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Índice por autores

 

 

A interface análise documentária,
lingüística documental e terminologia

Maria de Fátima G. M. Tálamo
Marilda Lopes Ginez de Lara
Nair Yumiko Kobashi
Regina Keiko O. F. Amaro

 

Resumo

A Análise Documentária compreende uma série de procedimentos metodológicos, cujo objetivo é o de viabilizar a análise de textos técnico-científicos para seleção de conteúdos informativos, que serão representados, recuperados e disseminados. Usualmente, a representação dessas informações é realizada de forma atributiva, através do uso de Linguagens Documentárias - metalinguagens comutadoras que visam a representar conteúdos relativos aos vários domínios do conhecimento. A construção das Linguagens Documentárias, por sua vez, é objeto específico da Lingüística Documental, que se volta à identificação dos componentes lingüísticos, terminológicos e lógico-semânticos presentes no processo comunicativo-documental, visando potencializar os objetivos de realização das representações documentárias. Nesse conjunto, a Terminologia exerce papel fundamental, uma vez que, ao proceder à sistematização dos conceitos de cada área do conhecimento, determina igualmente a condição de referência dos termos que integrarão, juntamente com outras unidades preferenciais, os vocabulários documentários. Garante-se desse modo, que o conteúdo lexical das Linguagens Documentárias não se apresente como léxicos desprovidos de indicações referenciais específicas, mas funcionem antes como termos cujos interpretantes remetem às significações estruturadas e registradas pelos discursos da Ciência. É necessário, portanto, considerar a interface Análise Documentária / Terminologia / Lingüística Documental para que se possa elaborar Linguagens Documentárias que produzam representações que não sejam apenas virtuais.

 

I. Introdução

A Análise Documentária integra o campo da Ciência da Informação e tem como objetivo propor princípios para a elaboração de informações documentárias, definidas, por sua vez, como múltiplas representações de textos para fins de recuperação face às diferentes demandas de informação. Este fato impõe procedimentos de Análise Documentária que sejam simultaneamente flexíveis e rigorosos. São esses dois aspectos que determinam, em princípio, a elaboração de produtos documentários adequados às necessidades informacionais dos usuários envolvidos em atividades técnicas e científicas.

Por outro lado, a Análise Documentária se insere no processo geral de Comunicação, na medida em que elabora produtos que promovem a socialização de bens culturais. Sob este ponto de vista, por ser regulada por parâmetros institucionais, as atividades pragmáticas da Análise Documentária encontram-se sobremodalizadas por variáveis situacionais, decorrentes de sua inserção no processo global de produção e circulação de bens simbólicos. Com isso, pode-se afirmar que os procedimentos de Análise Documentária, embora objetiváveis, não são neutros.

A Análise Documentária pode ser vista sob dois aspectos distintos: um teórico, relacionado à determinação de seu próprio objeto, suas funções e seus métodos; e outro pragmático que trata das regras para a operacionalização de sistemas documentários. Desse modo, para avançar teórica e praticamente, cabe a Análise Documentária criticar continuamente seus pressupostos, procedimentos e instrumentos, com base na reflexão e experimentação permanentes. É esse processo dialético que permite à Análise Documentária propor métodos e técnicas que contribuam de fato para aperfeiçoar as atividades práticas relacionadas ao tratamento e à recuperação de informação.

Para promover esses avanços, a Análise Documentária vem dialogando com diversas disciplinas e Ciências. As reflexões mais significativas sobre as relações entre a Lingüística e a Ciência da Informação têm seu início na década de 70, com os trabalhos de Sparck-Jones & Kay, Montgomery e Gardin. Essas reflexões apresentam em comum o fato de reconhecerem as convergências entre ambas as disciplinas, apontando, por isso mesmo, para a necessidade de colaboração mútua para o avanço de cada uma delas. Nessa perspectiva, a Ciência da Informação apresenta-se como um campo privilegiado para o estudo e validação de certos modelos da Lingüística, da mesma forma que esta última fornece à primeira - a Ciência da Informação - o referencial teórico e metodológico que lhe permite imprimir maior rigor às suas operações.

Mais recentemente, são as relações entre a Terminologia e a Análise Documentária que determinam o avanço em relação às primeiras discussões apontadas acima, à medida que oferecem novas alternativas para questões que durante muito tempo não obtiveram respostas efetivas.

Esse novo patamar de interpenetração das Ciências da Linguagem com a Análise Documentária caracteriza-se, fundamentalmente, pela busca de maior rigor desta última na identificação e descrição dos seus processos. Exemplo disso é a crescente adaptação dos modelos lingüísticos às atividades documentárias que operam com a linguagem, desde aquelas relacionadas com a determinação da informação contida em textos até aquelas associadas às estratégias de recuperação da informação, passando pelas questões referentes à elaboraçõo de linguagens sistêmicas. É sob esse ponto de vista que examinaremos, no âmbito desta comunicação, a interface entre Terminologia, Análise Documentária e Lingüística Documental.

 

II. Lingüística documental e análise documentária

A Lingüística Documental, conforme a proposta do pesquisador espanhol García Gutiérrez, ocupa-se da formalização do processo comunicativo-documental. Tal processo é composto de elementos cujo comportamento é fundamentalmente lingüístico.

O objetivo da Lingüística Documental é elaborar modelos úteis de Análise Documentária a partir da análise da estrutura da Documentação como organização de conteúdos codificados e codificáveis. Essa análise leva em conta dois aspectos: a estrutura de produção de informação como corpus de observação e descrição, e a estrutura da representação do discurso do produtor através de formulações metodológicas e modelos de síntese e tradução.

Portanto, para García Gutiérrez, a Lingüística Documental tem como objeto de estudo a Análise Documentária enquanto processo de apreensão da essência do documento ou da solicitação do usuário, que resulta numa estrutura cognitiva documentalizada (sintetizada), e as Linguagens Documentárias enquanto instrumentos utilizados nesse processo.

Tendo em vista o seu objetivo global, a Lingüística Documental proposta por García Gutiérrez coincide com a Teoria da Análise Documentária que o Grupo Temma vem desenvolvendo no Brasil.

Para García Gutiérrez, uma das tarefas da Lingüística Documental é propor modelos para uma nova Linguagem Documentária que seja dotada de uma estrutura capaz de representar de fato o universo do pensamento científico materializado nos documentos. Essa proposta decorre do fato de que as Linguagens Documentárias tradicionais são linguagens artificiais cujos termos e relações têm um caráter estático e imutável que pretende impor uma direção unívoca de interpretação das unidades que as compõem. Segundo García Gutiérrez, os artifícios introduzidos nesses intrumentos para que um termo tenha somente uma interpretação é um recurso antilingüístico, uma vez que, nenhum termo está livre da polissemia léxica e muito menos da situação contextual. Portanto, para que a Linguagem Documentária possa abarcar todos os possíveis contextos suscitados pelos documentos e pelas solicitações, é proposto um método de atomização sêmica baseado em princípios estruturalistas, que dê conta da representação contextual. Alcança-se, dessa forma, uma aproximação da Linguagem Documentária com a Linguagem Natural.

A abordagem proposta pelo Grupo Temma não se contrapõe à Lingüística Documental. Considera, no entanto, que a elaboração de instrumentos de Análise Documentária que possam produzir representações que não sejam apenas virtuais, como ocorre nas Linguagens Documentárias tradicionais, requer a incorporação de elementos teórico-metodológicos da Terminologia.

Essa proposta fundamenta-se na concepção de que a Análise Documentária é um tipo particular de análise que tem como objetivo a representação de textos de discursos específicos (científico, jurídico, etc) expressos em Linguagem Especializada e não em Linguagem Natural.

Nessa perspectiva, embora a proposta de García Gutiérrez promova um avanço considerável na área, ao indicar como possível solução para a ineficiência das Linguagem Documentárias tradicionais a sua aproximação com a Linguagem Natural, remete as primeiras para um universo bastante complexo que pode comprometer os procedimentos de análise e de representação documentárias.

Para nós, uma solução viável supõe a adoção de metodologias que propiciem o estabelecimento e o controle do significado documentário a partir de terminologias especializadas. Isto implica promover uma associação efetiva entre a Linguagem Documentária e a Linguagem Especializada, de modo que a Linguagem Documentária não se restrinja e nem se confunda com a Linguagem Especializada, mas que esta se imponha como parâmetro de normalização, tanto das formas de conteúdo quanto das formas de expressão, suposta pelo processo documentário.

 

III. Construção de linguagens documentárias e terminologia

A elaboração de produtos documentários em sistemas de documentação e informação exige a intermediação de Linguages Documentárias. Procura-se, através desses instrumentos, normalizar as representações de textos, de forma a aprimorar o rendimento das mensagens documentárias e a consequente comunicação de informações.

Ocorre que nem sempre esses instrumentos de comutação são construídos de forma a assegurar as funções de representação, normalização e comunicação. Essas funções são prejudicadas, na maioria das vezes, pela ausência de procedimentos rigorosos para sua construção, bem como pelo predomínio de procedimentos empíricos de coleta e organização das suas unidades. Grande parte dos instrumentos de comutação documentária são elaborados a partir de palavras preferenciais, ou seja, palavras ou expressões utilizadas mais comumente pelos usuários. Constituem, antes, léxicos cujas palavras são coletadas da literatura da área, estruturadas de forma a induzir a inferência de significados a partir da posição relacional das suas unidades no conjunto.

A representação obtida através do instrumento comutador é um dos produtos documentários mais importantes para a recuperação da informação. Muitas das pesquisas atuais na área de Análise Documentária pretendem resgatar o aspecto propriamente lingüístico das Linguagens Documentárias. Esse aspecto, mesmo que teoricamente relevante, acaba por ficar em segundo plano durante o uso efetivo desses instrumentos, devido a pressão da própria prática documentária. Com isso, a indexação fica muitas vezes restrita à substituição de palavras por outras palavras, uma vez que a Linguagem Documentária é entendida como mera nomenclatura.

O princípio sobre o qual se baseiam as investigações que pretendem propor metodologias de Análise Documentária, principalmente aquelas referentes à utilização do instrumento comutador, evidencia que a atividade de indexar torna-se rigorosa e eficiente apenas se operar com um vocabulário estruturado semântica e logicamente, cujas unidades remetam às palavras da língua e não às do discurso.

De fato, a tensão estabelecida entre o genérico - a língua - e o específico - o discurso acompanha toda a atividade de Análise Documentária. Se é fato que o texto é inevitavelmente a unidade de análise, é fato também que ele é considerado sob diversos enfoques face ao produto documentário que se quer obter. Para a elaboração de um resumo, por exemplo, a estrutura do texto e as informações constituem, sem dúvida, os paradigmas. Nesse caso, o específico e o individual são determinantes. No caso da elaboração de índices, o texto é considerado como expressão de informações passíveis de serem integradas às classes mais genéricas.

Neste último exemplo, as Linguagens Documentárias neutralizam a tensão entre o genérico e o específico porque funcionam como instrumentos de normalização. Materialmente, este fato pode ser observado no estabelecimento das equivalências lexicais que, para muito autores, é a atividade fundamental da construção de Linguagens Documentárias.

A Linguagem Documentária funciona, então, como instrumento normalizador que submete o particular ao genérico. No entanto, a normalização não é um fim em si mesma. Normalizando-se obtem-se representações que podem circular, ser trocadas, passíveis de serem disseminadas. Quando se perde de vista seu objetivo, a normalização neutraliza a garantia da circulação de bens e o trabalho torna-se infértil. É por essa razão que a norma deve ser estabelecida de maneira clara e inequívoca, devendo ser de fácil acesso para a comunidade que vai utilizá-la.

Para funcionar como um instrumento normalizador, a Linguagem Documentária não deve ser reconhecida apenas como regra. Ela deve ser acompanhada de uma metodologia objetiva de utilização, a qual só é obtida caso parâmetros igualmente objetivos estejam presentes no processo de construção do instrumento. Garante-se, assim, uma normalização prescritiva - fruto de consenso ou imposição - e, simultaneamente, dinâmica - na medida em que é possível detectar incorreções de procedimentos, prever erros, propor soluções e tomar decisões.

A atividade de Análise Documentária, nesse sentido, associa-se à atividade geral de adquisição de habilidades para a vida cotidiana da sociedade, pois supõe a "assimilação da manipulação das coisas e, fundamentalmente, a assimilação das formas de intercâmbio ou comunicação social".

No entanto, a Linguagem Documentária isoladamente não pode responder pela função comunicativa. Embora esta suponha a integração do processo a paradigmas normalizadores, a sua eficiência depende do domínio global do código específico de cada área.

 

IV. Invariante de informação e invariante terminológica

Como foi visto anteriormente, a tensão entre o genérico e o específico no processo de utilização da Linguagem Documentária decorre do fato de que a representação obtida através dela persegue a invariante da informação. Só se pode estabelecer tal invariante a partir de uma compreensão global da organização da área ou domínio em questão, isto é, do modo de articulação conceitual que lhe é próprio. A partir disso, a Linguagem Documentária terá condições de propor uma grade capaz de coletar e tratar informação.

Neste sentido, a organização do conhecimento e a organização da informação encontram-se em relação de pressuposição. É esta relação que nos dá condições materiais de considerar a existência de uma interface efetiva entre o trabalho documentário e o terminológico. Portanto, a construção de Linguagens Documentárias não prescinde do recurso às terminologias específicas para a elaboração da sua rede lógico-semântica. Do mesmo modo, a Análise Documentária deve recorrer continuamente a essas mesmas terminologias como garantia de compreensão adequada do universo informacional e sua adequada disseminação.

De fato, a relação entre as Linguagens Documentárias e a Terminologia esclarece suficientemente a importância dessas sucessões de interfaces. Vejamos.

Para Le Guern, deve-se realizar uma distinção entre a palavra na língua - o léxico - e a palavra no discurso. Na língua, as palavras representam propriedades, qualidades e não têm um referente concreto. É no discurso que elas ganham referência e passam a designar substâncias e objetos. No léxico, as palavras são predicados livres, não tendo, portanto, extensão, só compreensão. Já no discurso, a dimensão referencial confere extensão às palavras, que passam a assimilar valores de universos específicos. As palavras no discurso são necessariamente predicados relacionados.

Desse modo, ao contrário do que ocorre com as unidades da Linguagem Documentária, a definição das unidades terminológicas - denominadas termos - se faz a partir do discurso e não da língua. Isto quer dizer que o termo tem um conceito específico e relacional, enquanto que as unidades das Linguagens Documentárias definem-se como predicados livres.

Portanto, cabe à Terminologia operar ao nível sintático-semântico, produzindo terminologias específicas de acordo com o estado da arte. Tais repertórios ou listas de termos especializados de um domínio particular, são acompanhados de definições que remetem o termo ao seu referente. Os termos podem ser, por sua vez, reagrupados segundo uma classificação alfabética ou temática.

Assim, as terminologias exercem fundamentalmente a função comunicativa. Destinam-se à consulta de especialistas, servindo de intermediárias entre os referentes ou a realidade dos objetos e os utilizadores.

Já as Linguagens Documentárias são repertórios ou listas de termos autorizados, constituídos por unidades - descritores e não-descritores - pertencentes a um domínio particular, relacionadas semântica e logicamente. São utilizadas para caracterizar tanto o conteúdo de um documento quanto o conteúdo das questões propostas pelos usuários. Sua função é, por isso, a de servir como intermediária entre os documentos e os usuários.

Além disso, e talvez seja esse o fato mais importante, os termos pertencem à lingua especializada, enquanto os descritores não o são necessariamente. Na verdade, enquanto os termos são extraídos obrigatoriamente do discurso, os descritores são unidades preferencialmente conhecidas dos usuários. De uma maneira mais precisa, tem-se que o descritor não representa de fato o conhecimento, ou não o faz integralmente já que não é uma unidade monoreferencial - como é o termo - mas sim preferencial.

Para concluir, é lícito afirmar que, na perspectiva adotada, o recurso à Terminologia é essencial para determinar alterações significativas no quadro empírico da construção de Linguagens Documentárias. Isto porque, pode-se afirmar que os termos funcionam como "interpretantes" no sentido peirceano, que remetem a experiências estruturadas no simbolismo das Ciências. Nas Linguagens Documentárias acabam por disciplinar a semiose, uma vez que, através deles, garante-se a remissão ao sistema de significação de domínios especializados.

O uso de instrumentos terminológicos associados às Linguagens Documentárias conferem, portanto, rigor metodológico para a indexação e a recuperação de informações, otimizando, dessa maneira, a comunicação com o usuário.

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