Da microestrutura de vocabulários
técnico-científicos bilingües: para um microssistema
terminológico de ecologia e meio ambiente
Maria Aparecida Barbosa
Departamento de Lingüística Faculdade de Filosofia,
Letras Ciências Humanas
USP
Brasil
O presente trabalho relata alguns resultados de pesquisas que vimos realizando sobre a produção de vocabulários técnico-científicos bilíngües, no quadro geral de nossas investigações nas Áreas de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia. Examinamos certos aspectos de sua estrutura, natureza e funções, face a metateorias e metamodelos construídos pelas ciências que têm por objeto a unidade lexical. Esses estudos permitiram-nos chegar à proposição, por um lado, de metodologia de compatibilização de um mesmo conceito em duas línguas de especialidade, uma de partida e outra de chegada, e, por outro lado, de elementos estruturais básicos específicos desse tipo de obra lexicográfica: macroestrutura, microestrutura e sistema de remissivas que lhe são peculiares.
Questões teóricas, metodológicas e tipológicas
Preliminarmente, a partir de um corpus constituído de vários dicionários bilíngües, aleatoriamente escolhidos, procuramos analisar e descrever a sua macro e microestrutura, bem como o sistema de remissivas predominantes. Isso nos permitiu, dentre outras facetas, caracterizar uma tipologia estrutural de tais obras lexicográficas e, mesmo, no que concerne à microestrutura, delimitar uma tipologia de relações de equivalência entre a entrada e a correspondente definição de um artigo ou verbete.
Considerando as questões acima apontadas à luz dos modelos elaborados por J. Rey-Debove, G. Haensch, H. Weinrich, Bernard Al, J. e C. Dubois, B. Pottier, E. Coseriu, R. Galisson, F. Rastier, pelo Groupe Interdisciplinaire de Recherche Scientifique et Apliquée en Terminologie de Québec, pelos pesquisadores da terminologia francesa La banque des mots, como P. Lerat, por exemplo, e ainda por outros especialistas desse domínio, deparamo-nos com a necessidade de postular a existência de determinados critérios fundamentais, para a ordenação das entradas (macroestrutura), para a constituição das definições complementares (microestrutura) e para a precisa explicitação da rede de relações inter-verbetes (sistema de remissivas).
Voltando-nos para o segundo aspecto, um dos mais complexos, no conjunto de reflexões sobre o saber e o fazer lexicográficos, podemos conceber um continuum, que vai da estrutura mínima - entrada e definição sumária - a uma microestrutura que teoricamente tende ad infinitum. Noutras palavras, os paradigmas informacionais que se podem atribuir a uma entrada compreendem uma faixa com valores de 1 a n.
Na verdade, existe uma microestrutura básica que, de acordo com Debove (1971), é constituída pelo conjunto das 'informações' ordenadas que se seguem à entrada e que tem uma estrutura constante, correspondente a um programa e a um código de informações aplicáveis a qualquer entrada. A esse conjunto 'entrada + enunciado lexicográfico' denominamos 'artigo ou 'verbete'. Desse modo, o 'artigo' mínimo tem dois constituintes: 'entrada' e 'definição'.
Gráfico 1
Artigo = { entrada + enunciado lexicográfico ( + definição)}
microestrutura mínima
predicados de entrada
É preciso observar, no entanto, que a definição, como também todos os paradigmas que integram o enunciado lexicográfico e a própria metodologia que permite a sua construção organizam-se em função da natureza da obra lexicográfica em que comparecem. Há, pois, uma correlação entre tipologia de dicionário e tipologia de definições, estabelecendo-se uma relação de dependência entre a natureza da obra lexicográfica e a natureza do enunciado lexicográfico; tipologia de dicionário e tipologia de enunciado lexicográfico situam-se numa relação determinante/determinado, ou seja, o tipo de obra lexicográfica condiciona a quantidade, os tipos de paradigma, a sua distribuição combinatória e coerções no enunciado.
Logo, a microestrutura básica exposta no gráfico 1 é uma variável, visto que o 'o programa de informações' nele contido sustenta-se numa relação de dependência para com o contexto lexicográfico. Thesauri, dicionários monolingües, dicionários bilingües, vocabulários técnico-científicos, vocabulários especializados, glossários, etc., requerem programas diferentes e adequados aos seus universos. Em tais condições, indo além dessa atitude mínima, o artigo de dicionário, segundo Vilela (1983), pode conter: entrada + informação (etimológica/ortográfica/fonética/gramatical) + definição (ou explicação) + exemplos (ou aplicação da entrada em contextos).
Nessa segunda estrutura possível, o 'enunciado lexicográfico', constitui-se, então, de três macro-paradigmas, três grandes zonas semântico-sintáticas: paradigma informacional (PI), paradigma definicional (PD) e paradigma pragmático (PP). Esses macro-paradigmas, por sua vez, podem subdividir-se em micro-paradigmas, variáveis em qualidade e quantidade, conforme a natureza da obra lexicográfica, seus objetivos, limites e público-alvo.
Desse modo, temos:
Gráfico 2
Artigo = { Entrada + Enunciado Lexicográfico (± PIi + PDi ± Ppi)}
microestrutura possível
onde:
Paradigma I = {PI1, PI2 ,..., PIn}
Paradigma D = {PD1, PD2 ,..., Pdn}
Paradigma P = {PP1, PP2 ,..., Ppn}
ou seja,
Paradigma I = {abreviatura, categoria, gênero, número, conjugação, pronúncia, homônimos, campos léxico-semânticos, etc.}
Paradigma D = {sema1, sema2 ,..., seman}
Paradigma P = {classe contextual1, classe contextual2 ,..., classe contextualn}
Teoricamente, o número de tipos de 'informações' sobre uma entrada tende ad infinitum. Assim, outros paradigmas podem ser acrescentados aos já citados, enriquecendo a microestrutura: índices de freqüência; nível de rapidez da difusão de uma palavra; emprego preferencial por um autor; relações de significação como sinonímia, antonímia, homonímia; analogias; ilustrações, etc.
Completando-se a fórmula inicial de microestrutura, teremos, portanto:
Gráfico 3
Artigo = { + Entrada + Enunciado Lexicográfico (± Paradigma I1,
+Paradigma Definicional, ± Paradigma Pragmático1
± Paradigma I2 ,..., Paradigma In )}
micro estrutura que tende ad infinitum
Se, por um lado, a microestrutura, considerada em todos os seus aspectos, é variável de uma obra lexicográfica para outra, é, por outro lado, constante no interior de uma mesma obra; uma vez adotado um programa, sustentar-se-á ao longo de uma mesma obra. Essa mesma organização se verifica em paradigmas, subclasses das macro-classes componencias da microestrutura.
A microestrutura apresenta, pois, uma hierarquia interna, que tem no paradigma definicional o seu elemento nuclear. Sua natureza também varia em função do contexto lexicográfico, numa relação inter-dicionários; é constante, porém, numa relação inter-artigos e intra-dicionários, independentemente de modalidade de construção escolhida, na vasta gama de opções oferecidas pela tipologia de definições lexicográficas. Dessa maneira, quer se opte pela análise sêmica, quer por outro tipo de identificados semântico qualquer, estabelecem-se paradigmas sêmicos (semas, sintagmas semânticos ou enunciados semânticos), que têm, igualmente, uma hierarquia e todo um programa definitório (Cf. Barbosa, 1989).
Aceitando-se a reflexão anterior, de que a microestrutura é constituída de um 'programa de informações', requerido pelo contexto lexicográfico e pelo universo de discurso que lhe corresponde, se pode chegar às correlações entre os diferentes tipos de obra lexicográfica e os sucessivos níveis de atualização dos elementos lingüísticos: sistema, normas e falar concreto (Coseriu, 1969).
Tomando por base o modelo de Charles Muller (1978) sobre a distinção entre universo léxico, conjunto vocabulário e conjunto palavras-ocorrência, e a relação que o autor estabelece entre universo léxico e sistema, conjunto vocabulário e normas, conjunto palavras-ocorrência e o falar concreto, e, ainda, a distinção que faz entre lexema (unidade lexical de sistema), vocábulo (unidade lexical de normas), palavra (unidade lexical de falar concreto), foi possível inferir alguns aspectos que nos parecem fundamentais no conjunto dessas reflexões.
Destacamos aqui a correlação que se pode estabelecer entre: a) dicionário de língua/universo léxico/conjunto lexema/sistema; b) vocabulário técnico-científico, especializado/conjunto vocabulário/conjunto de vocábulos/norma; c) glossário/conjunto palavras-ocorrência/conjunto de palavras/falar concreto.
De maneira geral, a eficácia dos dicionários e, mais especificamente, a dos vocabulários técnico-científicos bilíngües depende, em grande parte, da seleção e ordenação adequadas dos modelos de paradigmas subjacentes à sua estruturação, informacionais, definitórios e pragmáticos. Contudo, pudemos verificar que a desejada uniformidade metodológica e estrutural -um dos princípios que devem reger a produção de qualquer obra lexicográfica e que podem garantir o seu estatuto, natureza e funções - nem sempre ocorre.
Nos vocabulários por nós analisados, observamos uma acentuada falta dessa postulada uniformidade. Com efeito, alguns deles apresentam uma microestrutura constituída, apenas, da entrada, na língua de especialidade de partida, e de uma 'definição' restrita a possíveis unidades léxicas equivalentes, na língua de chegada; outros organizam-na como entrada e a correspondente definição, elaborada na língua de chegada, da língua de especialidade de partida; outros, ainda, apresentam um enunciado lexicográfico constituído de entrada + pronúncia + categoria gramatical + domínio de experiência + definição ou equivalentes da entrada da língua de partida, formulada com a língua de chegada + combinatória semântico-sintáxica na língua de partida (frase ou segmento de frase), traduzida na língua de chegada + sentidos figurados, da língua de partida (frase ou segmento de frase), traduzidos na língua de chegada + informações morfo-sintáxico-semânticas redigidas apenas com a língua de chegada + remissivas.
O primeiro tipo aqui descrito parece configurar, antes, uma relação terminológica que um vocabulário/dicionário propriamente ditos, já que constitui somente uma lista de termos técnico-científicos da língua de partida e seus possíveis equivalentes na língua de chegada. Pudemos observar muitos outros tipos de soluções estruturais na classe dos dicionários e vocabulários bilíngües, que confirmam a mencionada falta de homogeneidade e coerência estruturais. Mesmo no caso dos vocabulários que optam pelo tipo de estrutura formada por entrada na língua de partida e equivalentes na língua de chegada, verificamos que ocorre enorme variação, na medida em que há toda uma tipologia das relações de equivalência, dentre as quais o caso ideal e raro de equivalência aproximada entre duas unidades, uma, da língua de partida, e outra, da língua de chegada; muito mais comuns são os casos de existência de vários equivalentes na língua de chegada, para uma única unidade léxica da língua de partida, ou, inversamente, de várias entradas, da língua de partida, às quais corresponde apenas um equivalente na língua de chegada.
Nesse sentido, cumpre notar que as relações entre os conjuntos noêmicos e os conjuntos léxico-semânticos das estruturas lingüísticas que os manifestam, no âmbito do universo conceptual-cultural de uma língua, as relações entre os conjuntos noêmicos de uma língua e de outra, ou seja, entre os universos conceptuais-culturais que lhes correspondem, e, ainda, as relações que se estabelecem entre os conjuntos léxico-semânticos de duas línguas distintas podem caracterizar-se como funções de bijeção, injeção e sobrejeção.
Gráfico 4

Observando, por outro lado, os conjuntos lingüísticos apenas, temos as seguintes relações:
Gráfico 5

Consideremos alguns exemplos, à título de ilustração. Em francês, temos élève e étudiant; o primeiro designa o aluno somente até o fim do segundo grau (ou, então, o aluno das Grandes Escolas, como, por exemplo a École Normale Supérieure); aluno e estudante, em português do Brasil, aplicam-se a pessoas do corpo discente, de qualquer grau de ensino; é igualmente complexa a relação de equivalência possível entre as palavras francesas place, lieu e endroit; segundo as situações de discurso e de contexto, as formas equivalentes em português variam muito, cabendo, conforme os casos, lugar. local, vaga, etc. Temos, assim, "cinq places assises" (cinco lugares sentados); "vous n'avez pas de place ici" (você não tem lugar aqui); il n'y a plus de places pour ce cours" (não há mais vagas nesse curso); "un lieu touristique" (um lugar turístico); "l'endroit où j'ai posé mes lunettes" (o lugar em que coloquei meus óculos); e assim por diante. Percebe-se a complexidade da rede de relações que se estabelece entre as unidades da língua de partida e aquelas que devem ser propostas como equivalentes. A relação nunca é biunívoca, já na linguagem coloquial. Nas línguas de especialidade, a rede de possíveis 'equivalentes' torna-se ainda mais complexa. Por vezes, não há nenhuma unidade lexical que possa ser proposta como equivalente e a solução tem de ser buscada numa paráfrase ou mesmo numa 'explicação' de tipo enciclopédico. A precisão e o rigor exigíveis de um vocabulário técnico-científico ou especializado acentuam o problema.
Uma análise noêmica, léxico-semântica e semântico-sintáxica de um microssistema da área de Ecologia e Meio Ambiente parece confirmar as ponderações precedentes.
Assim, por exemplo, para o conjunto noêmico "terreno inundável de pequena profundidade", no português do Brasil, existem as estruturas e realizações lingüísticas: pântano, paul (considerados sinônimos numa perspectiva intra-universo de discurso); este contempla, também, a designação de brejo, cujo conjunto espacial pode ser designado por banhado, várzea, vazante, constituindo o seu hiperônimo o termo brejo.
Contudo, há, ainda, outro conjunto noêmico nesse microssistema, "região peculiar do Mato Grosso (Brasil), que se estende pela Bolívia e Paraguai, alternadamente inundada e seca", lingüisticamente manifestado como pantanal.
Desse modo, temos, no português do Brasil, as relações noêmico-lexêmicas:
Gráfico 6

Já, no francês, as relações noêmico-lexêmicas, quando a esse microssistema, assim se apresentam:
Gráfico 7

Noutra perspectiva, interlingüística, considerando-se o português do Brasil, como língua de partida, e o francês, como língua de chegada, temos, para o primeiro conjunto noêmico, os termos aceitos como equivalentes lingüísticos marais, marécage, bourbier; terrains inondés, plaines marécageuses; para o segundo conjunto noêmico, os termos geralmente dados como equivalentes pelos dicionários português-francês são marécage e marais (Cf., por exemplo, Burtin-Vinholes, 1953). Entretanto, uma análise noêmica e sêmica mais acurada conduz a verificar que, no primeiro caso, os termos de língua francesa não correspondem exatamente ao conjunto noêmico 1 do metassistema conceptual do português do Brasil e que não existe, no segundo caso, nenhum termo equivalente, em francês, como realização lingüística aceitável do conjunto noêmico 2, tornando-se necessária uma nota explicativa de caráter enciclopédico. De maneira aproximada, poder-se-iam aceitar as relações de equivalência:
Gráfico 8

Além disso, o conjunto noêmico 1, no português do Brasil, e aquele que pode ser proposto como conjunto noêmico 1, em francês, resultam de processos de conceptualização diferentes, já que a primeira língua toma como ponto de partida o "terreno" e a segunda, a "lâmina de água". Comparando-se os conjuntos noêmicos, temos:
Gráfico 9
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Universo cultural do português do Brasil |
Universo cultural do francês |
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Conjunto noêmico |
Conjunto noêmico |
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"Terreno inundável de pequena profundidade de fundo mais ou menos lodoso" |
"Lâmina de água de pequena profundidade que recobre terreno parcialmente invadido pela vegetação" |
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(Cf. Ab'Saber et al, 1988) |
(Cf. Petit Robert, 1973) |
Observa-se que os recortes culturais partem de perspectivas distintas: um, o brasileiro, "da terra para a água"; outro, o francês, "da água para a terra". Por essa razão, dentre outras, não há, no processo de conceptualização da língua francesa, um lugar semântico para pantanal. Esquematicamente, temos:
Gráfico 10
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Conjunto noêmico no português do Brasil |
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Conjunto noêmico em francês |
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1. m |
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1. m |
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2. m |
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Ø |
De toda maneira, nesse tipo de obra lexicográfica, impõe-se o esforço de refletir as relações semânticas e contextuais observáveis nas línguas de especialidade em causa com o máximo de fidelidade, assegurando ao usuário o acesso rápido e correto a esse gênero de informações.
O projeto de elaboração de vocabulários técnico-científicos bilíngües da Universidade Lumière Lyon 2 e da USP
O Departamento de Línguas Românicas da Universidade Lumière Lyon 2 e o Departamento de Lingüística da Universidade da São Paulo estabeleceram, em 1986, um Acordo de Cooperação Internacional, nos termos do Convênio de Cooperação Internacional assinado, em 1984, entre as duas Universidades. No âmbito do Convênio e do Acordo mencionados, foi aprovado um Projeto Conjunto de Pesquisas de Lingüística Aplicada, Lexicologia, Lexicografia, Elaboração de Vocabulários Técnico-Científicos e Especializados e Dicionários Terminológicos Bilíngües Português/Francês.
A equipe francesa é coordenada pelo Prof. Dr. Emílio Milton Giusti e dela participam: Prof. Dr. Jacques Poulet, Prof. Dra. Maria Eugênia Malheiros Poulet, Prof. Dr. Michel Dupupet (ecólogo), Prof. Rosa Maria Queiroz Fréjaville, Prof. Lídia Almeida Barros, Prof. Maria Cristina Pedro e Prof. Maurízio Babini.
A equipe brasileira é coordenada pela Prof. Dra. Maria Aparecida Barbosa e dela participam: Prof. Dr. Cidmar Teodoro Pais, Prof. Dr. Mário Laranjeira, Prof. Dra. Maria de Lourdes Rodrigues, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Prof. Dr. João Teodoro DOlim Marote, da Faculdade de Educação da USP, Prof. Catherine Brigitte Carras e Prof. Alice de Araújo Ferreira, ambas da Universidade Lumière Lyon 2, cursando Doutorado na USP. Colaboram com a equipe o Prof. Dr. Aziz Ab'Saber, do Instituto de Estudos Avançados da USP, e o Prof. Dr. Antônio Lamberti, da USP.
Diversos vocabulários técnico-científicos estão programados, para atender a diferentes Áreas do conhecimento. O primeiro em preparação, por decisão consensual das duas equipes, desde 1986, é o Vocabulário Técnico-Científico de Ecologia e Meio Ambiente.
O corpus desse Vocabulário foi constituído por um Vocabulário de Ecologia monolíngüe elaborado na Universidade Lumière Lyon 2, um vocabulário monolíngüe, elaborado na USP, e vasto acervo de publicações científicas de Ecologia, nas duas línguas. Geógrafos e ecólogos colaboram com o Projeto.
O método, as técnicas e procedimentos compreendem a análise sêmica, semântico-sintáxica, léxico-semântica e noêmica (B. Pottier, R. Galisson, P. Charaudeau) dos vocábulos, a construção dos conceptus (F. Rastier), a compatibilização dos termos e das definições, o estabelecimento dos atributos semânticos da língua da partida e a pesquisa dos equivalentes possíveis na língua de chegada, o tratamento lexicográfico (J. Rey-Debove, A. Rey) e terminológico (R. Dubuc, P. Lerat, G. Rondeau).
A metodologia e a tecnologia de análise léxico-semântica e semântico-sintáxica de conceitos e de compatibilização dos termos e de definições lexicográficas foi elaborada pela Prof.a Maria Aparecida Barbosa e aceita pelas duas equipes, para fundamentar a produção do mencionado Vocabulário (Cf. Barbosa, M. A. - "Proposta de uma metodologia de análise funcional de descritores de glossários técnico-científicos". In: Acta semiótica et linguistica, V. 3. São Paulo, Global, 1979, pág. 47-68).
No processo de elaboração dos vocabulários técnico-científicos, um dos problemas mais complexos é justamente o da proposição de vocábulos que sejam aceitáveis como equivalentes da entrada, seja para a construção da definição, seja para o estabelecimento do sistema de remissivas. Na medida em que a própria definição é constituída de unidades lexicais utilizadas enquanto metatermos designativos de semas, resultantes da análise sêmica e semântico-sintáxica explicitada em língua natural, a reconhecida inexistência de sinônimos conduz a imprecisões e deslizamento de sentidos. No caso dos vocabulários técnico-científicos bilíngües, a questão é ainda mais grave, já que cada língua sustenta um sistema de valores peculiar a uma cultura e produz recortes culturais específicos. A própria metalinguagem lexicográfica pode ser, então, questionada. Um vasto sistema de relações de significação - parassinonímia, hiperonímia/hiponímia, co-hiponímia, paronímia e suas combinações - provoca numerosas dificuldades, quase insuperáveis.
Para buscar uma solução operacional, na produção do Vocabulário Técnico-Científico Bilíngüe de Ecologia, lançamos mão da metodologia proposta pelo Prof. Cidmar Teodoro Pais, que defende a utilização, em casos desse tipo, de elementos que possam desempenhar o papel de tertium comparationis. De maneira sucinta, trata-se de construir uma 'linguagem' constituída a um nível pré-semiótico e trans-semiótico, que assume as funções de critérios para as relações inter-semióticas e para as transcodificações. O modelo se fundamenta no metassistema conceptual elaborado por Pottier e os 'modelos mentais' ou conceptus, formulados por Rastier. A análise semântica permite, então, o estabelecimento de elementos que possam intermediar as relações semânticas entre as unidades lexicais pertencentes às duas línguas envolvidas e às metalinguagens de especialidade em questão.
Da microestrutura e do sistema de remissivas para o vocabulário técnico-científico bilÍngüe
No desenvolvimento do Projeto de Pesquisa aqui apresentado, reexaminamos cuidadosamente os resultados da pesquisa preliminar, sobre a tipologia dos paradigmas de macroestrutura, microestrutura e sistema de remissivas acima apontados (Cf. item 1). Tivemos de buscar soluções para numerosos problemas com que nos deparávamos, à medida que os trabalhos avançavam.
Assim, os resultados de nossas pesquisas e os trabalhos realizados levaram-nos a elaborar e propor, para Vocabulários Técnico-Científicos Bilíngües, uma microestrutura possível, dotada da desejável coerência e homogeneidade, que assegurasse à obra lexicográfica a eficácia como instrumento de armazenagem e recuperação da informação, satisfazendo ao mesmo tempo, as exigências de rigor e precisão científica, e as necessidades do usuário (público-alvo).
A microestrutura, no estágio atual da pesquisa, ficou assim constituída:
a. paradigmas informacionais de pronúncia, de categoria gramatical, de domínio e sub-domínio de experiência, conjunto noêmico;
b. paradigma definicional e formas equivalentes na língua de chegada;
c. paradigmas pragmáticos (frases ou segmentos de frases, na língua de partida, traduzidos na língua de chegada, incluindo-se possíveis combinatórias semântica-sintáxicas);
d. paradigma de freqüência de emprego e de normalização na área de especialidade;
e. paradigma de formas lexicais equivalentes, no discurso banal;
f. paradigma informacional de relações de significação 'sinônimos', parassinônimos, hiperônimos, hipônimos, co-hipônimos , para estabelecimento do sistema de remissivas.
Os trabalhos de elaboração do Vocabulário Técnico-Científico Bilíngüe Português/Francês de Ecologia e Meio Ambiente acham-se bastante avançados. Das pesquisas realizadas resultaram, também, contribuições importantes para a Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia, de modo geral.
À guisa de conclusão
Cumpre ressaltar a questão dos sistemas de valores sustentados por línguas de especialidades, manifestadas em línguas naturais distintas. Diferenças observadas, em alguns casos, são, apenas, terminológicas, remetendo ao mesmo conjunto noêmico ou conceitual; noutros casos, diferenças há, mais profundas, que dizem respeito à própria organização conceitual da cultura e ao sistema de valores correspondente.
Existem, pois, diferentes tipos de relações entre o sistema noêmico ou conceptual e o sistema terminológico, o que conduz a toda uma escala de equivalências, quando da análise contrastiva entre termos de línguas distintas, ainda que se considere a mesma área, domínio e subdomínio.
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