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Vocabulário básico de áreas disciplinares – contexto terminológico e processo pedagógico
Antonieta Laface
UNESP/Assis
Brasil
Resumo:
Parte integrante de Projeto de Pesquisa, tratando da definição do vocabulário terminológico de áreas disciplinares em estudo no universo escolar – fonte de divulgação e difusão da linguagem técnico-científica. Preocupação metodológica centrada na interação comunicativa entre a escola do segundo grau e a universidade. Busca de proposta para o ensino.
Palavras Chaves: vocabulário, definição, léxico, conceito, ensino do vocabulário.
Introdução
“O Estudo de Termos de Área de Especialidade Utilizados no Discurso Acadêmico”, constitui Projeto de Pesquisa em andamento, com origem nos resultados obtidos de atividades desenvolvidas com alunos ingressantes na Universidade. Nessas atividades, as definições terminológicas foram extraídas da área de Ciências Políticas, mediante estratégias de leitura e paráfrases de textos jornalísticos. Os critérios estabelecidos vincularam-se aos princípios da sinonímia, envolvendo conceitos e designações, divulgados pelos meios de comunicação e utilizados pelos informantes em suas redações.
As dificuldades para a recuperação da base definicional de termos e a busca de um direcionamento pedagógico que possa aproximar linguagem técnica e linguagem acadêmica constituíram ponto de partida para a atual proposta de trabalho. Nela, temos nos remetido ao vínculo pedagógico do segundo grau com a Universidade; requisito fundamental para o desempenho do aluno em sua área de atuação. Pressupomos, para tanto, a interrelação da língua de especialidade com a língua geral, base para a construção do discurso acadêmico.
Tratando-se do ensino do vocabulário no universo acadêmico, temos presente a colaboração da pesquisadora Dra. Jeni Silva Turazza da PUC/SP. Alunas pós-graduandas, cujos projetos de dissertação de mestrado centram-se na mesma área de investigação, têm participado de discussões referentes a conceitos e noções definicionais de termos na área jornalística e educacional – contribuição para o bom andamento do projeto, considerando-se ainda a participação de duas alunas de Iniciação Científica, no período de 1996 a 1997, com bolsas institucionais do PIBIC/CNPq.
A primeira etapa das investigações “Vocabulário de Áreas de especialidade e a Escola do Segundo Grau – área da biologia.” converge para a definição do vocabulário de base da ecologia, ramo da biologia – fonte nos livros didáticos. A segunda etapa “Vocabulário de Áreas de Especialidade e a Escola do Segundo Grau – área de História” corresponde à definição do vocabulário de base da área de história, delimitada a grandes períodos revolucionários dos dois últimos séculos – fonte nos livros didáticos. E finalmente, a terceira etapa “Vocabulário de Áreas de Especialidade Utilizados no Discurso Pedagógico” abre-se como eixo temático da pesquisa, devendo cruzar informações obtidas nas duas primeiras etapas, contrastadas com o tratamento vocabular terminológico de áreas de estudo na Universidade.
Nossos pressupostos abrem-se para a articulação das referidas áreas disciplinares e disponibilidade para deslocamentos terminológicos, nos diferentes tipos de linguagem. As hipóteses remetem-se ao elo que deve existir entre a escola secundária e a Universidade, sendo aquela requisito desta, no sentido de se dar condições para uma satisfatória produção acadêmica.
Pretendemos, nesta exposição, situar alguns dos critérios e procedimentos metodológicos da pesquisa, relatando resultados ainda preliminares das investigações, nas áreas disciplinares em evidência. Selecionamos, a título de verificação, definições léxico-terminológicas de alguns dos termos comuns a essas áreas, de base e de uso, disponíveis para a articulação nas diferentes linguagens e nos diferentes discursos.
1. Nos objetivos, a questão problemática
Tratando-se dos objetivos estabelecidos para as atuais investigações, consideramos a possibilidade de o aluno trabalhar a terminologia de sua área de atuação acadêmica, no sentido de ampliar a competência lexical, cognitiva e funcional. As orientações didático-metodológicas devem contribuir para a tomada de decisões, durante as atividades desenvolvidas. Com eficiência, ele estará selecionando dados coerentes a seus interesses e realizações profissionais futuras. Esperamos obter condições pedagógicas de base para a sistematização de uma proposta de ensino do vocabulário.
Quanto à problemática, geradora dos objetivos da atual pesquisa, salientamos as dificuldades dos alunos, secundários e universitários, com relação a leitura de textos. Na maioria das vezes, eles não conseguem adequar definições terminológicas às respectivas áreas de conhecimento, até porque a transferência de termos de uma área técnica a outra exige constantes ajustes conceptuais.
Pesquisa anterior [1] mostrou-nos que o problema não decorre do desconhecimento dos termos de uso técnico-científico. Muitos deles são usados com freqüência no meio social; portanto, conhecidos pelos usuários. Decorre, ao que parece, da insuficiência da adequação vocabular das unidades temático-designativas, nesta ou naquela área do saber. Nesse caso, toda proposta metodológica deverá ter presente o desempenho do aluno, no que se refere aos ajustes definicionais de termos, frente à natureza das disciplinas estudadas no universo escolar.
Pesquisas denunciam o procedimento da escola, no sentido de propor ao aluno o domínio da língua materna, no que se refere aos aspectos referentes à gramática. Pressupõe que ele já tenha efetivo controle sobre a leitura e a produção de textos coerentes, incluindo mobilizações lexicais e vocabulários temáticos; que ele já tenha internalizado as definições básicas dos termos em uso, bem como as habilidades para adequações definicionais, nos diferentes contextos situacionais decorrentes.
Nesse aspecto, o professor procura cumprir tarefas para a distribuição do conhecimento, previamente, definido e, freqüentemente, desvinculado dos problemas existentes na prática social. O ensino, visto por esse prisma, tem sido avaliado por exercícios, com os quais o professor espera encontrar clareza e coesão sintática e semântica. Quanto às áreas disciplinares, elas têm sido apoiadas na língua, esperando ampliação do conhecimento na prática.
Assim sendo, a prática pedagógica tem constituído mero emprego de métodos e de técnicas de ensino, sem justificativas teóricas que se aproximem dos reais propósitos da ação educativa. Não atende ao fato de que a transformação e a reformulação do saber é a base do processo ensino/ aprendizagem e que a definição do vocabulário acadêmico resulta da mediação entre a linguagem dos especialistas e a linguagem do grande público.
Nem o ensino, nem a avaliação dos conhecimentos e suas preferências lingüísticas, nem os aspectos pragmáticos da linguagem conseguem auxiliar na ampliação do domínio e definição do léxico terminológico de área de especialidade, senão parcialmente. Prova disso está em constatarmos o fato de que muitos estudantes escrevem de forma medíocre, não porque desconheçam a língua, mas porque não dominam o vocabulário especializado. O mesmo ocorre com os docentes que não se dão conta da interação das línguas e das áreas de conhecimento. Em conseqüência, não prestam atenção suficiente à mediação da língua geral e a de especialidade, mesmo sabendo que, nessa interação, temáticas pedagógicas respondem pela eficiência da aprendizagem e pela posterior utilização do conhecimento adquirido na comunicação.
Pelo exposto e com base em resultados já obtidos, acreditamos haver sérios problemas, quanto à identificação e aos deslocamentos definicionais/ designativos de termos, nas diferentes situações de uso. Outros ainda têm surgido, quando esses deslocamentos condicionam-se à interação terminológica entre as áreas de conhecimento. Como então definir vocabulário terminológico de áreas disciplinares que atenda às condições didático-pedagógicas, necessárias ao bom desempenho acadêmico, tanto do discente quanto do docente?
2. Com base nos critérios e fundamentos teóricos da Terminologia
As línguas permitem aos locutores falar do mundo e das coisas. Como instrumento da comunicação, constituem fonte da ação humana e implicam escolha consciente do usuário. Seja pelo interesse de organização e de planificação de modelos, seja pela natureza de mudança, elas se abrem para o constante processo de reformulação e transformação tradutiva do saber. Por essa razão, a questão da normalização do uso torna-se uma necessidade, determinada pelos programas de modernização e pelas condições estabelecidas no contexto sócio-cultural.
Nesse ponto, o léxico da língua geral aparece como lugar privilegiado, no domínio estruturado e acessível às mudanças de caráter social, cultural e histórico. Disponível para mudanças, coloca-se como fonte designativa de seres e de objetos percebidos no mundo, de acordo com noções e conceitos. As inovações aparecem no plano neológico da linguagem e mantêm-se pelos princípios de equivalência sinonímica.
Por outro lado, o léxico da língua de especialidade possui características direcionadas à monossemia. Associa a imagem à representação. As inovações aparecem nos empregos tecnocratas, havendo necessidade de normativização dos conceitos, como forma de harmonizar os fenômenos de interferência entre a noção e a denominação. Procura-se, na língua de especialidade, o nível dos sistemas construídos e a organização do universo de conhecimento.
Assim sendo, as propriedades polissêmicas do léxico da língua geral e a tendência monossêmica da língua de especialidade exigem um equilíbrio quanto ao uso, conforme as exigências de uma linguagem mais social e/ou mais científica. As interferências da língua geral na particular e vice-versa atuam nas diferentes situações de emprego. Dependem das circunstancialidades por que passa uma linguagem mais técnica ou menos científica.
Gaudin (1993) explica que o contexto terminológico é antes de tudo uma prática e responde pelas necessidades sociais. Centra-se em premissas teóricas que definem o termo no domínio em que são usados – as línguas de especialidade. Nessa caso, o termo é o nome de um conceito ou de uma designação, contribuindo para a nominalização de uma definição. Segundo o autor, a área de especialidade responde pela divulgação de informações e permite a apropriação do saber institucionalizado – fonte de mobilização dos discursos. Sendo assim, o vocabulário terminológico define-se como atividade científica e, ao mesmo tempo, epistemológica. Situa-se e mobiliza-se pela reflexão coletiva e interliga-se a um sistema de padronização do uso, interagindo linguagens.
Nesse contexto, Guespin (1993) acredita que todo o universo científico, referencial e conceptual determina-se pelo uso. Considera que a divulgação terminológica no meio social acontece por transferências de áreas de conhecimento e, nesse caso, a necessidade de divulgação da linguagem científica condiciona-se aos princípios das designações sinonímicas. Elas permitem a delimitação de sentidos que são tomados na língua e garantem a definição que as envolve. Bem por isso, o conceito exato de uma designação constrói-se pela prática social, o que permite sistematizar definições de uma língua para outra, de um discurso para outro, de uma área de conhecimento para outra – caso de termos comuns à biologia e à história, estruturados conforme a natureza dessas áreas.
Todavia, a grande dificuldade para a definição de um contexto terminológico reside na matéria lingüística e na mediação das linguagens, até porque as obras léxico-terminológicas apresentam níveis de uso variado. As entradas e as subentradas de termos, em área de investigação definida, ao receberem marcas de uso, contribuem para a indicação de um estatuto designativo desses termos, dependendo das linguagens articuladas, tanto no contexto tecnocrato quanto no social.
Para a definição de um vocabulário terminológico na área acadêmica, faz-se necessária uma redução do léxico a uma base temática de unidades desgnativas de noções e conceitos, orientando-se para uma fixação de uso. Um léxico simplificado vincula-se à comunicação interdisciplinar e transdisciplinar de áreas de conhecimento técnico-científico.
Quanto ao discurso didático, este manifesta-se através de uma base léxico-terminológica das áreas disciplinares, como no caso da biologia e no da história. Um vocabulário básico estará modelizando situações pedagógicas e estas, articulando linguagem científica e linguagem social. Que estratégias de ensino permitirão melhor domínio da linguagem técnica no contexto social do educando?
3. Em busca de uma metodologia do trabalho pedagógico
Tempo e espaço definem a natureza humana. No tempo, fatos e acontecimentos associam-se a melhor forma de se organizar o esquema social e ideológico; de produzir cultura. No espaço, harmonizam-se ato produtor e universo geográfico-ambiental. A relação meio ambiente e contexto social é relevante para a construção do universo antropocultural. Os problemas surgidos e as tentativas de superação abrem caminhos para projetos sociais que possam atender às necessidades da vida moderna.
Nesse contexto, a visão de mundo resulta das experiências, traduzidas pela língua geral e normativizadas pela língua particular. Em conseqüência, a divulgação da linguagem científica na pedagógica implica articulação de conceitos, idealizados e condicionados à época histórica, ao plano geográfico e à sustentação ecológica. A ciência torna-se peça importante para a mobilização, reconstrução e reformulação do universo humano. A escola tem papel fundamental na difusão de informações da área científica na social.
Frente a isso, elaboramos os procedimentos metodológicos de análise. Por eles, estamos construindo um Banco de Dados, tendo em vista o resultado das investigações e o conseqüente caminho para uma proposta de ensino. Esperamos encontrar a definição de um vocabulário terminológico que possa ser trabalhado didaticamente. Bem por isso, nosso ponto de partida tem sido o levantamento vocabular do material didático, selecionado conforme os princípios teóricos da área da Educação.
Nos critérios de análise, a consulta aos dicionários da língua geral e da língua de especialidade tem nos servido para confrontos das definições encontradas no material didático das áreas selecionadas. Definições e respectiva natureza temático-disciplinar têm nos fornecido parâmetros para o contexto operacional das informações obtidas. Nesse aspecto, a mediação ciência e universo ideológico-cultural deverá nos conduzir a mobilizações inter, intra e transdisciplinar. História e Ecologia, História e Geografia, Ecologia e Geografia dinamizam-se e contribuem para a construção do universo humano em geral; para as diferentes visões desse universo, em particular.
Por essa razão, os procedimentos de investigação e análise dos dados encontrados firmam-se na identificação de termos técnicos e nas definições genéricas e específicas. Pressupomos a possibilidade de recuperação da base definicional dos termos em uso e a de estabelecermos um conjunto de termos comuns às áreas disciplinares, ao mesmo tempo, específicos a cada uma. Procuramos a mobilização de informações em situações de uso. Buscamos definir um vocabulário de entendimento informacional dessas áreas de estudo.
Em conseqüência, pretendemos chegar a uma classificação tipológica das unidades terminológicas, envolvendo definições, ocorrências e freqüências. Deveremos avaliar contextos temáticos das áreas e os conceitos em uso, bem como das informações obtidas em textos, selecionados para estudo e avaliados, conforme as denominações e designações encontradas.
Acreditamos que toda área disciplinar venha a exigir um conjunto de termos para designar noções e conceitos que lhe são úteis e que toda comunicação responda por contexto temático definido. Nesse aspecto, todos os conceitos se sustentam pela seleção e análise dos dados terminológicos das áreas de estudo. Abrem-se para o campo das designações técnico-científica e para as exigências de uso no campo social. Bem por isso, as neologicizações aparecem, permitindo que definições terminológicas venham a se ajustar, conforme a natureza das áreas de conhecimento e conforme as necessidades de uso.
A que dimensão pedagógica poderemos chegar para definirmos proposta de ensino que possa articular escola secundária e universidade, no sentido de tornar o estudante capaz de articular temáticas definicionais em suas áreas de estudo?
4. A título de verificação
Oprocesso de interação e funcionalidade comunicativa das áreas disciplinares contribui para um melhor desempenho do aluno, em relação às atividades de leitura e produção de textos. As estratégias didático-pedagógicas colocam-no frente a frente às designações e denominações. As orientações fornecem-lhe subsídios para adequações definicionais, de acordo com a natureza e disponibilidade de uso de cada disciplina, nos diferentes tipos de linguagem, por onde as temáticas possam articular.
Para esta exposição, selecionamos sociedade x comunidade, na dimensão “homem e história”, “homem e meio ambiente”. No tocante à História, esses e outros termos de base vocabular têm sido trabalhados, em textos selecionados de alguns dos períodos de conflitos sociais, considerando-se as grandes revoluções dos últimos séculos, mais precisamente, a partir da Revolução Francesa, mediante posição geográfica definida. Tal procedimento é devido ao fato de que sociedade vincula-se à dialética construção/destruição e destruição/reconstrução, no contexto temático de vida e morte.
Quanto à Ecologia, os termos selecionados da base vocabular abrem-se para definições, relacionadas à preservação da espécie e do meio ambiente, bem como ao modo com que se possa garantir a sobrevivência. Justificamos a escolha pelo fato de que a dialética construção/destruição inclina-se para preservação/ recondução, na dimensão vida e morte. O homem constrói a sua história, respondendo pela preservação do seu espaço, garantindo a sua existência. Descrever o meio ambiente é contar com a preservação das espécies, dado que a história do homem é a história dessa preservação.
O quadro abaixo constitui a fonte básica para observação de como as definições aparecem nos dicionários da língua geral e da língua de especialidade. Com elas, temos parâmetro para podermos demonstrar como são tratados, pedagogicamente, os conceitos temáticos de área de atuação acadêmica, levados ao aluno através do material didático. Que adequações terminológicas podemos observar nos textos didáticos? Como essas adequações se processam no sentido de conduzir o aluno a articular definições, conforme a natureza e a temática do assunto estudado? Que estratégias pedagógicas poderão ser definidas?
5. Sociedade e comunidade
Dicionário de Língua: conjunto de pessoas que vivem em certa faixa de tempo e de espaço, seguindo normas comuns, unidas por sentimentos de consciência grupal.
Dicionário de Língua: agrupamento social que se caracteriza por acentuada coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos que o constituem.
Dicionário de Especialidade – História: conjunto relativamente complexo de indivíduos permanentemente associados e equiparados de padrões culturais comuns e com relações recíprocas; conceito extremamente variável.
Dicionário de Especialidade – História: grupo local de tamanho variável, integrado por pessoas que ocupam um território geograficamente definido e participam da mesma cultura – unidade constituída de uma sociedade mais ampla, muitas vezes, soberana e autosuficiente – sociedade mais simples – agrupamento de pessoas que vivem dentro de uma mesma área geográfica, com os mesmos interesses, participando das condições gerais de vida.
Dicionário de Especialidade: Ecologia: categoria hierarquicamente inferior no seio de uma consociação – agrupamento de animais em que cada um deles exerce estímulo específico sobre o indivíduo – existe interação.
Dicionário de Especialidade: Ecologia: designação ecológica de um grupo de organismos diferentes, relativamente independente e interatuante, sobretudo, através de suas relações alimentares.
Consideramos, inicialmente, a dimensão hiperonímica que envolve a natureza semântica dos termos em evidência. Para sociedade, os registros dicionarizados manifestam-se por “agrupamento de pessoas, de espécies, de organismos, de animais,,,” e, para comunidade, os registros apontam a relação do “estar contido em...”, considerando-se o “agrupamento dentro de uma sociedade mais ampla...”, o “agrupamento de pessoas, de organismos...”. A noção de conjunto torna-se o ponto de encontro das definições, convergentes para as “mesmas condições de vida existente em tempo e espaço determinados...”
A leitura dos registros da língua geral mostra que as definições, relacionadas à “sociedade” e à “comunidade”, recortam-se no “aqui” e no “agora”, em “pessoas que vivem em certa faixa de tempo e de espaço...”. Distendem-se no contexto social, em “agrupamento de pessoas que vivem unidas por sentimentos de consciência grupal” e “por consenso espontâneo...” – mobilidade interativa das áreas disciplinares de História e Sociologia, sabendo-se que as fronteiras entre elas são tênues.
Quanto aos registros da língua de especialidade, os termos envolvidos abrem-se para “conjunto de indivíduos associados a padrões culturais comuns...” e para “grupo local de pessoas de mesmo território geográfico e de mesma cultura...”. Essas definições recortam-se no plano temático da História, da Sociologia e da Geografia, distensas na relação “tempo”, “espaço” e “contexto cultural” – mobilidade interáreas para a construção do universo humano.
Na área da Ecologia, lemos “agrupamento de animais no seio de uma consociação...”, estabelecida a influência animal sobre o indivíduo, numa dimensão interativa e harmoniosa, em “designação ecológica de um grupo de organismos, independente e interatuante, através das relações alimentares.” A interdimensão das áreas de conhecimento envolve também o contexto geográfico, firmando posição entre os grupos, codimensionando “homem/indivíduo” e “organismo/ animal”, coabitando o mesmo espaço na relação de existência e de sobrevivência.
Esses registros apontam para o evidente cruzamento da História com a Sociologia, da História com a Geografia, da Ecologia com a História, da Ecologia com a Geografia; interdependência existente. Quanto ao recorte estabelecido na área de História, podemos notar preocupação voltada para os padrões culturais, frente ao universo geográfico e ao social, em “pessoas que ocupam o mesmo território geográfico...” e “pessoas que participam das mesmas condições de vida..., com os mesmos interesses... segundo consciência grupal”.
O mesmo ocorre com a área da Ecologia, quando as definições recortam “agrupamento de animais que exerce influência sobre o indivíduo...” e “grupo de organismos diferentes e com as mesmas relações alimentares...”. Observamos, no plano temático estabelecido que as definições denotam preocupação com a interação coexistente das espécies e organismos, envolvendo homem e natureza.
A definição geral e específica de “sociedade” e “comunidade” revela-se com a seletividade de situações interativas, comuns às áreas de conhecimento, isto é, ao universo humano. Nesse aspecto, as direções tomadas para a leitura dos registros dicionarizados, deverão levar o aluno, consulente desses registros, a ampliar sua competência vocabular, no sentido de reconduzir situações constantes de uso, tendo consciência das adequações temáticas envolvidas. As estratégias metodológicas deverão caminhar de forma a fazê-lo perceber a mobilidade de registro das definições e, com elas, operacionalizar temáticas, conforme as necessidades contextuais indicadas.
De posse das definições articuladas pela língua geral e disposição para os diferentes usos, incluindo os meios de comunicação, o aluno estará sendo conduzido a operacionalizar especificidades de emprego, visto que o material didático de áreas disciplinares darão a ele subsídios, para a configuração do vocabulário temático-terminológico a ser trabalhado.
Selecionamos alguns autores do material didático, para confrontação de dados definicionais de sociedade e comunidade, tendo em vista as temáticas onde esses termos aparecem - posição que exercem nos contextos. Desses autores, encontramos, para a área de História, Campos/1990, Demétrio/1992 e Cotrim/ 1989; para a área de Biologia, Amabis/1979, Dias/1982 e Paulino/1992, Linhares/ 1994 (cf. bibliografia) – publicação de material didático para o segundo grau. As investigações decorrentes desse material satisfazem as duas primeiras etapas do projeto de pesquisa que, no momento, estamos dando andamento.
As informações obtidas desses autores permitiram-nos elaborar um segundo quadro de referência, de modo a podermos verificar como as definições aparecem e como podem ser operacionalizadas. Que disposição temática seguem? Que nível de importância é colocado? Com que proximidade ou distanciamento da base semântica elas se dispõem, diante dos fatos históricos, culturais e ecológicos? Seguem-se, nesse quadro, as definições mais significativas para cada um dos termos – sociedade e comunidade.
História/Geografia
Sociedade:
Conjunto de pessoas, com divisão do trabalho, atividades relacionadas à sobrevivência e especificação das funções (cf. Cotrim/1989).
Grupo de indivíduos com mesmos interesses políticos e econômicos, governo comum e organização civilizada, contendo comunidades menores (cf. Demétrio /1992).
Conjunto de indivíduos em estado de adiantamento cultural, com grau maior de desenvolvimento econômico, cultural e político... (cf. Campos/1990)
Conjunto de indivíduos em estado de adiantamento cultural com hierarquia social e administração estatal – princípio do imperialismo X colonialismo (cf. Cotrim/1989).
Grupo hierarquizado em classes sociais, onde cada indivíduo tem posição definida (cf. Demétrio /1992).
Grupo social organizado no espaço urbano ou rural – integração entre o rural (agrícola) e o urbano (industrialização)... (cf. Cotrim/1989).
Ecologia
Sociedade:
Agrupamentos com divisão do trabalho e solidariedade entre seus membros (cf. Amabis/1979).
Interações entre indivíduos da mesma espécie, em populações adaptadas a atitudes e regras, vantagens no ambiente em que vivem (cf. Dias/1982).
Relações harmoniosas que diferem das colônias pela interdependência física, exibida por seus integrantes (cf. Paulino/1992).
Conjunto de indivíduos, altamente socializados e que não poderiam viver a não ser em grupo e em constante intercomunicação (cf. Paulino/1982)
Comunidade:
Pequenos agrupamentos humanos, com necessidades de sobrevivência, com divisão de trabalho produtivo (cf. Cotrim/1989).
Agrupamento humano com certo grau de cultura e mesmas características, com trabalho coletivo (cf. Demétrio/1992).
Agrupamento de indivíduo que se desloca de região para região à procura de facilidades de sobrevivência (cf. Campos/1990).
Agrupamento de indivíduos com interesses comuns de sobrevivência – sociedade simples e campesina (cf. Campos/1990).
Comunidade:
Nível de organização formado pelas populações que habitam a mesma área (cf. Amabis/1979).
Conjunto das populações de espécies diferentes, dentro de uma determinada área (cf. Dias/1982).
Conjunto de população de espécies diferentes que habitam o mesmo território (cf. Linhares/1994).
Pequenas populações que vivem em relação de cooperação embora não sejam ligados anatomicamente (cf. Linhares/1994).
Esse segundo quadro de referência mostra-nos a evidência de que, a partir da base definicional de sociedade e comunidade, existem posicionamentos temáticos nos textos onde esses termos se inserem. “Conjunto de pessoas...”, “grupo ou conjunto de indivíduos”, “agrupamentos de indivíduos...”, “conjunto de populações...” respondem pela dimensão hiperonímica das relações terminológicas e marcam a entrada de cada um dos termos nos textos, de forma a se poder recuperar as respectivas bases definicionais, abertas para os ajustes temáticos de cada área disciplinar.
Considerando-se as épocas históricas da sociedade, notamos que os autores se preocupam em estabelecer parâmetros, referentes a graus de desenvolvimento de civilização, para caracterizar “sociedades relacionadas à sobrevivência e especificação das funções que cada indivíduo possui” em relação a “sociedades bem constituídas, hierarquizadas, na integração de agrupamentos urbanos e rurais; industrializados ou campesinos...”. Nessa caracterização, as adequações mobilizam-se para o Estado Imperialista X Estado Colonialista, de onde se originam conflitos dos grupos, no sentido de se buscar formas para a garantia da qualidade de vida.
No caso de comunidade, percebemos preocupação voltada para a “edificação de pequenos grupos contidos nos grupos maiores, com interesses comuns de sobrevivência, com certo grau de cultura, com certa posição no espaço ocupado”. Tratando-se do espaço geográfico, aparecem os grupos nômades, em “agrupamento de indivíduos que se deslocam de região para região à procura de sobrevivência...” – característica de grupos sociais ainda em busca de fixação de território.
Mediante a natureza dos assuntos tratados pela Ecologia, os autores parecem preocupados em definir “espécies e organismos em graus de organização social”, considerando situações do tipo “conjunto de indivíduos interdependentes, altamente socializados, em fase de socialização, em populações adaptadas a atitudes e regras...”.
Dependendo do tipo de agrupamento, as definições relacionadas à “sociedade” estabelecem conexões terminológicas, de forma a que se possa identificar o homem como espécie animal, que vive em grupo, “altamente socializado... e, em constante intercomunicação...”, “vivendo em harmonia com os outros organismos..., espécies, em relação de cooperação...”.
Caracteriza-se comunidade como sendo “conjunto de populações de espécies diferentes, dentro de uma determinada área geográfica...”, onde população situa-se, no universo ecológico por “comunidade de seres vivos que se entrecruzam, graças à troca de material genético... comunidade de organismos, agrupamento social...” comprovando-se, dessa forma, a interrelação entre as espécies, coabitantes do planeta terra.
6. Notas conclusivas
Pelos resultados já obtidos, salientamos o fato de que esse material didático não possui glossário ou vocabulário temático, ao final de cada texto de estudo. Muitas das definições encontradas aparecem implícitas nos textos, diluídas nos assuntos temáticos. Quando necessárias, os autores as apresentam em tomadas rápidas sem muitas explicações. Parece caber ao leitor, aluno do segundo grau, inferir as situações de uso. Ao que tudo indica, os respectivos autores pressupõem que o aluno já possua condições para inferir definições, conforme área temática apresentada - requisito básico para a obtenção de informações terminológico-definicionais dos assuntos tratados.
No tocante à História, a situação de leitura parece ser complicada, já que nesse plano, há interseções com dados sociais e geográficos, geográficos e ecológicos. Nesse caso, é preciso um conhecimento mais amplo das áreas de estudo, considerando-se a natureza de cada uma e a disposição para adequações temáticas dos assuntos tratados no material de estudo.
Os fatos históricos permeiam-se no tempo e no espaço, determinam-se pela mobilidade interativa do homem frente a seu universo. O leitor aluno deverá estar articulando os fatos ocorrentes e os conceitos, observando como os termos vocabulares definem-se nas diferentes épocas e lugares, determinados pelo grupo social, cultural e ideológico; em sociedades e comunidades, simples e complexas.
Quanto à Ecologia, a situação não é menos complicada, pois o tratamento dado às definições mobilizam generalidades, próprias ao meio ambiente e em relação estreita com o estudo dos organismos; das espécies que habitam o planeta. As informações inferidas, no conteúdo temático dos textos, levam a perceber a dimensão do homem frente a seu estado natural, em harmonia com os diferentes organismos e espécies. Homem e natureza interagem, coabitando o mesmo espaço, construindo seu universo social e comunitário, de forma a tomar consciência da preservação da sua espécie, frente a preservação das demais espécies.
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Demétrio, M. et alii (1992). A Nova Geografia – estudos da geografia geral. SP: Ed. Moderna.
Dias, P. D. et alii (1982). Biologia. São Paulo: Ed. Moderna.
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Guespin, L. (1993). Citação em Depecker, L., “L’amenagement terminologique: de l’usage a la decision”, in: Terminologies Nouvelles, vol. 12, Rouen, Actes du Seminaires/ dezembro.1993.
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[1] Laface, A, Vocabulário Acadêmico – um passo para a leitura técnica, São Paulo, Arte & Ciência/1997.

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