Actas / Atas
1988-2002
Presentación / Apresentação
I Simposio (1988)
II Simpósio (1990)
III Simposio (1992)
IV Simposio (1994)
    Índice
V Simposio (1996)
VI Simposio (1998)
VII Simpósio (2000)
VIII Simpósio (2002)
Índice por autores

 

 

A terminologia médica

Maria de Lurdes Abrantes Garcia
Centro de Estudos Comparados - FCSH
Universidade Nova de Lisboa
Portugal

 

Na sociedade actual, o texto científico adquire cada vez maior preponderância. Por isso surgiu e está em franco desenvolvimento o estudo da Terminologia e a produção de obras terminográficas avança em ritmo acelerado.

A percepção desta situação, o contacto frequente com especialistas de Medicina, nomeadamente Professores Universitários, que sentem a premência da resolução de problemas terminológicos que afectam o seu domínio e, fundamentalmente, o pedido de colaboração que, por eles, nos foi dirigido para, conjuntamente, participarmos nos trabalhos de harmonização de conceitos e de termos e sua posterior dicionarização, despertou em nós o interesse pela investigação de uma língua de especialidade de um domínio da Medicina: a Senologia.

A Senologia, ramo das Ciências Médicas, tem como objecto:"a abordagem multidisciplinar da glândula mamária e da sua patologia em áreas tão distintas como a investigação básica ou clínica, a prevenção ou o rastreio, o diagnóstico ou o tratamento, enfim a reabilitação ou os cuidados terminais" (Conde:1989).

A Senologia e a Terminologia são dois ramos do saber que têm algo em comum:

A Senologia, como qualquer outra ciência, necessita das "ferramentas" necessárias à comunicação - os termos.

A Terminologia é a ciência que se ocupa do estudo científico das noções e dos termos utilizados nas línguas de especialidade.

Do contacto entre as duas ciências surge uma nova área de investigação - a Senoterminologia, sendo seu objecto os termos, que designamos: Senotermos.

Ao iniciarmos o estudo da Senoterminologia, verificámos que a Senologia assume posição de relevo na investigação médica e na prática clínica, pois engloba diversas especialidades: clínica geral, cirurgia, ginecologia, oncologia médica, anatomopatologia, imagiologia, radioterapia, patologia clínica, endocrinologia, medicina nuclear, medicina física , reabilitação...etc, cada uma com um campo de investigação circunscrito e específico, o que faz com que, em virtude das pesquisas empreendidas e do processo de desenvolvimento científico que se tem operado, surja uma superespecialização de conceitos com a consequente proliferação vocabular e constituição de subvocabulários de especialidade,cuja difusão nem sempre é acompanhada do necessário esclarecimento nocional e nem sempre também atinge na totalidade os utilizadores desta terminologia.

Além disso, também o recurso a diferentes metodologias para o estudo das mesmas lesões, a dificuldade em distinguir o normal do patológico, a multiplicidade de padrões morfológicos com que os especialistas se deparam, o desconhecimento dos fenómenos biopatológicos que determinam a génese e evolução de algumas lesões e ainda a metodologia diferente que utilizam para estudar as mesmas lesões são factores responsáveis pela instabilidade terminológica relativa à designação de tais lesões.

Assim, no dizer do Professor Doutor Carlos Lopes (1993), é " difícil padronizar a linguagem em Senologia " pelo facto de, apesar do avanço científico, ainda não se possuir um conhecimento exacto dos processos de desenvolvimento e involução normais da mama, o que dificulta a precisão quanto ao que se deve situar na esfera do fisiológico ou na do patológico. Outro factor importante resulta de recurso a diferentes metodologias no estudo das mesmas lesões:

"Os clínicos, para além da história clínica, usam, sobretudo, a observação e a palpação que lhes dão as dimensões, contornos, consistência e sensibilidade das lesões.

Os radiologistas usam, sobretudo, imagens a preto e branco observadas em dois planos.

Os patologistas observam e palpam o material que lhes é enviado, mas usam, sobretudo, a imagem histológica. " (Lopes, 1993).

Também a dispersão geográfica dos Centros de investigação da Senoterminologia que constituem diversas Escolas de pesquisadores, com metodologias seguramente diferentes, é outro factor - factor esse absolutamente normal - que pode suscitar teorias e terminologia em concorrência e, logicamente, opções diferentes.

O contacto com bibliografia estrangeira plurilingue, nomeadamente francesa e anglo-americana, cuja terminologia influencia os investigadores portugueses, conduz à utilização de alguns decalques e equivalentes que contribuem para acentuar a instabilidade terminológica.

Gera-se, portanto, incerteza terminológica caracterizada por ambiguidades, má tradução de equivalentes em língua estrangeira ou inexistência de tradução com recurso ao empréstimo do termo estrangeiro. Verifica-se concorrência e polissemias, motivadas pela variação dos termos utilizados, pelo facto de várias designações conceptualizarem a mesma noção e uma só denominação poder conter em si diversas noções. Todos estes factores apontam para a necessidade de se estabelecer um consenso quanto a princípios, critérios, metodologias, relacionados com a investigação e prática médicas e a questão terminológica, verdadeiramente indissociável de toda a problemática Senológica, tem assumido uma dimensão de preponderância relevante em diversas obras e estudos publicados neste domínio de investigação.

A este propósito, observe-se as referências contidas no " Atlas de Imagiologia da Mama" do Dr. Cláudio Cunha:

(...) Temos de evitar no relatório as frases ou palavras ambíguas, os duplos sentidos...

Temos...de precisar nos relatórios os termos, a nomenclatura utilizada.

Iremos referir o uso e abuso do termo displasia e iremos pedir a limitação da sua utilização, tendo de evitar igualmente o termo de hiperplasia...

Não abuse da distrofia mamária. Temos que nos precaver mesmo contra os médicos radiologistas ou anátomo-patologistas que descrevem todos os casos como patológicos, como distróficos. (...)

e o Prof. Dr. Jorge Soares em " Proliferações Intraductais da Glândula Mamária - Epitelioses, Papilomatose, Carcinoma "in situ" refere o seguinte:

(...) O emprego de novas técnicas na abordagem semiológica das lesões da mama também veio introduzir novas terminologias, dificultando ainda mais a comunicação entre os clínicos, patologistas, citologistas, radiologistas e radioterapeutas. Daí que haja necessidade de uniformizar nomenclaturas para o corrente entendimento de todos os que estão envolvidos no diagnóstico e no tratamento das lesões da mama. (...)

Para o levantamento dos termos já inventariados, para o estudo de questões terminológicas e para uma tentativa de solução das mesmas tem sido de extrema importância a colaboração dos especialistas, Professores dos três Centros Universitários do nosso País: Porto, Coimbra e Lisboa. Essa colaboração, aproximando Especialistas e Terminólogos, permite estreitar as relações entre os dois grupos e faculta ao terminólogo a possibilidade de desenvolver o seu trabalho em resposta às necessidades que detectou ou que lhe foram transmitidas pelo meio técnico-científico representativo da especialidade que investiga.

Na verdade, tal como refere LANDRY (1980) a uniformização de termos de um domínio científico-técnico é uma actividade complementar da pesquisa terminológica, resultando da cooperação entre terminólogos e especialistas do domínio em questão, com o objectivo de tomarem decisões no sentido de:

privilegiar um termo em relação a outros para designar uma determinada noção;

precisar a área semântica de um termo, definindo-o em relação a outros termos com os quais se confunde, definindo também estes, uns em relação aos outros;

precisar o sentido de termos que não são sinónimos e que frequentemente se empregam uns pelos outros;

verificar a equivalência de termos e precisar o seu sentido;

verificar a propriedade de um equivalente;

tentar encontrar um equivalente diferente do que já existe, mas que é mal aceite;

determinar a qualidade de equivalência entre um termo estrangeiro e o termo nacional;

examinar a possibilidade de aceitabilidade de um termo que tenha sido proposto, neológico ou não.

Para colaborar em actividades idênticas às que acabámos de referir, relacionadas com a harmonização de senotermos, fomos convidada a participar com os especialistas do domínio numa Reunião de Consenso, realizada a nível nacional, sobre "Terminologia Radiológica e Anátomo-Patológica da Doença Proliferativa e Carcinoma da Mama", cujos trabalhos nos permitiram, por exemplo:

precisar a área semântica de diversos termos, nomeadamente: "adenose" - termo usado em Patologia e em Imagiologia, com significado diferente nos dois domínios de aplicação e não totalmente bem definido. Por isso os especialistas referiram que este termo deve ser sempre qualificado, tanto num domínio de aplicação como no outro - em Imagiologia: padrões de adenose compatível com...;

em Patologia: adenose esclerosante, adenose microglandular, adenose apócrina,etc.

verificar que as propostas de rejeição de termos e sua substituição por outros levaram os especialistas a privilegiar, por exemplo: "alterações de tipo fibroquístico" em relação a "displasia mamária" ou "doença fibroquística", pelo facto desse termo precisar melhor o conceito que denomina, na medida em que corresponde a uma alteração estrutural de padrão fibroso ou quístico - um termo linguisticamente mais pertinente por ser um termo mais motivado, portanto mais lógico, mais auto-significativo, além de que "displasia" é conceptualmente incorrecto, porque contém em si a noção de "lesão pré-maligna".

verificar, por exemplo, relativamente a "doença fibroquística", a propriedade do equivalente Inglês que substitui "disease" por "change" - "fibrocystic change" (NHSBSP, 1989: 18) - portanto, termo este muito mais compatível com "alteração".

Estando incluído neste conceito o sema de "lesão benigna" ou de "benignidade" justifica-se portanto que se rejeite o elemento "doença" na lexia "doença fibroquística" e se privilegie a designação "alteração de tipo fibroquístico".

verificar a equivalência de termos e precisar o seu sentido:

Como equivalentes do termo inglês "follow up" alguns dos termos utilizados são "catamnese", "seguimento", "controlo", "evolução clínica".

Na opinião do Professor Doutor Mário Bernardo," "seguimento" sugere maior passividade do clínico; "controlo" (ou "controlo pós-terapêutico") "sugere um comportamento mais activo e refere-se a um conjunto de atitudes (clínicas, radiológicas, laboratoriais), planeadas pelo clínico e executadas por uma equipa com objectivos específicos relativamente a uma doente".

precisar o sentido de termos que não são sinónimos e que se empregam uns pelos outros - atente-se no exemplo atrás mencionado em que "seguimento" não recobre na totalidade o significado de "controlo", pelo facto deste termo sugerir um comportamento mais activo do clínico, o que permite também determinar a qualidade de equivalência entre o termo estrangeiro e o termo nacional.

verificar a intenção de substituição de um equivalente já enraízado no uso por outro: "estadiamento", equivalente de "staging" para o qual o Professor Doutor Carlos Oliveira sugere "classificação clínica", pois considera tratar-se de uma forma de enquadramento da evolução clínica de um tumor, de acordo com regras fixadas em classificações específicas, sendo portanto um termo mais motivado. Sob o ponto de vista linguístico, "classificação clínica" tem probabilidade de vir a adquirir grande aceitabilidade.

Toda esta actividade se insere no objectivo de contribuir para a optimização da transmissão e circulação da informação técnico-científica do domínio em estudo, permitindo aos respectivos interlocutores uma actualização constante ao nível dos progressos científicos e possibilitando-lhes uma interacção participativa na investigação e divulgação dos conhecimentos. Portanto, considerando o objectivo de uma efectiva comunicação entre os interlocutores, a harmonização justifica-se pelo facto de a língua de especialidade não tolerar termos vagos e imprecisos, exigindo a eliminação de polissemias, pois se época houve em que a proliferação sinonímica era sinónimo de riqueza, a pluralidade terminológica gera confusão nos domínios científico- técnicos.

Desambiguizando, facilita-se a comunicação e, portanto, com os trabalhos de harmonização, pretende-se determinar as noções, defini-las e fixar convencionalmente os termos que as definem, observando critérios linguísticos e, posteriormente, seguindo as vias de difusão mais adequadas, os locutores serão persuadidos a utilizar os termos harmonizados. Pretende-se, assim que os locutores tenham a mesma compreensão das significações e das noções a que se referem os termos, no sentido de se estabelecer uma comunicação realmente efectiva entre emissor e receptor.

Para concretizar os objectivos referidos, temos já inventariados cerca de 1500 termos e estamos a proceder à elaboração de um Banco de Senotermos através da base de dados PORTERM, concebida pelo Grupo de Lexicologia e Lexicografia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob orientação da Professora Doutora Maria Teresa R.F. Lino.

Através de "software" especializado, estamos também a criar uma Base Textual plurilingue com textos científicos de Senologia de autores portugueses, franceses e ingleses, que constituirá uma base documental ao serviço dos investigadores interessados e que poderá também permitir-nos um estudo comparativo de diversos aspectos terminológicos da linguagem Senológica. Esta base fará parte da PORTEXT, base de dados constituída por textos de carácter predominantemente científico e técnico e que se insere num projecto do Centro de Estudos Comparados da Universidade Nova de Lisboa - Grupo de Lexicologia e Lexicografia, apoiado pelo INaLF - CNRS, em França e pela JNICT, em Portugal, (no âmbito deste projecto, também no domínio da Medicina e no referido Centro, a Drª Maria Madalena Contente tem a seu cargo a elaboração de um Dicionário Terminológico Informatizado de Medicina).

O Banco de Senotermos e a Base Textual, atrás mencionados, serão o ponto de partida para a elaboração de um Dicionário de Senotermos em suporte informático com possibilidade de vir a ser ligado em rede através do sistema Videotext. Não excluímos evidentemente a possibilidade de ser produzido também em suporte papel. É um trabalho que nos propomos realizar a curto plazo.

Para a efectivação deste trabalho iremos continuar a ter o apoio científico da Clínica Universitária de Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNL e do Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil do Porto, Coimbra e Lisboa, do Centro de Estudos Comparados da FCSH da UNL, da JNICT e do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) em França.

A conclusão do referido trabalho, resultante de uma colaboração estreita dos especialistas do domínio, também empenhados na harmonização de conceitos e de termos, poderá vir a ajudar a solucionar algumas questões que afectam a Terminologia Senológica, nomeadamente ambiguidades e polissemização inaceitáveis.

É portanto intenção da autora poder contribuir deste modo para uma maior eficácia do acto comunicativo entre os utilizadores desta terminologia e, simultaneamente, realçar a importância da Língua Portuguesa, bem como dotá-la de meios que lhe permitam afirmar-se como Língua de Especialidade das Comunidades Lusófonas.

 

Bibliografia

BÉLIVEAU, P. (1980) - Le rôle du spécialiste dans les travaux de Terminologie, in Actes du 3ème Colloque OLF - STQ de Terminologie, OLF, Québec.

BERNARDO, M. (1993) - Fichas de inquérito terminológico, ( manuscrito), Lisboa.

CAETANO MOCHO, M. C. (1992) - Base de Dados Porterm, in Terminologias 5-6 , Termip, Lisboa.

CONDE, J. (1989) - Oncologia em Portugal, Arquivo do Instituto Nacional de Saúde, 14, Lisboa.

CUNHA, C. (1991) - Atlas de Imagiologia da Mama, Lisboa.

GARCIA, M.L. (1992) - A Terminologia da Senologia, in Terminologias 5-6, Termip, Lisboa.

(1993) - Investigando a Senologia, in Terminologias 7-8, Termip, Lisboa.

GOUADEC, D. (1990) - Terminologie - Constitution des données, Afnor, Paris.

LANDRY, A. (1980) - La normalisation Terminologique au bureau des traductions du Gouvernement Canadien, in Actes du 3ème colloque OLF- STQ de Terminologie, OLF, Québec.

LINO, M. T. (1992) - Base de Dados Textuais - Portext. Lexicologia, Lexicografia e Terminologia, in Terminologias 5-6, Termip, Lisboa.

LOPES, C. (1993) - A dificuldade de padronizar a linguagem em Senologia, (manuscrito), Porto.

LOPES, C. Fichas de inquérito terminológico, (manuscrito), Porto.

NHSBSP (1989) - Pathology Report in Breast Cancer Screening, Royal College of Pathologists, London.

OLIVEIRA, C. (1993) - Fichas de inquérito terminológico, (manuscrito), Coimbra.

RONDEAU, G (1984) - Introduction à la Terminologie, G. Morin, Paris.

SOARES, J. (1983) - Proliferações Intraductais da Glândula Mamária - Epitelioses, Papilomatoses, Carcinoma "in situ", Lisboa.

Editado con el apoyo de
Editado com o apoio da: