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Proposta de homogeneização da terminologia designativa
das obras lexicográficas e terminográficas
Lídia Almeida Barros
Universidade Estadual Paulista-UNESP
Campus São José do Rio Preto
Brasil
Resumo:
O presente trabalho tem por objetivo abordar questões relativas ao problema de homogeneidade da terminologia que designa os diferentes tipos de obras lexicográficas e terminográficas e apresentar uma proposta de classificação tipológica das mesmas.
1. Introdução
A enorme variedade de obras lexicográficas e terminográficas procura atender às necessidades de uma sociedade heterogênea. Essa diversidade é, assim, resultante da própria multiplicidade dos discursos dos segmentos sociais. O desejo de melhor compreender esse universo de obras conduziu a diversos esquemas de classificação tipológica. Segundo Bernard Quemada, um dos primeiros estudos comparativos das diferentes obras lexicográficas francesas foi o de P. Barré, em 1842 no Prefácio do Complemént du Dictionnaire de l’Acadèmie française [1]. Desde então, diversas tipologias foram esboçadas, entre as quais se sobressaem as tipologias de Thomas Besterman (1943), Yakov Malkiel (1960), Thomas A. Sebeok (1962), Henri Mitterand (1963), Bernard Quemada (1967) George Matore (1968) Josette Rey-Debove (1969), Alain Rey (1970) e M. Alvar Ezquerra (1988).
Algumas delas, como a de Josette Rey-Debove, e elementos de tipologia apresentados por diversos autores, baseados nas propostas de Charles Muller e que têm determinado as classificações tipológicas a nível internacional, interessam mais especificamente aos objetivos deste trabalho e, por essa razão, faremos uma breve recapitulação das principais questões por eles abordadas. Em seguida, examinaremos certos aspectos estruturais que contribuem para a caracterização tipológica das obras lexicográficas e terminográficas para finalmente chegarmos a algumas sugestões de normalização dessa terminologia.
2. Elementos de tipologia
O ponto de partida da proposta tipológica de Josette Rey-Debove é a distinção entre dicionário enquanto objeto nomeado e enquanto objeto definido. Segundo a autora, as obras lexicográficas ou terminológicas diferenciam-se muitas vezes em relação à sua denominação (por exemplo, os títulos que comportam os termos Léxico, Glossário, Vocabulário, etc.), mas representam finalmente um tipo comum de publicação. De acordo com Rey-Debove, a caracterização precisa dos dicionários é possível se os considerarmos enquanto objeto definido e se estudarmos seus traços pertinentes. A caracterização tipológica do dicionário feita por Rey-Debove é estabelecida a partir da comparação de um conjunto de obras lexicográficas, independentemente de seus títulos.
A autora define finalmente dicionário e identifica seus traços pertinentes fundamentais: a. os enunciados lexicográficos se apresentam, no plano formal e gráfico, isolados uns dos outros; b. o dicionário é uma obra de consulta em que o programa de informação é constante e organizado por uma dada ordem; c. as entradas são obrigatoriamente de natureza lingüística; d. o dicionário possui um caráter didático; e. o enunciado lexicográfico transmite informações sobre o signo-entrada; f. as entradas são dispostas na macroestrutura segundo princípios de estruturação e formam um conjunto determinado, onde os elementos são enumerados; g. as mensagens se organizam em dois sentidos, ou seja, verticalmente para a macroestrutura e horizontalmente para a microestrutura. h. normalmente, as entradas destes dicionários seguem uma ordem puramente formal; i. classificação pela forma (alfabética) ou pelo conteúdo (sistemático): geralmente as classificações pelo conteúdo são seguidas de um índice alfabético. A combinação destes dois tipos de classificação é possível por meio de uma dupla macroestrutura, ou seja, um agrupamento do conteúdo em um verbete onde a entrada foi ordenada alfabeticamente. Neste caso, a repetição da entrada é substituída no corpo do verbete por um traço e os diferentes sentidos são indicados por um número.
A autora reconhece que os modelos analisados são puros, ao passo que, na prática de elaboração de projetos lexicográficos ou terminográficos, a realidade é raramente essa. A heterogeneidade pode se apresentar no programa de informação e nas partes dos dicionários, ou seja, a mistura de gêneros é uma prática corrente.
Charles Muller parte da oposição dialética entre sistema/norma/fala, proposta por E. Coseriu, e faz a distinção entre léxico e vocabulário e, conseqüentemente, entre as unidades-padrão correspondentes a cada nível da linguagem: lexema, vocábulo e palavra. O lexema seria um modelo de realização lexical ao nível do sistema lingüístico; o vocábulo, um modelo ao nível do discurso e a palavra, a realização concreta de um vocábulo em um texto.
Esta contribuição de Muller serviu de base à contribuição de diversos autores no que concerne à classificação tipológica das obras lexicográficas e terminográficas. Estes consideram que a natureza de uma obra e sua identificação no quadro de uma tipologia dependem das relações estabelecidas entre os diversos tipos de obras e os níveis de abstração da linguagem verbal aos quais a unidade lingüística pode pertencer. P. Domínguez, por exemplo, situa os dicionários e léxicos ao nível da língua (sistema); os vocabulários e glossários, ao nível da fala (Domínguez, 1988). Maria Aparecida Barbosa parte das considerações acima e coloca as línguas de especialidade e as unidades terminológicas ao nível da norma, mais especificamente da norma de um universo de discurso. As relações acima são representadas pelas três seqüências sintagmáticas seguintes, propostas pela autora:
a. sistema - universo lexical - lexema - dicionario de lingua;
b. norma(s) - conjunto-vocabulario / conjunto terminologico - vocabulo/ termo - vocabularios fundamentais / vocabularios tecnico-cientificos / especializados;
c. palavra - sistema de palavras - ocorrencia - palavra - glossario.
O dicionário de língua se situaria, assim, segundo a autora, ao nível do sistema lingüístico. Este contém (se exaustivo) o conjunto das unidades lexicais do universo lexical de uma língua, assim como os vocábulos correspondentes aos diversos universos de discurso.
O vocabulário, a seu ver, se situa no nível da norma. Ele recobre um ou mais universos de discurso. O conjunto de vocábulos considerado constitui um conjunto vocabulário, ou seja, um subconjunto do universo lexical. No caso das línguas de especialidade, este conjunto de vocabulário corresponde a um conjunto terminológico, em que o termo é a unidade lingüística padrão. No que diz respeito à caracterização tipológica das obras terminográficas, neste nível encontram-se os vocabulários técnico-científicos e especializados. O glossário se situaria, enfim, no nível da palavra. Ele reúne, segundo Maria A. Barbosa, as palavras-ocorrência de um texto específico.
Esta visão de glossário não é, todavia, consensual entre os especialistas em Terminologia. Com efeito, o Office de la langue française considera a glossário como uma obra que «define ou explica termos antigos, raros ou pouco conhecidos» (Boutin-Quesnel, 1985: 29). O termo glossário é freqüentemente confundido com vocabulário. Esta identificação se explica pela polissemia do termo glossário, que pode ser constatada na definição fornecida pelo Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa:
Glossário. [do lat. glossarius.] s.m. 1. vocabulário ou livro em que se explicam palavras de significação obscura; elucidário. 2. dicionário de termos técnicos, científicos, poéticos, etc. 3. vocabulário que figura como apêndice a uma obra, principalmente para elucidação de palavras e expressões regionais, ou pouco usadas ... . 4. léxico de um autor, que figura, em geral, como apêndice a uma edição crítica... (Ferreira, 1986: 854)
Como podemos observar, o termo glossário é utilizado na linguagem corrente para designar tanto um vocabulário especializado, quanto uma coleção de palavras-ocorrência de um discurso ou de um conjunto de discursos específicos manifestados. A Norma ISO 1087: 1990, em sua versão francesa, não prevê a designação «glossário»; em sua versão em inglês, glossário é o termo tolerado para «vocabulary».
3. Considerações sobre alguns elementos de caracterização tipológica
Um outro elemento que imprime características às obras lexicográficas ou terminográficas é o público alvo. Esse dado determina e distingue os diferentes tipos de obras, como, por exemplo, dicionário para crianças, Aurélio escolar, Larousse pour débutants, etc.
A natureza das informações veiculadas pelo enunciado lexicográfico ou terminográfico também determina as características tipológicas da obra. Assim, se as informações forem de natureza lingüística (semântica, fonética, gramatical, etc.) e extra-lingüística (qualquer informação que vá além do necessário à compreensão de significado da entrada enquanto signo lingüístico) a obra será considerada como um dicionário enciclopédico. Se as informações forem apenas extra-lingüísticas, tratar-se-á de uma enciclopédia.
Segundo o número de unidades lingüísticas que compõem a macroestrutura, uma obra pode ser extensiva ou intensiva (restritiva, seletiva, nos termos de Quemada). Esta caracterização depende da ênfase dada: se se desejar levantar o maior número possível de unidades lexicais/terminológicas de uma língua/ domínio, ou se a maior preocupação do projeto é o de oferecer grande número de informações (definições, etimologia, dados históricos, etc).
O aspecto quantitativo pode constituir uma propriedade essencial das obras lexicográficas e terminográficas. Com efeito, a extensão ou a restrição do número de entradas são, em geral, a expressão de uma escolha tipológica. Critérios quantitativos não deixam, no entanto, de ser também critérios de ordem qualitativa, pois determinam a natureza da nomenclatura e definem tipologicamente as obras. Um tipo de obra lexicográfica caracterizada por esse critério é o vocabulário fundamental. Este constitui um subconjunto lexical composto de um número muito reduzido de vocábulos, resultado da intersecção de conjuntos vocabulares. Com efeito, o vocabulário fundamental caracteriza-se como uma zona de intersecção lexical comum a todos os conjuntos vocabulares colocados em oposição transitiva.
Enquanto obra lexicográfica, o vocabulário fundamental se opõe em extensão e em características tipológicas ao tesouro ou thesaurus linguae. Por estes últimos, compreendemos “dicionário de língua que descreve de maneira exaustiva as unidades de um vasto corpus representativo de uma língua” (Boutin-Quesnel, 1985: 29). O thesaurus linguae «propõe-se a compilar lexemas de alta, média e baixa e ínfima freqüência, de distribuição regular ou irregular entre os falantes, relativos a todas as variações diacrônicas, diatópicas, diastráticas e diafásicas» (Barbosa, 1995:26).
O theasaurus linguae e o vocabulário fundamental se distinguem, assim, pela extensão do conjunto lexical que recobrem. O segundo é, de fato, um subconjunto do primeiro.
Outro elemento fundamental na caracterização tipológica das obras lexicográficas e terminográficas é a disposição das entradas pela forma ou pelo conteúdo. Para que um usuário possa encontrar em um vocabulário a informação que deseja, é-lhe necessária uma chave. Esta é a termo cujo sentido é desconhecido do leitor, que não lhe é, entretanto, de nenhuma utilidade se o leitor não conhecer a organização interna do vocabulário. Em outras palavras, é necessário que o usuário compreenda a ordem de disposição das informações contidas na obra para que ele possa encontrar o que procura. Esta ordem é, portanto, um elemento fundamental para que o vocabulário seja realmente eficaz.
As duas fórmulas clássicas de organização das entradas são pela forma (ordem alfabética) e pelo conteúdo (ordem sistemática). Cada um desses tipos de classificação apresenta vantagens e desvantagens. Segundo Rey-Debove, a classificação alfabética é a mais simples e a mais eficaz das organizações possíveis da nomenclatura de uma obra. Qualquer usuário chega facilmente à unidade lexical ou terminológica desejada, bastando para tanto seguir a seqüência do alfabeto. No inconsciente coletivo do leitor, a principal característica de um dicionário é a ordem alfabética das unidades lexicais descritas (Rey-Debove, 1971: 21-2).
No caso dos vocabulários especializados, a ordem sistemática é um dos mecanismos possíveis de organização das unidades terminológicas. Esta classificação pelo conteúdo tem a vantagem de deixar evidentes as relações semântico-conceptuais estabelecidas entre os termos que compõem a nomenclatura da obra. A principal desvantagem é clara: para poder encontrar a informação desejada, o leitor deve primeiro estudar e compreender a organização interna do vocabulário e somente depois poder utilizá-lo com eficiência. Por esta razão, a ordem sistemática é freqüentemente completada por um índice alfabético.
Algumas autoridades em Terminologia chegam a extremos na defesa da disposição das entradas em uma ordem sistemática. Consideram esse tipo de organização uma característica fundamental dos vocabulários, característica que os distingue dos dicionários. Felber é um deles. Sobre essa questão, o autor diz:
Alguns princípios fundamentais devem igualmente ser elaborados para a compilação de vocabulários por domínios. Assim, um princípio de importância geral é o de que os vocabulários de base de um domínio só podem ser sistemáticos e não alfabéticos. (Felber, 1984: 7)
Para Felber, os vocabulários especializados são então forçosamente organizados a partir de uma classificação sistemática. Esses repertórios são igualmente chamados vocabulários terminológicos ou vocabulários sistemáticos (Felber, 1987: 167).
4. Dicionário e vocabulário na Norma ISO
A distinção acima mencionada encontra na Norma ISO 1087: 1990 a seguinte expressão:
6.2.1. dicionário: Repertório estruturado de unidades lexicais contendo informações lingüísticas sobre cada uma dessas unidades (ISO,1990: 10).
6.2.1.1 dicionário terminológico (termo tolerado: dicionário técnico): Dicionário (6.2.1) que compreende dados terminológicos (6.1.5.) relativos a uma ou várias áreas (2.2.) (ISO, 1990:10).
6.2.1.1.1. vocabulário: Dicionário terminológico (6.2.1.1.) baseado em um trabalho terminológico que apresenta a terminologia de um domínio particular ou de domínios associados (ISO, 1990: 10).
Como podemos constatar, segundo a ISO, dicionário é o termo genérico que designa todas as variedades de obras dessa natureza e, nesse sentido, confirma a concepão de dicionário (enquanto objeto definido) apresentada por Josette Rey-Debove. O dicionário terminológico, por sua vez, é uma obra terminográfica que reúne as unidades terminológicas de um ou vários domínios. O vocabulário é um tipo de dicionário terminológico. Esses dois tipos de obra reúnem unidades lingüísticas pertencentes a uma ou mais línguas de especialidade. A diferença entre os dois se dá, no entanto, pelo fato de que o vocabulário se organiza a partir de um sistema de noções e sua apresentação formal exprime claramente as relações estabelecidas entre estas. No caso dos dicionários terminológicos, esse trabalho sistemático não existe e a classificação dos termos se faz por ordem alfabética.
Pessoalmente não estamos de acordo com essa posição. Achamos conveniente distinguir apresentação formal das obras terminográficas e organização nocional das mesmas. Em nossa opinião, a disposição das entradas seguindo uma orgdem alfabética ou sistemática é uma característica formal das obras, conseqüência de uma escolha do terminógrafo no que diz respeito à apresentação dos verbetes. Não se trata obrigatoriamente, a nosso ver, de uma característica tipológica, ligada à metodologia da pesquisa e da eleboração de vocabulários. Em outras palavras, o fato de que as entradas da obras terminográficas sejam dispostas em ordem alfabética não significa que a organização interna desse vocabulário não se sustente em um trabalho sistemático.
A escolha dos termos que devem compor a nomenclatura, a determinação do conteúdo semântico das definições, assim como o modelo de distribuição da carga sêmica dos enunciados definicionais podem ser estabelecidos a partir de um trabalho terminológico sistemático. Em seguida a esse trabalho, as entradas podem ser organizadas alfabeticamente. Dessa maneira, os termos podem ser analisados e tratados enquanto elementos de um conjunto terminológico que mantém relações semântico-conceptuais muito estreitas e, em seguida, dispostos alfabeticamente. É, assim, evidente que a apresentação alfabética da lista das entradas de um vocabulário não significa obrigatoriamente que cada entrada tenha sido tratada isoladamente. A estreita identificação entre vocabulário-ordem sistemática e dicionário-ordem alfabética não encontra, portanto, a nosso ver, sustentação lógica.
A proposta tipológica da ISO 1087:1990 é suscinta e só apresenta três tipos de obras. Sua classificação não se baseia no nível de atualização da unidade lexical, não pretende recobrir todos os tipos de obras lexicográficas e terminográficas possíveis e, portanto, não entra na discussão sobre o público-alvo, as línguas em jogo, a extensão da nomenclatura ou a natureza das informações veiculadas pelo enunciado lexicográfico ou terminográfico. Seu mérito encontra-se, a nosso ver, justamente no fato de que apresenta tipos básicos e todas as possibilidades de combinações de elementos de caracterização tipológica ficam subentendidos. A única falha, a nosso ver, encontra-se na falta de dialética com que trata a questão da relação vocabulário/ordem sistemática - dicionário/ ordem alfabética. Não apresenta proposta de normalização terminológica para um tipo misto de obra terminográfica.
5. Obras lexicográficas e terminográficas segundo o Office de la langue française
A tipologia proposta pelo organismo quebequense é mais complexa e prevê mais tipos de obras. Baseia-se fundamentalmente no nível de atualização da unidade lexical. Assim, de um lado estão os dicionários e de outro os vocabulários e léxicos. De modo esquemático, podemos visualizar tal classificação da seguinte maneira:
GRUPO A - nível: sistema
1. dicionário
1.1. dicionário de língua
1.1.1. dicionário geral
1.1.2. tesouro (thesaurus)
1.1.3. dicionário especial
1.2. dicionário enciclopédico
1.3. dicionário ilustrado
1.4. dicionário monolíngüe
1.5. dicionário multilíngüe
1.6. dicionário de tradução
1.7. dicionário terminológico
GRUPO B - nível: norma(s)
(obras técnicas, científicas e especializadas)
1. vocabulário
1.1. vocabulário alfabético
1.2. vocabulário sistemático
1.3. vocabulário monolíngüe
1.4. vocabulário multilíngüe
2. léxico
2.1. léxico alfabético
2.1. léxico sistemático
Uma comparação entre as obras presentes nos dois quadros permite-nos dizer que os dicionários equivalem, ao nível do sistema, aos vocabulários, ao nível da(s) norma(s), sejam eles monolíngües ou multilíngües. Cada grupo contém tipos específicos. É o caso dos dicionários especiais no grupo A e dos vocabulários sistemáticos do grupo B.
O mesmo procedimento leva-nos ainda a observar que a classificação não é homogênea no tratamento das obras dos dois grupos. Com efeito, só se prevêem dicionários enciclopédicos ou ilustrados, enquanto que vocabulários também podem ter essas características e não são previstos pelo modelo.
Uma análise intra-grupo permite-nos compreender a diferença entre vocabulário e léxico: o primeiro comporta definições, enquanto que o segundo só contém uma lista bilíngüe ou multilíngüe de termos. No grupo A, esse tipo de distinção não é feita. Fala-se de dicionários monolíngües e multilíngües, todos prevendo definições, mas nenhum tipo «léxico». Consideramos existir aqui uma lacuna, fruto novamente de um tratamento não homogêneo dos dois grupos, uma vez que existem inúmeras obras lexicográficas do tipo «dicionário inglês/português», «dicionário inglês/francês/italiano», etc. Os verbetes destas são normalmente compostos de uma entrada em língua de partida, seguida de seus equivalentes em outras línguas e não contam com definições. O Office não prevê, portanto, léxicos ao nível do sistema.
Ainda dentro de uma perspectiva intra-grupo, pode-se verificar nesta classificação de vocabulários o mesmo problema por nós criticado na Norma ISO 1087:1990, ou seja, não se prevêem vocabulários estruturados sistematicamente e apresentados formalmente em ordem alfabética (alfa-sistemáticos).
A definição de dicionário terminológico não é, a nosso ver, clara e dá margens a diversas dúvidas. Uma primeira questão que poderia ser colocada seria: se esse tipo de obra apresenta a terminologia de um ou mais domínios, não seria um vocabulário? Não estaria ao nível da(s) norma(s)? Seria um dicionário, porque sua nomenclatura estaria organizada alfabeticamente? Nesse caso, poderia ser um vocabulário alfabético. Distinguir-se-ia dos vocabulários por só listar o conjunto terminológico de um ou mais domínios, sem contemplar definições? Não seria, então, mais fácil criar a categoria «léxico monolíngüe», pois desse modo se manteria a coerência no que concerne ao nível da atualização da unidade lexical? Em suma, a nosso ver, a definição e a classificação de «dicionário terminológico» do Office não são claras e põem em questão a coerência de sua proposta geral.
6. Proposta de classificação tipológica
Apoiando-nos nos diferentes modelos analisados acima, gostaríamos de apresentar uma proposta de classificação tipológica das obras lexicográficas e terminográficas, vistas enquanto objeto definido. Os critérios básicos para tal classificação seriam: 1) nível de atualização da unidade lexical; 2) presença ou ausência de definições e/ou dados enciclopédicos.
De acordo com esses critérios, apenas quatro tipos de obras são previstos:
dicionário: nível do sistema - com definições.
vocabulário (técnico, científico, especializado): nível da(s) norma(s) - com definições.
léxico: nível do sistema ou da(s) norma(s) - sem definições e sem dados enciclopédicos.
enciclopédia: nível do sistema ou da(s) norma(s) - sem definições, mas com dados enciclopédicos.
Estes devem ser considerados comos tipos de base, ou seja, a partir dos quais diferentes obras podem ser elaboradas. Alguns elementos contribuem, evidentemente, para a caracterização específica de cada obra em particular, podendo ser combinados entre si ou ser inaplicáveis a certos tipos de obra. Como exemplo desses elementos, podemos citar:
informações veiculadas pelo enunciado lexicográfico ou terminográfico -> dicionários ou vocabulários enciclopédicos, analíticos, críticos. este elemento não se aplica ao léxico.
número de línguas -> monolíngüe, bilíngüe, multilíngüe.
ilustrações: presença de desenhos, fotos, esquemas, fórmulas, gráficos ou outros -> enciclopédias, dicionários, vocabulários ou léxicos ilustrados.
organização do conteúdo: alfabética, sistemática ou alfa-sistemática. nos dicionários e léxicos ao nível da língua, entende-se organização alfa-sistemática o que josette rey-debove chama de dupla macroestrutura, ou seja, no interior de um verbete cuja entrada for classificada de acordo com a ordem alfabética as diferentes acepções (conteúdos) são enumeradas e definidas.
apresentação formal: alfabética ou sistemática.
público-alvo -> para crianças, escolar, para principiantes, etc.
extensão da nomenclatura: -> dicionário, vocabulário, léxico ou enciclopédia de tipo «fundamental» ou thesaurus. no caso deste último, o uso secular do termo consagrou-o como uma obra ligada à língua geral ou à documentação. nada impede, no entanto, que seja também aplicado a obras que procuram abarcar todos os termos de um ou de mais domínios específicos, sendo elas enciclopédicas ou não.
Estes são apenas alguns elementos que podem atribuir características específicas aos quatro tipos básicos acima propostos. Não se trata de uma lista exaustiva, pois a riqueza do universo de obras lexicográficas e terminográficas sustenta-se justamente na multiplicidade de elementos combinados. Outros aspectos caracterizadores de obras podem estar diretamente ligados à macroestrutura (critérios quantitativos ou qualitativos de seleção da nomenclatura) ou ao programa informacional da microestrutura, como por exemplo, os lembrados por Alain Rey em seu modelo genético (Rey, 1977: 54-80, e tantos outros).
7. Conclusão
A partir dos modelos de Josete Rey-Debove, de Alain Rey, da contribuição de Charles Muller acima apresentados, podemos dizer que muitos elementos entram em combinação no momento da elaboração de um projeto lexicográfico ou terminográfico e determinam suas características tipológicas. Uma infinidade de obras diferentes pode ser, então, elaborada de acordo com o número de línguas que prevê, com a natureza das informações veiculadas pelos verbetes, com o público-alvo, com a extensão da nomenclatura e tantos outros elementos. É em torno desse continuum que os lexicógrafos e terminólogos trabalham e tomam decisões sobre as características tipológicas de suas obras.
Não há homogeneidade a nível internacional no que concerne à tipologia de obras lexicográficas e terminográficas e sua terminologia designativa. Em geral, as principais propostas oficiais identificam de maneira estreita sistema de noções-classificação sistemática das entradas.Segundo vários especialistas em Terminologia, um dicionário e um vocabulário se distinguem fundamentalmente pela disposição alfabética do primeiro e pela organização interna baseada sobre um trabalho sistemático do segundo.
A nosso ver, há que se distinguir apresentação formal da nomenclatura de uma obra e organização nocional dos dados terminológicos. Assim, o sistema de noções deve ser identificado a dois aspectos diferentes do trabalho terminológicos: 1. à apresentação dos vocabulários (classificação sistemática das entradas) e 2. a uma metodologia de elaboração de obras terminográficas.
Esta distinção garante uma relação dialética onde as ordens alfabética e sistemática podem ser combinadas e obras de caráter misto podem ser considerados. Acreditamos que modelos de classificação tipológica que pretendam listar os tipos de obras lexicográficas e terminográficas possíveis estão fadados ao insucesso, pois infinitos tipos podem resultar de inúmeras combinatórias diferentes. No que diz respeito à homogeneidade da terminologia designativa desse gênero de obras, o mais importante é, a nosso ver, estabelecer um número reduzido de tipos básicos. A partir destes, cada obra poderá assumir características particulares, de acordo com a combinatória de diferentes elementos.
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[1] P. Barré, Préface au Complément du dictionnaire de l’Académie française. Edition complétée. Paris:Firmin-Didot, 1842, 8º.

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