissivas. O resultado, ainda que parcial, desse trabalho, vem sendo veiculado na home page da instituição sob o título “São Paulo em Dados”: http://www.seade.gov.br. As atualizações e reformulações são realizadas periodicamente para agregar novas informações e oferecer novas possibilidades de recuperação. A metodologia de trabalho utilizada tem suas especificidades em razão da natureza das informações trabalhadas, uma vez que os dados estatísticos distinguem-se substancialmente das informações dados textuais.

 

Introdução

Do mesmo modo como o advento da informática passou a exigir a explicitação de procedimentos no âmbito das tarefas documentárias, o surgimento da nova mídia “Internet” vem ratificar a necessidade de organização das informações para a otimização de sua recuperação, bem como da definição de novas formas para sua divulgação. Não raras vezes, ao procurar informações na Internet, vivenciamos as dificuldades decorrentes de recuperação de informações não pertinentes aos nossos objetivos, tanto quando utilizamos as “ferramentas de busca” (as search engines), como quando procuramos informações dentro de um site específico. No primeiro caso, os principais problemas referem-se aos resultados da busca por “palavras”, que trazem referências que remetem a contextos bem diferenciados entre si. No segundo, à ausência de estruturação dos sites, já que, ao não se considerar a especificidade da mídia, não se oferece meios para uma navegação adequada e, conseqüentemente, agilidade para a localização de informações. Muito embora estes sejam problemas distintos, sua resolução remete a um único ponto: a necessidade de estabelecer contextos claros e bem determinados para a recuperação de significados.

Grande parte dos sites de informação estatística têm sido construídos a partir da reprodução do conteúdo de publicações impressas. A recuperação de informações fica, desse modo, restrita a uma modalidade linear de divulgação, a partir da qual as informações só podem ser recuperadas tal como são divulgadas, através de cruzamentos prontos e agregações previamente determinadas. As características dessa nova mídia, porém, viabilizam uma exploração mais particularizante das informações, já que potencializam a elaboração de novos cruzamentos ou a escolha de distintas agregações. Passa-se da reprodução linear de tabelas para a possibilidade de oferecer ao usuário a oportunidade de elaborar novas construções.

Além disso, as informações estatísticas divulgadas nos sites institucionais representam apenas uma pequena parcela do conjunto de suas informações. De um modo geral, essa divulgação é feita através de tabelas estatísticas que, enquanto agregados de dados, representam níveis determinados de ordenação baseados em escolhas institucionais. Raramente são disponibilizadas variáveis primariamente ordenadas, a partir das quais estaria facilitada a produção de novas informações.

Nas instituições públicas, a divulgação de variáveis – e não apenas dos produtos gerados a partir do cruzamento de variáveis – representa um esforço adicional em direção à democratização de informações, uma vez que promove, além de uma maior transparência do Estado, o aumento das possibilidades de uso da informação. O empreendimento requer que se organize esse conjunto a partir de critérios que, embora não deixem de representar um certo modo de ordenação, minimize os problemas para sua localização e uso.

Experiência nesse sentido vem sendo desenvolvida pela Fundação SEADE – Sistema Estadual de Análise de Dados. Herdeira do antigo Departamento de Estatística do Estado de São Paulo, a Fundação SEADE é responsável pela coleta direta de inúmeras informações (movimento do registro civil, finanças públicas municipais, situação de emprego e desemprego na Grande São Paulo, etc.), além da sistematização de informações estatísticas sócio-econômicas produzidas por várias fontes em nível estadual [1]. O site da instituição www.seade.gov.br, que inicialmente divulgava apenas seus produtos – equivalentes a publicações – vem recentemente disponibilizando informações pontuais a partir da página “São Paulo em Dados”.

 

2. A representação de variáveis através do “São Paulo em Dados” [2]

Uma variável estatística já constitui, em si, o resultado de uma ordenação. As informações estatísticas nascem de dados primários – por exemplo, Declarações de Óbito registradas pelos Cartórios de Registro Civil – que totalizados para determinados universos geográficos e períodos, passam a constituir dados estatísticos. Metodologias distintas apoiam as coletas de dados primários e delimitam os modos a partir dos quais os eventos são mensurados. Para que um dado primário se converta em dado estatístico é preciso que seja submetido a distintos níveis de ordenação. Carroboram, pois, à delimitação de um dado estatístico, a observação, a mensuração, a ordenação, a comparação.

As ordenações mais primárias dos dados estatísticos requerem a combinação de variáveis: na mensuração das características da população, por exemplo, constituem variáveis o sexo, a idade, etc. Um dado estatístico, portanto, é o resultado de uma ordenação que considera, pelo menos, duas variáveis.

Para que a divulgação de dados estatísticos seja feita a partir de dados mais desagregados é necessário, portanto, buscar o isolamento das variáveis (até onde seja possível falar em dados estatísticos). Dito de outro modo, o tratamento dessas informações deve ter como princípio a distinção entre o evento básico a ser considerado – por exemplo, o óbito, o nascimento, a matrícula escolar, o produto agrícola, o depósito de poupança, o investimento em educação, etc. – e as variáveis tempo e espaço. Muitos dos eventos podem ser observados a partir da inclusão de outras variáveis, como o tipo de instituição onde se verifica o evento, a natureza do evento, a modalidade de manifestação do evento etc., conforme o caso em questão.

Variáveis como tempo e espaço não apresentam, geralmente, grandes dificuldades de tratamento. O problema maior se refere ao tratamento dos eventos em si, consideradas as variedades de sua manifestação. As dificuldades se referem à compatibilização dos recortes de observação, à sua categorização para sistematização, à sua designação, etc. É sob estes aspectos que as contribuições da Terminologia são mais relevantes.

De fato, a Terminologia exerce, aqui, duas funções fundamentais: do ponto de vista teórico, fornece procedimentos para a delimitação de domínios; do ponto de vista da terminologia concreta, definições que, ao mesmo tempo que auxiliam à delimitação de significados, permitem identificar os vértices a partir dos quais as hierarquias devem ser montadas. Ao lado das contribuições teóricas e práticas da Documentação para a organização de Linguagens Documentárias (CINTRA et al., 1994; 1996), que têm na Lingüística e na Lógica, seus referenciais para a estruturação lógico-semântica dos universos de representação, a Terminologia assegura referência à configuração dessas organizações vocabulares.

 

3. A contribuição da Terminologia

A montagem da linguagem do banco de dados que sustenta a apresentação da página “São Paulo em Dados” considera a distinção entre “palavra” e “termo”. A palavra é característica do léxico (o usuário procura os dados por várias denominações e a própria instituição, ao longo de sua existência, nem sempre utiliza denominações homogêneas); já o termo é uma unidade da Terminologia, cujo significado está assentado em definições. A distinção acima apoia-se na proposição de Le Guern, para quem é imprescindível distinguir as palavras no léxico, das palavras no discurso.

O problema em trabalhar com as palavras é sua indeterminação. As palavras têm inúmeros significados – como em estado de dicionário – uma vez que não se localizam em extratos discursivos, domínios ou áreas de atividade. O léxico é um estoque de palavras, independentes das coisas: têm significado, porém não têm referência e exprimem apenas um conjunto de propriedades. Já no discurso – ou localizadas nas áreas de atividade – as palavras estão ligadas às coisas e representam uma singularidade. Têm conexão física com o objeto que indicam e representam seu objeto e suas características (PEIRCE, 1975, p.100-102). Para Le Guern, se o signo de uma propriedade (no léxico) é um predicado, o signo de um objeto (no discurso) é o termo e os termos são substantivos porque posicionados dentro dos discursos. Para designar objetos, o discurso não lança mão só do léxico, mas também da sintaxe, gerando uma unidade mínima de significação que é o sintagma nominal. Os termos, então, não fazem parte do léxico, porque são construídos no discurso. Além disso, as palavras no discurso configuram sua associação a uma classe, constituindo, assim, predicados vinculados, diferentemente do que ocorre com as palavras do léxico que são caracterizadas como predicados livres. “O léxico considera as palavras, a terminologia considera as coisas” (LE GUERN, 19 p.342), e é por isso que só sob a perspectiva da terminologia pode-se pensar na tradutibilidade, baseada na equivalência entre objetos situados nas mesmas classes dentro de universos determinados. A tradutibilidade é fundada na sinonímia referencial. “Se dois termos têm a mesma extensão num dado universo, pode-se considerá-los como equivalentes e traduzí-los um pelo outro” (idem ibidem). Ao assumir a perspectiva da Terminologia, passa-se a trabalhar com o termo como veículo do conceito, buscando, assim, ampliar as possibilidades de comunicação.

Segundo a ISO 704, “a realidade se manifesta no ser humano como objetos que são reconhecidos por um “certo número de propriedades”. “Propriedades comuns a outros objetos da mesma classe reúnem-se em nódulos mentais ou esquemas cognitivos chamados conceitos”. É necessário observar, porém, que as propriedades por si só não são suficientes para a descrição dos objetos, a menos que tais propriedades estejam contextualizadas em universos determinados. Na realidade, tornamos pertinentes determinadas propriedades a partir do que definimos como temporariamente necessário, em função de determinados objetivos e em referência a universos específicos. Além disso, a delimitação do que seja um termo não pode estar desvinculada do seu uso efetivo, e nesse sentido, a definição é apenas seu reflexo.

A referência à Terminologia na construção da linguagem de representação de dados está presente, também, na delimitação e recorte do universo a ser contemplado. O “São Paulo em Dados” caracteriza-se por representar um universo bastante amplo de dados estatísticos. Para facilitar sua consulta procedeu-se à sua sistematização através da delimitação de Temas, operando uma primeira grande disjunção. Os Temas foram selecionados a partir das características dos subdomínios de atividade, sendo sua designação baseada no uso, ou seja, o que se considerou consensual para a instituição. A partir dessa categorização, esses subdomínios foram sucessivamente divididos até o nível de maior especificação. À semelhança das definições (gênero próximo, diferença específica), os Temas constituem os vértices a partir dos quais os dados estatísticos são organizados em níveis hierárquicos, de modo a contemplar as diferentes modalidades de informações. A delimitação dos Temas, entretanto, é um recurso operacional, já que os domínios dos dados estatísticos sócio-econômicos não têm existência isolada. Um domínio, de fato, se define na sua interconexão com outros domínios: não é possível, por exemplo, falar de Saúde, sem falar de Saneamento, de Educação, de Trabalho etc.

As recomendações da Terminologia clássica foram utilizadas com reservas, uma vez que nem sempre o molde da definição aristotélica ou semântica mostrou-se operacional, já que a definição de subcategorias sucessivas é, muitas vezes, mais funcional do que lógica. O uso do princípio de conjunções e disjunções foi aliado à ampliação da noção de campo semântico através do registro de modos consensuais de enunciação. Ao integrar a enunciação (e, conseqüentemente, o uso), passa-se a evidenciar o caráter social e cultural das definições.

Para uma visualização, veja-se o exemplo abaixo:

(Layout para a construção da página. Aos ítens com interrogação serão vinculadas definições)

1o. nível do Tema Demografia:

DEMOGRAFIA

Casamentos ?
Óbitos
Evasão de óbitos ?
Nascidos Vivos ?
População
Taxas

2o. nível do Tema Demografia, item Óbitos:

ÓBITOS

Gerais
Infantis
Mulheres em idade fértil
Perinatais
Nascidos mortos

3o. nível do Tema Demografia, item Óbitos/Infantis:

[ÓBITOS] INFANTIS

Total
Neonatais
Neonatais precoces
Pós neonatais

4o. nível do Tema Demografia, item Óbitos/ Infantis/ Neonatais:

[OBITOS] INFANTIS / Neonatais
?

Total
Taxa de mortalidade neonatal

5o. nível do Tema Demografia, item Óbitos / Infantis / Neonatais / Total

A partir deste nível são disponibilizadas opções para a definição da agregação geográfica e temporal, a partir das quais os dados são mostrados.

Verifica-se, pois, que a estruturação básica proposta para o Tema não representa uma hierarquia no seu sentido lógico. Esse problema já é evidente na primeira série da árvore Demografia – Casamentos, Óbitos, Evasão de óbitos, Nascidos vivos, População, Taxas. Evasão de óbitos é um evento que logicamente está subordinado a Óbitos, sendo aqui disponibilizado na mesma série de Óbitos para destacar a especificidade do evento. População, por outro lado, poderia ser o termo superior a englobar todos os outros (podendo, inclusive, substituir Demografia, mais caracterizável como área de estudo), já que todos os eventos referem-se à População. O tema Demografia – e não População – pretende privilegiar uma área de atividade específica dentro da instituição. Taxas, por seu lado, constituiu um recurso para abreviar a pesquisa. Esse gênero de dado é, na realidade, duplamente contemplado: sob Taxas e sob o evento considerado – por exemplo, Taxas de mortalidade infantil aparece, também, sobre Óbitos/Infantis (embora seja um Termo Relacionado). Exemplos dessa natureza repetem-se sob os vários Temas.

A estruturação sob vários níveis hierárquicos pretende contemplar níveis distintos de especificidade dos dados. Esse recurso, essencial para o controle vocabular, não é, necessariamente, a melhor solução para a consulta. A utilização de muitos níveis hierárquicos combinada à seleção de variáveis espaço-temporais implica, na Internet, a necessidade de vários “cliques”, o que significa acréscimo de tempo para visualização das informações. A versão para o público tem apenas três níveis de especificação, procurando minimizar esses problemas. Porém, enquanto opção comum a todos os Temas – em razão de limitações dos recursos de Informática –, essa simplificação nem sempre traz bons resultados.

A estruturação lógico-semântica da linguagem de representação dos dados não prescinde de um trabalho de coleta terminológica. De fato, as instituições nem sempre têm uma designação homogênea para os seus dados, como também carecem, muitas vezes, de rigor na delimitação conceitual de suas informações. Ao mesmo tempo que se organiza o banco de dados para abrigar uma linguagem institucional de representação, desenvolve-se um trabalho de coleta terminológica – que deverá configurar, a médio prazo, um banco terminológico. Através desse trabalho pretende-se harmonizar as designações utilizadas e fixar a base conceitual segundo a qual os termos devem ser interpretados, supondo que essa interpretação também depende do registro de associações não-lineares contempladas pela enunciação.

O processo de construção de definições requer maior investimento, razão pela qual as definições ainda não estão disponibilizadas na Internet. A construção de definições é realizada através de coleta terminológica em várias fontes, sendo precedida de um processo de discussões com especialistas nas várias áreas de atividade da instituição. As fichas de coleta incluem o termo candidato, variantes de designação, termos em outros idiomas [3], definições formais, reprodução de contextos nos quais os termos são utilizados, etc. O exemplo a seguir constitui o resultado final de um processo de definição.

FICHA TERMINOLÓGICA No. 17
Status: OK**
TERMO: Evasão de óbitos/Invasão de óbitos
SINÔNIMOS:

TERMO EM OUTRA LÍNGUA: a variável não é calculada em outros países.
DEFINIÇÃO: Evasão e invasão de óbitos são variáveis opostas que se caracterizam pela ocorrência de óbitos fora da área geográfica de residência dos indivíduos. “Quando o evento relativo a uma pessoa residente em determinada localidade “A” ocorre em “B” dizemos que em “A” houve a evasão ... e que em “B” ocorreu uma invasão” (CAMARGO, A.B.M. Os fenômenos da invasão e evasão de óbitos em São Paulo, 1977/80). Informe Demográfico, n. 12, p.4, 1984).

A evasão de óbitos, portanto, identifica a ocorrência de mortes de residentes de uma unidade geográfica fora dessa unidade. Contrariamente, a invasão de óbitos identifica a ocorrência de mortes em uma unidade geográfica envolvendo indivíduos residentes fora dessa unidade.

OBS.: O fenômeno da evasão/invasão de óbitos se deve a várias causas: procura de tratamento médico fora do município de residência, acidentes, homicídios ou morte repentina fora do local de residência etc. Altas taxas de evasão de óbitos indicam, geralmente, ausência de recursos médico-hospitalares na área geográfica de residência dos indivíduos. Inversamente, localidades que contam com maiores condições de atendimento médico-hospitalar, podem apresentar taxas mais elevadas de invasão de óbitos (CAMARGO, A. B. M. Os fenômenos da invasão e evasão de óbitos em São Paulo (1977/80). Informe Demográfico, n. 12, p.4, 1984).
RESPONSÁVEIS: Silvia G. Rocha; A. Marangone; Rute Godinho;Marilda L.G. de Lara
Data das discussões: 11/05/97; 28/08/97; 30/09/97.
Revisão final: 26/11/97

Muitas vezes, a definição de um termo esbarra em objetivos políticos. Nessas situações a opção é a de registrar os condicionantes da interpretação, como ocorre no caso abaixo: (modelo a ser veiculado na Internet)

População urbana / população rural
1. As categorias rural e urbana de uma unidade geografica são, no brasil, definidas por lei municipal. Os criterios para determinar se um domicilio fica na zona rural ou urbana são politicos e variam, portanto, de um municipio a outro.

2. Em relação aos domicílios, o IBGE, órgão responsável pelo Censo Demográfico, identifica duas situações: em “situação urbana” estão os domicílios que se localizam em áreas urbanizadas ou não, correspondentes às Cidades (Sedes Municipais), às Vilas (Sedes Distritais) ou às Áreas urbanas Isoladas; em “situação rural” estão os domicílios que se localizam fora dos limites acima definidos, inclusive os Aglomerados Rurais de Extensão Urbana, os Povoados e os Núcleos.

As definições de Cidade, Vila, Área Urbana Isolada, Aglomerado Rural de Extensão Urbana, Povoado e Núcleo são, em primeiro lugar, legais, seguidas de características relacionadas à presença ou não de construções, arruamentos, edificações e ocupação urbana. Uma vez que o critério para definir se uma área é urbana ou rural é eminentemente legal (conforme as Leis Municipais de Zoneamento), a interpretação das taxas de urbanização só poderá ser feita nos limites dessa definição (IBGE. Sinopse Preliminar do Censo Demográfico, 1991).

Nos dois exemplos acima, os termos são mais facilmente compreendidos através da explicitação de sua oposição. Nestes casos, o procedimento permite garantir, além de economia no sistema, a apreensão da complementaridade que condiciona uma definição.

Instituições que utilizam dados estatísticos de outras fontes sempre esbarram com problemas de definições que remetem a concepções conflitantes. Neste caso, registram-se as diferenças metodológicas das coletas visando alertar o usuário sobre condicionantes e implicações das definições.

A construção da base terminológica visa, também, registrar vínculos de relacionamento entre os termos, como meio de promover alternativas de acesso do tipo ver também. (Um dado estatístico convencionalmente classificado pela instituição sob Demografia – por exemplo, óbitos por causas de morte – pode ser buscado, por um não especialista, sob Saúde). Do mesmo modo, variantes sinonímicas pretendem ampliar as possibilidades de acesso (Doenças de notificação compulsória, sinônimo: Doenças infecto-contagiosas). Essas duas modalidades deverão compor o índice de consulta à página, recurso adicional à árvore hierárquica, a ser oferecido em curto prazo.

 

4. Considerações finais

A despeito do fato de que a língua é uma forma de atividade cooperativa (Putnam, 1990 apud Gaudin, 1993, p.191), os modos de apropriação não são homogêneos, como não são homogêneas as formas de designação das informações. Ao propor um modelo de representação de informações estatísticas a partir da organização de variáveis, complementar à disponibilização de tabelas estatísticas prontas, pretende-se oferecer uma hipótese alternativa de organização que permita a construção de novas informações. Através de procedimentos terminológicos, pretende-se contemplar a fixação conceitual, visando maior possibilidades de circulação da informação, sem entretanto esquecer que o registro e disponibilização da variação é pressuposto fundamental para sua melhor utilização.

A disponibilização de dados estatísticos de instituições públicas, na Internet, objetiva promover seu uso, estendendo as possibilidades de consulta aos cidadãos. Para Albertine & Delisle, a “vulgarização se desenvolve, primeiramente, não segundo uma lógica de difusão dos saberes, mas segundo uma lógica da apropriação dos saberes, em função da cultura daqueles aos quais ela se endereça…não se trata de oferecer um texto acessível, mas de diversificar os modos de integração dos saberes concernentes, como também das denominações utilizadas. Com efeito, ‘só são reinvestidas as informações formuladas de maneira compreensível nos sistemas de representação dos destinatários” (apud Gaudin, 1993, p. 143).

É verdade que, sob a multiplicidade de designações, as instituições públicas de estatística acabam por falhar na consecução dos seus objetivos de transparência e democratização da informação. Porém, a consecução desses objetivos requer um nível de controle que promova a harmonização terminológica sem descartar a variação. Aliada à variação, a padronização funciona como meio de promover a circulação de informações.

Além disso, o tratamento terminológico das variáveis e sua organização engendram a possibilidade de desenvolver mecanismos de busca internos aos sites de informação estatística que possibilitem um melhor rastreamento e recuperação de informações. A recuperação via ferramentas semânticas representa acréscimo de qualidade na recuperação se comparada às buscas via search engines (que são de natureza sintática e operacionalizadas a partir de palavras). A organização de bancos de dados estatísticos a partir da delimitação de termos que correspondem a conceitos, permite recuperação de informação significativa e otimiza a navegação.

Necessário dizer, ainda, que o desenvolvimento de linguagens para a organização e transferência de informação baseadas em procedimentos documentários e terminológicos, pode responder, melhor, à função mediadora enfatizada por Sager. De fato, existem linguagens distintas, níveis de saber distintos, habilidades distintas. Dominar uma área de especialidade é diferente de saber construir uma ponte: a habilidade de organização e tratamento para a transferência de informação é, antes de tudo, a de ‘construir pontes’ (SAGER, 1993).

 

Referências bibliográficas

Cintra, A. M. M.; Tálamo, M. F. G. M.; Lara, M. L. G & Kobashi, N. Y. (1996). “Linguagens Documentárias e terminologia”. In: Alves, I. M. A constituição da normalização terminológica no Brasil. São Paulo : FFLC/CITRAT. (Cadernos de terminologia, 1).

Cintra, A. M. M.; Tálamo, M. F. G. M.; Lara, M. L. G. de & Kobashi, N. Y. (1994). Para entender as Linguagens Documentárias. São Paulo, APB/Polis.

Gaudin, F. (1993). Pour une socioterminologie: des problèmes semantiques aux pratiques institutionnelles. Rouen, Université de Rouen. (Publications de Université de Rouen, 182).

ISO 704 (1987). Principles and methods of Terminology. Génève: ISO.

Le guern, M. (1989). “Sur les relations entre terminologie et lexique”. In: Meta, v.34, n.3, p. 340-343.

Peirce, C. S. (1975). Semiótica e filosofia. São Paulo: Cultrix, EDUSP.

Sager, J. C. (1993). Prólogo: la terminología, puente entre varios mundos. In: Cabré, M. T. (1993). La terminología: teoría, metodologia, aplicaciones. Barcelona: Ed. Antártida; Empúries. p. 11-17.

 

[1] Para maiores detalhes, consultar www.seade.gov.br

[2] Participamos do projeto como consultora. O projeto é desenvolvido pela equipe do GEADI – Gerência de Atendimento e Disseminação de Informações, sob a coordenação de Vivaldo Luiz Conti. Integram a equipe os técnicos Silvia G.Rocha, Jussara Iunes, Izabel de Oliveira e Joyce C. Camargo.

[3] A tradução da página para o inglês e o espanhol veiculada na Internet não incorpora, até o momento, os padrões terminológicos definidos pela equipe para o conjunto dos termos.

 

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