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Microestrutura no dicionário terminológico:
bases teóricas e orientações metodológicas em direção
ao seu tratamento formal
Maria José Bocorny Finatto
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Letras.
Projeto TERMISUL
Brasil
1. Definição terminológica: para além da sua apresentação na microestrutura do dicionário especializado
Inicialmente, gostaríamos de destacar que qualquer discussão sobre o estatuto da definição terminológica, em seus diversos tipos e propósitos, insere-se, nos dias de hoje, num cenário mais amplo do que aquele relativo apenas ao dicionário ou texto especializado. Essa e muitas outras discussões que temos encontrado em diferentes autores, filiados a diferentes perspectivas dos estudos de Terminologia, só reforçam e ampliam o questionamento de suas próprias bases e orientações teóricas, de modo que testemunhamos o avanço e o crescimento de espaços e interesses, manifestados pela comunidade científica, pelos fenômenos direta ou indiretamente vinculados à comunicação profissional, técnica ou científica.
É fácil perceber que a Terminologia tem crescido bastante desde seu passado recente, o que é um percurso natural de toda disciplina, área científica ou de estudos. Tal crescimento, no caso específico, como já é costume reconhecer, intensifica-se principalmente a partir da constatação da pouca aplicabilidade dos seus primeiros modelos teóricos, originados no trabalho de Wüster, à pluralidade de constituição, plurisignificação e variabilidade da expressão das terminologias.
Nesse sentido, esses trabalhos pioneiros e seus frutos transformaram-se em grandes catalisadores dos questionamentos atuais, destacando-se, entre os segundos, principalmente as concepções que consideraram a chamada língua de especialidade uma língua bastante diferenciada da língua comum e, por isso, em grande medida refratária aos aparatos descritivos de base predominantemente lingüística.
No percurso evolutivo da Terminologia, o objeto “definição terminológica”, doravante DT, tal como se realiza na situação da comunicação profissional, quer em textos dos mais diferentes graus de especialidade, quer em produtos terminográficos como dicionários e glossários, tem sido nosso interesse já há algum tempo. Ao nos aproximarmos desse objeto a partir de diferentes enfoques e propostas, proporcionados justamente pela crítica, testagem e ajuste de concepções teóricas da Terminologia, mais ontológicas ou mais lingüísticas, percebemos, atualmente, a importância da abordagem textual e discursiva conjugada ao seu tratamento lógico-semântico.
Afirmamos isso porque a definição, de qualquer tipo, por sua própria natureza, certamente é melhor entendida levando-se em conta, no seu estudo, a interação entre os lugares discursivos dos integrantes da interlocução que ela instaura e o comportamento lingüístico específico que a identifica. Esse comportamento, o ato ou movimento definitório, é caracterizado pela delimitação e identificação de um objeto concreto ou abstrato, o tópico ou o definiendum, tem sido tradicionalmente apreciado apenas por suas condições de predicação. Contudo, a conformação, as peculiaridades, as variabilidades, resultados e padrões desse comportamento são também mediados e condicionados pelo que poderíamos chamar, provisoriamente, de localização discursiva do texto definitório.
A partir dessa constatação, a DT, pelo que percebemos, configura uma situação em que um objeto-tópico “X” precisa ser, e é, de determinados modos, particularizado, classificado, diferenciado e até colocado em oposição a outros que lhes sejam aproximados. Mas, o modo como isso se concretiza no texto da definição será necessariamente condicionado por uma série de fatores de diferentes ordens. É do entendimento da natureza desses fatores e de seu alcance que poderão surgir novos parâmetros explicativos para as configurações da DT, o que poderia ser bastante útil inclusive para projetos de normalização de terminologias mais racionais e democráticos.
No âmbito do dicionário terminológico, tal como verificamos, via de regra, na definição contida na microestrutura, definir pode ser o mesmo que discriminar características, explicar, situar ou arrolar diferentes modalidades ou variedades do definiendum, corporificado pelo termo, o que se dá pela expressão lingüística de um conceito de estatuto técnico ou científico. Entretanto, a formulação da definição estará igualmente mediada e condicionada por vários elementos tais como a natureza da obra, pelo tipo de discurso em que se originalmente se inscrevam o conceito e o termo, pelo tipo de público-alvo e perfil do produto terminográfico em que se insere, entre outros fatores.
De outro lado, reconhecidamente, uma das grandes dificuldades da DT, de dicionários ou textos especializados, dos mais diferentes tipos, é justamente a dosagem e a escolha entre o que é essencial frente ao acessório no momento de sua formulação. Essa escolha, que assinala sujeitos interlocutores, decidirá a eficiência nas representações e comunicação do conceito associado ao definiendum, de modo que seja sempre preservada e garantida a vinculação do conceito e do termo a um sistema mais ou menos demarcado por uma área de conhecimento ou domínio de especialidade.
Nesse caminho, caberia exemplificar e expandir essa situação pela constatação óbvia da insuficiência da definição de um termo como, por exemplo, dioxina, no âmbito da terminologia legal do meio ambiente no Brasil, apenas como “uma substância química composta por dois átomos de y e um de z”. Em função de diferentes fatores e pela própria natureza do domínio, é, nesse exemplo, pouco significativa apenas a indicação de constituição; sendo igualmente importante informar os seus efeitos nocivos ao meio ambiente e ao ser humano. Será preciso explicitar o que a dioxina causa e indicar também, e principalmente, ao usuário da definição, a modalidade da sua inserção e vinculação com o uso do termo nos textos legais.
Num contexto mais amplo, a partir da relação entre sua porção lógico-semântica e seus condicionamentos de diferentes ordens, a definição tem sido ponto de interesse de lógicos, filósofos, lingüistas, lexicógrafos, psicológos e teóricos da Terminologia. No que se refere aos estudos de Terminologia, tem sido mais privilegiado o tratamento da sua porção lógico-semântica e bastante usual o entendimento de que a DT expresse um conceito e não propriamente um significado, deixando-se, via de regra, de apreciar os seus diferentes condicionamentos.
Entretanto, apesar de todos os esforços teóricos e de análise do objeto, permanece na DT o desafiador entrecruzamento entre o conhecimento técnico ou científico e a linguagem que o veicula, sendo já muitos os trabalhos que relativizam a situação biaxial linguagem/conhecimento especializado e reivindicam, por natural percurso de reflexão, uma revisão dos conceitos de conceito e significado.
Apresentamos, a seguir, uma breve revisão de diferentes posicionamentos teóricos sobre a DT em sua feição geral. Ciente da complexidade que envolve definir a epistemologia de uma Escola de Pensamento, traduzirei aqui, grosso modo, “escolas de pensamento em Terminologia” por enfoques diferenciados da questão, os quais identifico como uma visão mais lingüística e uma outra, menos lingüística.
A primeira escola, para os fins deste trabalho, aproximo ao grupo de estudiosos, de formação lingüística, afinados com as idéias de Sager, que reconhecem e se ocupam de modo mais ou menos proporcional com as dimensões lingüística, cognitiva e comunicativa da Terminologia. A segunda escola é aqui apresentada, grosso modo, como mais vinculada aos iniciadores da Terminologia como área de estudos, notadamente aos estudiosos da chamada Escola de Viena, continuadores dos trabalhos pioneiros de Wüster, que, ao meu ver, caracterizam-se por enfoques bastante marcados pelos estudos ontológicos e da chamada Teoria do Conceito, menos dedicados às facetas lingüísticas da Terminologia. No item subseqüente, indico a contextualização dessas visões para a DT realizada na microestrutura do dicionário terminológico.
2. Perspectivas sobre a DT
2.1. Uma escola de pensamento de visão mais lingüística Sager (1990), no capítulo ”Dimensão cognitiva da Terminologia”, aborda a definição em Terminologia logo depois de ter apresentado os subitens teoria da referência e teoria dos conceitos, reafirmando que a definição, enquanto um produto, é uma descrição lingüística de um conceito, constituída pela enumeração de um conjunto de características, que dão conta do significado do conceito.
A DT, para Sager, é um tipo de definição que fornece uma identificação única de um conceito; o conceito, por sua vez, é considerado em referência a um sistema conceitual. A DT, então, é capaz de classificar e situar um conceito no interior desse sistema.
O autor particulariza-a como suficiente e necessária frente a outros tipos de definição que, segundo sua visão, dela muito mais se diferenciam pelo método do que pelo objetivo, chegando a afirmar, sem maiores aprofundamentos, que esse tipo de definição seria “livre de contexto”. Como a definição, desse modo, situa e classifica, poderíamos vir a pensar em seu valor organizador e dêitico no ambiente da comunicação especializada.
Para Rey (1979), a DT é também uma definição diferente das demais pois, a partir um compromisso entre definição lexicográfica e descrição enciclopédica sobre o qual se estrutura, não objetiva representar ou reproduzir, mas sim evocar um conhecimento.
Para Cabré (1994: 196) a expressão do conjunto das características de um conceito, constitui sua paráfrase ou definição. A autora também apresentava, nesse trabalho, a seguinte definição de DT: “enunciado que descreve uma noção e que, dentro de um sistema nocional, permite diferenciá-la de outras noções”. Além do mais, apontava que deveria a DT conter todas as características essenciais de cada conceito, de acordo com a estrutura nocional estabelecida, e também incluir todas as característica que, embora não fossem essenciais, fossem importantes para uma descrição completa do conceito.
De outro lado, podemos perceber que a autora, à época, por sua afirmativa abaixo indicada, também reconheceu uma relativa autonomia das questões terminológicas frente às teorias estritamente lingüísticas:
“A autonomia da terminologia em relação a lingüística (...) está plenamente justificada. A terminologia compartilha com a lógica o interesse fundamental pelos conceitos. Diferentemente da semântica, que se interessa pela relação entre denominação e significado, a Terminologia se preocupa prioritariamente com a relação que se estabelece entre o objeto da realidade e o conceito que o representa.” (Cabre, 1994, p.33).
Nesse grupo de autores, aqui brevemente referidos, percebemos o progresso de uma aproximação entre a dimensão lingüística e a dimensão do conhecimento científico ou técnico. Salienta-se, a meu ver, a posição de Alain Rey, visto que lança a idéia que a DT, por sua expressão lingüística, apenas evoque o conceito, não o representando diretamente.
Além disso, não deixa também de chamar a atenção que o trabalho de Sager insira o texto definitório, apesar de sua realização lingüística, no âmbito cognitivo, reservando a dimensão lingüística apenas para a denominação ou o termo. E, de outro lado, como Sager considera que DT situa e classifica um conceito, é possível pensar num valor majoritariamente organizador e dêitico dessa definição no ambiente da comunicação especializada.
2.2. Uma escola de pensamento de visão menos lingüística Para Wüster (1985: 53-56), uma definição é uma descrição de um conceito, e uma definição descritiva, oposta a uma prescritiva, descreve o significado de uma designação, no caso, o termo.
Weissenhoffer (1995: 40-41), autor que se caracteriza por propor uma integração dos enfoques ontológico e lingüístico às questões terminológicas, entende que a DT deve oferecer uma delimitação estrita e uma definição precisa do conceito para tornar a comunicação tão eficiente e tão sem ambigüidades quanto possível. E, uma vez que definições precisas são, segundo o autor, melhor formuladas em termos de propriedades discretas e condições suficietes e necessárias, tal como são vistas por ele as características de determinado conceito arroladas pelo texto da DT, as terminologias parecem-lhe um campo profícuo para a chamada semântica de checklist ou de listas de proposições predicativas.
Entretanto, o autor reconhece que o formato de DT caracterizado pela apresentação das chamadas Condições Suficientes e Necessárias prevalece nas terminologias exatas, identificando também a ocorrência de condições não necessárias e condições prototípicas ou de tipicalidade nas definições de diferentes domínios de especialidade. Isto é, Weissenhoffer acaba reconhecendo que a DT, longe de um relativo imobilismo lógico-matemático de fundo proposicional, também é fortemente condicionada pela natureza do domínio em que se insere e que esse condicionamento pode ser inclusive descrito e mensurado.
Em 1993, com publicação do IITF, Instituto Internacional para a Pesquisa Terminológica, temos a obra Selected Readings in Russian Terminology Research, da qual podemos extrair algumas considerações sobre a natureza da DT. A primeira a registrar é de Selov e Mjasnikov (1993: 38), autores que destacam duas grandes dimensões das terminologias: a esfera do lexis e a do logos, ou a dimensão da língua e a dimensão do conhecimento.
Nesse sentido, postulam esses autores que as definições de termos aceitas numa ciência deveriam ser incluídas na esfera do logos terminológico. Assim, segundo eles, a totalidade das relações lógico-semânticas expressas num sistema de definições seria referida à estrutura lógico-semântica do logos de uma determinada terminologia.
De outro lado, na mesma obra, avançando nesse perspectiva, com Evgenija (1993: 66), a DT é caracterizada por uma conexão bilateral: com a linguagem natural humana e com um objeto científico particular. E, isso, segundo o autor, faz com que a definição possa ser enfocada de dois modos: a) a partir do ponto de vista de sua estrutura lingüística; b) da perspectiva da sua adequação à realidade de uma ciência particular.
Em outra importante publicação do IITF, Brekke (1997: 85) diz que, a princípio, objetos e conceitos são entidades não lingüísticas e, assim, relativamente independentes da linguagem. A expressão lingüística desses elementos, no que tange especificamente à situação da DT, não é avaliada pelo autor.
H. Picht (1997: 175), nessa mesma publicação, entende que de um mesmo objeto podem ser formados diferentes conceitos. A definição terminológica de um objeto abstrato, por exemplo, incluiria três definições parciais: uma parte com a indicação das características de um objeto concreto genérico, mais uma segunda parte com idêntica proporção das características de vários objetos concretos similares, e terceira parte com as características de um objeto do pensamento. Esse autor discute as relações entre referencialidade e conceituação, mas não trata da definição, na sua dimensão lingüística, de modo específico, preferindo privilegiar uma visão ontológica, marcada pela identificação de movimentos de pensamento, vinculada a uma Gegenstandtheorie, ocupando-se principalmente dos processos mentais envolvidos nos processos definitórios de objetos materiais e abstratos.
Nesse sentido, identificamos, em Brekke e Picht uma visão mentalista, de caráter geral, relativamente distinta da posição do próprio Wüster, que aproximou significados e conceitos, e, também, distinta da interessante proposta das dimensões do logos e do lexis das terminologias, apresentada pelos autores russos aqui citados.
Assim, se os dois primeiros autores parecem oferecer um pequeno espaço para a vinculação estreita entre a linguagem e o conhecimento, preferindo estudar o fenômeno pela vinculação do par mente/conhecimento, ressalta-se, no grupo russo, a inserção da dimensão lógico-semântica no interior do logos das terminologias. Isso aponta um diferente estatuto relacional entre as duas dimensões, pois que a dimensão semântica é, a princípio, mais afeita ao lexis.
3. Da DT de tipo geral para a definição na microestrutura do dicionário terminológico
Ao aproveitar as breves considerações acima, referentes à DT, para a microestrutura do dicionário especializado, que é uma definição em uma situação que poderíamos chamar de “situação de interlocução dicionarística”, é oportuno destacar, preliminarmente, os seguintes pontos :
a) a microestrutura do dicionário terminológico comparte com a DT suas características genéricas, mas é também condicionada por um tipo de situação comunicativa particular, visto que se encontra, pelo que tenho observado, concretamente dissociada de um texto de especialidade com o qual estabelece relações mais ou menos próximas. Assim, a microestrutura de dicionário, em sua porção definicional, é um tipo de DT em que encontramos, via de regra, a reescritura de um outro texto, o texto de referência a partir do qual é, geralmente, moldada , extraída ou adaptada;
b) a microestrutura, em sua porção definicional, tem sido tratada, analisada e descrita, via de regra e preponderantemente, apenas como um enunciado lingüístico gerador de uma representação predicativa proposicional;
c) a redução da definição da microestrutura a um conjunto proposicional é reconhecida como uma representação bastante eficaz das relações conceituais nela contidas e expressas, embora muitos aspectos importantes de sua configuração não sejam atingidos por essa metodologia descritiva;
d) o texto definitório da microestrutura, em que pese sua natureza lingüística, é identificado, via de regra, na bibliografia em geral, apenas com a dimensão cognitiva ou do conhecimento das terminologias;
e) cada proposição estabelecida a partir da microestrutura, enquanto definição, representa, pelo que reconhece da validade desse enfoque, cada uma das características identificadoras do conceito a que corresponde o termo;
f) a definição na microestrutura, como um tipo DT, reflete a problemática da natureza e realização lingüística dos conceitos, das escolhas da interlocução, do domínio em que se insere e também da sua provável transposição de um texto e uma linguagem terminológica de tipo fonte para uma linguagem e uma comunicação de tipo dicionarístico.
Isso posto, julgo também importante observar a definição do dicionário terminológico levando em conta a seguinte constatação de Tebé (1996):
“A definição que defende a terminologia não está apta a descrever o conhecimento especializado de determinadas entidades, como as ciências humanas e sociais. Tampouco está adequada a descrever determinados tipos de relações mais complexas como as causais” (Tebé, 96: 110)
Esse autor, no mesmo trabalho, indica que o assunto DT e, por extensão, a DT dicionarística, estão relativamente bem tratados quer em normas, quer em estudos, e aponta que são encontrados com freqüência, na bibliografia, descrição de tipologias, metodologias definicionais e inclusive uma série de regulamentações sobre o que fazer e o que não fazer no momento de elaborar um definição. Tais recomendações e metodologias geralmente são reconhecidas e úteis na elaboração de uma DT para um dicionário ou outro produto terminográfico, embora se lhes reconheçam algumas dificuldades importantes, tais como as que bem apontou Alves ( veja-se Alves: 1996).
4. Parâmetros e modelos de tratamento formal da DT na microestrutura - perspectivas da questão
Para o seu tratamento, encontramos, conforme já mencionei algumas vezes aqui, como parâmetro de descrição e análise, o modelo de representação proposicional, operando-se, via de regra, no texto da DT, o cálculo de predicados, sendo vista a formulação do conceito pela depreensão da relação básica argumento-predicado. Isto é, o enunciado definitório da microestrutura é reduzido a proposições predicativas interpretantes. Tal redução pode ser feita, por exemplo, de acordo com as sistemáticas que utilizei em trabalhos anteriores (vide Finatto: 1994, 1995 e 1996.) Assim, por exemplo, se tivéssemos na microestrutura a proposição “o gato é um animal”, o conceito de gato seria formulado pela relação [GATO (SER) ANIMAL].
Pelo o que tenho visto, nas muitas relações estabelecidas pela representação de argumentos e predicados e suas naturais dificuldades, destaca-se, a princípio, a posição de G. Lakoff (1987), pois que esse autor considerará a existência de categorias relacionais ou relações conceituais compostas por subcategorias mais centrais e menos centrais. Dito de outro modo, as categorias do exemplo acima GATO, SER e ANIMAL não serão, segundo o autor, homogêneas ou simplesmente hierárquicas, mas sim mais ou menos prototípicas ou típicas, como, aliás, já reconheceu, de outro modo, Weissenhoffer (op. cit.).
Para além da expansão proporcionada pela idéia de protótipos, em que pesem todas as suas dificuldades, pelo que confirma Condamines (1995: 229), distinguimos no contexto definitório dois sistemas imbricados: o sistema lingüístico e o sistema conceitual, o já referimos anteriormente. Mas, para o lingüista que se ocupa da Terminologia, será preciso, retomar, múltiplas vezes essa constatação reitarada na literatura e verificar, pelos prováveis pontos juntivos e disjuntivos do logos e do lexis, o que significados e conceitos oferecem e trocam mutuamente, sendo imprescindível tomar como pressuposto que a análise lingüística ofereça uma chave para se alcançar um provável sistema relacional poliédrico4, gerador da representação ou expressão do conceito na situação do dicionário terminológico e em outras situações.
De tal modo, parece-nos difícil e até prematuro inscrever a expressão lingüística, a representação do conceito, ou até mesmo um significado do termo, apenas na esfera do lexis ou na do logos terminológico, principalmente se projetadas, a priori, como zonas de limites bem definidos. Será preciso, nesse sentido, legitimar as situações, relações e configuração das dimensões a partir de uma verificação empírica.
Um dos grandes problemas das pesquisas em Terminologia, quer em sua vertente teórica ou aplicada, tem sido pretender administrar a multiplicidade de conceitos, multiplicidade de significação e de denominação, enfim, a multiplicidade da linguagem e heterogeneidade dos conhecimentos, reduzindo sobremaneira o fenômeno vivo que é observado por meio de ferramentas analíticas de caráter formal e de estruturação não flexível.
Para além do caminho apontado por Lakoff, aquele em que se pode repensar a fixação de relações conceituais e de significação não estanques, vinculadas, por exemplo, a cada proposição depreendida de uma DT dicionarística, na busca de se explicar as variabilidades dessas relações, há muito a percorrer, a observar e testar. Nesse e em outros percursos possíveis, o que buscamos é um instrumental teórico-metodológico que possa dar conta de explicar a conformação e condicionantes da DT geral e da DT de tipo dicionarístico.
A partir disso, é possível perguntar : a que caminhos e implicações nos conduziria a pura decomposição formal de definições de dicionários terminológicos segundo modelos de análise lógica tradicional, na tentativa de identificarmos, a partir delas, a organização do conhecimento?
Pelo que temos podido perceber, a decomposição formal da DT e da definição contida na microestrutura, em termos do preenchimento de um conjunto de rótulos categoriais ou características de conceitos de fundo proposicional, emoldurado pelo seu macrocontexto citado no início deste trabalho, somente poderá nos levar a uma imagem eficiente da relação linguagem/conhecimento se for sempre mediada pela observação de condições dialógicas.
Para tanto, será preciso ter em conta as naturais (e não defeituosas!) diferentes e variadas possibilidades de descrever, identificar, expressar ou evocar um mesmo conceito pela definição, quer pela dimensão do logos, quer pela dimensão do lexis. Dimensão equivocadamente tomada por alguns como acessória, menos importante e até mais sujeita a deformações que a primeira.
Entender como e em função de quais pontos ou dimensões, em alguns momentos, algumas características essencias de determinado conceito podem vir a ser acessórias e, em outros, imprescindíveis, numa mesma área de conhecimento, numa mesma língua, numa mesmo período histórico, passa a ser um problema que não pode ser abordado por visões estanques.
Em síntese, a decomposição formal da DT e da definição da microestrura e suas conseqüentes traduções para uma linguaguem de cunho formal só serão válidas se puderem abrigar as regularidades e variabilidades que as conformam e condicionam. E, por isso, posso dizer que nossos trabalhos sobre o assunto, em que pesem as dificuldades da transformação proposicional da DT apontadas, apenas têm tangenciado o conflito que se consubstancia nas duas visões gerais de Terminologia aqui citadas.
Finalmente, por isso mesmo, é importante retomar que esse conflito, embora não fosse significativa e diretamente tratado nos primeiros estudos de Terminologia é, hoje, o revitalizador e impulsionador do avanço da Terminologia como área de estudos. Uma amostra disso é que se pode observar pela citação abaixo:
“O conhecimento, quando materializado em unidades lingüísticas, está no interior da competência lingüística, e o conhecimento das unidades dotadas de referência está compreendido no modulo lexical da gramática.” Cabré (1997)
Esse pensamento poderia ser reelaborado nos seguintes termos: o conhecimento, técnico, científico ou tecnológico, quando é veiculado ou manifestado pela linguagem, passaria a estar subordinado ao conhecimento da linguagem. Como se vê, há, ainda, muito a discutir e a investigar no que diz respeito à DT.
Bibliografia
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