Actas / Atas
1988-2002
Presentación / Apresentação
I Simposio (1988)
II Simpósio (1990)
III Simposio (1992)
IV Simposio (1994)
    Índice
V Simposio (1996)
VI Simposio (1998)
VII Simpósio (2000)
VIII Simpósio (2002)
Índice por autores

 

 

A terminologia e lingüística na prática técnico-científica. Problemas emergentes em Medicina e Economia

Dilza Fonseca da Motta
Laura de Lira e Oliveira
Brasil

 

A terminologia desempenha, nos dias atuais, um papel importante no ambiente técnico-científico uma vez que se propõe a estabelecer um método teórico-prático no controle das denominadas línguas de especialidades.

Lingüistas e terminólogos têm procurado um caminho comum para resolverem os problemas intrínsecos que surgem naturalmente ao se tentar equacionar o grande mundo da palavra que se transforma em matéria escrita, artigo científico ou qualquer outro termo que se queira dar ao que é gerado pelos estudiosos e pesquisadores no amplo campo da informação.

Estabelecer critérios e limites entre áreas do conhecimento e suas inter-relações propiciou ao longo da história da Documentação o desenvolvimento de sistemas de controle na linguagem natural, dando origem a ferramentas de trabalho para, principalmente, recuperação da informação.

A fundamentação teórica do termo como unidade de comunicação do conceito, e este considerado como uma unidade de conhecimento, determina uma teoria com respeito à linguagem técnico-científica.

A necessidade de se definir os termos em um sistema de conceitos revela a sua importância no momento em que tomadas de decisões são feitas sobre o que se estabelece em determinada área.

Exemplos nos campos relativos à Medicina e à Economia são citados, demonstrando que a mudança de terminologia implica em mudança de conduta cujos resultados são às vezes antagônicos.

A qualidade é também um fator que surge ao se aplicar a teoria da terminologia em determinada áreas do conhecimento porque ambas concorrem para uma sinergia comum.

O problema de uma linguagem mais clara e precisa, que resultasse na comunicação entre os povos de forma menos ambígua possível, sempre se constitui preocupação para os estudiosos das línguas faladas no dia-a-dia. Com a evolução das ciências e o aparecimento cada vez maior de áreas científicas inter e multidisciplinares, essa preocupação tornou-se mais grave e passou a envolver especialistas de várias disciplinas, notadamente lingüistas e terminólogos. Esses profissionais entenderam ser necessário estabelecer princípios e métodos que norteassem a constituição de glossários e de terminologias específicas para as diversas áreas do conhecimento.

Embora a Lingüística também venha se ocupando desse assunto, é a Ciência da Terminologia que dispõe das bases teóricas para o estabelecimento de normas para a construção de linguagens de especialidade, científicas e técnicas. Isso é fácil de compreender, visto que as áreas do saber lidam com a percepção e/ou com a construção mental de objetos - uma entidade, um fenômeno, um processo, um instrumento, ou seja, lidam com o conceito, e com suas relações com a realidade. A Ciência da Terminologia, por sua vez, ocupa-se dos conceitos de qualquer área de especialidade e, portanto, está sempre ligada à realidade.

Segundo Gorkova (1980), "a terminologia de uma área reflete seus conceitos. A desorganização do quadro conceitual determina a desordenação da terminologia". Como resultado da incorreta definição dos conceitos e do uso inadequado de termos que os expressem numa comunicação, têm-se observado a prática inadequada, ou mesmo incorreta, das ciências e das técnicas. Tem sido comum observar-se enormes discussões em torno de assuntos que envolvem conceitos básicos de uma área, sem que esses conceitos tenham sido previamente definidos. Na maioria dos casos, o conceito não é atendido na sua concepção mais moderna, tal como definido à luz da Ciência da Terminologia, como uma "unidade de conhecimento" (Dahlberg 1978). A percepção e/ou a construção mental individualizada, ou seja, aquilo que cada técnico percebe ou entende ser, não é suficiente para estabelecer o significado de um objeto científico ou técnico. O consenso entre os pares das diversas áreas do conhecimento faz-se necessário.

Um outro princípio da Ciência da Terminologia que precisa ser entendido pelos que praticam ciências e técnicas é que o Termo, que nada mais é do que o conceito tornado visível, audível, sonoro, acústico-em suma, "exteriorizado" para fins de comunicação, deve ter um tratamento terminológico e não lingüístico. O termo está para a Terminologia assim como a palavra está para a Lingüística. Essa distinção é amplamente discutida e justificada pelos membros da Comissão Especial Temporária de Terminologia da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT-CETT, 1994), quando afirmam que "o termo deve ser tratado terminologicamente, isto é, em sua relação com a realidade, com o pensamento, deixando-se o tratamento lingüístico para as palavras". Na linguagem comum, a matéria-prima é a palavra, onde várias formas lexicais podem significar a mesma coisa, e vice-versa. Ao contrário, nas linguagens de especialidade, o termo é, por princípio, monossêmico e mononímico, e deve sempre evocar um referente. Daí não caber em terminologias a existência de polissemias. Conceito e termo formam uma unidade, e não uma equivalência. O que pode variar, isso sim, são as diferentes formas lexicais por meio das quais um termo é comunicado.

A construção de terminologias para o desenvolvimento de atividades das diversas áreas do conhecimento tem sido uma necessidade cada vez mais premente. Não raras vezes, técnicos são incumbidos de elaborar sistemas terminológicos, e se dão conta de que essa é uma tarefa intelectual, nem sempre das mais fáceis. Mas ninguém mais indicado para cumprir essa tarefa. Não é o conceito uma unidade do conhecimento, e não são, então, os produtores e comunicadores do saber as pessoas certas para identificar um conceito, ordená-lo e sistematizar suas definições? Se, por um lado, o engenheiro, o médico, o economista e demais profissionais são os únicos capazes de solucionar os problemas terminológicos dos conceitos básicos de suas áreas, por outro lado, de nada adiantar-lhes-á o saber técnico-científico, sem que saibam dos princípios e dos métodos que orientam a atividade terminológica. Sobre isso, Gorkova (1980) afirmou:

"Os especialistas das diversas áreas estão familiarizados com a teoria e prática da Ciência Terminológica, que é uma disciplina científica comprometida com: mecanismos de geração de termos, métodos de definição..., métodos de ordenação de termos, desenvolvimento de sistemas terminológicos".

Observa-se, então, que a presença de técnicos das áreas mais diversas do conhecimento em Comissões de Terminologia é cada vez mais necessária. A versão brasileira da ISO 704, por exemplo, atualmente em fase de revisão, toma como ponto de partida o Conceito, incluindo informação sobre a formação de Conceito, seus elementos - as Características, as relações entre os conceitos e as bases para o estabelecimento destas relações. Inclui, ainda, instruções para a construção do Sistema de Conceitos e sua apresentação, instruções para a definição dos conceitos, e orientação sobre o Termo (ABNT/CETT, 1994).

Sintetizando, pode-se dizer que, enquanto o binômio "Produção do saber-Terminologia" não estiver compreendido, a comunicação e a prática técnico-científicas não ocorrerão de forma adequada.

Alguns exemplos nas áreas econômica e médica servem para explicitar o que foi dito.

 

1. Na área econômica

1.1 - Há palavras que são introduzidas no desenvolvimento das atividades científicas e técnicas, sem que tenham sido devidamente conceituadas. Os técnicos passam a usá-las, como se todos já soubessem seu significado. Por exemplo, a palavra "tributo". No Brasil, à época do Plano Cruzado, o Governo introduziu o chamado "empréstimo compulsório". Houve uma grande polêmica em torno do assunto entre os economistas da equipe governamental e outros que não faziam parte da equipe. Os primeiros não consideravam o "empréstimo compulsório" como um tributo; os segundos consideravam-no como tal. A dúvida gerou problemas no cálculo do índice de preços, naquela época (1986), e a conclusão de quem estava certo ou errado dependia da conceituação do termo "tributo". "Sabe-se, porém, que na maioria dos livros-texto de finanças públicas, de economia do setor público, de macroeconomia, ou de introdução à economia, dos últimos vinte anos, não existe conceituação de "tributo". (Ramalho, 1994).

1.2 - A conceituação do termo "moeda" é conhecida internacionalmente como "problema da definição de moeda" (Peláez, Suzigan, 1978). Um instrumento crucial de política econômica é a política monetária, que, segundo os economistas, geralmente afeta a inflação, o nível de emprego e o nível de produção. Mas é comum os próprios economistas levantarem estatísticas de "moeda" com diversas abrangências, por não saberem que itens (agregados monetários) devam ser incluídos no que se considera "moeda". Esse problema, exclusivamente devido à falta de conceituação do termo, tem sido debatido mais intensamente dos anos 60 para cá, mas continua sem solução, gerando controvérsias e incertezas nas conclusões.

1.3 - O termo "senhoriagem" tem sido confundido com "imposto inflacionário", e tem sido conceituado em trabalhos econômicos de duas formas diferentes:

- "aumento da base monetária, entendido como uma espécie de receita do governo".

- "juros que o governo consiga receber, caso possa fazer uma aplicação financeira da receita obtida com a base monetária". (Ramalho 1994).

1.4 - Em geral, as estatísticas levantadas pelos países perdem comparabilidade por causa de divergências de conceituação do que sejam "produtos", "setores" e "atividades econômicas".

Um exemplo clássico são as estatísticas sobre "dívida pública" e "déficit público". A dificuldade é devida, em grande parte, à não existência de uma conceituação clara e uniforme do que seja "setor público". Algumas definições desse termo incluem somente as atividades clássicas ou tradicionais (ex: serviços de policiamento, defesa externa, construção de estradas); outras incluem empresas públicas que vendem bens e serviços tipicamente privados (ex: aço, automóveis, papel, hotelaria); outras incluem até atividades privadas, de empresas privadas, desde que subsidiadas pelo governo; outras, serviços públicos, ou semi-públicos, prestados inteiramente por atividades privadas, sem subsídio. (Ramalho 1994).

Esse exemplo evidencia que a indefinição terminológica faz com que os economistas enfrentem considerável dificuldade em aprender com a experiência de outros países, e, até, em constatar a situação de seu próprio país em uma dada época, ou de avaliar os resultados das políticas que adotam.

 

2. Na área médica

2.1 - Em Cardiologia a linguagem relativa a arritmias ventriculares tem uma linguagem própria. O seu significado clínico, até o final do século passado, era ainda controverso e meramente descritivo. "Estudos mais recentes que introduziram conceitos de fisiologia a casos clínicos e a introdução de tecnologia avançada (eletrocardiografia dinâmica, estudo eletrofisiológico invasivo, eletrocardiografia de alta resolução) propiciaram novos conceitos na classificação e tratamento das arritmias". (Moreira, 1992) (grifo nosso).

Quando o especialista se defronta com uma arritmia ventricular, o pensamento inicial é: Como tratá-la? Portanto, é imprescindível conceituar as diversas formas de arritmia ventricular, a fim de se atuar com a terapêutica mais pertinente.

2.2 - A Terminologia, quando corretamente utilizada em métodos estatísticos, revela situações sociais características de uma região.

Por exemplo, traumatismo abdominal por ferida e por contusão.

Estudo estatístico (1993) em hospital de emergência do Rio de Janeiro revelou maior ocorrência de traumatismo abdominal por ferida (índice de violência). Estudo semelhante em país europeu revelou maior frequência por contusão (índice de acidentes de trânsito).

Por meio das definições dos termos tem-se:

ferida - é uma solução de continuidade aparente em uma estrutura do corpo (...ainda se via a ferida no lugar onde entrou a bala...).

contusão - lesão superficial, sem laceração, produzida por impacto.

2.3 - A Morbidade Ambulatorial revela a freqüência de casos. Porém, se as doenças não forem descritas por meio de termos que as identifiquem corretamente, decisões administrativas e epidemiológicas também não serão corretamente tomadas. É a ação da terminologia no âmbito pragmático da decisão sobre isso, Oliveira (1993) afirma o seguinte:

"Descrever a patologia com a maior especificidade possível, isto é designar com propriedade o diagnóstico dado ao paciente é de tal importância que a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), em artigo publicado em dezembro de 1992 (Notícias sobre IRA - Infecções Respiratórias Agudas) comenta este assunto: '...é importante considerar entre as infecções agudas como tratar a tosse e a pneumonia que não respondem imediatamente a um tratamento e que também poderiam ser descritas como crônicas...modificou-se a classificação para concentrar-se no principal objetivo da estratégia de tratamento de casos, isto é, na redução da mortalidade por pneumonia'. Mudança de terminologia implica em mudança de conduta médica e terapêutica".

2.4 - Termos eponímicos por exemplo:

"Doença de Still";

"Afasia de Broca"

A abundância de termos eponímicos em nomes de doenças pode ser explicada pelo fato de que nem sempre é possível dar atributos imediatos ao achado recente e descrevê-lo com determinada categoria.

A fim de prevenir uma orientação errônea de novos termos que transmitam conceitos diferentes dos daquelas doenças e, portanto, sugiram tratamento médico impróprio, é preferível torná-los neutros, ou seja, utilizar o nome do especialista que primeiro descreveu o caso, como ainda é feito em nossos dias.

2.5 - Na interação médico-paciente há uma metodologia que cada especialista segue. Os exemplos abaixo, referentes à Fonoaudiologia, à Psiquiatria e à Psicanálise, tornam evidente a necessidade que os especialistas têm da compreensão da sistematização terminológica em suas áreas.

a) "...Estávamos, nós também, em busca de uma classificação e de uma definição mais lingüística (sic) para as dislalias... Os livros mais clássicos sobre problemas de articulação dividem as dislalias em:

- orgânica (disglossia)

- funcional e

- mista

é uma divisão "médica", organicista e não é fonoaudióloga com a visão biopsicossocial. Não é satisfatória porque não é real". (Issler 1983).

b) "A nomenclatura e a classificação das alterações são importantes porque:

I - facilitam a comunicação inter e intraprofissional

II - facilitam o estudo das alterações, permitindo ordená-las e agrupá-las, e precedem-na. Um sistema ideal de classificação das alterações é aquele em que os termos carregariam informações sobre as manifestações clínicas, explicando a patologia e a etiologia.

Os termos geralmente empregados para descrever as alterações da fala são usados pelos especialistas em sentidos diferentes e falta lhes uniformidade de etimologia linguística.

Espera-se que um sistema de classificação, baseado nos sistemas de fala, possa contribuir para o melhor entendimento desses sistemas e suas alterações e para o posterior progresso dos procedimentos diagnóstico e terapêutico". (Mysak, 1984) (o grifo é nosso, a fim acentuar dois fatos: o papel da Ciência da Terminologia e o avanço tecnológico por ela propiciado).

c) "...mudança na conceituação dos distúrbios de ansiedade provocou um reposicionamento da perspectiva psicodinâmica quanto aos mesmos". (Lemgruber, 1993).

Os termos "ansiedade-estado" e "ansiedade-traço" são colocados como sugestões de subdivisão do distúrbio de ansiedade generalizada (DAG). É uma proposta de reformulação da nosologia psiquiátrica.

No mesmo artigo, Lemgruber explicita a necessidade de definições claras, quando cita:

"..., a proposta da DSM III - R (último manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana) - é a de oferecer descrições claras de categorias diagnósticas que permitam a clínicos e pesquisadores definir o mais especificamente possível os vários distúrbios mentais e facilitar a comunicação entre profissionais".

Também a CID-10 (nova Classificação Internacional das Doenças, proposta pela Organização Mundial de Saúde - OMS) trabalha com conceituações clínicas que refletem o consenso de especialistas consultados em diferentes partes do mundo.

d) "...a designação 'psicótico', por exemplo encontra-se hoje tão carregada de significados que o objeto de investigação fica obscurecido por tudo que já sabemos. ...o que nos move é a constatação do dramático abismo entre nosso conhecimento e a complexidade do fenômeno". (Marinho, 1993).

Como visto em todos os exemplos acima, fica reforçado que o papel dos especialistas para a construção de terminologias para línguas de especialidades é fundamental. Porém, é do domínio dos terminólogos o trabalho de sistematização dessas terminologias.

Quando terminólogos e especialistas realizam um trabalho conjunto, a qualidade é uma conseqüência natural porque há a sinergia entre teoria e prática.

 

Referências bibliográficas

ABNT. Comissão Especial Temporária de Terminologia. Considerações a respeito das atividades de preparação do projeto de norma; princípios e métodos da atividade terminológica. Rio de Janeiro, ago. 1994.

ABNT. Princípios e métodos da atividade terminológica; 1° projeto de revisão de norma. Rio de Janeiro, 1994. Revisão da ISO 704.

DAHLBERG, Ingetraut. Teoria do conceito. Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.7, n. 2, p. 101-107, 1978.

FOLHA DE SÃO PAULO, Org. A Tragédia do Cruzado. São Paulo, 1987.

GORKOVA, V.I. Some methodological recommendations on dictionary development. In: FID/DT. Essential problems in terminology for informatics and documentation. Moscow, 1980. p. 7-22.

ISSLER, Solange. Articulação e linguagem: avaliação. Diagnóstico na Fonoaudiologia. Três metodologias para a terapia das dislalias. Rio de Janeiro: Antares, 1980. Cap.I.

LEMGRUBER, Vera. Da neurose de ansiedade ao distúrbio de ansiedade generalizada. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v.42, n. 2, p. 111-115, 1993.

MARINHO, Ney. Limites da Psicanálise em situações limites. In: Congresso Brasileiro de Psicanálise, 15°, Rio de Janeiro, 8-11 out. 1993. Anais. Rio de Janeiro, 1993.

MOREIRA, Dalmo Antonio R. Arritmias ventriculares; abordagem clínica atual. Boletim do Centro de Cardiologia não Invasiva. v. 7, n. 2, p. 1-12, mar./abr. 1992.

MYSAK, Edward D. Patologia dos sistemas da fala. Trad. Prof. Edmée Brande. Rio de Janeiro, 1984. 321p.

OLIVEIRA, Laura de Lira e. Linguagem e terminologia médica. Trabalho apresentado no Ciclo de Palestras sobre Linguagem, Rio de Janeiro, Associação Brasileira de Odontologia, 15-16 abr. 1994.

OLIVEIRA, Laura de Lira.Terminologia médica na Policlínica Naval Nossa Senhora da Glória. Rio de Janeiro, 1993, Trabalho apresentado na IV Jornada Médica. 5p. Mimeo.

PELÁEZ, Carlos Manuel, SUZIGAN, Wilson. Economia monetária; teoria política e evidência empírica. São Paulo, Atlas, 1978. Cap.3.

RAMALHO, Valdir [Conceituação de termos econômicos e sua implicação na prática da Economia] Rio de Janeiro, 1994. Entrevista.

 

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Simposios de RITerm - Actas 1988 - 2000
Simpósios de RITerm - Atas 1988-2000

A terminologia e lingüística na prática técnico-científica. Problemas emergentes em Medicina e Economia

Dilza Fonseca da Motta
Laura de Lira e Oliveira
Brasil

 

A terminologia desempenha, nos dias atuais, um papel importante no ambiente técnico-científico uma vez que se propõe a estabelecer um método teórico-prático no controle das denominadas línguas de especialidades.

Lingüistas e terminólogos têm procurado um caminho comum para resolverem os problemas intrínsecos que surgem naturalmente ao se tentar equacionar o grande mundo da palavra que se transforma em matéria escrita, artigo científico ou qualquer outro termo que se queira dar ao que é gerado pelos estudiosos e pesquisadores no amplo campo da informação.

Estabelecer critérios e limites entre áreas do conhecimento e suas inter-relações propiciou ao longo da história da Documentação o desenvolvimento de sistemas de controle na linguagem natural, dando origem a ferramentas de trabalho para, principalmente, recuperação da informação.

A fundamentação teórica do termo como unidade de comunicação do conceito, e este considerado como uma unidade de conhecimento, determina uma teoria com respeito à linguagem técnico-científica.

A necessidade de se definir os termos em um sistema de conceitos revela a sua importância no momento em que tomadas de decisões são feitas sobre o que se estabelece em determinada área.

Exemplos nos campos relativos à Medicina e à Economia são citados, demonstrando que a mudança de terminologia implica em mudança de conduta cujos resultados são às vezes antagônicos.

A qualidade é também um fator que surge ao se aplicar a teoria da terminologia em determinada áreas do conhecimento porque ambas concorrem para uma sinergia comum.

O problema de uma linguagem mais clara e precisa, que resultasse na comunicação entre os povos de forma menos ambígua possível, sempre se constitui preocupação para os estudiosos das línguas faladas no dia-a-dia. Com a evolução das ciências e o aparecimento cada vez maior de áreas científicas inter e multidisciplinares, essa preocupação tornou-se mais grave e passou a envolver especialistas de várias disciplinas, notadamente lingüistas e terminólogos. Esses profissionais entenderam ser necessário estabelecer princípios e métodos que norteassem a constituição de glossários e de terminologias específicas para as diversas áreas do conhecimento.

Embora a Lingüística também venha se ocupando desse assunto, é a Ciência da Terminologia que dispõe das bases teóricas para o estabelecimento de normas para a construção de linguagens de especialidade, científicas e técnicas. Isso é fácil de compreender, visto que as áreas do saber lidam com a percepção e/ou com a construção mental de objetos - uma entidade, um fenômeno, um processo, um instrumento, ou seja, lidam com o conceito, e com suas relações com a realidade. A Ciência da Terminologia, por sua vez, ocupa-se dos conceitos de qualquer área de especialidade e, portanto, está sempre ligada à realidade.

Segundo Gorkova (1980), "a terminologia de uma área reflete seus conceitos. A desorganização do quadro conceitual determina a desordenação da terminologia". Como resultado da incorreta definição dos conceitos e do uso inadequado de termos que os expressem numa comunicação, têm-se observado a prática inadequada, ou mesmo incorreta, das ciências e das técnicas. Tem sido comum observar-se enormes discussões em torno de assuntos que envolvem conceitos básicos de uma área, sem que esses conceitos tenham sido previamente definidos. Na maioria dos casos, o conceito não é atendido na sua concepção mais moderna, tal como definido à luz da Ciência da Terminologia, como uma "unidade de conhecimento" (Dahlberg 1978). A percepção e/ou a construção mental individualizada, ou seja, aquilo que cada técnico percebe ou entende ser, não é suficiente para estabelecer o significado de um objeto científico ou técnico. O consenso entre os pares das diversas áreas do conhecimento faz-se necessário.

Um outro princípio da Ciência da Terminologia que precisa ser entendido pelos que praticam ciências e técnicas é que o Termo, que nada mais é do que o conceito tornado visível, audível, sonoro, acústico-em suma, "exteriorizado" para fins de comunicação, deve ter um tratamento terminológico e não lingüístico. O termo está para a Terminologia assim como a palavra está para a Lingüística. Essa distinção é amplamente discutida e justificada pelos membros da Comissão Especial Temporária de Terminologia da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT-CETT, 1994), quando afirmam que "o termo deve ser tratado terminologicamente, isto é, em sua relação com a realidade, com o pensamento, deixando-se o tratamento lingüístico para as palavras". Na linguagem comum, a matéria-prima é a palavra, onde várias formas lexicais podem significar a mesma coisa, e vice-versa. Ao contrário, nas linguagens de especialidade, o termo é, por princípio, monossêmico e mononímico, e deve sempre evocar um referente. Daí não caber em terminologias a existência de polissemias. Conceito e termo formam uma unidade, e não uma equivalência. O que pode variar, isso sim, são as diferentes formas lexicais por meio das quais um termo é comunicado.

A construção de terminologias para o desenvolvimento de atividades das diversas áreas do conhecimento tem sido uma necessidade cada vez mais premente. Não raras vezes, técnicos são incumbidos de elaborar sistemas terminológicos, e se dão conta de que essa é uma tarefa intelectual, nem sempre das mais fáceis. Mas ninguém mais indicado para cumprir essa tarefa. Não é o conceito uma unidade do conhecimento, e não são, então, os produtores e comunicadores do saber as pessoas certas para identificar um conceito, ordená-lo e sistematizar suas definições? Se, por um lado, o engenheiro, o médico, o economista e demais profissionais são os únicos capazes de solucionar os problemas terminológicos dos conceitos básicos de suas áreas, por outro lado, de nada adiantar-lhes-á o saber técnico-científico, sem que saibam dos princípios e dos métodos que orientam a atividade terminológica. Sobre isso, Gorkova (1980) afirmou:

"Os especialistas das diversas áreas estão familiarizados com a teoria e prática da Ciência Terminológica, que é uma disciplina científica comprometida com: mecanismos de geração de termos, métodos de definição..., métodos de ordenação de termos, desenvolvimento de sistemas terminológicos".

Observa-se, então, que a presença de técnicos das áreas mais diversas do conhecimento em Comissões de Terminologia é cada vez mais necessária. A versão brasileira da ISO 704, por exemplo, atualmente em fase de revisão, toma como ponto de partida o Conceito, incluindo informação sobre a formação de Conceito, seus elementos - as Características, as relações entre os conceitos e as bases para o estabelecimento destas relações. Inclui, ainda, instruções para a construção do Sistema de Conceitos e sua apresentação, instruções para a definição dos conceitos, e orientação sobre o Termo (ABNT/CETT, 1994).

Sintetizando, pode-se dizer que, enquanto o binômio "Produção do saber-Terminologia" não estiver compreendido, a comunicação e a prática técnico-científicas não ocorrerão de forma adequada.

Alguns exemplos nas áreas econômica e médica servem para explicitar o que foi dito.

1. Na área econômica

1.1 - Há palavras que são introduzidas no desenvolvimento das atividades científicas e técnicas, sem que tenham sido devidamente conceituadas. Os técnicos passam a usá-las, como se todos já soubessem seu significado. Por exemplo, a palavra "tributo". No Brasil, à época do Plano Cruzado, o Governo introduziu o chamado "empréstimo compulsório". Houve uma grande polêmica em torno do assunto entre os economistas da equipe governamental e outros que não faziam parte da equipe. Os primeiros não consideravam o "empréstimo compulsório" como um tributo; os segundos consideravam-no como tal. A dúvida gerou problemas no cálculo do índice de preços, naquela época (1986), e a conclusão de quem estava certo ou errado dependia da conceituação do termo "tributo". "Sabe-se, porém, que na maioria dos livros-texto de finanças públicas, de economia do setor público, de macroeconomia, ou de introdução à economia, dos últimos vinte anos, não existe conceituação de "tributo". (Ramalho, 1994).

1.2 - A conceituação do termo "moeda" é conhecida internacionalmente como "problema da definição de moeda" (Peláez, Suzigan, 1978). Um instrumento crucial de política econômica é a política monetária, que, segundo os economistas, geralmente afeta a inflação, o nível de emprego e o nível de produção. Mas é comum os próprios economistas levantarem estatísticas de "moeda" com diversas abrangências, por não saberem que itens (agregados monetários) devam ser incluídos no que se considera "moeda". Esse problema, exclusivamente devido à falta de conceituação do termo, tem sido debatido mais intensamente dos anos 60 para cá, mas continua sem solução, gerando controvérsias e incertezas nas conclusões.

1.3 - O termo "senhoriagem" tem sido confundido com "imposto inflacionário", e tem sido conceituado em trabalhos econômicos de duas formas diferentes:

- "aumento da base monetária, entendido como uma espécie de receita do governo".

- "juros que o governo consiga receber, caso possa fazer uma aplicação financeira da receita obtida com a base monetária". (Ramalho 1994).

1.4 - Em geral, as estatísticas levantadas pelos países perdem comparabilidade por causa de divergências de conceituação do que sejam "produtos", "setores" e "atividades econômicas".

Um exemplo clássico são as estatísticas sobre "dívida pública" e "déficit público". A dificuldade é devida, em grande parte, à não existência de uma conceituação clara e uniforme do que seja "setor público". Algumas definições desse termo incluem somente as atividades clássicas ou tradicionais (ex: serviços de policiamento, defesa externa, construção de estradas); outras incluem empresas públicas que vendem bens e serviços tipicamente privados (ex: aço, automóveis, papel, hotelaria); outras incluem até atividades privadas, de empresas privadas, desde que subsidiadas pelo governo; outras, serviços públicos, ou semi-públicos, prestados inteiramente por atividades privadas, sem subsídio. (Ramalho 1994).

Esse exemplo evidencia que a indefinição terminológica faz com que os economistas enfrentem considerável dificuldade em aprender com a experiência de outros países, e, até, em constatar a situação de seu próprio país em uma dada época, ou de avaliar os resultados das políticas que adotam.

2. Na área médica

2.1 - Em Cardiologia a linguagem relativa a arritmias ventriculares tem uma linguagem própria. O seu significado clínico, até o final do século passado, era ainda controverso e meramente descritivo. "Estudos mais recentes que introduziram conceitos de fisiologia a casos clínicos e a introdução de tecnologia avançada (eletrocardiografia dinâmica, estudo eletrofisiológico invasivo, eletrocardiografia de alta resolução) propiciaram novos conceitos na classificação e tratamento das arritmias". (Moreira, 1992) (grifo nosso).

Quando o especialista se defronta com uma arritmia ventricular, o pensamento inicial é: Como tratá-la? Portanto, é imprescindível conceituar as diversas formas de arritmia ventricular, a fim de se atuar com a terapêutica mais pertinente.

2.2 - A Terminologia, quando corretamente utilizada em métodos estatísticos, revela situações sociais características de uma região.

Por exemplo, traumatismo abdominal por ferida e por contusão.

Estudo estatístico (1993) em hospital de emergência do Rio de Janeiro revelou maior ocorrência de traumatismo abdominal por ferida (índice de violência). Estudo semelhante em país europeu revelou maior frequência por contusão (índice de acidentes de trânsito).

Por meio das definições dos termos tem-se:

ferida - é uma solução de continuidade aparente em uma estrutura do corpo (...ainda se via a ferida no lugar onde entrou a bala...).

contusão - lesão superficial, sem laceração, produzida por impacto.

2.3 - A Morbidade Ambulatorial revela a freqüência de casos. Porém, se as doenças não forem descritas por meio de termos que as identifiquem corretamente, decisões administrativas e epidemiológicas também não serão corretamente tomadas. É a ação da terminologia no âmbito pragmático da decisão sobre isso, Oliveira (1993) afirma o seguinte:

"Descrever a patologia com a maior especificidade possível, isto é designar com propriedade o diagnóstico dado ao paciente é de tal importância que a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), em artigo publicado em dezembro de 1992 (Notícias sobre IRA - Infecções Respiratórias Agudas) comenta este assunto: '...é importante considerar entre as infecções agudas como tratar a tosse e a pneumonia que não respondem imediatamente a um tratamento e que também poderiam ser descritas como crônicas...modificou-se a classificação para concentrar-se no principal objetivo da estratégia de tratamento de casos, isto é, na redução da mortalidade por pneumonia'. Mudança de terminologia implica em mudança de conduta médica e terapêutica".

2.4 - Termos eponímicos por exemplo:

"Doença de Still";

"Afasia de Broca"

A abundância de termos eponímicos em nomes de doenças pode ser explicada pelo fato de que nem sempre é possível dar atributos imediatos ao achado recente e descrevê-lo com determinada categoria.

A fim de prevenir uma orientação errônea de novos termos que transmitam conceitos diferentes dos daquelas doenças e, portanto, sugiram tratamento médico impróprio, é preferível torná-los neutros, ou seja, utilizar o nome do especialista que primeiro descreveu o caso, como ainda é feito em nossos dias.

2.5 - Na interação médico-paciente há uma metodologia que cada especialista segue. Os exemplos abaixo, referentes à Fonoaudiologia, à Psiquiatria e à Psicanálise, tornam evidente a necessidade que os especialistas têm da compreensão da sistematização terminológica em suas áreas.

a) "...Estávamos, nós também, em busca de uma classificação e de uma definição mais lingüística (sic) para as dislalias... Os livros mais clássicos sobre problemas de articulação dividem as dislalias em:

- orgânica (disglossia)

- funcional e

- mista

é uma divisão "médica", organicista e não é fonoaudióloga com a visão biopsicossocial. Não é satisfatória porque não é real". (Issler 1983).

b) "A nomenclatura e a classificação das alterações são importantes porque:

I - facilitam a comunicação inter e intraprofissional

II - facilitam o estudo das alterações, permitindo ordená-las e agrupá-las, e precedem-na. Um sistema ideal de classificação das alterações é aquele em que os termos carregariam informações sobre as manifestações clínicas, explicando a patologia e a etiologia.

Os termos geralmente empregados para descrever as alterações da fala são usados pelos especialistas em sentidos diferentes e falta lhes uniformidade de etimologia linguística.

Espera-se que um sistema de classificação, baseado nos sistemas de fala, possa contribuir para o melhor entendimento desses sistemas e suas alterações e para o posterior progresso dos procedimentos diagnóstico e terapêutico". (Mysak, 1984) (o grifo é nosso, a fim acentuar dois fatos: o papel da Ciência da Terminologia e o avanço tecnológico por ela propiciado).

c) "...mudança na conceituação dos distúrbios de ansiedade provocou um reposicionamento da perspectiva psicodinâmica quanto aos mesmos". (Lemgruber, 1993).

Os termos "ansiedade-estado" e "ansiedade-traço" são colocados como sugestões de subdivisão do distúrbio de ansiedade generalizada (DAG). É uma proposta de reformulação da nosologia psiquiátrica.

No mesmo artigo, Lemgruber explicita a necessidade de definições claras, quando cita:

"..., a proposta da DSM III - R (último manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana) - é a de oferecer descrições claras de categorias diagnósticas que permitam a clínicos e pesquisadores definir o mais especificamente possível os vários distúrbios mentais e facilitar a comunicação entre profissionais".

Também a CID-10 (nova Classificação Internacional das Doenças, proposta pela Organização Mundial de Saúde - OMS) trabalha com conceituações clínicas que refletem o consenso de especialistas consultados em diferentes partes do mundo.

d) "...a designação 'psicótico', por exemplo encontra-se hoje tão carregada de significados que o objeto de investigação fica obscurecido por tudo que já sabemos. ...o que nos move é a constatação do dramático abismo entre nosso conhecimento e a complexidade do fenômeno". (Marinho, 1993).

Como visto em todos os exemplos acima, fica reforçado que o papel dos especialistas para a construção de terminologias para línguas de especialidades é fundamental. Porém, é do domínio dos terminólogos o trabalho de sistematização dessas terminologias.

Quando terminólogos e especialistas realizam um trabalho conjunto, a qualidade é uma conseqüência natural porque há a sinergia entre teoria e prática.

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