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Índice por autores

 

 

O caos "definitório" em C&T

Nicia Medalha Calaza
Cátia Maria de Almeida Castro
Brasil

 

Introdução

O Projeto de Implantação do Sistema de Controle e Recuperação da Produção Bibliográfica da Fundação Oswaldo Cruz, aprovado e subsidiado pela FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos, teve como uma de suas vertentes o desenvolvimento de um instrumento de controle terminológico na área de Medicina Experimental: o Tesouro de Manguinhos - TEMAN. Elaborado com base na Teoria do Conceito constitui-se num sistema onde os termos encontram-se conceitualmente estruturados.

Foi a partir da elaboração desse instrumento, que os termos -coletados na literatura pesquisados nas obras básicas da área biomédica e em linguagens documentárias- quando analisados sob a ótica da Teoria do Conceito, revelaram inconsistências nas definições.

A apresentação de alguns exemplos demonstra a visão crítica adquirida pela utilização de princípios e métodos terminológicos, e revela a necessidade de que as obras especializadas sejam concebidas de forma sistêmica, garantindo a comunicação exata dos conceitos e evitando o que Hagar Espanha Gomes denominou "caos definitório".

 

Da teoria

A Teoria do Conceito tomada como base para construção do TEMAN, fundamenta-se no princípio de que o conceito é uma unidade do conhecimento consistindo em um referente - objetos, propriedades, idéias, fatos, etc. - (A), nas predicações -características- feitas sobre o referente (B) e numa forma verbal -termo- que o representa (C). O conceito encontra-se inteiro em A, B e C, podendo ser apresentado sob a forma de um triângulo:

Em outras palavras, a Teoria do Conceito leva à determinação de um termo pela seleção das características de um referente, considerando os propósitos do sistema.

As características úteis ao sistema comporão a definição do termo, num processo analítico - sintético onde a identificação das características é a análise, e o termo a síntese. Dessa forma, cada termo designa um único conceito e cada conceito é designado por um único termo.

Definir é, portanto, estabelecer limites para o conteúdo do conceito. Como o conceito integra uma estrutura, um sistema de conceitos, não pode ser definido isoladamente; os conceitos são definidos uns em relação aos outros. Posicionar um conceito num sistema de conceitos significa classificá-lo, a partir da seleção das características relevantes para essa estrutura. A seleção dessas características determina o significado do conceito e a sua posição no sistema. A definição resultante desse processo espelha a posição do conceito na estrutura, sendo também possível redefiní-lo por meio da apresentação sistemática.

 

Prática da teoria

Entre as atividades desenvolvidas na elaboração do Tesouro de Manguinhos, a pesquisa em fontes especializadas fornecia definições que informavam sobre os vários significados dos termos coletados nos trabalhos produzidos pela FIOCRUZ; outras definições surgiam da consulta a especialistas.

Das informações compiladas, a escolha recaía sobre a definição mais abrangente, a mais clara para nosso entendimento. Utilizava-se a definição com um único intuito: conhecer o assunto. Com isso, privilegiava-se aleatoriamente várias categorias porque essas definições não haviam sido elaboradas pela seleção das características pertinentes ao sistema.

Não havia a preocupação com a estrutura, uma vez que inexistiam a visão sistêmica e os propósitos do sistema voltados para a FIOCRUZ. Quando da estruturação da parte sistemática do Tesouro, evidenciou-se ter sido inadequada a escolha das definições. Na verdade, não se efetuava a conceituação e sim, compilação de definições, não restando outro recurso a não ser o reinício de trabalho, com a determinação dos propósitos do sistema a ser desenvolvido.

A construção do Tesouro seguiu, então, as seguintes etapas:

Os princípios e métodos terminológicos e a análise conceitual foram os elementos que forneceram segurança para que se rompesse, quando necessário, com as inconsistências, formulando novas definições.

As informações encontradas em várias obras sobre um mesmo assunto, são, por vezes, conflitantes em aspectos básicos e, a título de ilustração, apresentamos:

I) Escabiose (Sarna, Acaríase) - doença infecciosa da pele cujo agente infeccioso é um ácaro, o Sarcoptes scabiei

A mesma obra define:

Doença Infecciosa - doença do homem ou dos animais resultante de uma infecção.

Infecção - penetração e desenvolvimento ou multiplicação de um agente infeccioso no organismo do homem ou de outro animal.

Agente Infeccioso - microorganismo (vírus, rickettsias, bactérias, fungos, protozoários e helmintos) capaz de produzir infecção ou doença infecciosa.

Infestação - alojamento, desenvolvimento e reprodução de artrópodes na superfície do corpo ou nas vestes.

Se a escabiose é causada pelo Sarcoptes scabiei, um ácaro; se os ácaros são artrópodes e se artrópodes não são microorganismos então, escabiose não é doença infecciosa e sim infestação.

Em consulta a dicionários especializados verificam-se mais incoerências:

A) Stedman

1. Scabies (trad. Sarna) - erupção devida ao Sarcoptes scabiei.

2. Mange (trad. Sarna, Rabugem) - doença cutânea de animais domésticos e selvagens provocada por qualquer dos diferentes gêneros de acarinos que se escondem na pele. No homem esta condição é chamada de escabiose.

3. Sarcoptic mange (trad. Sarna sarcóptica) - doença cutânea produzida por acarino pruriginoso, o Scarcoptes scabiei.

4. Acariasis (trad. Acaríase, Acaridíase) qualquer doença causada por um ácaro.

5. Sarcoptic acariasis (trad. Acaríase sarcóptica, Sarna, Escabiose) - infestação pelo Sarcoptes scabiei.

B) Parker

1. Scabies (Med.) - doença contagiosa da pele causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei.

2. Mange (Med. Vet.) - infestação da pele de mamíferos por certos ácaros que penetram na epiderme.

Verifica-se que as incoerências ocorrem em diferentes níveis: sinonímias, definições e até mesmo em categorias;

 

II) Leite - fluido esbranquiçado secretado pelas glândulas mamárias para nutrição da prole (Parker)

- líquido branco que contém proteínas, açúcar e lipídios, secretado pelas glândulas mamárias, destinado ao alimento do recém-nascido (Stedman).

Estruturado em três linguagens documentárias internacionais, amplamente utilizadas, a saber:

CAB Thesaurus DeCS MeSH

Milks Leite Milk

bt Body fluids tg Termos anatômicos bt Animal

animais anatomy

Constata-se que as hierarquizações do DeCS e do MeSH são errôneas, apesar de ambas as linguagens possuírem a classe Fluidos e Secreções em sua estrutura.

 

III) Sex ratio (MeSH) X Razão de masculinidade (DeCS)

Sex ratio - proporção de machos para fêmeas numa população ...

Masculinidade - qualidade de masculino ou másculo, virilidade

Como se observa a expressão razão de masculinidade é indicativo de quão viril é um homem.

 

Conclusões

A adoção dos princípios terminológicos e seu exercício:

demonstram ser o conceito uma unidade do conhecimento, permitindo o domínio dos conceitos de uma determinada área;

permitem o desenvolvimento da visão crítica frente às obras especializadas porque estabelecem a estruturação lógica do pensamento;

ressaltam a necessidade de que as obras especializadas sejam concebidas de forma sistêmica, tornando-se instrumentos de controle terminológico capazes de garantir a qualidade das comunicações no âmbito da C&T.

 

Bibliografia

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Cab Thesaurus. Wallingford: Commonwealth Agricultural Bureaux, 1988. 2 v.

Calaza, N. M., Castro, C. M. A. Definição na estrutura de tesauro. In: Seminário sobre classificação e linguagens documentárias, 2., 1989, Rio de Janeiro.

Centro Latino-americano e do caribe de informação em ciências da saúde, São Paulo. Descritores em ciências da saúde (DeCS); versão preliminar. São Paulo, 1987. 3 v.

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Dahlberg, I.Teoria do conceito. Ciênc. Inf., Rio de Janeiro, v. 7, n.2, p.101-110, 1978.

Gomes, H. E. Elaboração de tesouros e necessidade de definir. Rio de Janeiro. 17 p. mimeografado.

Gomes, H. E. (Coord.) Manual de elaboração de tesouros monolíngües. Brasília: Programa Nacional de Bibliotecas de Instituições de Ensino Superior, 1990. 78p.

Marinho, M. T. O conceito em terminologia. Rio de Janeiro. 23 p. mimeografado.

NATIONAL Library of Medicine (United States) Medical subject headings. Bethesda, 1992. 1269 p.

Parker, S. P. McGraw-Hill dictionary of scientific and technical terms. 3. ed. New York: McGraw-Hill, 1983. 1781p.

Stedman, Dicionário médico. 23 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1979. 2v.

 

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