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Índice por autores

 

 

A normalização da terminologia da inteligência artificial: algumas considerações

Ieda Maria Alves
Universidade de São Paulo
Brasil

 

A atividade normalizadora no Brasil

Disciplina de caráter prescritivo, a terminologia tem, na atividade normalizadora, a forma mais adequada de assegurar uma comunicação eficaz entre os usuários de uma área.

Definida pela norma ISO 1.087 como o "estabelecimento de normas sobre os princípios terminológicos, de normas terminológicas ou de seções terminológicas de normas técnicas por um organismo com reconhecida autoridade para tanto", a normalização terminológica está praticamente circunscrita, no Brasil, ao âmbito da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), em que a terminologia - juntamente com a classificação, a especificação, o método de ensaio, a padronização, o procedimento e a simbologia - constitui um dos tipos de normas adotadas pelo organismo. Ao lado dessa normalização oficial, mas que ainda não atende às necessidades nacionais do desenvolvimento das ciências e das técnicas, uma outra forma de normalização, oficiosa e muitas vezes nefasta, acaba se impondo, como fenômeno decorrente da não-existência de uma efetiva normalização terminológica: ao ser publicado, um dicionário terminológico, elaborado ou não adequadamente, torna-se um parâmetro, uma fonte de referência e, consequentemente, uma norma para os usuários. Não raro encontramos, em dicionários terminológicos de diferentes áreas, termos mal traduzidos de uma língua estrangeira ou criados sem a observância das regras morfológicas do vernáculo.

Em 1992, por iniciativa do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) e da ABNT, foi criada a CEETT (Comissão de Estudo Especial Temporária de Terminologia), que tem o objetivo de traduzir e adaptar, para o contexto brasileiro, normas relativas à atividade terminológica, sobretudo as normas elaboradas pela ISO (International Standardization Organisation). Embora bastante importante, essa iniciativa, por si só, não é suficiente para a fixação da atividade normalizadora, que ainda depende, no Brasil, de uma política de planejamento linguístico - a exemplo do que está sendo realizado em outros países (Canadá, França, Espanha..) -, susceptível de criar um organismo responsável pela normalização dos termos que denominam os resultados do desenvolvimento científico e tecnológico.

 

A terminologia da IA - considerações sobre sua normalização

Algumas áreas são, no contexto brasileiro, particularmente sensíveis às influências da terminologia estrangeira, especialmente inglesa. Casos muito conhecidos ocorrem na Informática e na Economia. Na Informática, termos ingleses são empregados sob sua forma original (mouse, window) e ainda sob forma parcialmente adaptada para o português, com o acréscimo da vogal temática -a e da desinência de infinitivo -r a verbos ingleses: to access > acessar; to delet > deletar. A terminologia da Economia reflete também uma forte influência inglesa, que pode ser observada por meio de termos já incorporados ao nosso economês (black, know-how, leasing, marketing, merchandising, over, overnight...), o que motivou o acadêmico Antonio Houaiss a afirmar que, "mais que um modismo, trata-se de uma subserviência mental dos economistas, derivada da extrema ignorância que têm da língua portuguesa" (citação extraída do jornal O Estado de S. Paulo, 17-01-89, caderno 2, p. 14, c.1).

Ao iniciarmos a elaboração de um dicionário terminológico da Inteligência Artificial (IA), considerávamos a hipótese de que, tal como na Informática, encontraríamos nessa terminologia um grande número de empréstimos do inglês e, ainda, de criações vernáculas mal formadas.

A coleta do corpus para a elaboração do dicionário, baseada em livros, teses, dissertações e anais de congressos relativos à IA revelou-nos, no entanto, que nossa hipótese não se confirmava plenamente. A análise de uma nomenclatura de cerca de 1.000 (mil) termos demonstrou-nos, sobretudo, a ocorrência de uma maioria de termos vernáculos, de aproximadamente 25 (vinte e cinco) empréstimos do inglês e de algumas formações híbridas (inglês e português) ou mal constituídas segundo a morfologia do português.

Dentre os termos vernáculos, muitos provêm da língua corrente (ação, agenda, compilação) ou são importados de outras línguas de especialidade (Botânica - árvore, raiz, ramo; Linguística - análise semântica, sentença; Lógica - dedução, premissa, proposição, teorema); Matemática - constante, variável), constituindo, assim, neologismos semânticos na terminologia da Inteligência Artificial.

Como toda língua de especialidade, a Inteligência Artificial apresenta um grande número de termos-sintagmas: algoritmo de busca, programação automática, resolução inteligente de problemas... Muitas dessas formações resultam, na verdade, de um tipo de empréstimo, o decalque, segundo o qual o termo é traduzido de forma adequada à estrutura própria do português (elemento determinado seguido de elemento determinante). Desse modo, termos como encadeamento para trás, explosão combinatória, motor de inferência, entre outros, que no inglês apresentam a estrutura inversa - determinante-determinado (backward chaining, combinatorial explosion, inference engine, respectivamente) - são traduzidos de acordo com as regras morfossintáticas de nosso idioma .

Os termos ingleses que permeiam a terminologia da IA revelam todos uma particularidade: estabelecem concorrência com suas respectivas formas traduzidas, o que cria uma relação sinonímica entre empréstimos / termos vernáculos. Alguns exemplos: backward chaining / rastreamento para trás; blackboard / quadro-negro; fuzzy logic / lógica nebulosa; matching / casamento; state space / espaço de estados.

Resta-nos citar uma outra característica dessa terminologia, referente ao emprego de termos não-formados de acordo com as regras da língua portuguesa. Esses termos constituem, de fato, formações decalcadas no inglês, como regra se...então (inglês rule if...then), ou formas híbridas, igualmente decalcadas na língua inglesa e parcialmente traduzidas para o português: árvore and/or, grafo and/or, informação fuzzy. De maneira análoga aos empréstimos, esses três últimos termos sofrem a concorrência de seus respectivos equivalentes traduzidos: árvore e/ou, grafo e/ou, dado incerto.

 

Considerações finais

Tendo em vista as observações acima expostas a respeito dos termos coletados da IA, podemos tecer algumas considerações concernentes às responsabilidades de uma comissão que se ocupasse da normalização dessa língua de especialidade.

As regras de formação da língua portuguesa são observadas entre os termos emprestados da língua comum, como também entre os provenientes de outras línguas de especialidade, os quais passam a constituir neologismos semânticos na terminologia da Inteligência Artificial.

A maioria dos termos-sintagmas, mesmo os decalcados no inglês, refletem a estrutura morfossintática portuguesa e, assim, já estão empregados de acordo com as normas do idioma.

Restam, portanto, os empréstimos do inglês e as formações híbridas.

Os termos empregados em inglês são, também, utilizados sob forma traduzida para o português. Muitos deles constituem sintagmas, que têm, na tradução portuguesa, respeitada a estrutura determinado-determinante: backtracking / rastreamento para trás; fuzzy logic / lógica nebulosa; general problem solver / resolvedor geral de problemas; state space / espaço de estados; well-formed formula / fórmula bem-formada. Outros, morfologicamente simples, também apresentam um equivalente português: blackboard / quadro-negro; fork / nó-forquilha; matching / casamento; pruning / poda; script / roteiro; shell / gerador. Além desses casos, outros necessitam de solução por parte de uma comissão normalizadora: termo inglês / equivalentes sinonímicos em português: backward chaining / encadeamento para trás, encadeamento regressivo, encadeamento retroativo; backward chaining / inferência para trás, processo dirigido por objetivos; breadth-first / busca em nível, busca em amplitude; certainty factor / fator de certeza, fator de confiança; forward chaining / encadeamento para frente, encadeamento progressivo; forward reasoning / inferência para frente, raciocínio para frente; frame / estante, quadro; hill- climbing / subida de encosta, busca subindo morro; slot / nicho, prateleira; termo inglês / equivalentes portugueses mal formados: least-cost / busca menor curso.

As formações híbridas, que já concorrem com suas respectivas traduções, podem ter, nestas últimas, uma forma normalizada: árvore and / or, grafo and / or, informação fuzzy: árvore e / ou, grafo e / ou, dado incerto.

Podemos dizer, concluindo, que a normalização da terminologia da IA, no português brasileiro, não nos parece uma tarefa impossível; ao contrário, pode ser assumida por um subcomitê da ABNT, constituído por especialistas e usuários desse ramo da Informática e subordinado ao CB (Comitê Brasileiro) 21, encarregado da normalização de Computadores e Processamento de Dados.

 

Referências bibliográficas

BOULANGER, Jean-Claude. Le miroir aux alouettes en Intelligence Artificielle. Méta, 32-3, p. 326-31, 1987.

Norma ISO 1.087. AFNOR 1990.

NB-0. ELABORAÇÃO DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT.1990.

 

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