Tradução técnico-científica: propostas de atuação do IBICT
Maria Carmen Romcy de Carvalho
Resumo
O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) resgata planos de trabalho anteriores e formula algumas propostas de ação para o período 93-94, com base nos resultados da primeira etapa do "Estudo Exploratório sobre a tradução de documentos técnicos-científicos no Brasil", projeto que integra o Programa de Cooperação Técnica IBICT-União Latina. Posteriormente, na medida em que as demais etapas do Estudo vierem a ser concluídas, estas propostas serão aperfeiçoadas, de modo a incluírem outras demandas identificadas na comunidade científica, tecnológica e industrial brasileira.
I. Introdução
O antigo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD), ao ser criado em 1954, instituiu junto à Divisão de Informações Técnicas e Científicas, a Seção de Referências Bibliográficas e Traduções com o objetivo de: a) realizar traduções a pedido, verter para o inglês, trabalhos científicos brasileiros ou notícias sobre esses trabalhos para divulgação no exterior; b) controlar os títulos das traduções de trabalhos científicos feitos no Brasil e no exterior; e) organizar e editar regularmente as traduções realizadas na Seção. Os relatórios e outros documentos oficiais do IBBD mencionam o funcionamento do serviço de tradução até 1974, quando o serviço de tradução a pedido foi desativado e, para substituí-lo, o Instituto, publicou, entre 1974 e 1975, dois números da obra Cadastro de Tradutores contendo em conjunto 2239 indicações de tradutores, e respectivos endereços, idiomas e assuntos de trabalho.
Em 1976, a transformação do IBBD no atual Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) reiterou o interesse do órgão para as questões referentes à tradução técnico-científica, de modo que fez constar entre os seus serviços e produtos, desde a primeira hora, o fornecimento de traduções e o levantamento de centros de traduções para o atendimento direto aos cientistas e pesquisadores. Com o passar do tempo, outras prioridades foram sendo praticadas até que os serviços e produtos sobre tradução foram sendo desativados até serem excluídos da programação do Instituto.
Em 1987, o IBICT resgatou a idéia de voltar a trabalhar com tradução, quando apresentou ao Grupo Técnico do Subprograma de Informação em Ciência e Tecnologia do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico uma proposta de projeto para o desenvolvimento de um sistema de tradução automática,que se integrava a outro projeto de criação de um banco de dados terminológicos. Ambas as propostas apesar de tecnicamente viáveis não foram consideradas prioritárias pelo Grupo Técnico à época, face a necessidade de implementação urgente de outros projetos como o Sistema Público de Acesso a Bases de Dados, Capacitação de recursos humanos e outros.
Mais uma vez em 1990, o IBICT retorna a questão e insere na programação do II Simpósio Latino-americano de Terminologia um painel sobre tradução técnico-científica e dá início a um levantamento de profissionais que atuam no setor.
Em 1991, dentro da cooperação técnica que o IBICT mantém com a União Latina, foi aprovado um projeto para realizar um amplo levantamento sobre a oferta e a demanda de tradução técnico-científica no Brasil. Este estudo foi confiado a consultora Yone Chastinet e seus resultados servem de base às propostas de ação aqui formuladas.
II. O contexto de atividade de tradução e as redes de serviços de informação coordenadas pelo IBICT
O IBICT, como órgão nacional vinculado ao poder público, tem procurado pautar sua programação para o desenvolvimento de uma infra-estrutura capaz de ampliar a oferta de serviços de informação científica e tecnológica. Com exceção das áreas de Ciência da Informação e Política Científica e Tecnológica, às quais recentemente se agregou também a Terminologia, os serviços/produtos de informação prestados pelo IBICT têm um caráter horizontal, cobrindo diversas áreas da ciência e tecnologia e diferentes tipos de usuários. As redes de informação montadas para dar suporte a estes serviços e produtos são, em sua maioria, redes funcionais, isto é, concentram suas atividades numa determinada etapa do processo de transferência da informação.
Atualmente são 3 as redes de informação coordenadas pelo IBICT; a Rede de Núcleos de Informação Tecnológica, o Sistema Público de Acesso a Bases de Dados e o Programa de Comutação Bibliográfica.
A Rede de Núcleos de Informação Tecnológica compreende 21 unidades de informação que se caracterizam pela prestação de serviços à pequena e média empresa, sobre normas técnicas, patentes e informação tecnológica para diversos setores industriais que são repassados através de serviços de respostas técnicas e extensão tecnológica. Atuando tanto em áreas de ponta quanto em setores tradicionais da indústria, a Rede, de uma forma global, carece de serviços que facilitem ao usuário final a absorção da informação gerada/publicada no exterior.
O Sistema Público de Acesso a Bases de Dados em fase de implantação pelo IBICT, e mais 6 instituições nacionais produtoras/disseminadoras de bases de dados nacionais e internacionais colocarão à disposição da comunidade científica e tecnológica nacional cerca de 120 bases de dados em 60 Postos de Serviços espalhados por todo o território brasileiro. Essas bases de dados juntas disseminarão milhões de ítens de informação, notadamente produzidos em inglês, francês e outros idiomas de comunicação científica. O Programa de Comutação Bibliográfica congrega 880 unidades de informação, sendo que 180 enquadram-se na categoria de bibliotecas fornecedoras de fotocópias de artigos e 700 são bibliotecas solicitantes, deste tipo de serviço. As bibliotecas do Programa que movimentam anualmente milhares de trabalhos técnicos-científicos publicados no exterior, não prestam serviços de tradução e nem dispõem de cadastros atualizados de tradutores, deixando de agregar valor aos serviços de fornecimento de documentos.
O planejamento e o desenvolvimento integrados dessas 3 redes, permite-nos identificar o serviço de tradução ou de acesso a traduções já elaboradas, como um serviço de informação que complementa a linha dos serviços/produtos prestados pelas redes, proporcionando-lhes resultados de maior valor agregado.
Nesse contexto, o IBICT resgata a proposta de atuar em tradução técnico-científica, seja para fomentar a prestação desse tipo de serviço nas unidades de informação que integram suas redes, seja para disseminar, ele próprio, informações referenciais sobre serviços de tradução disponíveis no Brasil e no Exterior.
III. Oferta e demanda de tradução técnico-científica
Em fins de 1991, o IBICT apresentou à União Latina, proposta de realização de um estudo sobre a situação da tradução técnico- científica no Brasil, de modo a subsidiar futuras ações do Instituto na área. Aprovada a idéia geral do estudo pela União Latina o Instituto convidou a Dra. Yone Chastinet a apresentar proposta que contemplasse a identificação da oferta e da demanda de serviços de tradução, tanto no meio acadêmico quanto empresarial.
A proposta apresentada pela consultora ultrapassou os valores previstos para a pesquisa, decidindo-se então que a mesma seria desmembrada em 3 etapas, cabendo à União Latina o apoio ao levantamento da oferta e demanda de serviços de tradução em instituições de Ensino Superior e nos Núcleos de Informação tecnológica, por estarem esses segmentos diretamente envolvidos nas redes de informação coordenadas pelo IBICT.
A 1a. etapa do estudo analisou: a) a oferta e a demanda de serviços de tradução em 187 unidades técnicas, acadêmicas e administrativas de 20 instituições de ensino superior, voltadas ao ensino da pós-graduação e à prática da pesquisa; b) a oferta e a demanda de tradução técnico-científica em 11 núcleos de informação tecnológica; e c) a demanda de tradução de 364 pesquisadores/docentes da pós-graduação de 5 universidades localizadas no estado do Rio de Janeiro, atuantes nas áreas de ciências básicas, tecnológicas, biológicas, saúde, humanas e sociais.
Os resultados alcançados nesta etapa do estudo, permitiram-nos formular algumas propostas para atuação do IBICT na área de tradução técnico-científica, seja como executor de serviços ou produtos, seja como indutor de ações a serem executadas por outras instituições mais vocacionadas.
Os principais resultados do estudo quanto à oferta e à demanda de serviços de tradução nas 20 IES revelam que apenas 3.7% dos órgãos pesquisados oferecem serviços de tradução,enquanto a demanda por este tipo de serviço é verificada em 51% das 187 unidades analisadas. Das 7 unidades que oferecem serviços de tradução, 4 são Departamentos de Letras e 1 é biblioteca. Os serviços dos Departamentos de Letras são oferecidos como atividade de extensão acadêmica.
Das 187 unidades da IES analisadas, apenas 2 produzem cadastros de tradutores, o que indica que não há fontes de referência disponíveis sobre a oferta de mão-de-obra especializada.
Os principais resultados do estudo quanto à oferta e à demanda de serviços de tradução nos 11 núcleos de informação tecnológica indicam que 77% deles apresentam demanda por tradução, mas apenas 27% (3 núcleos) oferecem o serviço. A maioria desses núcleos contrata serviços externos de tradução.
Propostas
1. Estimular a cooperação entre, as bibliotecas universitárias e núcleos de informação Tecnológica e os cursos de tradução, de modo a que essas unidades de informação forneçam material para os laboratórios de tradução das IES.
2. Retomar o cadastramento de tradutores especializados em ciência e tecnologia, colocando a informação disponível através de serviços de bases de dados ou cadastros impressos. Envolver as Secretarias de Estado da Ciência e Tecnologia, de modo a incluírem, em seus cadastramentos sobre oferta de serviços tecnológicos e de informação, questões referentes à oferta de serviços de tradução em nível do estado.
Nenhum órgão oferece serviço de acesso a traduções apesar de 9 das IES possuírem fontes bibliográficas que permitiriam a prestação deste serviço.
Nenhum núcleo oferece serviço de acesso a traduções, apesar desse ter sido considerado mais importante do que o serviço de tradução.
Dos 364 respondentes das IES e NIT, apenas 13 afirmam conhecer alguma fonte sobre tradução, mas desses, apenas 1 cita textualmente o título da obra. Cinqüenta por cento dos respondentes informaram que consideram importante o serviço de acesso a traduções.
3. Estimular as bibliotecas universitárias a agregar valor ao serviço de referência e comutação bibliográfica, informando sobre a existência de tradução dos documentos fornecidos.
4. Oferecer serviço de acesso a traduções já elaboradas, através da assinatura de base de dados especializadas.
Os 7 serviços de tradução no ambiente universitário que juntos acumulam mais de 54 anos de atividade, elaboram 450 traduções, perfazendo uma média de 8 traduções por ano. Os 3 NIT, que acumulam 22 anos de prestação de serviço de tradução, totalizaram 510 traduções, produzindo uma média de 23 traduções/ano.
5. Representar o Brasil junto ao International Translation Centre coordenando o envio das traduções e versões elaboradas no Brasil para inserção na base de dados internacional.
Os documentos mais traduzidos pelos Núcleos de Informação Tecnológica são normas técnicas.
Implementar o catálogo coletivo de normas técnicas traduzidas, previsto no documento básico do projeto Serviço de Informação em Tecnologia Industrial, através do qual foi criada a Rede de Núcleos de Informação Tecnológica.
IV. Conclusões
Embora restritas aos resultados da 1a. etapa do estudo, acreditamos que as propostas de ação aqui formuladas serão em grande parte corroboradas pelos resultados das duas etapas subseqüentes, tendo em vista que, no universo ora pesquisado, se inserem as unidades de informação da área acadêmica e do setor tecnológico/industrial, mais bem estruturadas em termos de prestação de serviços.
A demanda foi extraída de respostas de docentes e pesquisadores envolvidos com a frente da pesquisa em suas áreas, da mesma forma que os respondentes do setor industrial representam setores industriais relevantes para a economia nacional, seja pelo número de empregos que geram, seja pelos bens essenciais que produzem.
Bibliografia consultada
CARVALHO, M. B. G. P. de. Organização de redes de informação. In: CONGRESSO REGIONAL DE DOCUMENTAÇÃO DA FID/CLA, 5. Rio de Janeiro, 1980. Anais Rio de Janeiro, IBICT, 1980.V. 1.
CHASTINET, Yone. Principais resultados da pesquisa "Tradução de documentos técnicos e científicos no Brasil: oferta e demanda (1a. parte)". Rio de Janeiro, 1992. 13p.
CHASTINET, Yone. Tradução de documentos técnico- científicos no Brasil: Oferta e demanda. Primeira parte: Pós- graduação e Pesquisa. Relatório final de Pesquisa. Rio de Janeiro, 1992. 83p. 4 - CNPq. Resolução Executiva 20/76 de 25/03/76. Criação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. 9 p.
SAMBAQUY, Lydia de Queiroz. O IBBD e a informação científica no Brasil. Forum educacional. Rio de Janeiro. 12(2):31-41, abril/jun. 1988.
SILVA, E. L. da. Compartilhamento de recursos e o papel das redes de inforação. R. Bibliotecon. Brasília, 14(2):209- 225, Jul./Dez. 1986.
SILVA, L. A. G. A institucionalização das atividades de informação científica e tecnológica no Brasil: o caso do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD). Brasília, Universidade de Brasília, 1987, 226 p. (Dissertação de Mestrado).
(Anexos) Lista das instituições pesquisadas
Universidade Federal do Pará, Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Pontífícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade Federal Fluminense, Escola Paulista de Medicina, Universidade de São Paulo, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Santa Maria e Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Núcleo Regional do Espírito Santo, Núcleo Regional de São Paulo, Núcleo Regional do Ceará, Núcleo Setorial de Maquinária Agrícola, Núcleo Regional do Espírito Santo, Núcleo Setorial de Maquinária Agrícola, Couros e Calçados, Conservação de Energia, Plásticos e Borracha, Metal-Mecânica, Alimentos, Desenho Industrial, Mobiliário e Madeira.