Traduzir: a viagem para o círculo mágico
Manuela Almeida e Silva
Portugal
Designa-se traduzir a operação de fazer passar de uma língua para outra. É o processo pelo qual se vertem palavras, ideias, textos, imagens, de uma língua para outra língua tornando, desse modo, perceptível o que até aí se apresentava incompreensível: sons, sinais, símbolos, palavras e sentidos entrelaçados entre si, próprios de um outro universo.
O acto de traduzir em que consiste a tradução permite, pois, a comunicação, o enriquecimento recíproco. Ou seja, a possibilidade de relação, de troca, por meio da interpretação de algo até aí inacessível. constitui, nessa linha, uma porta aberta, uma via, um caminho destinado à aproximação do que se encontra separado por significações distintas, afastado pelo espaço, obscurecido pelo tempo, elaborado em concepções do mundo únicas, experiências e vivências diferentes.
A tradução, nessa perspectiva, permite a apropriação de algo até aí ignorado, constitui a abertura ao campo do desconhecido. É, por essa razão, a passagem fundamental de um mundo par outro mundo. A transição é assegurada pelo tradutor, aquele que traduz, interpreta, o intérprete, revela ao mundo a que pertence, o seu mundo, -ou mundo do outro- aquilo que, até esse momento de traduzir, permanecia encerrado, encoberto, impenetrável, mais do que isso, fora da existência, sem existir. Como acontece, por exemplo, em grande medida, também no domínio da tradução, entre Portugal e Espanha (quer no âmbito da literatura ou no das obras de carácter científico), dois povos hispânicos que apesar da proximidade geográfica - ou por causa dela - e das equivalências culturais estão longe, de facto, de se conhecerem mutuamente. Como se estivessem, como é costume referir-se, de costas voltadas um para o outro. Ou entre Portugal e Brasil, países ligados pela história e irmanados, até certo ponto, pela língua e que, no entanto, reconhecem, acima de tudo, a dificuldade e os obstáculos ao desenvolvimento do conhecimento recíproco. Apesar da literatura, as novelas televisivas e a música desfazerem, em alguns casos, mais do que a distancia oceânica, a ignorância saturada de indiferença. Não se apresenta muito dissemelhante o panorama entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa. Para já não mencionar Macau e Timor.
Enquanto isso se verifica, uma distinção interessante e, sem dúvida, curiosa, surge entretanto. Ela é introduzida de forma a separara tradutor, o que traduz, (independentemente de ter por ofício principal essa actividade ou de a exercer de forma paralela ou complementar), e o traduzidor, termo de forte conotação depreciativa que designa o mau tradutor. Isto é, aquele que traduz mal, interpreta e reverte de modo erróneo a realidade que se esperava conhecida, fluente, familiar e que, nessas condições, antes obscurece. Pior do que isso, conduz aquele que o segue por domínios deturpados, confunde, embaralha o sentido, enleia.
O que é um bom tradutor? O que faz um mau tradutor? A resposta a estas questões é simples: a capacidade de transpor uma visão do mundo para outra visão do mundo. Esta capacidade radica no conhecimento dos objectos considerados e de as estruturas de significação e de sentido, os conceitos semânticos e, acima de tudo, as estruturas sintácticas que marcam e se encontram impregnadas de um modo particular de apreensão do mundo, uma maneira singular de representação das coisas, dos homens e da vida.
A língua, enquanto princípio organizador do conhecimento, constitui uma forma de representação da realidade, da estrutura das coisas tal como o homem tem consciência delas. Elemento integrante e integrador, permite a entrada em um círculo mágico no qual qualquer objecto se encontra totalmente embebido do seu poder, da sua influência, do seu saber feito de uma sensibilidade única às coisas.
E esse modo particular, esse círculo mágico, segundo o qual se entrelaça a relação do homem com o meio, com os outros e com o mundo, que define a configuração das culturas, de uma cultura, que corresponde à Weltanschauung, à cosmovisão, à visão do mundo que representa um elemento fundamental da cultura que representa e manifesta. E que, precisamente, aquele que traduz deve preservar sob pena de alterar o sentido original das coisas e sobrepôr realidades e significações que não podem ser justapostas. E incorrer, assim, no risco de fazer parte de aqueles tradutores que Norbert Elias, sociólogo alemão, considera estarem aptos para esbaterem o autêntico sentido de aquilo que traduzem e afastarem-se, desse modo, do que se pretende, na verdade, significar.
A dificuldade observada em alguns casos não é menos frequente no campo das traduções de trabalhos científicos. No caso particular da Sociologia do Desporto, da História do Desporto, da História da Educação Física e da Antropologia do Corpo, áreas sobre as quais estudamos, assinalam-se situações que confirmam, a outros níveis, a mesma resistência oposta à penetração mais justa de uma cultura diversa. esta questão é referida no trabalho de Norbert Elias e de Eric Dunning acima citado, no qual se destaca a incapacidade de muitos estudiosos dos diferentes domínios do conhecimento citados interpretarem, igualmente, de modo correcto traços de uma cultura a que estes investigadores pertencem. Obscurecendo, pois os aspectos que, pelo facto de não serem iguais, permitiriam, com efeito, aceder ao conhecimento das estruturas fundamentais do pensamento, da sensibilidade e da acção, que constituem a singularidade essencial desses traços estudados, de essa cultura. Isto é, de esses iodos peculiares de ser, de sentir, de fazer.
Exemplifiquemos. Na História da Educação Física é comum a referência à ginástica como se esta fosse sempre um complexo de exercícios físicos imutáveis e independentes das realidades humanas e sociais em que se desenvolvem e onde encontram as justificações para a sua prática, para a sua existência. Na História do Desporto é possível assinalar uma situação equivalente a partir dos jogos. Considerando-se que os múltiplos jogos de bola, jogados ao pé ou à mão, corresponderiam, exactamente, aos jogos colectivos hoje conhecidos e jogados nos recintos desportivos segundo uma padronização e regulamentação definida. Como se estes pudessem ter sido jogados no séc. XVI ou no séc. XVII da mesma maneira e debaixo das mesmas condições actualmente conhecidas e existissem em um quadro social, mental e psíquico semelhante àquele que hoje é possível encontrar vulgarizados no desporto e na sociedade e na cultura em que este de desenvolve.
A visão do mundo particular às diferentes culturas é materializada ainda, "naturalmente", nos modos de jogar o mesmo jogo. Por exemplo, o futebol, que possuindo regras definidas em termos de competição revela, apesar disso, maneiras distintas de as interpretar consoante se tratem de equipas anglo-saxónicas, latinas ou sul-americanas. E essa é a tradução correcta dessas regras, a forma de interpretação que se ajusta, de facto, às maneiras de pensar, de sentir e de agir características de uma cultura, da cultura a que pertencem, de que fazem parte as equipas, como qualquer outra obra, que jogam o jogo.
Ultrapassar as resistências a uma interpretação adequada da íngua, tal como a uma adaptação certa das regras de jogar futebol, supõe o conhecimento dessa cosmovisão própria e singular.
Tornar acessível as obras científicas a um número cada vez mais elevado de estudantes que oferecem séria resistência à leitura de outras línguas é uma circunstância a alcançar e que só poderá ser favorecida e alterada quando a tradução deixar de ser considerada como uma condição secundária. Isto é, quando passar a ser considerada como uma condição fundamental de conhecimentos dos homens e das culturas. Um instrumento de aproximação e de compreensão das sociedades e dos homens, um verdadeiro instrumento de cultura.