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1988-2002
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Índice por autores

 

 

Neologia técnico-científica e análise de corpus

Ieda Maria Alves
Universidade de São Paulo
Brasil

 

Introdução

Nesta exposição, denominamos corpus de divulgação um conjunto de textos produzidos por especialistas de uma área de especialidade e dirigidos a um público não-especializado nessa área e a usuários em geral. Em oposição a esse corpus, consideramos como corpus especializado um conjunto de textos produzidos por especialistas e também destinados a especialistas.

Os materiais citados como pertencentes ao corpus de divulgação são constituídos por cadernos de jornais referentes à Agronomia, à Economia e à Zootecnia (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo) e por revistas também dedicadas a essas áreas: Globo Rural (Agronomia e Zootecnia), Conjuntura Econômica e Exame (Economia). No âmbito do corpus especializado, incluímos manuais, periódicos especializados, teses e atas de congressos referentes às mesmas áreas. Esses materiais fazem parte dos dados referentes à coleta sistemática de neologia técnico-científica no âmbito do Projeto “Observatório de Neologismos Científicos e Técnicos do Português Contemporâneo do Brasil”, que desenvolvemos desde 1988 e que visa a coletar neologismos e a elaborar glossários em algumas das áreas de especialidade. Como princípio metodológico, consideramos neológicos os termos não-incluídos em dicionários da língua geral e em dicionários relativos às línguas de especialidade analisadas.

Nossas considerações a respeito das semelhanças e diferenças entre esses dois tipos de corpora, de divulgação e especializado, levam em conta a afirmação de Kocourek (1982, p. 41) de que o léxico é o fato cognitivo e lingüístico mais relevante de uma língua de especialidade. Desse modo, vamos restringir-nos, nesta exposição, aos aspectos relativos à formação dos termos e não levaremos em conta os aspectos discursivos e também sintáticos que podem ser considerados e são igualmente importantes.

 

Análise de corpora: corpus de divulgação e corpus especializado

Procuramos verificar, por meio de neologismos coletados no âmbito do Projeto “Observatório”, e aqui exemplificados através das áreas da Zootecnia e da Economia, se a análise dos dois tipos de corpora, de divulgação e especializado, revela semelhanças ou diferenças do ponto de vista lexical.

Tomemos, inicialmente, dados referentes à Zootecnia.

Observamos que, de maneira análoga a outras línguas de especialidade, neologismos dessa área são constituídos por formações sintagmáticas, que apresentam sobretudo a estrutura substantivo + adjetivo ou substantivo + sintagma preposicionado (substantivo + preposição + substantivo), tanto no corpus especializado:

Ele /Iaro Sakamoto/ trocou a agricultura pela <pecuária leiteira>, depois de plantar café, algodão, milho, amendoim e mamona “porque a terra ficou fraca”. (CA, 12 (3), 1990, p.13, c.1)

como no corpus de divulgação:

O sucesso da marca Candango é típico dessa nova fase da <pecuária do leite> no Distrito Federal, em que os pequenos produtores se livram do cartel do beneficiamento do leite, integrado por grandes laticínios e cooperativas. (GR, 10-93, 96, p. 65, c. 3);

O caminho entre a ordenha e o consumo ficou mais curto em muitos municípios de interior onde as micro e miniusinas ganharam impulso. Os equipamentos de pasteurização e embalamento foram para o campo, colocados ao lado das <salas de ordenha>. (GR, 11-94, 109, p. 38, c.1)

Além dessas características, comuns a todas as línguas de especialidade, a terminologia da Zootecnia apresenta outras peculiaridades, como a formação por meio de siglas, a composição com bases greco-latinas, a derivação com sufixos específicos (-ose, por exemplo) e as referências ao étimo latino. Todas essas características, próprias dos textos especializados, são também encontradas em textos de divulgação, como atestam os exemplos respectivos:

Promovido pela Associação Paulista dos Criadores de Caprinos (APCC), o remate irá ofertar animais <PO>, <POI>, <PC> e reprodutores <PO> das raças saanen, toggenburg, parda e anglo-nubiana, pertencentes a tradicionais criadouros brasileiros. (ESP, 30-09-92, p. 8, c. 4 e 5);

São 6500 quilômetros de um caudal cor de café-com-leite que drena 20% do estoque de água doce do planeta e reúne uma <ictiofauna> de 2 mil espécies – dez vezes maior que a da Europa inteira. Visto do alto, parece a veia central de uma imensa folha verde, retalhada de nervuras líquidas. Sobrevoamos a maior bacia hidrográfica da Terra, recoberta por 6,3 milhões de quilômetros quadrados de florestas, uma área equivalente ao território europeu, excluída a ex-URSS. (GR, 10-94, 108, p. 54, c.1 e 2);

Desta forma, ao se cruzar raças diferentes, as progênies terão os efeitos deletérios dos genes recessivos encobertos pelos genes dominantes e maior taxa de <heterozigose>. (RC, 07-95, 786, p. 16, c.1);

“Se um produtor plantar um feijão com 5% de incidência do fungo da <antracnose> em região úmida e fria, com certeza ele terá problemas; mas se um outro de região quente plantar a mesma semente, a doença pode não se manifestar”, especifica Camargo. (GR, 08-93, 94, p. 60, c.1);

Na verdade, essa não foi a primeira vez que a história de um Wenzel e da apicultura brasileira confundiram-se numa só. A <Apis mellifera ligusta>, a famosa abelha “Europa”, mansa de fácil manejo, chegou ao Brasil na segunda metade do século passado, trazida por imigrantes italianos. Em 1918, o avô dos irmãos Wenzel, casado com dona Rosária Fisher, já explorava um apiário comercial na sua fazenda de café perto de Catanduva, SP. (GR, 04-94, p. 44, c.1)

Em relação à Economia, termos sintagmáticos constituem também o tipo mais comum de formação, conforme atestam os exemplos a seguir, extraídos do corpus de divulgação e do corpus especializado, respectivamente:

Os instrumentos tradicionais da política agrícola: <preços mínimos>, crédito rural, preço de liberação do estoque, equivalência-produto, tarifa compensatória ou política comercial, estão, após a Lei Agrícola, orientados para promover maior competitividade e abertura no mercado agrícola. (CE, v. 48, 09-94, p. 42, c. 1);

A Tabela 25.1 da página 370, por exemplo, apresenta alguns dados sobre a <macro-distribuição da renda>: a parcela da renda nacional que é apropriada por todos os que recebem salários e ordenados (isto é, para o trabalho como fator de produção). (Lipsey, 1986, p. 442)

Formações com siglas transparecem também nos dois corpora, o jornalístico:

A inflação de novembro, medida pelo <IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado)> da Fundação Getúlio Vargas, alcançou 2,85%, um aumento de 1,03 ponto percentual em relação ao mês anterior. O <IGP-M> é composto pelo <IPA (Índice de Preços por Atacado)>, <INCC (Índice Nacional de Custo de Construção)> e <IPC (Índice de Preços ao Consumidor)>. (FSP, 04-12-94, p. 2.2, c. 6);

Ao criar os <Fundos de Investimento Financeiro (FIFs)> neste mês, o governo quis induzir ao alongamento dos prazos das aplicações financeiras, adaptando-as aos novos tempos de estabilidade econômica. Na prática, porém, está ocorrendo o inverso. (FSP, 22-10-95, p. 2.1, c. 2)

e o especializado:

O <custo variável médio (CVM)> é igual ao custo variável dividido pelo produto, ou seja CVM = CV/q. Como pode observar tanto no Quadro 8-3 como na Figura 8-2(b), neste caso a CVM primeiro diminui e depois aumenta. (Samuelson & Nordhaus, 1991, p. 143)

Características próprias da terminologia da Economia, como o recurso à formação neológica de caráter derivacional, são igualmente comuns aos dois tipos de materiais. Assim, do ponto de vista da sufixação, a produtividade do formante sufixal -ção é observada nas formações neológicas típicas do material jornalístico:

O bom senso manda incluir uma expressão pouco charmosa (“Rodada Uruguai”) como um marco no processo de <globalização>. A “Rodada Uruguai” começou em 1986 em Montevidéu (daí o nome), arrastou-se por quase oito anos e terminou com o mais abrangente pacote de redução das barreiras ao comércio planetário. Seu impacto mais visível e até certo ponto quantificável surge da redução das tarifas alfandegárias para importações. (FSP, 02-11-97, Especial, p. 8, c. 1);
3) Existe ainda uma outra diferença fundamental entre os planos Cruzado e o atual. (...) No atual, espera-se outro repique de preços após a morte anunciada do cruzeiro real, que se não for absorvido pelos índices, poderá acabar de engolir o ganho obtido com a <urvização> dos salários. (FSP, 08-05-94, p. 2.7, c. 3);

e ainda em obras especializadas:

A <monopolização> de uma indústria, combinada com um conseqüente aumento de eficiência que seja suficientemente grande, pode resultar numa queda do preço e numa elevação da quantidade produzida, em comparação com a indústria em concorrência perfeita. (Lipsey, 1986, p. 334)

Outro formante afixal bastante produtivo entre as formações neológicas da área da Economia, o prefixo des-, é igualmente comum aos dois tipos de corpora:

O segundo fator – do nosso ponto de vista, um dos principais determinantes da reversão do saldo – está no <desaquecimento> do ritmo de crescimento da economia. (CE, v. 50, 01-96, p. 19, c. 1);

A receita operacional das empresas do setor também melhorou depois das privatizações, embora a um ritmo menos brilhante. Em 1990-91, foi de 14,6 bilhões, a preços de maio de 1996; entre 1992-96 subiu para R$ 17,6 bilhões. Entretanto, caiu para projetados R$ 11,9 bilhões em 1995-96, certamente em função da grave <desaceleração econômica> imposta recentemente pelo governo para garantir a estabilidade monetária. Assim, quando se compara o faturamento do setor nos períodos 1988-91 e 1992-96, observa-se uma retração de 19,5%. (CE, v. 50, 10-96, p. 28, c. 2)

Nesses exemplos, extraídos do corpus de divulgação, o formante prefixal associa-se a bases provenientes da língua geral – aquecimento e aceleração – que recebem, na terminologia da Economia, um significado específico dessa área. Nos exemplos do corpus especializado que a seguir apresentamos, ao contrário, o formante junta-se a bases específicas da atividade econômica (economia e poupança):

Se um barril de ácido é despejado num rio irá matar peixes e plantas. Se esta destruição não for paga a ninguém, ocorre uma <deseconomia externa>. Quando é descoberta uma forma melhor de limpar os derrames de petróleo, será proporcionado um benefício a muitos indivíduos que não o pagam. Isto é uma economia externa. (Samuelson & Nordhaus, 1991, p. 361);

<Despoupança> Poupança negativa; ocorre quando o consumo desejado excede a renda; as famílias contraem débitos ou recorrem a poupanças passadas para cobrir suas despesas. (Byrns & Store, 1997, p. 488)

No âmbito da derivação, se os neologismos constituídos com -ção e des- mostram formações similares nos dois corpora, observamos também que, em relação ao registro da intensidade, o corpus de divulgação apresenta termos formados com mega-, que é muito produtivo na língua geral:

Prova maior dos altos riscos envolvidos nestes mercados é que até <megaespeculadores> queimaram as mãos neles no final de março. George Soros, 63, dono do fundo Quantum Emerging Grouth (estimado em US$ 11 bilhões), deixou para trás US$ 600 milhões no dia 14 de fevereiro (primeira alta de juros nos EUA após cinco anos) ao empenhá-los na aposta de que o dólar subiria em relação ao iene. (FSP, 17-04-94, p. 2.12, c. 2)

Já no corpus especializado, de maneira contrária, a intensidade é marcada pelo formante macro-, que também participa da formação do termo macroeconomia, designativo de uma das subáreas da Economia. Outros exemplos de formações com macro-:

A Tabela 25.1 da página 370, por exemplo, apresenta alguns dados sobre a <macro-distribuição da renda>: a parcela da renda nacional que é apropriada por todos os que recebem salários e ordenados (isto é, para o trabalho como fator de produção). (Lipsey, 1986, p. 442);

Os descompassos de pagamentos causados pelo desequilíbrio podem ser sanados através de <macroajustes> da demanda agregada que mudam o Produto Nacional Bruto – PNB (PQ) nominal. (Byrns & Store, 1997, p. 452)

No que concerne às formações compostas, observamos, sobretudo, características comuns aos dois corpora.

Termos compostos com dois substantivos são encontrados tanto no corpus de divulgação (moeda-lastro, efeito tequila, efeito-cascata, efeito-dominó) como no corpus especializado (moeda-mercadoria, mercadoria-moeda, efeito-preço, efeito-renda, efeito-substituição), apresentando, em comum, as mesmas bases (moeda e efeito):

O “currency board” é uma autoridade monetária simples. Ele emite uma moeda sob sua chancela, para circulação local, contra o recebimento de dólares ou de outra moeda escolhida como âncora.
(...) A regra de operação básica do “currency board” é estabelecer uma taxa de câmbio e manter conversibilidade da moeda que emite contra a <moeda-lastro>. (FSP, 03-10-93, p. 2.2, c. 3);

<Moeda-Mercadoria> Tem valor substancial independentemente de quanto comprará. Moedas de ouro e prata são exemplos. (Byrns & Store, 1997, p. 493);

Precisamos de mais uma equação para determinar os preços da produção ... A proposição óbvia do espírito do sistema marxista é que a soma dos preços é igual à soma dos valores. Esta não é uma tese tautológica nem sem sentido. Marx afirma que a soma de todos os preços só varia na medida em que varia o número de horas necessárias para a produção agregada ou o valor da <mercadoria -moeda>. (Hunt, 1982, p. 273);

O movimento traz tranqüilidade a toda a América Latina, pois temia-se que a fuga de capitais iniciada com a crise mexicana de 94 se espalhasse pela região, colocando em risco planos econômicos de diversos países, inclusive o brasileiro. Era o chamado <“efeito tequila”> que não mais assusta, segundo o “The New York Times”. (FSP, 07-07-96, p. 2.3, c. 1);

Fiesp teme que o início das demissões nas montadoras de veículos se transforme em <efeito-cascata> e agrave o desemprego em outros setores da indústria.
(...) A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) prevê um processo de “demissões em cascata” nos próximos dois meses, na esteira do recente anúncio de cortes de mão-de-obra na indústria de veículos. (FSP, 27-08-95, p. 2.1, c. 1 e p. 2.6, c. 2);

As intervenções fizeram o BCP injetar recursos da ordem de US$ 162,5 milhões no mercado financeiro, para evitar o chamado <“efeito-dominó”> com a falência de corretoras e financeiras. (FSP, 18-06-95, p. 2.8, c. 3);

Pode haver substituição onde X tiver elasticidade de preço igual a zero mas não é neutro a alterações na renda real. Neste caso, X deve ser um bem inferior, de vez que, com uma alteração no preço, o <efeito-preço> deve ser compensado por um <efeito-renda>. (Musgrave, 1973, p. 190);

O <efeito-substituição> demonstra como o consumidor realoca suas compras, quando se modificam os preços relativos dos bens, independentemente de haver uma modificação direta na sua renda. Mostra, portanto, como os consumidores vão comprar mais dos bens cujos preços relativos baixaram, com o objetivo de substituir os que ficaram relativamente mais caros. (Garófalo & Carvalho, 1994, p. 85)

De maneira análoga ao que se verifica em outras terminologias, a Economia apresenta muitos termos, de caráter simples ou complexo, em que ocorre a passagem de unidades lexicais da língua geral ou de termos de outras terminologias para essa área, criando-se, assim, novos termos gerados pelo processo da neologia semântica.

Esse procedimento, muito comum no corpus de divulgação, constitui uma das características do economês, a linguagem econômica utilizada nos meios de comunicação de massa e que visa a informar o público não-especializado em Economia. Nos exemplos que a seguir apresentamos, coletados em materiais jornalísticos, unidades lexicais da língua geral como fundo do poço e pico recebem um outro significado e, desse modo, passam também a integrar a terminologia da Economia:

Como as categorias das 12 datas-bases recebiam reajuste expurgado (inflação menos 10 pontos) durante três meses e a recomposição no quarto mês em períodos distintos, o salário real (calculado em URV ou dólar) se situava no <”pico”>, próximo à média ou no <”fundo do poço”> em fevereiro. A URV deixou todos na média. (FSP, 27-03-94, p. 2.9, c. 2)

A unidade lexical bolha passa igualmente a integrar a terminologia econômica ao ser especificada pelo sintagma proposicionado de consumo:

<Bolha de consumo> é o aumento de consumo que geralmente ocorre após um congelamento de preços. Como há incerteza sobre o êxito do controle da inflação, os consumidores procuram estocar produtos antecipando a volta ou a aceleração da inflação. (FSP, 11-08-91, p. 3.10, c. 5)

Observam-se, ainda, termos formados com um substantivo determinado, próprio de outra terminologia (âncora, da terminologia relativa à marinha; ataque, da terminologia bélica; paraíso, da terminologia religiosa), que, acrescidos de um adjetivo característico da Economia, passam a fazer parte desse vocabulário:

<Âncora cambial> é uma coisa: basicamente, significa manter o câmbio fixo e ter reservas para defender a moeda. (FSP, 05-02-95, p. 2.5, c. 1);

<Ataque especulativo>
Investidores estrangeiros escolhem um país para investir, considerando a rentabilidade e a segurança. Convertem suas moedas fortes (dólar, em geral) em moeda local (o real, no Brasil). Em moeda local, eles compram ações na Bolsa ou títulos de renda fixa. Quando um investidor (ou um grupo de investidores) percebe que a economia do país-alvo não é capaz de arcar com a remuneração que tem atraído o capital começa a vender ações e títulos. Com o dinheiro obtido, passa a usar a moeda para comprar uma grande quantidade de dólares. O aumento pela demanda de dólares valoriza a moeda estrangeira, o que pode levar a uma desvalorização da moeda local (o caso da Tailândia) ou o aumento da taxa de juros (Hong Kong). (FSP, 30-10-97, p. 2.8, c. 2, 3 e 4);

A onda do momento entre os sonegadores é a “bicicleta”. A operação é feita na hora, por fax. O interessado deposita cruzeiros reais no Brasil e recebe, na mesma hora, o equivalente em dólares no exterior. Com os dólares compra uma empresa em algum <paraíso fiscal> (países que têm sua receita na oferta de serviços desse tipo) e a movimentação é feita em seu nome. (...) “Um <paraíso fiscal> é um território independente, sem economia interna. Por isso, sobrevive de vender serviços financeiros.” (FSP, 30-01-94, p. 2.10, c. 1)

Embora com menos freqüência, esse mesmo procedimento é também encontrado em materiais pertencentes ao corpus especializado. Assim, termos característicos do economês, como pico, são encontrados nesse corpus:

<Pico> (Boom) Fase do ciclo dos negócios em que as medidas da atividade econômica estão em seus pontos altos. (Byrns & Store, 1977, p. 494)

Se no corpus de divulgação encontramos bolha de consumo, no corpus especializado é também empregado o substantivo determinado bolha, que é especificado pelo adjetivo especulativo, característico da terminologia econômica:

<Bolhas Especulativas>. A nossa análise pressupôs que os especuladores, investidores e companhias de seguro fazem previsões razoavelmente boas sobre os acontecimentos incertos. Desde que façam previsões adequadas, os especuladores de carne e ossos desempenham uma função estabilizadora útil, tal como o fazem os institutos do Estado que ajudam a recolher e a difundir dados com base nos quais são feitas aquelas previsões privadas inteligentes. (Samuelson & Nordhaus, 1991, p. 236)

Procedimento análogo ocorre com armadilha da liquidez, em que se observa a especificação da unidade lexical armadilha por meio do sintagma preposicionado da liquidez:

Em nível agregado, os investidores têm expectativas diferentes, de modo que, para cada taxa de juros, haverá investidores que aplicam seus recursos em moeda enquanto outros aplicam em títulos. Porém, se a taxa cair a um nível demasiado baixo, a demanda por títulos tornar-se-á nula enquanto que a demanda por moeda se torna infinita. Esse fenômeno é denominado <“armadilha da liquidez”>. (Leite, 1994, p. 126)

Outros exemplos, encontrados igualmente nos materiais especializados, atestam o procedimento da neologia semântica por meio do emprego de recursos metafóricos. A título de ilustração, apresentamos os termos mão invisível e custo da sola de sapato, que denotam, respectivamente, um ajuste realizado automaticamente e o custo material representado pela necessidade de idas constantes ao banco:

<Mão invisível> Termo utilizado por Adam Smith para ajustes automáticos do mercado na direção do equilíbrio. (Byrns & Store, 1997, p. 493);

Se as pessoas retêm, em média, saldos monetários baixos, elas terão que dirigir-se com maior freqüência ao banco para fazer retiradas – elas podem, por exemplo, retirar US$ 50 duas vezes por semana, em lugar de US$ 100 uma vez por semana. O inconveniente causado pela reduzida retenção de moeda é chamado, em sentido figurado, o <custo da sola de sapato>, porque, tendo que ir freqüentemente ao banco, as pessoas gastam a sola do sapato mais rápido. (Mankiw, 1992, p. 114 e 5)

Empréstimos oriundos de línguas estrangeiras são comumente observados em todas as terminologias. Em relação à Economia esse fenômeno também ocorre, porém de maneira distinta nos dois tipos de corpora.

Bastante freqüentes no corpus de divulgação, empréstimos do inglês constituem uma outra característica do economês:

Dessa vez as novidades foram as medidas que buscam cercar os mercados alternativos de aplicação de recursos das instituições financeiras, como as notas promissórias <(commercial papers)> e a limitação do crescimento dos estoques de títulos privados em poder do sistema financeiro. (CE, v. 49, 06-95, p. 10, c. 1);

O problema é que na passagem do regime de taxas de câmbio indexadas com acumulação de reservas para o de taxas flutuantes (ou quase, ocorre o fenômeno conhecido em economês como <overshooting>: o dólar cai a curto prazo abaixo da sua posição de equilíbrio a médio e longo prazo. Ou seja, esta última taxa, se não chega à paridade de 1 para 1, também não é tão baixa quanto 85 centavos de real para dólar. (Ex, 21-12-94, p. 13, c. 1)

Também empregados nos materiais especializados, os empréstimos aí são, no entanto, bem menos freqüentes do que no corpus de divulgação. Alguns exemplos, extraídos do corpus especializado:

Muitos empréstimos são concedidos à taxa preferencial <(prime rate)>. Trata-se de uma taxa fixada por cada banco para grandes empréstimos a seus melhores clientes. As taxas preferenciais de vários bancos tendem a se deslocar juntas. (Mayer et alii, 1993, p. 156);

Entretanto, podemos ainda efetuar comparações entre ativos, verificando seus retornos esperados. Retorno esperado sobre um ativo é apenas o valor esperado do seu retorno (isto é, o retorno que ele deveria proporcionar em média). Em alguns anos o retorno realmente praticado <(actual return)> por um ativo poderia ser muito mais alto do que seu retorno esperado, enquanto em outros anos poderia ser muito menor, entretanto, no decorrer de um longo período o retorno médio deveria estar próximo do seu retorno esperado. (Mankiw, 1992, p. 203)

Outra característica de algumas terminologias, a formação com epônimos, aparece em nossos registros apenas no corpus especializado, de que extraímos alguns exemplos:

<Curva de Phillips>: Relação inversa entre inflação e desemprego; em sua forma moderna, uma relação entre inflação, desemprego cíclico, inflação esperada e choques de oferta, derivada da curva de oferta agregada de curto prazo. (Mankiw, 1992, p. 341);

<Equação de Fisher>: Equação que mostra que a taxa de juros nominal é a soma da taxa de juros real e da inflação esperada. (i = r + pe). (Mankiw, 1992, p. 342)

 

Considerações finais

Concluindo esta exposição a respeito das semelhanças e diferenças entre a terminologia empregada em dois tipos de corpora, de divulgação e especializado, exemplificadas por meio das áreas da Zootecnia e da Economia, pudemos constatar que os dados analisados apresentam sobretudo relações de similaridade. Desse modo, se sabemos que não existem fronteiras rígidas entre a língua geral e as línguas de especialidade, os dados do corpus de divulgação, mais próximos da língua geral, revelam também que suas características são igualmente encontradas nos materiais mais especializados. As diferenças verificadas entre os materiais de divulgação e os materiais especializados, pouco acentuadas, demonstram, assim, que tampouco existem fronteiras rígidas entre corpus de divulgação e corpus especializado do ponto de vista lexical.

 

Bibliografía

Byrns, Ralph T. & G. Store (1997). Macroeconomia. São Paulo: Makron Books.

Garófalo, G. de L. & L.C.P. Carvalho (1994). Teoria microeconômica. 2ª ed. São Paulo: Atlas.

Hunt, E. K. (1982). História do pensamento econômico. Trad. José Ricardo Azevedo et alii. Rio de Janeiro: Campus.

Kocourek, R. (1991). La langue française de la technique et de la science. 2è éd. Wiesbaden: Oscar Brandstetter Verlag GMBH.

Leite, J. A. (1994). Macroeconomia. São Paulo: Atlas.

Lipsey, R. (1986). Introdução à economia positiva. São Paulo: Martins Fontes.

Mankiw, N. G. (1992). Macroeconomia. São Paulo: LTC.

Mayer, T. et alii (1993). Moeda, bancos e a Economia. Rio de Janeiro: Campus.

Musgrave, R. (1974). Teoria das finanças públicas. Um estudo de economia governamental. Trad. Auriphebo B. Simões. São Paulo: Atlas, Vol. 1.

Samuelson, P. A & W.D. Nordhaus (1993). Economia. Lisboa: McGraw-Hill.

 

Revistas e jornais:

CA (Casa da Agricultura)
CE (Conjuntura Econômica)
ESP (O Estado de S. Paulo)
Ex (Exame)
FSP (Folha de S. Paulo)
GR (Globo Rural)
RC (Revista dos Criadores)

 

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