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Terminologia e Desenvolvimento: a experiência com um glossário didático para o Meio Ambiente
Robert Preis
Universidade Federal Fluminense
Brasil
Introdução
Esta comunicação pretende enfocar o tema "Terminologia e Desenvolvimento" a partir da experiência que tivemos com a elaboração de um glossário didático para a Terminologia usada em Meio Ambiente.
A idéia do glossário surgiu a partir das seguintes constatações:
1. A Língua Portuguesa e a Língua Espanhola são duas línguas mundialmente importantes mas carecem de muitas equivalências quando os seus termos científicos são confrontados com os de Língua Inglesa, Alemã ou Francesa. O estrangeiro que quer estudar estas línguas frequentemente não encontra material adequado para a aprendizagem da Terminologia, principalmente em áreas tão novas como o Meio Ambiente.
2. Muitos estudantes, professores e cientistas brasileiros lêem da Graduação ao Doutorado mais textos em Inglês do que em Português, de modo que frequentemente conhecem melhor os termos em Inglês do que os do seu próprio idioma. Além disso, muitas vezes conhecem e dominam os termos mas não tem segurança na fraseologia a ser usada ao preparar um artigo ou uma palestra.
3. O Brasil tem o maior banco genético natural, a maior floresta tropical, o maior parque industrial da América Latina, e o maior número de instituições científicas da América Latina, mas não cuida da sua TERMINOLOGIA CIENTÍFICA.
4. A área da Ecologia é uma área que precisa de muitos estudos, principalmente se quisermos que o nosso esforço leve a um desenvolvimento verdadeiro e interessante para toda a Humanidade e não apenas ao "desenvolvimento" de um pequeno grupo que vive do seu "progresso" mas que constroe, na verdade, o "retrocesso" para o resto da Humanidade e para a Natureza.
O glossário de Terminologia do Meio Ambiente
O título completo do nosso glossário é: "Terminologia do Meio Ambiente: glossário didático (Português / Inglês / Francês / Alemão)."
O glossário surgiu de projeto de pesquisa do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal Fluminense. Sob a coordenação do Professor Dr. Robert Preis (responsável também pelos termos em Língua Alemã) participaram da equipe: a Professora Dra. Enny Marins de Lima, responsável pelos termos em Língua Inglesa, a Professora Marília Cruz Claramunt (Mestre; Língua Francesa) e a Professora Themis Marques de Moraes (Mestre; Língua Portuguesa). Para a coleta do material tivemos a ajuda de vários estudantes e de bolsistas, inclusive um bolsista francês. Para consultas técnicas contamos com a colaboração de vários colegas do Instituto das Geociências e do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense.
Não atingimos nossos objetivos plenamente; primeiro, porque a equipe se reduziu com a aposentadoria de vários membros, segundo, porque a parte relativa à Língua Espanhola não foi concluída.
Considerando-se este glossário um trabalho preliminar, que deverá ser continuado e completado através da formação de um Banco de Terminologia na área do Meio Ambiente, pretendemos incluir, no futuro, também a Língua Espanhola.
É um glossário didático. No sentido do público alvo: pretende ser um instrumento útil para estrangeiros que gostariam de saber o que os ambientalistas brasileiros usam, tanto na Terminologia como na Fraseologia, quando escrevem sobre Meio Ambiente. O glossário pretende ser também uma ajuda para estudantes brasileiros, que sentem dificuldades em se expressar na hora de preparar um trabalho universitário, um artigo, etc. sobre o assunto.
Para se ter um esquema didático e de fácil consulta, dividimos o vocabulário em cinco esferas: a atmosfera, a hidrosfera, a geosfera, a biosfera e a antroposfera. Cada uma destas áreas é subdividida em três subáreas:
a natureza em ação
o impacto provocado pelo homem
a preservação pretendida para cada área.
Este esquema é fácil de ser memorizado, mas é também fácil de imaginar que surgiriam dificuldades na distribuição dos termos. Um caso típico é o dos ciclos (de água, de oxigênio, de nitrogênio, etc.) que, na verdade, deveriam aparecer em várias áreas. A nossa solução foi: denominar, por exemplo, um ciclo como "ciclo predominantemente atmosférico" incluindo-o na "atmosfera".
É claro que, mesmo assim, há repetições e também desequilíbrio na representação dos termos, conforme o material disponível no nosso "corpus", que se constituiu de revistas científicas, revistas de divulgação, jornais brasileiros, livros e publicações por ocasião da "ECO 92".
A maioria das definições foram tiradas de Normas ABNT (principalmente as referentes à poluição [1]) e do Tesauro da REPIDISCA [2]. Embora este, e outros tesauros, nos terem sido úteis para a organização de pequenas áreas do vocabulário, sentimos muito a falta de um tesauro bem elaborado para toda a área do Meio Ambiente, principalmente na hora da colocação e da sequência dos termos no respectivo contexto .
Embora sejamos defensores da Teoria Geral da Terminologia de Wüster e comunguemos com as idéias de Ingetraut Dahlberg, que é uma grande defensora da organização do conhecimento humano [3], deixamos no glossário alguns vestígios que parecem contradizer esta nossa afirmação. Encontra-se aí, por exemplo, uma aparente "promiscuidade" das áreas de Lingüística e da Terminologia. Sabemos que Terminologia e Linguística são dois campos bem diferenciados do conhecimento humano, mas queremos também afirmar que o termo, mesmo tratado com todo o rigor da Teoria Geral de Terminologia, não pode ser usado em texto algum sem os recursos lingüísticos fornecidos pela Fraseologia.
O aparente "understatement" de falar em "campo de termos relacionados (Ctr:)", em vez de algo mais rigoroso como "campo semântico", consideramos justificado pelo ambiente didático almejado. O mesmo vale para as entradas "Família" (Fam:),"Uso" e "Nota explicativa"(Nex:). Especialmente esta última referência julgamos mais prudente do que "Definição", já que não sempre conseguimos definições verdadeiras, curtas ou adequadas.
O nosso glossário permite várias maneiras de aproximação:
Quem procura apenas a equivalência de um termo em Alemão, Francês ou Inglês, pode consultar as listas Alemão-Português, Inglês-Português e Francês-Português, em anexo.
Quem pretende estudar a Terminologia usada em alguma área específica pode fácilmente localizá-la através da lista Português-Inglês-Francês-Alemão ou através do esquema didático.
E quem, finalmente, quer estudar sistematicamente áreas inteiras precisa apenas seguir a sequência proposta. No contexto procurado vai encontrar, além de notas explicativas para os termos mais importantes, muitas informações sobre o uso dos termos, ou seja, a sua fraseologia, que apresenta praticamente um mini-contexto, que facilita a compreensão do termo usado, pois nossa grande preocupação, além de dar informações ambientalistas, é a de fornecer o uso dos termos encontrados em publicações científicas brasileiras e na imprensa brasileira. Achamos importante, não apenas saber o termo e sua definição, mas também como aplicá-lo na hora da redação ou da preparação de um trabalho científico.
Seguimos em grande parte a orientação contida no livro de Wehrlich [4], que, para a aprendizagem dos termos e da fraseologia na área da Análise de Texto e da Literatura, preconizou um modo de coletar material didático e condizente que achamos válido, também, para a área das Ciências Ambientais.
Alguns termos no nosso glossário são novos, não constam ainda dos dicionários comuns. Outros são termos conhecidos, mas com um novo sentido.
A importáncia do trabalho terminológico
O trabalho com o nosso glossário abriu também perspectivas para o trabalho de Terminologia no macrocontexto do Desenvolvimento:
A formação de grandes blocos (Comunidade Européia; NAFTA; Mercosul) e o aumento de fluxo e intercâmbio de mercadorias, de informações e conhecimentos, etc. exige trabalho redobrado na área da Terminologia Científica.
Tomamos como exemplo a Comunidade Econômica Européia, que em poucos anos, pretende se tornar os Estados Unidos da Europa e que já há uns anos atrás, quando ainda menos línguas estavam envolvidas, gastava 17 % do seu orçamento com trabalhos de Tradução e Terminologia.
Neste organismo grande e dinâmico de cerca 350 milhões de habitantes, haverá, a partir do ano que vem, a convivência de uma dúzia de línguas que serão línguas oficiais da Comunidade Européia [5].
Num organismo como a Comunidade Européia tudo o que é oficial está sendo traduzido em todas as línguas oficiais: legislação, atos do Parlamento Europeu, tratados internacionais, para só citar alguns ítens importantes [6].
Além disso, a Comunidade Européia adotou, já nos Tratados de Roma (1958), o príncipio de um documento original único, escrito nas diferentes línguas oficiais ao mesmo tempo [7].
Entre elas se encontram, e isso é de máxima importância para nós aqui na América Latina, a Língua Portuguesa e a Língua Espanhola [8].
Isso é bom para a Língua Portuguesa e a Língua Espanhola pois elas desfrutarão de um "status" diferente, mas será também automaticamente bom para a Língua Portuguesa do Brasil e para o Espanhol falado nos diversos países da América Latina ?
Comparando o número de falantes de Língua Portuguesa aqui e em Portugal (146 e 10 milhões respectivamente), a extensão do território nacional e o parque industrial, vê-se logo a grande diferença entre os dois países.
Coisa semelhante, porém não tão acentuada, vale para a área de Língua Espanhola na América Latina e na Espanha.
Portanto, se quisermos alcançar aqui algo semelhante ao da Comunidade Européia, seja no ambiente do Mercosul, seja no ambiente de toda a América Latina, temos que redobrar esforços na área da Tradução, da Terminologia, da Linguística...
Longe de enveredar, nesta questão, pelo caminho de um nacionalismo exacerbado, esta questão está sendo vista mais pelo lado da idéia dos "direitos autorais" dos povos sulamericanos, pois quem trabalhou, merece a recompensa pelo fruto deste seu trabalho. E é um longo e difícil caminho que o termo científico tem que percorrer da tradução de um manual da matriz norte-americana, alemã ou italiana, para citar apenas o exemplo da área da indústria automobilística ou da correspondente indústria de accessórios, até a sua participação numa terminologia científica, num glossário multilingüe com correspondências nacionais bem asseguradas e fundamentadas, etc..
É também uma conquista e um valor quando se consegue que um termo técnico seja universalmente aceito. É um acréscimo de valor que cada peça ou cada processo industrial ou científico adquire quando também o seu termo técnico é plenamente aceito e assegurado. Além do mais, existe uma reciprocidade entre o produto e o conhecimento de sua designação de um lado, e a maior facilidade de compra ou de venda do produto do outro.
Na formação do Mercosul existirão problemas semelhantes aos da Comunidade Européia, porém teremos menos línguas envolvidas, mas estas não seriam, na sua terminologia científica, tão bem desenvolvidas quanto o Inglês, o Francês e o Alemão, por exemplo. Além disso, não se sabe, se os países em questão adotarão, desde o início, um princípio como aquele do documento original único da Comunidade Européia.
E mais um ponto: lê-se no Guia (Leitfaden) da DIN: "Normas européias ainda são normas regionais da Europa Ocidental. Mas o horizonte está se abrindo. Temos que manter o caráter privado e o caráter voluntário desta atividade, para que o bem que as normas trazem não se transforme numa praga." [9]
O que se diz neste guia da DIN sobre a atividade normativa, poderia ser transcrito e aplicado, da mesma maneira, para a atividade terminológica a ser desenvolvida na América Latina. Estamos convictos de que qualquer iniciativa particular pode ser uma contribuição valiosa. Foi também este espírito que nos incentivou a prosseguir quando as dificuldades pareciam insuperáveis.
A Terminologia e as outras Ciências
Ainda é preciso repetir que Terminologia é algo diferente da Linguística.
Basta recorrer a Eugen Wüster, o decano de Terminologia Científica, para corroborar esta afirmação. Estamos nos valendo em seguida de um artigo publicado em 1975 na revista "Lebende Sprachen" [10].
Eugen Wüster afirma: "Terminologia é o sistema de termos e de denominações de uma área específica (Fachgebiet)" e ele define o "terminólogo" como um profissional que tem um profundo conhecimento sistemático de uma Terminologia, não exigindo dele necessáriamente trabalho na área de normas.
Depois de divagar sobre quem deveria estudar o que e quem deveria lecionar na área de Terminologia, e como este trabalho deveria ser incorporado ao currículo do terminólogo, Wüster indica os 5 pontos fundamentais das recomendações da "Internacional Organization for Standardization" como linhas de pesquisa:
1. o antagonismo entre as concepções básicas;
2. termos e definições;
3. denominações;
4. apresentação dos têrmos e denominações (em dicionários especializados);
5. uso prático das denominações.
Não queremos nos aprofundar neste item , mas sim passar para mais um ângulo da questão do Desenvolvimento: Sabemos que as nossas ciências brilham até hoje mais por suas divisões e subdivisões, eufemisticamente chamadas de "especializações", do que pela composição, comparação, síntese e visão global. As consequências disso sentimos em todas as Ciências e, por conseguinte, nas respectivas Terminologias Científicas.
Na área da Lingüística, por exemplo, acompanhamos, nos últimos trinta e tantos anos, como ela custou a se abrir para áreas maiores ou para estudos comparados. Quando começamos trabalhar na universidade brasileira, a Linguística, além de ter renunciado completamente à diacronia, era praticamente nada mais do que Fonética e Fonologia.
Depois do chamado Distribucionismo norte-americano vieram, entre outros, o Estruturalismo e a Gramática Gerativa-Transformacional em ondas sucessivas como ondas de modas. Áreas, porém, como a Semântica, a Terminologia e a Sociolinguística não tinham muitas oportunidades, especialmente nos currículos das Escolas Superiores.
Embora nos últimos anos tenha sido alterada um pouco a situação, principalmente porque a Informática deslocou alguns focos de discórdia, permanece ainda uma aventura empenhar-se num trabalho comparativo em áreas aparentemente distantes entre si.
Vale ainda lembrar que em Língua Portuguesa não foram produzidos tantos dicionários, glossários e instrumentos de referência, em geral, como em outras línguas européias, talvez por razões históricas. Ela é, porém, uma língua promissora e tem maior facilidade para o uso em dicionários do que as línguas germânicas, por exemplo, pois uma de suas características é a colocação posterior do determinante, indo, portanto, no sintagma nominal do geral para o específico, o que é uma grande vantagem em lexicografia. Pode-se afirmar esta facilidade, aliás, também para as outras línguas romanas.
De outro lado, a colocação anterior do determinante, como é frequente em Inglês e em Alemão, também é possível em Língua Portuguesa, como mostra o seguinte exemplo: "sistema ecológico" = "ecossistema"; mesmo a nominalização, tão característica para o Alemão e o Inglês, parece progredir na Língua Portuguesa. Mencionamos apenas estes poucos fatos para comprovar que a Língua Portuguesa pode concorrer com as línguas detentoras de maior Terminologia Técnica em situação de igualdade. Falta quem cuide deste patrimônio e quem o desenvolva e o enriqueça de maneira adequada.
O Meio Ambiente como área de ponta do "Desenvolvimento"
A progressiva descoberta das inter-relações complexas na área do Meio Ambiente obriga o ser humano a uma reorganização do seu conhecimento perante a crescente interferência do próprio ser humano na Natureza.
A respeito do "antagonismo entre as concepções básicas", mencionado acima no artigo de Eugen Wüster, gostariamos dizer que na área do Meio Ambiente a situação parece mais difícil do que em outras áreas do estudo da Terminologia Científica, porque é necessário sair da "paranóia do progresso e do desenvolvimento" para uma "metanóia" ou seja um "repensar de posições" da nossa sociedade.
Isso não é fácil porque rapidamente alguem pode ser taxado de romântico, de louco ou até de criminoso quando quiser contrariar interesses na área do Meio Ambiente.
A ECO 92, o grande encontro internacional no Rio de Janeiro, deu até agora poucos resultados, entre estes a publicação de alguns dicionários, glossários e manuais específicos. Estamos com muita esperança que ainda surjam dicionários mais equilibrados e úteis na área do Meio Ambiente, porque até agora quase só se encontram dicionários que privilegiam apenas uma ou outra área dos estudos do Meio Ambiente, negligenciando as outras. Isso nos leva a tecer algumas considerações gerais sobre Terminologia na área do Meio Ambiente:
Um complemento necessário ao dicionário alfabético - principalmente em área de estudo tão incipiente como a do Meio Ambiente- é o dicionário sistemático para que se possa ver a localização e o valor do termo científico na sua respectiva área, pois existem muitos termos que ainda não tem cortado o "cordão umbilical" das suas áreas de origem, como a Alquimia, a Química, a Física, etc..
O dicionário sistemático evita também, em grande parte, que termos de pouca expressão e importância inchem os dicionários enquanto outros termos, muito mais importantes, fiquem de fora.
Num dicionário editado pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo, pelo CNPq e pela FAPESP [11] encontramos, por exemplo, no verbete "Plástico", apenas a seguinte definição: "Qualificação de consistência do solo, quando este é capaz de ser moldado ou deformado contínua e permanentemente, pela aplicação de pressão relativamente moderada, em várias formas."
Não queremos impedir que esta definição esteja em algum dicionário de Ecologia, desde que se diga também alguma coisa sobre o saco plástico, a garrafa plástica ou outro material plástico que ameaçam o nosso Meio Ambiente.
Outro perigo na Terminologia Técnica do Meio Ambiente são os eufemismos. É claro que podemos registrar o termo "defensivo agrícola", mas ele teria que ser caracterizado como o eufemismo que ele é, ou seja, um termo que mistifica o uso de venenos nos nossos alimentos fornecidos pela agricultura.
Para não nos alongarmos daremos um exemplo que pode estar por muitos outros e que mostra bem esta mistificação à qual todos nos estamos subjugados. Olhando a tampa de um pote de margarina veremos, além da marca, que se trata de uma margarina cremosa (ou não), com sal (ou não) e, além disso, uma indicação do peso e da validade (normalmente 6 meses). No pote propriamente dito encontraremos uma inscrição horripilante em maiúsculas que são tão minúsculas que precisaremos de uma lupa para ler o texto:
"preparada com óleos vegetais líquidos e hidrogenados, leite desnatado pasteurizado reconstituido, sal, conservadores p i e/ou p iv, estabilizantes et i e et iii, antiocidante a ii, acidulante h vii, aromatizante f ii e corante c. i. aromatizada artificalmente contem 15.000 u. i. de vitamina a p/kg. rótulo registrado sipa nº........ data de fabricação fundo pote".
Deixamos de lado o grande engano do consumidor que pela propaganda recebe a sugestão de que a margarina seja um produto natural muito melhor para a saúde do que a manteiga. Concentrando-nos na terminologia empregada, vemos quanto trabalho de desmistificação tem que ser feito e quanto desnível de conhecimento existe entre os fabricantes deste texto e o pobre do consumidor.
Apenas mais um exemplo: o do "guarda florestal" que deveria ser chamado "policial florestal". Pois guarda florestal, na Alemanha, é um profissional formado em universidade, com uma equipe de lenhadores e uma equipe de plantadores à sua disposição, que não apenas cuida do cultivo das árvores e do reflorestamento, como também da Flora e da Fauna em geral na área de sua jurisdição.
Em resumo: A existência de um termo científico com sua definição pertinente é de certo modo uma garantia que este assunto foi problematizado, discutido e compreendido, mas como se vê não exclui que novas tentativas de discussão e definição sejam empreendidas.
Conclusão
Com isso, teremos talvez a base para dizer o que deveria ser feito para que a Língua Portuguesa no Brasil e a Língua Espanhola no resto do Continente Sul-americano e sua rica Terminologia possam entrar na disputa com a Terminologia de outras línguas européias:
01. Realizar mais encontros como este, pela possibilidade de discutir este assunto com um círculo crescente de pessoas realmente interessadas;
02. Lutar para que, na edição de livros, seja adicionado o aparato científico (no mínimo um bom índice remissivo e um glossário dos termos científicos usados);
03. Enfatizar que, principalmente nos livros didáticos, sejam evitados conceitos antropocêntricos, de ideologias ultrapassadas, e substituidos por conceitos condizentes com a realidade e a complexidade do Meio Ambiente;
04. Colocar ao alcance dos que lutam pela preservação do Meio Ambiente glossários e dicionários específicos bons e práticos;
05. Adequar o currículo do futuro ecologista para que a Terminologia Científica do Meio Ambiente tenha o seu lugar e sua importância assegurados;
06. Sugerir a introdução da habilitação do terminólogo nas universidades;
07. Facilitar a circulação dos "glossários particulares" (dos tradutores por exemplo) através de uma ou mais revistas especializadas (do tipo da iniciativa interessante da revista "Terminometro" [12]).
08. Facilitar os contatos nacionais, internacionais e interuniversitários;
09. Apoiar os trabalhos dos órgãos nacionais e internacionais de normatação;
10. Criar um "pool" de Terminologia , do qual todos os contribuintes possam desfrutar amplamente, talvez pelo caminho da RNP/INTERNET...
11. Participar dos esforços da ISKO para organizar o Conhecimento Humano.
Estas são algumas poucas sugestões que não pretendem ser nem completas nem priorizadas, mas que deveriam ser discutidas também neste simpósio, para que se tenha uma idéia da grande tarefa a ser cumprida em prol da Terminologia Técnica e Científica a serviço do Desenvolvimento e da proteção do Meio Ambiente e, "last not least", a favor da maior projeção da Língua Portuguesa e da Língua Espanhola no mundo de hoje.
Notas e Bibliografia
[1] ABNT
Degradação do solo (N 10703);
Poluição das águas (N 9896)
Poluição do ar (N 8969)
[2] REPIDISCA - Tesauro de Engenharia Sanitária e Ciências do Ambiente. s.l., 7a ed., mar. 1989 [Rede Pan-americana de Informação e Documentação em Engenharia Sanitária e Ciências do Ambiente]
[3] A Dra. Ingetraut Dahlberg é atualmente Presidente da ISKO (International Society for Knowledge Organization) e Editora-Chefe da Revista "Knowledge Organization" (International Journal devoted to Concept Theory, Classification, Indexing and Knowledge Representation), antigamente "International Classification"
[4] WEHRLICH, Egon- Wörterbuch der Textinterpretation. The Field System Dictionary for Text Analysis. ( Word fields, difining phrases, word families, and use (field of colocation; arranged in fields of subject-matter and marked as either elementary or advanced). Dortmund, Lensing, 12a ed.,1991, 230 p.
[5] ROHAERT, A.- Sprachprobleme in der Europäischen Gemeinschaft und ihre Bewältigung. Lebende Sprachen. 20(6):161-164,1975.
[6] COMMISSÃO DAS COMUNIDADES EUROPÉIAS- Vigésimo Relatório Geral sobre a actividade das Comunidades Europeias 1986. Bruxelas-Luxemburgo, 1987, 446p.
"O terceiro alargamento da Comunidade teve, como os precedentes, uma influência especial sobre os serviços lingüísticos uma vez que o número de línguas passou de sete para nove... O aumento da actividade do Serviço Comum de Interpretação-Conferência (SCIC) pode ser avaliado em 30%, durante este primeiro ano." p.44
[7] SAGER, Juan C.-"The Computer and Multilingualism at the European Commission". Lebende Sprachen. 24 (3): 103-104, 1979.
"... Finally, the provision of the Treaty of Rome which establishes the novel legal principle of a single original document written in different languages is at the same time, though probably unwittingly, a defence and a recognition of the singular cultural value represented by the linguistic diversity of Europe.
It may have been the historical accident of an initially small community of only four languages (i.e. 12 language pairs) that permitted the adoption of this principle; with a larger number of languages the idea might have been too daunting to contemplate." p.103
[8] Portugal e Espanha entraram na Comunidade Européia a partir de 1º de janeiro de 1986.
[9] KRIEG, K.G. et alii- Leitfaden der DIN- Normen.1983.292p.
[10] WÜSTER,Eugen- Die Ausbildung in Terminologie und terminologischer Lexikographie. Lebende Sprachen. 20(2):33-38, 1975.
[11] ACIESP, CNPp,FAPESP- Glossário de Ecologia, SP, s.ed.,1987, 271p. [Publicação ACIEP nº 57]
[12] Terminometro: Publicação trimestral da União Latina; 131, rue du Bac, 75007 Paris, França.
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