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1988-2002
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Índice por autores

 

 

Terminologia para o MERCOSUL

Maria da Graça Krieger
Instituto de Letras
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Brasil

 

Em janeiro de 1995, entra em vigência o Tratado de Assunção, em que se constitui formalmente o MERCOSUL, mercado comum que reúne, em seu início, quatro países da América Latina: Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai.

Trata-se, pois, da criação de uma nova realidade, em que duas línguas - o português e o espanhol - falados na América do Sul, entram mais diretamente em contato. Embora os dois idiomas tenham origem comum e apresentem muitas semelhanças, apresentam também muitas diferenças entre si. Além disso, tanto o português, como, em especial, o espanhol latino-americano não constituem línguas homogêneas, porque comportam, em seu interior, importantes variações sócio-lingüísticas e regionais.

Diante do bilingüismo do Cone Sul e de suas peculiaridades internas, o domínio comum das terminologias constitui fator que facilitará uma comunicação unívoca, contribuindo, desse modo, para a eficiência dos intercâmbios que, como já se constata, não se limitam ao mundo comercial, mas se alargam para os campos da ciência e da cultura.

Parece, portanto, fundamental o papel de um trabalho sistemático de coleta e difusão das terminologias nesse novo contexto sócio- econômico e cultural. Conseqüentemente, a constituição de um banco de terminologias para o MERCOSUL, no mínimo, bilíngüe constituiria o adequado instrumento em suporte informatizado, capaz de proporcionar o acesso a múltiplas terminologias, organizadas e atualizadas em espanhol e em português.

Em realidade, neste Simpósio é desnecessário falar sobre os efeitos positivos do acesso rápido e confiável às terminologias para o trabalho dos tradutores, dos terminólogos, redatores de textos técnicos e responsáveis pela redação de toda sorte de contratos.

Mas, se aqui não é preciso insistir acerca da funcionalidade de um banco de dados terminológicos; de outro lado, não podemos nos eximir de apresentar sugestões para chegarmos a uma proposta mais concreta de constituição desse banco, e, a esse respeito falarei mais adiante. Agora, importa destacar que, no bojo de qualquer proposta nessa direção, dois princípios básicos devem logo ser definidos, quais sejam:

1. o princípio de que tanto o português, quanto o espanhol devem ser as línguas oficiais do MERCOSUL, pois ambas expressam a identidade de culturas que devem ser respeitadas e nunca suprimidas ou superpostas. Com isso, alija-se toda e qualquer possibilidade de que se venha a pensar em uma língua supra, o que seria a negação de nossas identidades. Ao se colocar em pé de igualdade o português e o espanhol, respeita-se o uso legítimo e a autenticidade dos léxicos especializados das respectivas línguas. Conseqüentemente reforça-se o intercâmbio cooperativo e harmonioso que se pretende alcançar;

2. a divulgação de nossas terminologias, mesmo com os empréstimos e os neologismos a que estão afetas, é uma forma de revelar o potencial econômico e cultural não só de nossos países, como da nova conjuntura. Por essa visão, se é levado também a reconhecer a necessidade de um banco de dados dessa natureza ;

Esses dois princípios, marcadamente ideológicos, relacionam-se, mesmo indiretamente, com um fato concreto: a ausência de uma política da língua no Cone Sul. No caso do Brasil, pode-se dizer que ela praticamente inexiste. Não me atrevo a falar em nome dos outros países, mas parece que neles a situação não se diferencia, tanto que se registra a carência de obras de referência, de natureza temática, no português do Brasil e no espanhol da América Latina.

Considerando, portanto, a falta de tradição do que chamei, em termos genéricos, de uma política da língua, este Simpósio da RITerm constitui o forum legítimo e privilegiado para discutirmos e propormos concretamente um projeto de constituição e de implementação de um sistema informativo, capaz de difundir e intercambiar as terminologias produzidas e incorporadas pelo espanhol e pelo português que falamos.

Entretanto, para a realização de um projeto de tal porte, encontraremos muitas dificuldades, mas que não são insuperáveis. Mesmo reconhecendo a dimensão das dificuldades, mas estimulada pelo desafio e pela convicção de que este trabalho é inadiável, passo a fazer algumas considerações preliminares à proposta mais concreta que logo apresentarei.

Inicialmente, refiro-me à necessidade de tomar algumas decisões como a de definir uma Coordenação para estabelecer a política terminológica para o MERCOSUL e gerenciar as atividades propostas. Neste caso, apresentam-se duas possibilidades mais imediatas: tal Coordenação poderá ficar a cargo da RITerm ou, então, da atual Subcomissão Temática de Terminologia do MERCOSUL, a qual já está avançando nesse sentido, embora com condições ainda muito precárias de funcionamento.

A idéia de constituição dessa Subomissão surgiu no ano passado, no âmbito da Comissão de Sistemas de Informação do MERCOSUL, que é uma instância integrada por entidades dos quatro países signatários do Tratado de Assunção, quais sejam: Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT); Secretaria do Mercado Comum do Conhecimento e Informaçåo, do Ministério de Educaçåo e Cultura da República Oriental do Uruguai; Secretaria de Ciência e Tecnologia da República Argentina, contando ainda com representantes do governo do Paraguai.

De todo modo, independentemente da instância escolhida, é preciso que nessa Coordenação estejam representados os quatro países. Além disso, é fundamental que a equipe responsável disponha de condições e autonomia financeiras para realizar seu programa de trabalho. Caso contrário, o projeto torna-se inviável.

Um segundo ponto importante seria a identificação dos grupos ativos de pesquisa terminológica, assim como dos trabalhos existentes nos quatro países, concluídos ou em andamento.

Quanto a esse último aspecto, a RITerm já possui um Inquérito sobre atividades terminológicas, bastante amplo, cabendo apenas atualizá-lo. A análise dos resultados desse inquérito, além de permitir a identificação da produção terminográfica do Cone Sul, permitirá também que se tome conhecimento dos prováveis colaboradores desse projeto, seja em nível individual, seja institucional. Em outras palavras, evoca-se o aproveitamento racional de nossa produção e de nossos recursos tanto humanos, quanto tecnológicos.

Evidentemente, não estou esquecendo de uma série de pontos fundamentais, também de natureza metodológica, para o operacionalização do projeto, tais como:

a. a definição das necessidades terminológicas prioritárias do MERCOSUL, lembrando, por exemplo, a importância do domínio comum da terminologia das relações internacionais;

b. a padronizaçao das informações terminológicas, visando à seleção dos dados a serem registrados;

c. a adoção de um formato comum que possibilite o intercâmbio efetivo dos dados ainda que recolhidos e armazenados por diferentes processos.

Neste momento, não estou avançando nessa ordem de problemas, porque as ações norteadoras do projeto maior devem ser nossa preocupação primeira. Se elas vierem a ser definidas, naturalmente daí decorrerão ações mais específicas.

Dessa forma, enquadro, entre as primeiras ações norteadoras, o modo de constituição e de viabilização do Banco de Dados Terminológicos para o MERCOSUL. Para tanto, parto de considerações de experientes idealizadores de grande bancos de dados, como o EUR0DICAUTOM , banco terminológico da Uniåo Européia e também de bancos do Canadá, como o TERMIUM, da Secretaria do Estado, em Ottawa e o BTQ, este último do Office de la Langue Française au Québec. Em síntese, são bancos terminológicos de grande porte, tal como se pode prever para o do MERCOSUL, cuja constituição e gerenciamento demandam recursos humanos e instrumentais grandiosos, assim como altos custos operacionais.

As referidas manifestações de especialistas direcionam-se atualmente no sentido de que não sejam mais seguidos os mesmos moldes precursores. Cabe, hoje, considerar no planejamento de bancos que devem armazenar grande massa dinâmica de dados, como é o caso da terminologia, a agilização que as redes telemáticas atualmente oferecem no intercâmbio desses dados.

Por essas razões, o banco que almejamos constituir, se tornaria mais viável, se nos alinhássemos nesse pensamento atual no sentido de organizar estruturas modulares em nossos países. Seria uma forma de partilhar domínios de especialização entre diferentes bancos de porte menor.

Mais concretamente, acredito que, ao invés de empreendermos um longo e dispendioso trabalho, alcançaríamos resultados mais imediatos, se viéssemos, por exemplo, a integrar de modo efetivo a Rede de Bancos de Dados Terminológicos para América Latina e Península Ibérica, conforme a RITerm propõe-se a implementar.

Esta rede de bancos de terminologia consiste no projeto chamado RITerm-BD, que, seguindo o espírito de racionalização de recursos humanos e materiais, hoje propugnado pelos administradores dos grandes bancos terminológicos há pouco mencionados, tem como meta final a criação de uma rede de bancos de dados terminológicos na América Latina e na Península Ibérica. Esta Rede seria da maior utilidade para os setores comerciais, industriais e científico-técnicos regionais, estaria ao alcance tanto de usuários de organizações institucionais e privados como do usuário individual.

Esse objetivo implica, também, no estabelecimento das estruturas regionais necessárias para lograr uma ampla difusão terminológica e com isso propiciar as possibilidades de consulta não só em toda a região - América Latina e Península Ibérica - como também em outras regiões via redes telemáticas. Para tanto será preciso facilitar a coordenação das atividades de coleta terminológica, recuperação, difusão e intercâmbio da informação em matéria de terminologia, eliminando as lacunas nos diferentes segmentos vetores de desenvolvimento e contemplando as variantes regionais existentes.

Do mesmo modo, não esquecendo o público que não utiliza ferramentas informáticas, o RITerm-BD pretende criar condições para a publicação de glossários, vocabulários e tesauros nas formas impressas convencionais.

Desse conjunto de proposições, que de resto, não devem se diferenciar substancialmente de outras com objetivos similares, importa destacar a idéia de criar nódulos regionais. Se chegarmos a considerar, em nossas deliberações, que esta é uma boa proposta, no mínimo, um desses nódulos deveria estar localizado na região do MERCOSUL. Mas acredito ainda que,considerando a atual produção terminológica e terminográfica de cada um de nossos países não ficaremos limitados a uma única estrutura inicial

Em síntese, era esta a minha visão, certamente muito pragmática, de uma "Terminologia para o MERCOSUL", mas acredito na importância de canalizar e racionalizar nossas iniciativas comuns no campo da terminologia. De certo modo, a integração pretendida pelo MERCOSUL, é também uma condição necessária para o avanço de nossas pesquisas, que por sua vez, se constituirão em fator positivo para que se torne realidade essa mesma integração.

Para concluir, quero acrescentar à minha breve exposição, apenas uma certeza: a de que, a despeito de qualquer benefício que os avanços tecnológicos na área da informática possam trazer para a terminologia, apenas a seriedade e o rigor científicos na coleta, análise e tratamento dos dados justificarão os esforços na implementação de um empreendimento desse porte.

 

Bibliografia consultada

ACTES du Colloque. Les industries de la langue. Montréal, Office de la Langue Française, Société des Traducteurs du Québec, 1990.

CORBEIL, Jean-Claude. Terminologie et banques de données d'information scientifique et technique. Meta. v.36, n.1. p. 128-134, mars, 1991.

DUPONT, Sylvie. La politique et les activités de terminologie au Canada. In: GOUADEC, Daniel. Terminologie et phraseologie. Acteurs et amenageurs. Paris: La Maison du Dictionnaire, 1994. p.27-41.

REICHLING, Alain. EURODICAUTOM, ou la terminologie en l'an 2001. In: CLAS, André & SAFAR, Hayssasm. L'environment traductionnel. La station de travail du traducteur de l'an 2001. Montréal: Presses Universitaires du QUébec, 1992. p.201-206.

RONDEAU, Guy. Introduction à la terminologie. 2.ed. Québec, Gaetan Morin, 1984.

 

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