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O trabalho terminológico na área de política cultural
Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo
Escola de Comunicações e Artes
Universidade de São Paulo
Brasil
O Observatório de Políticas Culturais, sediado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, tem como objetivo geral analisar os processos de produção, circulação, troca e recepção de bens culturais. Tal objetivo relaciona-se ao fato de não existir dados quantitativos sistematizados sobre o sistema de produção cultural brasileiro, em particular no que diz respeito ao consumo cultural. Como conseqüência, na elaboração de políticas culturais prevalecem decisões de natureza teórica e ideológica sobre aquelas extraídas da observação direta da realidade e manifestadas pelo público a que essas políticas se destinam. É preciso salientar, no entanto, que apenas dados quantitativos não bastam para retratar necessidades, desejos e tendências de uma comunidade. É necessário também desenvolver instrumentos de investigação de seu imaginário cultural (pesquisa qualitativa). Tais pesquisas, entretanto, não existem de forma plenamente operacional para os objetivos de política cultural. Neste sentido, as pesquisas de campo ora desenvolvidas são firmadas sobre bases ainda consideravelmente aleatórias. Acrescenta-se a tudo isso o fato de que o domínio das Políticas Culturais apresenta um corpo conceitual em vias de fixação. Como área emergente, seu vocabulário apresenta variações, quer de termos próprios, quer de termos tomados de empréstimo.
Para viabilizar e subsidiar suas pesquisas, o Observatório vem desenvolvendo dois trabalhos de natureza terminológica: o Glossário de termos utilizados na estatística do consumo cultural e o Dicionário Terminológico de Políticas Culturais.
O Glossário de termos utilizados na estatística do consumo cultural
A pesquisa de consumo cultural visa determinar os hábitos de consumo dos estudantes da Universidade de São Paulo e a existência ou não de fatores da vida universitária que os modifiquem. Envolve o estudo do fenômeno de significação - construção da representação/o bem cultural - e do fenômeno de comunicação (acesso, recepção, etc.). Com isso pretende-se transformar imagens que habitualmente são de significação em imagens de comunicação capazes de orientar e inspirar políticas culturais.
Tradicionalmente, o consumidor de cultura é visto como um cidadão que absorve informação de forma linearizada. Considera-se, de fato, que apenas o produtor tenha uma idéia do processo de circulação. Semelhante concepção, no entanto, poderá ser questionada, caso os resultados obtidos pela pesquisa permitam pensar o consumidor como produtor de sentido. Anula-se, assim, a idéia funcionalista de que a mensagem tenha apenas um impacto direto, substituindo-a por uma abordagem da circulação que integre o sujeito e suas relações aos sistemas formadores de sentido, dos quais os produtores de bens culturais, embora importantes, são apenas um deles.
Sob tal ponto de vista, as Políticas culturais, além das funções que lhe são inerentes, exercem o papel de orientadoras de hábitos, já que aprendemos a ser consumidores e a sê-lo de maneiras diferentes, no convívio com o bem cultural, segundo diferentes cenários.
Na pesquisa relativa aos hábitos culturais do estudante universitário pretende-se coletar dados estatísticos que permitam entender a experiência do consumidor, isto é, os modos de apreensão do bem cultural, circunscritos pela cultura, ou seja, pelas cadeias de recepção. De modo resumido, portanto, não se pretende empreender um estudo da cultura, mas uma abordagem dela a partir da emissão e da sua recepção, isto é, da produção, circulação e consumo de bens culturais.
Com isso, afirma-se que a recepção é necessariamente mediatizada. Para operar com essa hipótese, utilizaremos três categorias para a elaboração do instrumento de pesquisa de campo. Eles são:
a) mediações de referência: sexo, idade, extrato sócio-econômico, grupo social, lugatr social, etc...
b) mediações situacionais: instituição que oferece a mensagem, lugar, espaço, tempo, valor, econômico, possibilidades de interação adequada (nº de pessoas, conforto, segurança) etc...
c) mediações cognitivas: existência ou não de conhecimento prévio determinante das formas de interpretação do bem cultural.
A partir de tais mediações, o glossário determinará a compreensão de termos utilizáveis na estatística de consumo cultural.
Para se elaborar a listagem de termos estabeleceram-se, de início, classes pertinentes para o estudo. São elas: objeto cultural consumido, modalidades de consumo (ocasional/habitual), motivações do consumo ou do não consumo e quantidade de consumo. Nesse sentido, "hábito" de consumo será um dado composto a partir das relações estatísticas entre quantidade, modo e objeto. Com o campo "motivações"pretende-se dar conta das questões da circulação do bem cultural.
A listagem dos termos obedecerá à distribuição que apresentam nas respectivas classes. Procura-se, com isso, garantir que cada termo tenha uma interpretação estatística bem definida.
Funcionalmente, o referido glossário será utilizado para traduzir conceitos da área em questão a serem utilizados como dados informacionais estatísticos necessários não só para a coleta de dados - via aplicação de questionários - mas também para o ordenamento e planejamento de políticas culturais. Destina-se, portanto, a converter a linguagem do consumo cultural em linguagem sistêmica bem como retraduzi-la para a linguagem que lhe serve de objeto.
Estruturalmente, o Glossário é um vocabulário controlado de termos, destinado a um público específico - planejadores, pesquisadores e técnicos - que utiliza dados estatísticos para seu trabalho e tomada de decisões. Nesse sentido, o instrumento não operará com a compreensão global dos significados da linguagem de consumo cultural, restringindo-se àqueles que têm utilização estatística evidente.
Nesse sentido, o glossário funcionará como um código intermediário para a determinação de interpretação de dados estatísticos e, vice-versa, para a codificação estatística de noções e conceitos. Assim, permitirá interpretar, segundo o universo de referência (necessariamente explícito), a "ida semanal a cinema, teatros etc...", "número de obras lidas e sua natureza", se são compradas, obtidas por empréstimo de particulares ou de instituições, (se públicas ou privadas)", nível de escolaridade e suas correlações, caso existam, com o consumo cultural, chegando até a definição das modalidades de consumo, suas possíveis relações com o modo de produção e concepção dos sistemas de troca.
O presente Glossário será utilizado para:
1. formatação de questionário de levantamento de dados;
2. análise e interpretação dos dados informacionais estatísticos;
3. padronização da linguagem de apoio à linguagem estatística cultural (de consumo e de política culturais);
4. normalização da prática comunicacional entre pesquisadores.
Dicionário Terminológico de Políticas Culturais
Por tratar-se de área emergente, o domínio das políticas culturais expressa-se com uma linguagem que muitas vezes se apresenta como puro fenômeno de significação, de modo que as variações do significado de uma noção vão desde a mais completa identidade até uma radical diferença. Nesse quadro, o aumento contínuo do número de termos da área não é apenas consequência do seu desenvolvimento mas efeito da ausência de fixação terminológica. Por essa razão, a elaboração de instrumentos terminológicos é de importância básica não só para a compreensão dos conceitos presentes nos procedimentos, produtos e técnicas da área mas também para o intercâmbio informacional entre pesquisadores, o que, espera-se redundará num eficiente desenvolvimento do estudo das políticas culturais e de suas práticas, com benefícios para a sociedade.
Os procedimentos utilizados para o desenvolvimento de nossa pesquisa são de natureza terminológica e, ao contrário do lingüístico, partem do conteúdo nocional das expressões para estudar as denominações. No caso das linguas de especialidade, as formas lingüísticas atualizam-se como termos, materializando-se num contexto ou numa situação de discurso. Sendo assim, no termo, sua extensão semântica define-se mais em relação ao significado do que ao significante. No decorrer do trabalho terminológico não se questiona o que significa uma forma lingüística mas, ao contrário, toma-se uma noção e em seguida procura-se a forma lingüística que a representa. Resulta daí o postulado da prioridade da noção sobre a denominação que caracteriza, sob o ponto de vista teórico o trabalho terminológico como sendo simultaneamente lingüístico e filosófico.
Seguindo tal pressuposto, a pesquisa terminológica não visa detetar fatos isolados, abstrações separadas do todo. Persegue antes a compreensão do sistema conceitual, isto é, a modalidade da relação entre os conceitos, a interação que mantêm entre si e a conexão que estabelecem com o domínio, expresso como todo que cria a si mesmo na interação de suas partes. É por essa razão que se agrupam os conceitos em domínios logicamente relacionados, analisando-os segundo sua extensão e intensão, classificando-os segundo as relações que mantêm entre si.
Neste sentido, o trabalho terminológico não só supõe a separação do conceito de suas formas de expressão mas também, ao promover a uniformização semântica, estabelece que os seus produtos - dicionários e glossários - não se apresentam como o depositário de todos os usos específicos que se fazem dos termos. Para neutralizar, em parte, esse aspecto, na elaboração do Dicionário Terminológico de Política Cultural, ao lado da preocupação com a elaboração do sistema conceitual, propomo-nos a resgatar as categorias de tempo e espaço, através da localização e datação dos registros. Assim, embora o dicionário não contemple as posições relativas de produtores e usuários, propiciará a compreensão do conceito em uso como resultado de um processo. Exemplificando: a palavra [humanitas] assume pelo menos dois significados distintos, necessários para entender o termo humanismo. Nesse caso, o registro deve contemplá-los, ou seja, ambos os significados devem ser resgatados: o primeiro, relacionado com o homem e o que é menos que este; o segundo, relacionado com o homem e que é mais que ele. "No primeiro caso, [humanitas] significa um valor, no segundo, uma limitação" (Panofsky, 1976, p. 20). Cristaliza-se, dessa maneira, ao nível dicionarial, o conceito de humanismo que supõe a antítese clássica e a antítese medieval.
O Dicionário Terminológico exercerá duas funções: a descritiva (nível cognitivo) e a normalizadora (nível comunicacional). A primeira relaciona-se à determinação da classe referencial das categorias estabelecidas e se impõe como objetivo imediato do presente trabalho uma vez que a organização dos termos que expressam as categorias da área de política cultural face aos seus referentes subsidiará a elaboração das técnicas operacionais já referidas. A segunda função, a normalizadora, ultrapassa os limites desta pesquisa já que a área não apresenta um dicionário monorreferencial que permita simultaneamente a comunicação eficiente entre especialistas e o conhecimento do domínio (quais são as denominações adequadas, quais são as incorporações abusivas de noções e de termos, quais as denominações ausentes etc.).
Justifica-se a elaboração do dicionário porque o léxico (e todo o trabalho que sobre ele se faz) funciona como índice caracterizador de uma especialidade. Assim, numa área onde inexistem instrumentos de natureza terminológica, a elaboração do dicionário redundará na fixação de paradigmas designacionais (regularidades e variabilidade) considerados de extrema importância para o avanço da produção de conhecimento na área da especialidade, à medida que dispõe o universo para o desenvolvimento e o confronto de idéias.
Estruturalmente, o dicionário promoverá uma classificação conceitual da área. A descrição de uma noção, por exemplo "Museu", deve evidenciar os traços que a articulam à área de especialidade. Assim, a referida palavra que no senso comum tem a atribuição nocional "lugar destinado ao estudo, à reunião e à exposição de obras de arte, de peças e coleções científicas ou objetos antigos", ao integrar o paradigma designacional da especialidade terá atribuída a noção: "instituição cultural destinada à armazenar bens culturais, com o intuito de preservar e cultuar dois valores nele reconhecidos: o econômico e o cultural-educacional, vistos como não necessariamente dissociados". Através desses registros, observa-se, de um lado, a existência de pelo menos dois "objetos" denominados "museu" e a caracterização daquele privilegiado pela especialidade. De outro, impõe-se uma relação conceitual no discurso da especialidade entre "museu" e "instituição cultural", o que obriga a proceder a uma equivalência por extensão desta última com "instituição gerida pelo estado ou por uma classe, destinada prioritariamente à preservação cultural e/ou divulgação cultural".
A metodologia utilizada para a elaboração do dicionário, baseada nas normas ISO 1087 e ISO 704, comporta as seguintes etapas:
1. Delimitação inicial do domínio (caráter provisório)
2. Coleta de documentação e consulta à especialistas
3. Estabelecimento de uma organização do domínio: conjunto de redes nocionais que devem ser tratadas, com o objetivo de determinar o contexto relacional de análise. Determinação do geral e do específico e das ramificações mais complexas.
4. Expansão da representação do domínio
5. Estabelecimento dos limites da pesquisa terminológica
6. Determinação do número aproximado de noções
7. Determinação dos domínios conexos
8. Levantamento da nomenclatura: coleta de termos
9. Estabelecimento do conjunto de termos propriamente dito
10. Definição terminológica
11. Determinação e explicitação de fontes
12. Normalização
13. Classificação alfabética
14. Composição final
Para gerenciar a elaboração do dicionário serão utilizados os aplicativos GLOSS e TECER, ambos desenvolvidos pelo IBICT.
No presente momento, a partir da delimitação do domínio, elaboramos uma Bibliografia de Políticas Culturais, da qual constam as obras disponíveis na cidade de São Paulo, em instituições de ensino e pesquisa. É uma bibliografia localizada, com aproximadamente 500 obras assim organizada:
a. entrada por nome de autor
b. classificação temática
c. índice de palavras significativas do título da obra.
Tal bibliografia, denominada "Bibliografia disponível de Políticas Culturais", encontra-se disponível no Observatório.
Semelhante bibliografia funciona como fonte para o levantamento da nomenclatura e dos conceitos da área. Para cada termo elabora-se um conjunto de enunciados que, posteriormente, serão normalizados como características constitutivas. Os conceitos gerais, após essa fase, serão objeto de comentários de especialistas da área. Com isso pretende-se que os conceitos gerais encontrem-se bem distinguidos e formando um conjunto que reflita com clareza os limites da área.
Bibliografia
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