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Normalização de empréstimos lingüísticos no português

João Dino F. P. dos Santos
Universidade de Brasília
Brasil

 

Introdução

A ocorrência de empréstimos lingüísticos de origem francesa e inglesa nas terminologias dos mais diversos domínios técnicos e científicos tem sido uma constante na língua portuguesa e, por isso, merece atenção não só dos lingüistas, mas também dos terminólogos e pesquisadores interessados em estabelecer uma Política para a Língua Portuguesa. Com efeito, são inúmeros os termos de origem estrangeira que acabam por integrar-se ao léxico e às terminologias do português sem que tenham passado por um processo de normalização. Alguns já foram aportuguesados ou têm equivalentes, tais como, filme, transistor, boutique, arranha-céu (sky-scraper), disco-voador (flying-saucer), mas outros são mantidos na forma original da língua de origem, como 'megabytes', 'timer' e 'overnight' (Carvalho 1989).

Nem mesmo o Novo Dicionário Aurélio tem um padrão para adequar os empréstimos à língua. É possível encontrar termos como 'agrement' e 'backup' e termos como 'borderô' - de borderau - e 'copirraite' de 'copyright' - sem que haja qualquer justificação para a forma de adaptação destes aos padrões fonológico, ortográfico e morfossintático do português ou para a manutenção daqueles tal qual se encontram na língua de origem.

Esse é um demonstrativo de que se, por um lado, ratifica a ausência de critérios normalizadores para os empréstimos no português, por outro, reforça a necessidade de que o assunto seja tratado à luz da interpretação dos fenômenos lingüísticos.

O trabalho ora apresentado tem, assim, o objetivo seguinte: estabelecer regras de normalização lingüística para os empréstimos, conforme os critérios fonológicos, ortográficos e morfossintáticos da língua portuguesa. Nesse sentido, não enfoca a questão da normalização da perspectiva adotada pelas Recomendações da Organização Mundial para Normalização -ISO- , conquanto as regras de normalização lingüística estejam de acordo com alguns dos princípios adotados por esta instituição.

 

Regras de normalização lingüística

Para gerar as Regras de Normalização Lingüística, RNL, recolhemos todos os empréstimos de origem inglesa e francesa registrados no Novo Dicionário Aurélio, DA. Consideramos empréstimos as palavras que tivessem os verbetes precedidos de uma flecha, sinal convencional que dá destaque à expressão estrangeira no DA, ou que, logo após a entrada, tivessem referida a origem - do fr. -francês, ou do ing. - inglês. Elegemos como dados para o corpus somente os que tinham a indicação da área específica a que pertencem, porque estes são, de fato, termos técnicos e, por conseguinte, unidades de terminologias técnicas e científicas.

Com base nesses critérios, chegamos a um corpus de 403 termos, identificados como termos técnicos de origem estrangeira. Chegamos, também, a um corpus complementar de 34 termos que, embora não contivessem o domínio, puderam ser validados como pertencentes a uma terminologia específica pela intuição de falante nativo e por dicionários técnicos.

Os dois corpus foram, a seguir, submetidos a nova triagem que excluiu os termos seguintes:

a) as siglas e as unidades de medida - na grande maioria já normalizadas por convenções e tratados internacionais;

b) os termos do futebol - domínio com terminologia vernácula de amplo conhecimento público;

c) os termos registrados em inglês ou francês, mas que remetiam às respectivas formas aportuguesadas;

d) os nomes de movimentos ou de correntes do pensamento;

e) os termos que são de menor frequência no discurso comum porque pertencem a domínios restritivos da linguagem técnica e científica.

Os 403 termos iniciais foram reduzidos, assim, a 100, que, acrescidos de mais 28 termos do corpus complementar, formaram um corpus de 128 termos, objeto de nossa análise.

 

Análise quantitativa do corpus

Analisando o corpus, preliminarmente, identificamos que os 128 termos podiam ser agrupados em três categorias distintas, a saber:

Tabela I

Categoria

Total

Termos Aportuguesados TA 84
Termos Parcialmente Aportuguesados TP 5
Termos Mantidos Tal Qual na Língua de Origem TM 39

A partir dessa distribuição quantitativa por categoria, foi feita uma análise do corpus quanto à origem, o que revelou a distribuição seguinte: a maioria dos termos aportuguesados são de origem francesa. Já as cinco ocorrências dos termos parcialmente aportuguesados são todas de origem inglesa e a maioria dos termos mantidos tal qual na língua de origem são do inglês, dados sintetizados na tabela que se segue:

 

Tabela II

Categoria

do francês

do inglês

total

TA

49

35

84

TP

0

5

5

TM

4

35

39

Total Geral

53

75

128

 

O número de termos aportuguesados, TA, de origem francesa é 40% maior do que o de termos aportuguesados de origem inglesa. Em contrapartida, na categoria dos termos mantidos tal qual na língua de origem, TM, os termos franceses não somam mais do que 10,2% do total. Já, na categoria dos parcialmente aportuguesados, TP, os termos de origem francesa nem aparecem.

Tal constatação confere com a posição de Lima (1990:71) que afirma que "as línguas francesa e portuguesa são muito próximas no nível morfológico: apresentam bases com comum etimologia latina" e que "essa proximidade dos dois sistemas lingüísticos permite, por um lado, que os empréstimos que o português faz dos francês sejam menos alógenos, mais facilmente integrados do que aqueles que são feitos ao inglês; por outro lado, contudo, dificulta freqüentemente a identificação da origem dos neologismos".

 

Análise lingüística do corpus

Embasamento teórico

Partindo da Categoria dos Termos Aportuguesados, TA, estabelecemos procedimentos para atingir a generalização do processo de aportuguesamento, até chegar à produção de uma regra de redundância lexical, que serve como regra geral para subsidiar qualquer adequação de termos estrangeiros ao português e a regras específicas que subsidiam os 5 tipos de adequação ao sistema fonológico, morfossintático e ortográfico da língua portuguesa.

Para tal adotamos os princípios defendidos por Basílio (1980:9) referentes à competência lexical do falante nativo e os princípios de Aronoff e Jackendoff (in Basílio 1980:10-11) concernentes às regras de formação de palavras e à estrutura do léxico. Adotamos, também, a noção de paradigma e comportamento paradigmático (Basílio 1980:18-20).

 

A geração das regras de normalização

Com base nos princípios apresentados no item anterior, examinamos os 84 termos da Categoria do Termos Aportuguesados, TA, e identificamos a ocorrência de comportamentos paradigmáticos distintos no processo de adequação lingüística dos empréstimos ao léxico do português, que foram agrupados em cinco categorias, conforme a tabela abaixo:

Tabela III

Categoria

Tipo de Adequação

Total de Ocorrências

1

ao sistema morfossintático

16

2

ao padrão silábico

17

3

ao sistema ortográfico

39

4

ao sistema fonológico

39

5

por correspondência sufixal

19

Total geral de ocorrências

 

130

Os processos de adequação lingüística dos empréstimos ao português permitem-nos inferir um paradigma geral que estabelece: " Dado um termo de base estrangeira, incompatível com o sistema lingüístico do português, ele só será incorporado definitivamente ao léxico, se e somente se, for submetido a um processo de adequação às normas dos sistemas fonológico, morfossintático e ortográfico do português, mediante um elemento normalizador".

 

Regra geral de normalização

Com base no paradigma proposto no item precedente, é possível estabelecer uma Regra Geral de Normalização, que subsidia outras cinco Regras de Normalização, a saber:

[ [X] => [X + Y] ]

X'

Donde X = base estrangeira

Y = elemento normalizador

X' = termo normalizado

[] = barreira de palavra

Na geração das regras de normalização pode ocorrer a presença de:

() = elemento variável

g = grafema

f = fonema

s = sufixo

Essa regra geral estabelece que um termo de base estrangeira [X] implica [X], somado ao elemento normalizador Y, que resulta no termo normalizado [X'].

Nos itens que se seguem, examinamos cada uma das categorias da tabela III e estabelecemos paradigmas para os processos de adequação ao sistema do português, que, por sua vez, dão origem a cinco Regras de Normalização.

 

Categoria 1

O fenômeno identificado na categoria 1 caracteriza-se pela permuta de e para a e de e para o no processo de aportuguesamento de termos de origem francesa, conforme identificado na tabela abaixo:

Tabela IV

Base Estrangeira X Termo Aportuguesado X'
bakelite baquelita
dérive deriva
faille falha
hélicoptere helicóptero
méthyléne metileno

O resultado do processo de aportuguesamento desta categoria provém de uma imposição do sistema morfossintático do português, em que as palavras femininas são normalmente marcadas pela desinência flexional "a", ao passo que as masculinas têm, via de regra, a marca "o". Como, por exemplo, "dérive", nome feminino no francês, que aparece no DA "deriva", substantivo feminino, e "méthylene", nome masculino no francês, que aparece no DA "metileno", substantivo masculino. Esse processo de aportuguesamento permite-nos estabelecer os paradigmas seguintes:

"Se o termo francês for terminado por e e for nome feminino, então ele será aportuguesado pela substituição de e por a, desinência flexional de gênero feminino no português".

"Se o termo em francês for terminado por e e for nome masculino, então ele será aportuguesado pela substituição de e por o, desinência flexional de gênero masculino no português".

 

Regra de Normalização Morfossintática

Com base nos paradigmas propostos no item anterior, chegamos à regra seguinte:

[ [x] => [X + y ] ]

(e) -(e) +(a) X'

+(o)

Nessa regra, um termo de base francesa [X], terminado em e, implica [X], sem a terminação e, -(e), somado ao elemento normalizador Y, no caso +(a), para base estrangeira feminina e +(o) para base estrangeira masculina, que resulta no termo normalizado [x'].

 

Categoria 2

O fenômeno identificado na Categoria 2 caracteriza-se pela reconstituição das sílabas por prótese e paragoge ocorrida, conforme identificado na tabela abaixo:

Tabela V

X

Prótese

Paragoge

X'
deflacionist  

+

deflacionista
crétin  

+

cretino
scarlatine

+

  escarlatina
slide

+

  eslide
spot

+

+

espote

A justificativa para a reconstituição das sílabas por prótese e paragoge ocorrida nessa categoria está diretamente relacionada a uma exigência imposta pelo padrão silábico do português. Apoiamo-nos em Silva (1981:102), quando afirma que o padrão silábico do português "pode ser resumido na fórmula (m1) V (m2), onde somente a vogal (v) é obrigatória, pois as margens (m) são facultativas ". Desse modo, o termo 'spot', por exemplo, do inglês, sofre prótese e paragoge e é registrado no DA 'espote'; 'scarlatine', do francês, sofre prótese e é registrada 'escarlatina'. 'Deflacionist', do inglês, por sua vez, sofre paragoge e é registrado 'deflacionista'. Esse processo de aportuguesamento permite-nos estabelecer o paradigma seguinte:

"O termo de base estrangeira é incorporado ao léxico, se e somente se, passar por um filtro de exigência da presença do elemento mínimo da sílaba do português, que é a vogal, por prótese, por paragoge ou por prótese e paragoge ao mesmo tempo."

 

Regra de Normalização Silábica

A partir do paradigma proposto no item precedente, chegamos a regra seguinte:

[[X] => [ Y + X + Y ]]

+v +V X'

Nessa regra, um termo de base estrangeira [X] implica [X], somado a um ou dois elementos normalizadores Y, no caso, elementos mínimos da sílaba do português, vogais em prótese e/ou paragoge, que resulta no termo normalizado [X'].

 

Categoria 3

O fenômeno identificado na Categoria 3 é regido por um processo de adequação do padrão fonológico das vogais e consoantes do empréstimo ao padrão ortográfico da língua portuguesa, como podemos identificar a seguir:

Tabela VI

X X'
borderau borderô
destroyer destróier
videotape videoteipe
choke choque
décollage decolagem
copyright copirraite

 

O comportamento dos termos dessa categoria resulta da necessidade de se encontrarem grafemas no sistema ortográfico do português que correspondam à fonologia do termo de base estrangeira. Tal processo de aportuguesamento permite-nos estabelecer o paradigma seguinte:

"Os grafema(s) do sistema ortográfico da língua de origem é (são) substituído(s) pelo(s) grafema(s) do sistema ortográfico do português".

 

Regra de normalização ortográfica

O paradigma proposto no item anterior serve de base para a regra seguinte:

[ [X] => [ X + Y ] ]

(g) m-(g) +(g') X'

(g) -(g) +(g'g')

(gg) -(gg) +(g'g')

(gg) -(gg) +(g')

(ggg) -(ggg) +(g')

Nessa regra, um termo de base estrangeira [X], grafado com um, dois ou três grafema(s), (g), (gg) ou (ggg), implica [X], sem o(s) grafema(s), -(g), -(gg), ou -(ggg), à base resultante soma-se o elemento normalizador Y, no caso o(s) grafemas , +(g') ou +(g'g'), que resulta no termo normalizado [X'].

 

Categoria 4

Essa categoria se caracteriza pela adequação da pronúncia das vogais e consoantes do empréstimo ao sistema fonológico do português, como podemos identificar na tabela abaixo:

Tabela VII

X X'
entorse /ã/ entorse /e/
equalization /ei/ equalização /a/
jockey /dz/ jóquei /z/
chock /ts/ choque /s/

 

O comportamento dos termos dessa categoria encontra respaldo em Langacker (1975:190) que afirma: "normalmente, quando se toma palavra por empréstimo é a mesma adaptada ao sistema fonológico da segunda língua...". Esse processo de aportuguesamento serve de base para o paradigma seguinte:

"Os fonema(s) do sistema fonológico da língua de origem é (são) substituído(s) pelo(s) fonema(s) do sistema fonológico do português, podendo haver adaptações ortográficas."

 

Regra de normalização fonológica

A partir do paradigma proposto anteriormente, estabelecemos a regra seguinte:

[ [X] => [X + Y ]]

(f) -(f) +(f') X'

(ff) -(ff) +(f')

Nessa regra, um termo de base estrangeira [X], pronunciado com o(s) fonema(s), (f) ou (ff), implica [X], sem o(s) fonema(s) -(f) ou -(ff), somado ao elemento normalizador Y, no caso o fonema +(f'), que resulta no termo normalizado [X'].

A Regra de Normalização Ortográfica funciona em consonância com a Regra de Normalização Fonológica, ou seja, se, no processo de aportuguesamento, for mantida a ortografia do termo de base estrangeira, a fonologia será necessariamente alterada e, se a fonologia for mantida, então a ortografia será alterada.

 

Categoria 5

O fenômeno identificado nesta categoria é caracterizado pela substituição do elemento mórfico equivalente ao sufixo de origem estrangeira pelo seu correspondente no português, conforme a tabela seguinte:

Tabela VIII

X X'
cabotage cabotagem
carburation carburação

O processo de aportuguesamento desta categoria resulta de imposição do sistema morfossintático que exige uso do sufixo derivacional do português correspondente ao da base estrangeira. Esse processo de aportuguesamento permite-nos estabelecer o paradigma seguinte:

"O sufixo da língua de origem é substituído pelo seu respectivo equivalente derivacional na língua portuguesa".

 

Regra de normalização sufixal

O paradigma descrito acima serve de base para a regra de normalização seguinte:

[ [X] => [X + Y ]]

(s) -(s) +(s') X'

Nessa regra, um termo de base estrangeira [X] terminado pelo sufixo (s), implica [X], sem o sufixo -(s), somado ao elemento normalizador Y, no caso o sufixo +(s'), que resulta no termo aportuguesado [x'].

 

Conclusão

As regras de Normalização Lingüística são estáveis, bem como os paradigmas que lhes dão suporte. Quando aplicadas à Categoria dos Termos Parcialmente Aportuguesados, TP,e à Categoria dos Termos Mantidos Tal Qual na Língua de Origem, TM, produzem o efeito esperado, ou seja, adequam integralmente os empréstimos às normas do sistema fonológico morfossintático e ortográfico do português.

No entanto, a normalização lingüística, que parece mais própria sobretudo aos termos de base greco-latina, não esgota o assunto da adequação dos empréstimos ao português, porque há outras alternativas para a normalização que não foram objeto deste trabalho. No lugar da adequação lingüística pode-se i) empregar o decalque, que se mostrou pouco frequente no Dicionário Aurélio, ii) utilizar termos vernáculos, restringindo-se, ao máximo, o uso de termos estrangeiros ou iii) adotar uma solução intermediária que reúna esses três componentes dependendo de cada caso em questão.

O uso de qualquer dessas alternativas, ao que nos parece, deve ser determinado por uma política para língua portuguesa, capaz de estabelecer diretrizes para a resolução de questões que, como a dos empréstimos, afligem os usuários da língua e, muitas vezes, geram instabilidade no sistema do idioma.

 

Bibliografia

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DELILLE, Karl Heinz. "Aspectos Normativos na Formação de Terminologias - a Norma Alemã". In: Boletim da Comissão Nacional da Língua Portuguesa. Portugal, 1989. pp.213-220.

FAULSTICH, Enilde L. de J. "Metodologia para Projeto Terminográfico". Brasília, Universidade de Brasília, 1990. Inédito.

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LANGACKER, Ronald w. A Linguagem e sua Estrutura. Petrópolis, Vozes, 1975.

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SANTOS, João Dino F.P. Normalização de Empréstimos Linguísticos. Brasília, Universidade de Brasília, 1992. (Dissertação de Mestrado).

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VILELA, Mário. "Reflexões sobre os Critérios a Aplicar no 'Aportuguesamento' das Terminologias Científicas e Técnicas ". In: Boletim da Comissão Nacional da Língua Portuguesa. Portugal, 1989.

 

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