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Entre a sincronia e a diacronia:
variação terminológica no código e na língua
Enilde Faulstich
Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula (LIV)
Centro de Estudos Lexicais e Terminológicos (Centro Lexterm)
Universidade de Brasília (UnB),
Brasil
Resumo:
A socioterminologia prevê dois percursos temporais para a análise dos termos no discurso: um pelas vias da sincronia, que faz com que formas variantes apresentem o mesmo significado referencial, e outro que navega pela história, possibilitando-nos sistematizar estruturas lexicais-terminológicas variantes, que nos permitem reconstituir quadros conceptuais da época, validados ou não na atualidade. Por sua vez, como toda língua se faz representar por linguagens em pleno movimento, no seio das linguagens de especialidade encontram-se variantes restritas ao código e variantes que surgem diretamente do sistema e da norma da língua. Tais variantes encaixam-se em tipologias específicas, gerando categorias funcionais de variação próprias à terminologia. São as dicotomias por nós elaboradas que nos propomos a discutir como estratos motivadores de variáveis terminológicas.
0. Situação do tema e metodologia
Esta conferência se divide em 4 partes. Na primeira, procuraremos rever a relação termo-conceito, útil na construção e na reconstrução de significados da língua. Na segunda parte, discutiremos o quadro conceitual, que situa o termo em movimento, nos percursos temporais da língua, da diacronia para a sincronia e desta para aquela. Na terceira, apresentaremos uma tipologia de variantes terminológicas com ênfase à análise de alguns casos. Por último, trataremos da variação e da mudança na língua codificada e na língua funcional.
Os documentos que servirão de base para os comentários que faremos, no decorrer da conferência, são obras do português arcaico, que tratam da culinária e que apresentam a linguagem da culinária na perspectiva de um discurso instrucional. Os dados recolhidos desse discurso instrucional são parte de uma das pesquisas que desenvolvemos no Centro Lexterm e que leva em conta estudos de terminologia diacrônica. O que pretendemos verificar são aspectos variáveis na evolução da língua portuguesa e, conseqüentemente, o processo da mudança em corpora de especialidade. Mais ainda, o que queremos comprovar é que as terminologias ou científicas, ou técnicas, ou de vulgarização não pertencem apenas ao estágio sincrônico das línguas. As terminologias também têm história e fazem a história das línguas.
1. Relação termo - conceito
Em caráter de revisão, cabe lembrar que termos são signos que encontram sua funcionalidade nas linguagens de especialidade, de acordo com a dinâmica das línguas; são entidades variantes, porque fazem parte de situações comunicativas distintas; são itens do léxico especializado que passam por evoluções, por isso devem ser analisados no plano sincrônico e no plano diacrônico das línguas. (Faulstich, 1998) [1]
Por sua vez, um conceito possui características específicas que se organizam de traços observáveis ou imagináveis. Tais traços agrupam os objetos no mundo real, de acordo com a intensão e a extensão do conceito.
No dizer de Lerat (1989), citado por Otman, (1995, p. 17), todo conceito é um saber acerca de um objeto, todo objeto é conceptualizado por conceito; todo conceito se exprime por um signo, todo signo significa um conceito; todo signo denomina um objeto, todo objeto tem por nome um signo. [2]
Termo e conceito são, portanto, signo e significado; um conceito é uma unidade de conhecimento que contém os atributos de um dado referente, denominado termo. (Faulstich, 1993) [3]
A relação entre conceito e termo se dá por meio de predicações que particularizam a intensão e a extensão do referente. Tais predicações se apresentam sob a forma de características essenciais e acidentais que são responsáveis pela intensão de um conceito e de características individualizantes que delimitam a extensão.
As características essenciais pertencem a todos os referentes de um dado tipo; as características acidentais pertencem a alguns referentes de um dado tipo; as caraterísticas individualizantes pertencem somente a um referente em questão.
Assim, galinha, adem, pombo, perdiz possuem como característica essencial serem aves; cada uma dessas aves possui características acidentais, tal como, galinha é da espécie dos galináceos, adem é da espécie dos palmípedes, pombo é columbiforme, perdiz é tinamiforme. E estreitando mais ainda a extensão dos significados, tem-se que galinha possui cristas carnudas e asas curtas e largas, adem —espécie de pato— é aquática, pombo tem vôo possante, perdiz é desprovida de cauda.
O conjunto de características de cada termo contribui para a formalização da definição, como, por exemplo, "galinha é ave galinácea com cristas carnudas e asas curtas e largas"; outro: "perdiz é ave tinamiforme, desprovida de cauda".
Diante desse processo formal de organização conceitual, cabe questionar que características são variáveis passíveis de gerar variantes de conteúdo.
Tentaremos responder à questão no decorrer da exposição.
3. O termo em movimento
A socioterminologia é a disciplina que abriga o movimento do termo nas linguagens de especialidade.
Nos percursos temporais da língua, o termo é uma entidade do discurso independentemente de sua realização no plano sincrônico e no plano diacrônico e, por isso, passível de apresentar variantes antigas e atuais. Estas idéias que estão sintetizadas no gráfico seguinte serão discutidas com base em termos selecionados do domínio da culinária, registrados em textos do português arcaico, quais sejam, Um tratado da cozinha portuguesa do século XV [4]; o Códice I. E. 33. O Livro de cozinha da Infanta D. Maria de Portugal [5], do final do século XV ou princípio do século XVI; A Arte de cozinha [6], do século XVIII, e em algumas obras da atualidade.
No gráfico, procuramos estabelecer relações que conduzem à percepção de que a variação terminológica atua na língua, segundo as variedades:

Este gráfico metodológico possibilita a demonstração de alguns casos que estão dentro da gramática do português arcaico, em que a variação se realiza na linha do tempo, como:
a) relação termo-conceito, criados e estabilizados numa diacronia. No caso, houve manutenção de características conceituais somente na diacronia (séc. XV).
i) D. Lopo de Almeida escreve: e comeram a comum todos misturados com ele (o imperador), de guisa que todos comiam nos ditos dois bacios; e cada um tinha trinchos de pau ante si. (Arnaut) [7]
donde:
No português arcaico (doravante PA):
bacio: todo vaso de boca larga, como gomis, canecas, etc e, nisto, se diferençavam das bacias que estas eram de mais bojo e fundas, e aqueles eram mais chatos e espalmados, a modo de nossas bandejas. (Viterbo) [8]
No português contemporâneo do Brasil (doravante PCB):
[Do cat. bací.] S. m. 1. V. urinol (1). Verbete: urinol [De urina + -ol.] S. m. 1. Vaso apropriado para nele se urinar e defecar. [Sin.: bacio, bacia, louça, vaso, penico, bispote, mijadeiro e (bras.) capitão, cabungo e (ant.) mátula.] (Aurélio) [9]
No PA:
trincho: "pratinho pequeno. Devia ser disco (?) de pequena concavidade ou sem ela: serviam para os alimentos que havia necessidade de trinchar." (Arnaut) [10]
No PCB:
[Dev. de trinchar.] S. m. 2. Travessa na qual se trincham iguarias. (Aurélio) [11]
b) Relação termo-conceito em movimento da diacronia para a sincronia, com resultado diferente na sincronia. No caso, houve deslocamento de algumas características conceituais entre o séc. XV e o séc. XX:
ii) D. Pedro I, em Lisboa, quando das grandes festas por altura de D. João Afonso Telo ser feito conde e armado cavaleiro, ofereceu ao povo em mui grandes tendas no Rossio, grandes montes de pão cozido e assaz de tinas cheias de vinho, e logo prestes por que bebessem, e fora estavam ao fogo vacas inteiras em espetos a assar; e quantos comer queriam daquela vianda, tinham-na muito prestes e a nenhum não era vedada, e assim estiveram sempre enquanto durou a festa. (Arnaut) [12]
iii) E buscaram-lhe alguma coisa de comer pela companhia, e não acharam outra vianda salvo um pão encertado e um pequeno de rábão e um pouco de vinho que um homem de pé levava em uma cabacinha; e estas foram suas iguarias por aquele dia todo, onde esteve com sua batalha posta acerca do caminho, aguardando os Castelhanos até noite. (Fernão Lopes) [13]
donde:
No PA:
vianda: os comestíveis e as comidas tinham a designação genérica de viandas. Vianda tanto era o pão, como a carne, como o peixe... (Arnaut)
No PCB:
[Do fr. viande, 'alimento'.] S. f. 1. Qualquer tipo de alimento. 2. Qualquer carne alimentar. 3. Carne de animais terrestres: "comiam também, em roda dos alforjes abertos, cortando com os punhais nacos de gordura nas grossas viandas de porco" (Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, p. 485). [...] ( Aurélio)
iv) ... e tomarão a perdiz e huu)a pouqª de cebola
picada/ e a cebola ha de Ser p)mro
a fogada cõ azeite ou mamteygua e deitareis tudo e) huu)a tigella de
foguo cõ seu adubo/. crauo/ pime)ta/
e acafrão [...] [14]
v) D. Afonso Henriques foi certa ocasião hóspede de D. Gonçalo de Souza. Este convidou-o para jantar que mandou fazer. E quando o anfitrião ia anunciar que a comida estava pronta, apanhou o rei em amores com a própria mulher. Senhor, levantai-vos ... ca adubado o tendes(que o jantar está pronto) e o monarca levantou-se e lá o foi comer... (Arnaut) [15]
donde:
No PA:
adubo: significa tempero
No PCB:
[Dev. de adubar.] S. m. 1. Tempero, condimento. 2. Resíduos animais ou vegetais, ou substância química, que se misturam à terra para fertilizá-la; fertilizante. [...] (Aurélio) [16]
Não se reconhece, no português contemporâneo do Brasil, o significado de adubo como tempero, assim, o significado 1 de Aurélio está praticamente fossilizado, constituindo um arcaísmo semântico.
c) Relação termo-conceito que passou por evolução da diacronia para a sincronia; houve mudança de algumas características conceituais na evolução do séc. XV para o séc. XX:
vi) Fugido de Aljubarrota, doente, o rei de Castela, em Santarém, pediu que lhe torrassem uma sopa para comer. (Arnaut) [17]
donde:
No PA:
torrar: a expressão "torrar" tenha o largo sentido de "fazer" [pelo calor] (Arnaut)
No PCB:
V.t.d. 1. Ressequir por meio do calor do fogo, ou ao sol: "A seca calcina a terra, resseca os matagais, torra as capoeiras decotadas" (Gustavo Barroso, Terra de Sol, p. 177). 2. Secar muito. 3. Queimar de leve; assar, tostar. (Aurélio)
O significado de torrar alimentos líquidos desapareceu completamente no uso brasileiro.
4. Classificação e tipologia de variantes terminológicas. Análise de casos
De acordo com a natureza da variação no plano lingüístico, distinguem-se categorias, classes e tipos de variantes. A classificação e a tipologia das variantes terminológicas constituem o objeto desta terceira parte de nossa conferência.
Como método para delimitar as variantes terminológicas, criaram-se critérios de classificação, de acordo com as tendências sistemáticas em que os termos se repartem. Surgiram, portanto, duas grandes classes de variantes terminológicas. Uma de variantes terminológicas propriamente lingüísticas e outra de variantes terminológicas de registro, que se organizam segundo os tipos de variantes que cada uma contempla.
Esta divisão em duas grandes classes não anula a possibilidade de os tipos de variantes cruzarem-se entre si.
Classe I - varlantes terminológicas lingüísticas
São aquelas cujo fenômeno propriamente lingüístico determina o processo de variação.
Para classificar as variantes terminológicas lingüísticas, obedecemos aos seguintes princípios:
a) a interpretação semântica é a base para análise do termo;
b) as unidades terminológicas complexas (UTCs) são analisadas sob o ponto de vista funcional;
c) os subsistemas da língua portuguesa constituem o fundo lingüístico de análise;
d) os usos escrito e oral dos termos são levados em conta.
As variantes terminológicas lingüísticas se repartem nos seguintes tipos:
1. variante terminológica fonológica, em que o registro pode surgir de formas decalcadas da fala, como agoa de frol, em relação à água de flor, termo da área de temperos, e queygo em relação a queijo na culinária arcaica.
2. variante terminológica morfológica, a que apresenta alternância de estrutura de ordem morfológica na constituição do termo, sem que o conceito se altere, como em porrada e porreta. A variação atua nos formantes do termo, no caso nos sufixos -ada e -eta, ambos indicando comida em que entram alhos porros.
3. variante terminológica sintática, em que há alternância entre duas construções sintagmáticas que funcionam como predicação de uma UTC, como aguoa de frol cõ almísquer e aguoa de cheiro almisclada, na linguagem da culinária arcaica. Neste caso, a variação se processa na substituição de uma parte do item lexical por outro com estrutura semelhante, formando uma mesma unidade terminológica.
4. variante terminológica lexical, em que algum item da estrutura lexical da UTC sofre apagamento ou movimento de posição, mas o conceito do termo não se altera, como em ovos com crara e gemas batidas, ouos batidos cõ crara e jema, gemas dos ovos batidos com a crara, ouos gemas e craras tudo batido, da área de culinária. O movimento na posição dos elementos de predicação não perturba nem o significado, nem a compreensão, porque a base preserva o conceito inerente ao termo naquele contexto.
5. variante terminológica gráfica, a que se apresenta sob forma gráfica diversificada de acordo com as convenções da língua, como manteiga, mãtejgua e mamteygua [18] e receita, receyta, rrecejta. Este tipo de variação decorre da forma escrita do termo.
Classe II - variantes terminológicas de registro
São aquelas cuja variação decorre do ambiente de concorrência, no plano horizontal, no plano vertical e no plano temporal em que se realizam os usos lingüísticos dos termos.
Para classificar as variantes terminológicas de registro, obedecemos aos seguintes princípios:
a) os termos são recolhidos no discurso real da linguagem de especialidade;
b) os termos pertencem à variedade socioprofissional;
c) os termos são recolhidos de textos, de procedência diversificada, que tratam do mesmo assunto;
d) os termos são recolhidos de discursos com maior ou com menor grau de formalismo, que tratam do mesmo assunto;
e) os termos são recolhidos de textos redigidos em épocas diferentes, que tratam do mesmo assunto;
f) os usos escrito e oral são levados em conta.
As variantes terminológicas de registro se repartem nos seguintes tipos:
1. variante terminológica geográfica, aquela que ocorre no plano horizontal de diferentes regiões em que se fala a mesma língua. Pode decorrer ou de polarização de comunidades lingüísticas geograficamente limitadas por fatores políticos, econômicos ou culturais, ou de influências que cada região sofreu durante sua formação. Serve de exemplo o termo sertã [19], da área de utensílios de culinária. O termo sertã é praticamente ignorado no Brasil, que utiliza frigideira, em lugar daquele.
2. variante terminológica de discurso, a que decorre da sintonia comunicativa que se estabelece entre elaborador e usuários de textos científicos e técnicos. Servem de exemplo i) onça e pucaro, termos antigos específicos do discurso técnico, da área de medida; ii) pouquechinho [dasafram], pouquechinho [agua e vinagre], termos do discurso de vulgarização científica, usados, no séc. XV, nas receitas de cozinha para indicar quantidade. Em lugar de pouquechinho, hoje usamos pitada [de sal, de açúcar].
3. variante terminológica temporal, aquela que se configura como preferida no processo de variação e mudança, em que duas formas (X e Y) concorrem durante um tempo, até que uma forma se fixe como a preferida, por exemplo, o termo, da área da culinária, adubado (X) substituído por temperado (Y), assim como pão coito (X) que cedeu lugar para biscoito (Y).
5. Variação e mudança na língua codificada e na língua funcional. Algumas reflexões
Como último tópico desta conferência, trataremos sucintamente da variação e da mudança no código terminológico e na linguagem funcional do discurso de especialidade, reduzido aqui ao discurso da culinária arcaica.
O código é um repertório de símbolos que se distinguem por oposição recíproca (Eco, 1972) [20]. Esta percepção que se ajusta ao clássico paradigma da análise funcional da língua, inaugurado pela Escola Lingüística de Praga, situa as oposições no sistema da língua. A língua é, em si mesma, um sistema cujas unidades e elementos mantêm relações em dois níveis, o paradigmático e o sintagmático. Nesses planos, o valor de cada unidade ou elemento é determinado pelo seu contraste e pela sua possibilidade de combinação com outros do sistema. [21]
Na variação do código, os valores não se opõem dentro do sistema lingüístico, mas revelam-se como alografos porque no período arcaico as línguas ainda não estavam normativizadas. Mattos e Silva (1989) [22] constata que cada texto arcaico "constitui em si uma totalidade" e propõe como início para descrição o levantamento da variação gráfica ao afirmar que "a partir do estudo da grafia, alguns aspectos da representação dos morfemas quer nominais quer verbais podem ficar esclarecidos".
A variação gráfica indica que o sistema de sinais convencionais do português —entre os séculos XV e XIX— apresentava forte flutuação no uso. É o caso de manteiga que, no século XV, apresentava outras formas, com variação em todas as sílabas.
(1) mamtejga; (3) mamteygua; (6) manteiga; (3) manteyga; (3) mãteiga
(1) mãtejga; (1) mãtejgua; (1) mãtejguua; (6) mãteyga; (1) mãteygua
em que:
nas sílabas iniciais ocorrem as variantes: mam- / man- / mã- em que a flutuação do registro arquifonêmico nasal reitera a presença continuada da nasalização;
nas sílabas mediais ocorrem: -tey- / -tei- / -tej- situação que denota o apagamento do fonema arredondado /y/ em concorrência com o não-arredondado /i/ ou /j/;
nas sílabas finais ocorrem: -gua / -ga / -guua cuja flutuação da forma, ao ser confrontada com agoa [> água] e lingoa [> língua] evidencia que a solução fonológica para manteiga não foi a mesma que para água e língua, cujas formas do português contemporâneo preservaram o ditongo -ua na última sílaba; não encontramos nenhuma ocorrência do tipo manteigoa.
Outro exemplo:
(2) acucar; (1) acucare; (11) acuquar; (1) acuquuar; (1) acuquer; (3) açucar; (6) açuquar; (1) açuqar; (1) asuquar
em que:
a sílaba inicial se mantém;
na sílaba medial, ocorrem: -cu / -çu / -su- em que se presume ter prevalecido o fonema fricativo alveolar e não o oclusivo velar;
na sílaba final, ocorrem: -car / -quar / -quuar / -quer e mais uma forma abreviada -qar e outra alongada por paragoge care. Em todas as variantes mantém-se o fonema oclusivo velar que restou como forma padrão no português atual; o que se normatizam são os grafemas medial e final já em ocorrência no corpus do século XV, resultando a forma açucar.
Nos textos analisados, encontram-se também diversos exemplos de variação na língua, com resultados diversificados no português contemporâneo do Brasil. Os fatos selecionados são exemplos caracterizadores de mudanças na morfossintaxe.
i) tomarão a carne do carneiro ou do porquo fresquuo e
picalaam muito picada como pera os pastes e mais se
mais poder ser e laualaaõ e deitalam em huã pa
nela [...](Séc. XV) [23]
ii) Ponha-se em huma panella a cozer hum pedaço de vaca muito gorda;
huma gallinha, hum ade, huma perdiz, ou pombos, hum coelho, [...]
(Séc. XVIII) [24]
iii) Batem-se as claras em neve, acrescenta-se o açucar e bate-se bem. (Texto atual) [25]
iv) Bater as claras em neve, misturar a gelatina, e por fim, a calda. Misturar bem e despejar em um pirex. (Texto atual) [26]
Nos textos, ocorre variação na forma e na estrutura dos verbos que compõem o discurso do "modo de fazer" das receitas.
Nos textos das receitas do século XV, o uso do futuro imperativo é feito de forma exaustiva. Said Ali (1923) [27] diz que o futuro exprime uma ordem dada no tempo presente, contando que será cumprida: "é linguagem mais enérgica que o modo imperativo, pois que não faz o mínimo caso da vontade do indivíduo [...]
Nos outros textos, ocorrem o indicativo, forma praticamente canônica desse tipo de discurso, e o infinitivo, que mascara o imperativo, mas mantém a ordem implícita do "fazer como deve ser feito para dar certo".
Vale a pena observar ainda que a forma sintética do futuro imperfeito do indicativo latino clássico —como amabo e audiam— etc. perdeu-se no sistema do latim falado, em favor de uma forma perifrásica amare habeo e audire habeo, em função do registro lingüístico, escrito versus falado. No entanto a função ficou preservada.
Tarallo (1994) observa que há situações na evolução dos sistemas lingüísticos em que de duas, uma: ou uma função não-marcada formalmente passa a receber marca formal, sem que a gramática tenha "forçado" a marcação; ou o sistema, por dentro de si mesmo, via analogia, cria uma nova forma, não para retomar uma antiga função, mas, sim, para estabelecer uma inteiramente nova. Nos dois casos diremos que houve ganhos morfológicos não-encaixados. [28]
Esta observação vem em função do emprego de pronomes pessoais intercalados na forma de futuro imperativo dos textos instrucionais das receitas do séc. XV que ilustram bem o caso de ganho não-encaixado, uma vez que não são remanescentes do latim clássico; constituem, na verdade, uma marcação que começa a aparecer no latim vulgar e depois se estabiliza nas línguas românicas. Já a criação dos futuros no português pode ser considerado um ganho encaixado, uma vez que ocorreu dentro do sistema gramatical em transformação. [29]
6. Palavras finais
Em nossas pesquisas procuramos demonstrar que os termos desempenham funções nos discursos em que eles aparecem. Assim, qualquer princípio de univocidade termo x termo, ou termo x conceito, ou conceito x conceito precisa ser analisado com bastante cuidado porque há variáveis textuais, discursivas, sociais e lingüísticas capazes de negar certos pressupostos tidos como verdadeiros no que se refere à uniformidade da comunicação, na análise das terminologias científicas, técnicas e de vulgarização.
Nesta conferência, procuramos discutir o movimento sincrônico e diacrônico dos termos em um determinado tipo de discurso em língua portuguesa, para comprovar que as terminologias movimentam-se, alteram, revestem-se de novos significados com base em variantes funcionais que se encontram dentro das próprias linguagens de especialidade.
[1] Faulstich, E. Base metodológica para pesquisa em socioterminologia. Termo e variação. Livro inédito, 1995 e revisto em 1998.

[2] François Rastier, no artigo Le terme: entre ontologie et linguistique, declara, em nota de pé de página, que: "Otman [Les représentations sémantiques en terminologie, Thèse, Université Paris IV], 1995, p. 17, en s'appuyant sur Lerat [Les fondemants théoriques de la terminologie, La banques de mots], 1989, p. 56, parvient à ces principes: tout concept est un savoir sur un objet, tout objet est conceptualisé par un concept, tout concept s'exprime par un signe, tout signe signifie un concept, tout signe dénomme un objet, tout objet a pour nom un signe." Em La banque des mots, Numéro spécial 7-95, Terminologie et Intelligence Artificielle, Textes réunis et présentés par Gabriel OTMAN, C.T.N., InaLF, C.N.R.S., p. 39.

[3] Faulstich, E. "Apresentação de conceitos neológicos: o significado de carroça". Campus, UnB, 1993.

[4] Um tratado da cozinha portuguesa do século XV / leitura diplomática e modernização por Antônio Gomes Filho, 2 ed., Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, Dep. Nacional do Livro, 1994 [doravante TC]

[5] Primeira Edição Integral do Códice Português I. E. 33. da Biblioteca Nacional de Nápoles. Leitura de Giacinto Manuppella e Salvador Dias Arnaut. Prólogo, Notas aos textos, Glossário e Índices de Giacinto Manuppella. Introdução histórica de Salvador Dias Arnaut. Acta Universitatis Conimbrigensis. Por ordem da Universidade, 1967, 257 p.

[6] Domingos Rodrigues, mestre da cozinha de Sua MagStade, Lisboa MDCCXIV.

[7] S. D. Arnaut. Introd. hist. O livro de cozinha da Infanta d. Maria de Portugal. Actas Universitatis Conimbrigensis, 1967, p. LXXXVIII [doravante Arnaut]

[8] Viterbo, Elucidário, II, Porto, Civ. Editora, 1984 [doravante Viterbo]

[9] Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Ed. eletrôn., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1998 [doravante Aurélio]
[10] Arnaut, op. cit., p. LXXXIX.

[11] Aurélio, op. cit..

[12] Arnaut, op. cit., p. XXVI.

[13] Citado por Arnaut, op. cit., p. LVII.

[14] TC, p. 7

[15] Arnaut, op. cit., p. LXIII, citando Os Livros de Linhagens.

[16] Aurélio, op. cit..

[17] Arnaut, op. cit., p. CXVI.

[18] No TC ocorrem dez variantes gráficas de manteiga como demonstramos a seguir. O número entre parênteses indica as ocorrências, no corpus textual, de cada variante: (1) mamtejga; (3) mamteygua; (6) manteiga; (3) manteyga; (3) mãteiga; (1) mãtejga; (1) mãtejgua; (1) mãtejguua; (6) mãteyga; (1) mãteygua.

[19] No TC, sertã aparece com as seguintes variantes: (1) certãa; (1) sartãa; (1) sartam; (2) sertãa; (2) sertam.

[20] Eco, Umberto. A estrutura ausente, São Paulo, Perspectivas, 1972, p. 16.

[21] Recomenda-se a leitura de Faulstich, E. e S. L. Rodrigues da Rocha, A função pragmática do contexto lingüístico em obras lexicográficas e terminográficas, Travaux du LILLA n° 2 [sous la direction de H. Zinglé], Publications de la Faculté des Lettres, Arts et Sciences Humaines de l'Université de Nice-Sophia Antipolis, 1997, pp. 23-32.

[22] Mattos e Silva, Rosa Virgínia. Estruturas trecentistas. Lisboa, Casa da Moeda, 1989.

[23] Reçeita da tortora, em TC, p. 23.

[24] Receita de "Olha podrida", em Arte da cozinha.

[25] "Gelatina de frutas", em Vera Stedile Zattera (org.), Sabor e companhia, Porto Alegre, Palotti, 1998, p. 68.

[26] "Gelatina Santo Antônio", em Zattera, op. cit., p. 69.

[27] O autor denomina o futuro que exprime ordem como imperativo ou categórico.

[28] Para Tarallo, perdas e ganhos morfológicos são encaixados quando ocorrem dentro do sistema gramatical em transformação, são não-encaixados como reflexo das diferenças entre modalidades de uso lingüístico, escrito versus falado; não provocados por mudanças em curso.

[29] Serviu de inspiração para esses comentários a monografia escrita por Dani Leonor Antunes Corrêa, sob minha orientação, acerca dos dados lingüísticos de Um tratado da cozinha portuguesa do século XV, na disciplina Léxico e Terminologia, do mestrado em Lingüística do LIV/UnB, em 1997.

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