Projeto Terminológico Cone Sul: TERMISUL
Maria da Graça Krieger
Anna Maria B. Maciel
Cleci R. Bevilaqua
Maria Lucia Lorenci
Sonia T. Gehring
Teresinha Favero
1. Terminologia e integração
Esta apresentação objetiva relatar uma pesquisa em terminologia, realizada no Instituto de Letras, da UFRGS, RS, Brasil. Trata-se do Projeto TERMISUL (Projeto Terminológico Cone Sul) que alinha, entre seus objetivos, o desenvolvimento de um núcleo de pesquisa em Lexicologia Lexicografia Terminologia e Tradução.
Com relação à terminologia, o TERMISUL, que está, desde sua estruturação em 1990, vinculado ao Núcleo de Estudos de Integração da América Latina da UFGRS, pretende implementar um banco de dados terminológicos visando a favorecer o processo de integração entre os países latino-americanos.
Os chamados países do Cone Sul da América Latina (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) estão atualmente articulando um processo de integração econômico e cultural, que será concretizado através de um mercado comum - o Mercosul - com funcionamento previsto para 1995.
No caso da América Latina, a integração é uma proposta fundamental para os nossos países que possuem os mesmos problemas, de natureza social, econômica, cultural. Essa será uma forma de fortalecimento, especialmente se considerarmos a integração não como uma perda de identidade, mas como uma possibilidade de fortalecimento. Sem dúvida, evitaremos muitas dificuldades se tivermos o domínio comum das terminologias, especialmente se for assegurado o acesso às línguas técnico-científicas tanto em espanhol como em português.
Como se sabe, em todo o continente sul-americano, fala-se espanhol, com exceção do Brasil, onde o português é a língua vernácula. Embora línguas muito próximas, de mesma origem, o português e o espanhol têm configurações diferenciadas, o que dificulta largamente a comunicação. Em síntese, o domínio comum das terminologias é um componente facilitador da comunicação, daí o importante papel dos instrumentos terminológicos plurilíngües.
Assim, é através do intercâmbio de trabalhos terminológicos e da criação de um banco de dados do Cone Sul que poderemos facilitar o intercâmbio de tecnologia e conhecimento científico. Desse modo, estaremos facilitando a comunicação, a integração entre os nossos países e, portanto, buscando um desenvolvimento conjunto, pois também somos nações soberanas e, apesar das idiossincrasias, possuímos uma identidade. Essa identidade, contudo, não se quer apenas em nível técnico e científico, mas também social e cultural.
2. Termisul
2.1 Origem e objetivos
A preocupação com a pesquisa terminológica e com o papel da Universidade, como lugar de produção do saber e de divulgação de conhecimentos específicos que beneficiem a sociedade, deu origem ao Projeto Terminológico Cone Sul (TERMISUL). Um grupo de seis professoras do Instituto de Letras da UFRGS estruturou em 1990 um projeto com este fim. Este projeto contempla a pesquisa pura e aplicada e atinge a comunidade através da promoção de cursos com especialistas brasileiros e estrangeiros.
Em síntese, quatro grandes objetivos merecem destaque no Projeto. Os dois primeiros, mais amplos e já referidos, são a constituição de um núcleo de pesquisas terminológicas no RGS e a contribuição para a integração dos países do Cone Sul; os dois últimos, mais específicos, são a elaboração de um dicionário do Meio Ambiente e a organização de um banco de dados terminológicos, ainda em fase de execução.
2.2 A elaboração de um dicionário do Meio Ambiente
Optou-se por propor um banco de dados a partir da organização de um dicionário em português, espanhol e inglês sobre o Meio Ambiente com recorte na área jurídica.
A obra destina-se a um público leigo. O dicionário terá um número aproximado de 2.500 termos; a língua de partida é o português e os dados terminológicos são os seguintes: definições, aspectos gramaticais, remissivas, equivalentes em espanhol e inglês.
Até o presente momento, foram realizadas as seguintes etapas:
a) seleção do corpus: coleta de termos no seu contexto referencial.
Fontes básicas em língua portuguesa: Legislação Federal, Legislação Estadual (Rio Grande do Sul), Legislação Municipal (Porto Alegre); periódicos da grande imprensa; periódicos especializados em ecologia, meio ambiente e áreas afins. Num primeiro momento, pensou-se no registro em termos mais abrangentes, incluindo legislações de todos os estados brasileiros e respectivas capitais. Pretendia-se, também, utilizar textos jurídicos de outros países latino-americanos. No entanto, de imediato, tal proposta revelou-se de difícil consecução pela amplitude e diversidade dos textos. Resolveu-se dar precedência à legislação federal, estadual e local;
b) elaboração da ficha terminológica: a partir da análise de diferentes modelos de fichas terminológicas, elaborou-se um primeiro instrumento, que hoje já se encontra em sua terceira versão;
c) seleção das unidades lexicais, obedecendo aos seguintes critérios básicos:
distinção entre léxico comum e especializado, considerando-se o termo do ponto de vista do significado e não do significante. Selecionam-se os termos que, embora da língua comum, assumem um conceito específico dentro do domínio visado;
freqüência e relevância do termo dentro do universo da ciência ambiental;
registro dos termos nas fichas terminológicas;
classificação em subdomínios;
avaliação das definições já existentes nas leis, em conjunto com especialistas da área, a fim de precisar conceitos. Quando necessário, é proposta nova formulação sintática.
Em relação à macroestrutura do dicionário o projeto se encontra na fase de análise da composição lexical (lexias simples, compostas e agrupadas). A seguir, será realizada a pesquisa das equivalências semântico-lexicais e a determinação da nomenclatura integral do Dicionário com as respectivas equivalências em espanhol e inglês.
Quanto à microestrutura do dicionário, falta, ainda, a elaboração dos verbetes, desde a sua organização interna até a definição propriamente dita.
Após estas etapas, prevê-se a testagem e a avaliação do resultados finais do processo e, finalmente, a editoração e impressão do dicionário.
Vale acrescentar que a pesquisa dicionarística não se fechou sobre ela mesma. Veio a instigar uma série de reflexões teóricas paralelas sobre a definição terminológica, as quais deram origem a trabalhos apresentados em congressos, alguns já publicados.
2.3 A constituição de um banco de dados terminológicos
No intuito de oferecer um suporte computadorizado à elaboração do dicionário de termos do meio ambiente e, ao mesmo tempo, investigar a viabilidade da constituição de um futuro banco de dados terminológicos, foram examinados os recursos informatizados ao alcance do grupo.
Analisadas as necessidades, a natureza e a operacionalização das diferentes fases do trabalho terminográfico em andamento, bem como as características dos dados em processo de coleta, e a especificidade do produto final visado, passou-se à análise das ferramentas disponíveis.
Considerando, em primeiro lugar, que a informatização só se justifica quando a máquina faz tarefas impossíveis de serem realizadas pelos métodos tradicionais usados na terminologia procurou-se instrumentos capazes de otimizar o armazenamento, a atualização, a recuperação e o intercâmbio dos dados. Estes últimos se constituem, principalmente, de textos livres, isto é, textos com extensões variáveis, por isso de difícel previsão, tais como definições, contextos, notas gramaticais, indicadores de uso, entre outros. A otimização do gerenciamento desses textos é o que se espera que a máquina processe através de uma interface amigável.
Levando em conta esses aspectos, foram especificadas as características técnicas do equipamento mínimo disponível e as qualidades requeridas do sistema de gerenciamento de dados a ser selecionado. Adquiridos dois microcomputadores PC 386 DX, e os periféricos essenciais para o trabalho e o intercâmbio, foi dada continuidade ao processo de avaliação e seleção de programas.
Na busca de um sistema que melhor atendesse às exigências de pesquisa do projeto e que melhor pudesse se adequar às perspectivas futuras da implementação de um banco de dados de maior abrangência e alcance, o TERMISUL adotou experimentalmente o CDS MicroISIS - Computer Data System Micro Integrated Set of Information System, desenvolvido pela UNESCO e distribuído no Brasil pelo IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Sistema generalizado para armazenamento e recuperação de informações, projetado especificamente para a construção e administração automatizada de bases de dados estruturadas não-numéricas, o MicroIsis é utilizado na América Latina principalmente no tratamento de dados bibliográficos. Seu ponto mais forte é a versatilidade do sistema de recuperação da informação.
Além dessa qualidade, o MicroISIS tem outras vantagens:
a) gera campos de uma maneira dinâmica, isto é, permite manipular campos e registros de tamanhos variáveis;
b) favorece autonomia no gerenciamento dos dados, permitindo ao usuário controlar a criação, o armazenamento, a atualização e a edição das fichas terminológicas conforme seu desejo;
c) permite a criação de diversos formatos de apresentação linear, por meio de recursos flexíveis para a geração de produtos impressos como dicionários, vocabulários e léxicos, o que constitui um ganho particularmente interessante para a terminografia.
De posse do equipamento e tendo selecionado o programa, iniciou-se a implementação de um minibanco de dados terminológicos em caráter experimental.
Esse minibanco conta atualmente com duas bases terminológicas de trabalho e cinco bases de apoio. As primeiras são: a Base TERMIN, que contém fichas de termos do meio ambiente coletados a partir de diferentes fontes escritas; e a Base LEGIS, na qual são registrados os termos referentes ao meio ambiente que ocorrem na Legislação Federal Brasileira e nas Legislações do Estado do Rio Grande do Sul e do Município de Porto Alegre. Ambas contam com mais de 3000 registros. São consideradas bases de trabalho, porque seus registros estão em constante atualização, os dados relevantes não estão completos e ainda não sofreram avaliação e validação.
Das cinco bases de apoio, algumas dizem respeito diretamente às bases terminológicas como a Base BIB - Bibliográfica - em fase de execução, que conterá os dados de todo o material de referência usado na pesquisa; e a Base JURI
Jurídica - que contém a referência dos documentos jurídicos, principal fonte de coleta. As outras três bases são: Base BOLSA, que visa a manter atualizados os dados pessoais e as atividades dos Bolsistas de Iniciação Científica que trabalham no projeto; Base RCHUM
Recursos Humanos - que contém o registro de pessoas e entidades de interesse para o projeto e a Base EVENT - eventos - com o registro de cursos, encontros, seminários e congressos em que houve a participação do Projeto ou de seus membros.
Da mesma maneira que a elaboração do dicionário de termos do meio ambiente da área jurídica, a implementação do minibanco de dados se constitui em uma realização prática dos estudos empreendidos pelo grupo. Visando a contribuir para a constituição do futuro banco de Dados Terminológicos do Mercosul, os pesquisadores oferecem sua parcela de esforço em prol da integração da América Latina.
O TERMISUL procura intercâmbio com outros bancos que queiram se unir ao projeto e estabelecer uma rede de recursos terminológicos na América Latina. Há problemas bastante sérios a resolver desde a infra-estrutura tecnológica e financeira até o estabelecimento de um formato comum de intercâmbio, mas o primeiro passo está dado.
3. Considerações finais
O TERMISUL, sem dúvida, é um projeto ambicioso, mas é sobretudo um trabalho que busca fazer com que a terminologia cumpra seu papel de propiciar a univocidade de comunicação, auxiliando, com isso, o crescimento social, cultural e econômico de países ainda em fase de desenvolvimento.
Em síntese, pode-se dizer que a atividade terminológica tem um fundamento tanto cultural quanto econômico. Cultural, porque responde a uma necessidade de promoção da língua, e econômico, porque responde a necessidades de comunicação.
Esses aspectos parecem suficientes para reiterar a concepção de que a terminologia cumpre um papel no desenvolvimento global das sociedades, inscrevendo-se, também, nessa medida, como produção de bens e de serviços que, embora não tenham valor monetário estabelecido, possuem valor de troca, especialmente em um mundo que reconhece as possibilidades de avanço através dos intercâmbios e das integrações.
Hoje, não se pode mais considerar os léxicos especializados como elementos secundários e, até mesmo, supérfluos das sociedades. Em verdade, a língua especializada não pode mais ser concebida como elemento acessório cujo tratamento não interessa senão a grupos de intelectuais.
Nesse contexto, a Universidade precisa dar sua contribuição. Entretanto o tratamento das terminologias deve ser objeto de preocupação também dos órgãos dirigentes das sociedades, o que ainda não ocorre na América Latina.
É fundamental atentar para o problema da difusão das terminologias para que elas, concretizadas em glossários, dicionários especializados e bancos de dados, facilitem a comunicação, permitindo que a informação seja recuperada. Pois, se uma terminologia resulta de uma necessidade de nomear objetos e delimitar conceitos, é preciso também que ela esteja à disposição dos usuários para cumprir sua finalidade. De um lado, trata-se da produção terminológica, e de outro, de suas condições de circulação, fundamentais tanto para o usuário comum, quanto para o profissional da ciência e da técnica.
Além disso, os instrumentos terminológicos fazem circular na sociedade o que se pensa e se produz em ciência e em tecnologia. Com urgência, a América Latina precisa divulgar seu potencial industrial e cultural. Essas são razões suficientes para que se tente implementar um Banco de Dados Terminológicos no Cone Sul e que se lute por uma política da língua.
O TERMISUL quer e necessita de contribuições.