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1988-2002
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Elaboração de um glossário de termos de melhoramento genético de plantas

Enilde Faulstich

 

0. Apresentação

O trabalho em curso faz parte da linha de pesquisa de Léxico e Terminologia, sob minha responsabilidade, do Curso de Mestrado em Lingüística do Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula - LIV, da Universidade de Brasília-UnB, Brasil. A pesquisa desenvolve-se desde o ano de 1990 e dela já obtivemos, entre outros, os seguintes produtos:

1. criação de uma metodologia para desenvolvimento de projeto terminográfico;

2. elaboração de ficha terminológica;

3. preenchimento de fichas terminológicas manuscritas;

4. elaboração de rede sistemática de remissivas;

5. criação de um banco de dados terminológico.

Os resultados parciais do trabalho têm sido apresentados em Simpósios, Congressos e Encontros e em cursos de graduação e de pós-graduação em universidades brasileiras para que se avaliem a metodologia e os conteúdos. Objetivamos, assim, a difusão da disciplina e a formação de novos pesquisadores. A elaboração do glossário segue minha orientação, como pesquisadora e docente, e conta com a colaboração de três alunas iniciantes a pesquisa Karla Nascimento, Fabíola Cypriano, estas do Curso de Letras-Tradução, Naira Maria Araújo, já formada no Curso de Letras e também com a colaboração do prof., do Curso de Letras-Tradução João Dino F. P. dos Santos, mestre em lingüística. No início da pesquisa, almejamos seguir um método de trabalho adequado as necessidades terminológicas. Então tomamos por base observações de Rey (1979) e formulamos os primeiros passos, a saber,

i. que os conjuntos de termos devem organizar-se por meio de descrição sistemática;

ii. que as terminologias, responsáveis pela transmissão e difusão dos conhecimentos de áreas temáticas do saber deve organizar-se sob a forma de glossários especializados,

iii. que a elaboração desses instrumentos requer observância as normas inerentes a formação do termo e as normas exigidas pelos usos lingüísticos.

Em seguida, para benefício do andamento do trabalho, se fazia necessário definir glossário e termo. Entendemos glossário como inventário terminológico, de caráter seletivo, que tem como finalidade registrar e definir termos de domínios técnicos e científicos. É exigido, pela própria natureza da nomeação, que ao nível epistemológico de uma ciência corresponda um nível de expressão lingüística, que identifica o termo. Termo é, pois, "toute unité linguistique que dénomme une notion de façon univoque a l'intérieur d'un domaine. Il ressort de cette définition que la fonction principale du terme est la dénomination, c'est-a-dire l'établissement d'une relation entre une réalité (concréte ou abstraite) et un signe du langage." (Auger, P. et Rousseau, L. J., 1978:31). Inspirados nesses princípios, redigimos uma metodologia que norteia a pesquisa, sem abandonar outras informações que nos chegam ao longo desses dois anos. Nossa preocupação foi criar uma metodologia para desenvolvimento de projeto terminográfico por entender que um trabalho dessa natureza requer um tempo longo, requer procedimentos exlcusivos divididos em etapas e requer sistematicidade de comportamento de pesquisa para que, nos planos paradigmático e sintagmático, o discurso socioterminológico atinja sua finalidade. Para a elaboração de nosso glossário, servimo-nos de uma metalinguagem textual, em que a metodologia que escrevemos serve de eixo para o desenvolvimento da pesquisa. São as seguintes as partes que compõem esse texto:

1. Orientação geral para o desenvolvimento da pesquisa;

2. Formulação dos objetivos;

3. Cronograma;

4. Mecanismos de execução;

5. Definição das tarefas e etapas do trabalho;

6. Documentos para recolha de dados;

7. Armazenamento de termos: informática e terminologia;

8. Ficha terminológica;

9. Banco de dados terminológico;

10. Redação de verbetes: micro e macroestrutura;

11. Processo de remissivas: organização de redes sistemáticas;

12. Norma lexicológica;

13. Mecanismos de acompanhamento, avaliação e controle;

14. Comunicação e difusão;

15. Bibliografia básica.

Neste III Simpósio, daremos destaque a elaboração da ficha terminológica e ao processo de remissivas, ambos os assuntos convergindo para a organização da microestrutura com reflexos imediatos na macroestrutura do glossário.

 

I. A ficha terminológica

O modelo de ficha que utilizamos foi elaborado para atender as necessidades do desenvolvimento microestrutural do glossário. Tendo por base a ficha do Núcleo de Estudos de Lingüística Constrastiva - N.E.L.C. - (Terminologias, Lisboa, 1990:1,pp.33-41) e a ficha do Termcat (1990:34-37 ), elaboramos um primeiro tipo que, pela sua extensão e por apresentar campos desnecessários a recolha, passou por reformulações diversas. A ficha terminológica se revela importante e fundamental instrumento de trabalho não só porque mantém o controle de qualidade da informação, durante a elaboração da microestrutura discursiva, mas também porque sua seqüenciação funciona como um fio condutor da organização macroestrutural da obra. Para dar feição a uma microestrutura requerida pelo correto trabalho terminológico, o pesquisador deve preencher todos os campos da ficha que os dados do corpus possibilitam e deve obedecer a padrões estruturais requeridos pela praxe da dicionarística. O modelo que usamos contempla os seguintes campos.

O campo 1 é o da numeração do documento; no 2, registramos, em minúsculas e no singular e com a grafia fiel a do documento de onde é retirado, o termo-entrada, que é, normalmente, um nome ou um sintagma nominal. O campo 2.1., reservado a nome científico, tem-se mantido vazio, por falta de informação na literatura consultada. O campo 3 requer a categoria gramatical e o 3.1., o gênero; no 4. devemos escrever a(s) variante(s) gráfica(s) - este é outro campo que se tem mantido vazio.

No 5., a área e a subárea são indicadas. O campo 6. é necessário a definição e a fonte. Se a definição apresentar uma formulação correta e adequada aos princípios de uma metalíngua que esclareça, de fato, o consulente da obra, ela é tão-somente transcrita; se, por outro lado, apresentar-se inconsistente, procedemos a melhora do texto, com base em outros documentos e com o testemunho da autoridade competente da área. Após a definição, lançamos a fonte, seja uma obra técnica ou científica, seja um pesquisador que nos dê uma informação oral.

No campo 7 - contexto - copiamos um trecho da obra que contextualize o termo-entrada e demonstre seu uso naquela literatura para que o leitor do glossário tenha, nessa ilustração, uma pista para o uso do termo. Segue a indicação da fonte.

No campo 8., registramos as remissivas. Estas se classificam segundo as relações semânticas que mantêm com o termo-entrada ou entre si. Tais relações podem ser ou de natureza inclusiva, como a hiperonímia e a hiponímia, ou equivalente, como a sinonímia, ou associativa, como o conceito conexo. Este assunto será melhor tratado no item II deste artigo.

Os campos de 9 a 14 da ficha exigem registros gerais, do tipo, termo normalizado, data da normalização, instituição, autor da ficha, data de preenchimento e notas gerais. Tendo por base os campos 2., 3., 3.1, 6, 7 e 8 formulamos uma equação para estruturar a microestrutura do glossário de Melhoramento Genético de Plantas, que resultou assim: termo-entrada= categoria gramatical+ gênero+ definição + fonte + contexto + fonte + remissiva(s).

Exemplo: mitose. S.m. Divisão celular indireta em que o núcleo forma cromossomos que se bipartem pelos processos de prófase, metáfase, anáfase e telófase.Adap.F.A. Uma mitose dura entre 30m e 3h.Dic.téc.melh,110. V.hiper.divisão celular;hip.cromossomos;hip.prófa- se;hip.metáfase;hip.anáfase;hip.telófase;sin .cariocine- se.

Esse paradigma demonstra o comportamento descritivo uniforme na estrutura do texto terminográfico.

 

II. Rede de remissivas

As remissivas constituem, na macroestrutura do glossário, uma rubrica de circulação. Por sua vez, o processo de remissiva estabelece a relação normativa entre um termo e outro no universo do discurso terminográfico. Os termos se cruzam de acordo com os critérios qualitativos dos conteúdos semânticos; estes critérios têm por base relações hierárquicas. Designamos remissão o processo de remeter a informação de um ponto a outro, e remissiva é cada item léxico que possui conteúdo semântico próprio; é, formalmente, a unidade semântica contida numa definição, ou seja, aquele termo que permite melhor compreensão do conteúdo definicional da entrada. Funcionalmente, as remissivas se constituem em verdadeiros trajetos de reconstituição de significados.

 

II.1. As remissões na estrutura do dicionário e do glossário

A propriedade que rege as remissões nesse discurso é o da associatividade. Nessa operação, uma definição guarda em si outra(s) unidade(s) semântica(s) que funciona(m) com nova(s) entrada(s). Trata-se de uma relação estrutural em que uma definição recobre outra(s) definição(ões). Isto ocorre porque ali estão inclusas unidades semânticas de mesma natureza paradigmática. Uma remissiva, enquanto indicativo de relações nocionalmente ligadas, surge no âmbito da microestrutura, mas vai ter reflexo direto na macroestrutura textual. Depende desse arranjo, por conseguinte, a feição do dicionário ou do glossário, de ser organizado de forma sistemática cuja dinâmica intratexto conduz a constituição dos campos, ou de não ser assim e seguir apenas a ordem alfabética tradicional. O princípio que organiza os campos, por sua vez, são os extratos léxicos, hierarquicamente estabelecidos conforme a definição semântica de cada correlato. Cabe ao terminógrafo não se esquecer de que cada correlato produz uma remissiva, de que cada remissiva constitui uma nova entrada e de que cada entrada deve ter uma definição. Essa exploração da circularidade faz com que as remissivas formem "ricochetes de informação". (Lehmann, 1990:208).

 

II.2. Questões de natureza teórica

Como determinar uma remissiva? Como avaliar sua validade? Como fixar sua extensão? Uma remissiva se autodetermina. Caberá ao terminógrafo atento o reconhecimento desse item lexical como uma novidade semântica. A marca que anuncia tratar-se de novidade é justamente a necessidade de o usuário saber que um termo se esclarece por sua definição. Se a definição não é esclarecedora, é porque ou ela é mal-elaborada, ou contém termos desconhecidos do leitor. Por isso deverá o consulente da obra ser instruído a buscar aquelas informações novas. Por sua vez, se o pesquisador reconhece que o conteúdo de certa definição será melhor compreendido se inserido no contexto de acepções paralelas, deve ele indicar ao leitor esse caminho. Caberá, portanto, ao elaborador do glossário funcionar como um guia do usuário dentro da própria obra a fim de abastecê-lo de informação. Essa função de busca de novo item lexical se faz de forma ordenada e sistemática por meio de remissões, em que cada V.= Veja constitui uma remissiva e cada remissiva é uma entrada a ser definida. A validade de uma remissiva pode ser avaliada de acordo com a relação que cada uma delas estabelece com a entrada, ou que elas estabelecem entre si, no corpo da definição. As relações semânticas entre as palavras podem ocorrer por meio de:

1. hiperonímia;

2. hiponímia;

3. sinonímia;

4. antonímia;

5. conceito conexo.

Como remissivas, estas relações serão indicadas no corpo do verbete obedecendo, respectivamente, as seguintes abreviaturas: 1. hiper.; 2. hip.; 3. sin., 4. ant.; 5. con. O hiperônimo é normalmente a primeira expressão da definição. A relação que se estabelece entre o termo-entrada e seu hiperônimo é a de que o significado do primeiro, termo específico, está contido no do segundo, termo genérico. Por exemplo, "Clone comercial. Sn.m. Muda clonada que no solo cresce com qualidade muito superior etc. "Clone comercial é termo-entrada e muda clonada é o hiperônimo, que passa a condição de remissiva. III.3. Ordenação sistemática dos termos A ordenação dos termos de maneira sistemática resulta da classificação desses termos de acordo com a noção semântica chave que os agrupa (TERMCAT, 1990:66).

Um dos requisitos fundamentais para essa ordenação é a rede de remissivas que organiza naturalmente os campos léxicos. As vantagens desse tipo de estrutura são várias, entre outras, podemos afirmar que é possível

i. haver ao largo do trabalho melhor controle da pertinência dos termos dentro de cada campo,

ii. haver maior coerência e maior rigor na definição de cada um;

iii. consultar imediatamente os termos relacionados e

iv. organizar famílias léxicas por meio de traços semânticos comuns que os aproximam ou que os opõem entre si.

Desse modo, a ordenação de cada rede forma microcampos dentro de um macrocampo; aqueles formam seções em que se divide a obra e este é de fato a obra como um todo. IV. Palavras finais O glossário de termos técnicos e científicos da área de Engenharia Genética, subárea de Melhoramento Genético de Plantas, que elaboramos, segue os métodos e as técnicas modernos requeridos pelos avançados estudos de terminologia e de terminografia. Por isso, a pesquisa exige que o fazer- visão estritamente prática da dicionarística tradicional - seja substituído pelo saber fazer - visão pragmática da terminologia moderna - e pelo saber dizer cuja fundamentação teórica encontra-se nas análises científicas de abordagem lexical feita pela lingüística. Temos como meta, neste trabalho, produzir uma obra com cerca de três mil termos para o leitor de nível universitário da área específica. Para isso a qualidade de produção do discurso terminológico, como descrevemos no corpo deste trabalho, se põe em primeiro plano.

 

Bibliografia sumária

ACTAS do Primeiro Simpósio Latino-americano de Terminologia. Grupo de Investigation Terminológica (GIT). Universidade Simón Bolívar. Caracas, Venezuela. 1988.

AUGER, P. e ROUSSEAU, L. et alii. Méthodologie de la recherche terminologique. Québec, Ed. Officiel du Quebec, 1978.

BARBOSA, M. A. "Considerações sobre a estrutura e funções da obra lexicográfica". In: Actas do Colóquio de Lexico- logia e Lexicografia. Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1990. pp. 229-241.

DUBUC, Robert. "Synonymie et terminologie". In: Problemes de la definition et de la synonymie en terminologie.

FAULSTICH, Enilde L. de J. Lexicologia: a linguagem do noticiário policial. Brasília, Horizonte, 1980.

FAULSTICH, Enilde L. de J. "Metodologia para projeto terminográfico". Brasília, UnB/IBICT, inédito, 1990.

GOUADEC, D. Terminologie. Constitution de données. Paris La Défense, Afnor, 1990.

LEHMANN, A. "De definition a definition. L'interprétation dans le dictionnarie par le jeu des renvois". In: La définition. Paris, 1990.

MOCHO, Maria do Céu S. Caetano. "Terminótica: um novo conceito". In: Terminologias. Associação de Terminologia Portuguesa TERMIP, Abril, 1990, 1.

ROUSSEAU, Louis-Jean. "La définition terminologique". In: Problemes de la definition et de la synonymie en terminologie.

TERMCAT. Metodologia del treball terminologic. Barcelona: Departament de Cultura, 1990.

 

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