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A normalização terminológica e o desenvolvimento tecnológico

Anne Marie Zemgulis
Márcia Carnaval Valporto de A. Maltoni

 

Resumo

O trabalho apresenta a importância da normalização terminológica na área de informática e sua relação com o desenvolvimento tecnológico no país, além dos problemas gerados pela falta de padronização. Aborda as diversas correntes de tradução para termos em inglês, bem como novas sugestões, destacando as três Comissões de Estudo do CB-21/ABNT —Tesauro de Informática em Língua Portuguesa, Vocabulário ISO de Informática e Terminologia em Computação Gráfica— que estão inseridas neste processo de normalização.

 

1. A Normalização Terminológica

A normalização terminológica possui importância crescente hoje em dia, uma vez que a rapidez do desenvolvimento tecnológico tem como conseqüência natural a criação cada vez maior de novos conceitos e dos termos que estes representam.

O que exatamente vem a ser a Normalização Terminológica? Segundo alguns autores, a terminologia é um "conjunto de termos que representam o sistema de conceitos pertencentes a um determinado assunto, sendo esses termos os símbolos convencionais utilizados para representar os conceitos relativos a esse assunto". O objetivo da normalização terminológica, portanto, é o de evitar as possíveis ambigüidades que dificultam a comunicação, reduzindo a variedade de termos e visando uma linguagem uniforme. A fim de que tal normalização se torne possível, é preciso que haja a unificação de conceitos através da criação de novos termos necessários à definição de novos conceitos, bem como da eliminação de termos desnecessários, ou melhor, desajustados.

O texto técnico, de modo geral, tem sido caracterizado por seu "estilo cuidadoso e sóbrio" e pela sua "terminologia apropriada, rigorosa e uniforme". Esta caracterização vem de encontro ao fato de que a "terminologia científica é muito dinâmica e, por vezes, transitória", o que faz com que os glossários técnicos, portanto, se tornem constantemente ultrapassados, tendo em vista as novas tecnologias.

 

2. Normalização Terminológica x Desenvolvimento Tecnológico

Uma vez destacada a importância da normalização terminológica numa época de avançado desenvolvimento tecnológico, surge a seguinte questão: o que se entende por Noção de Desenvolvimento?

Segundo o professor Silviano Santiago (II Encontro Nacional de Tradutores -PUC/RJ), o desenvolvimento é feito através da circulação do saber, circulação essa que deve ser universal. Poderíamos ainda acrescentar que a cultura, dentre outros aspectos, constitui patrimônio universal, sendo, portanto, direito de todos não só o acesso como a circulação da mesma. No entanto, cabe ainda ressaltar que, como já defendido anteriormente por outros autores, tal circulação entre os povos é sadia e proveitosa desde que represente um intercâmbio e não um processo unidirecional.

Considerando ainda o raciocínio de Silviano, verificamos que "não há uma circulação do saber em termos de um diálogo entre saberes", especialmente na área tecnológica. A noção de desenvolvimento em nosso país está intrinsecamente ligada a uma ideologia de progresso. A noção do progresso exógeno, exterior a nós, que importa conceitos (saber) prevalece no país, concretizada na constante importação de publicações técnicas, dentre outros fatores. Uma vez que o acesso ao idioma original desses textos é restrito, surge a necessidade de tradução desses conceitos e dos termos técnicos a eles associados.

É importante não esquecer, também, a questão da dependência cultural, vinculada à idéia de universalização, onde o saber que chega aqui não é apenas um fator de conhecimento, mas de dominação. De acordo com Silviano, o "livro técnico traduzido apenas redobra, duplica, uma determinada dominação cultural que se dá através da noção de progresso que é exógena".

A avaliação crítica do progresso tecnológico também é preocupação e tema de diversos autores. Dentre eles, podemos citar Roberto Schwarz, o qual, em entrevista ao Jornal do Brasil em 14/11/87, declarou que "O desejo de assimilar as inovações dos países capitalistas avançados é bem grande —e não só na burguesia. Há também o apetite popular... a modernidade no Brasil parece irreal porque a massa do povo não tem acesso a ela —e não porque ela seja importada do estrangeiro, como à primeira vista se poderia crer, e o nacionalismo conservador gosta de afirmar". Surge, assim, o problema da "imitação acrítica", a qual não considera as necessidades locais.

Colocamos ainda a seguinte pergunta proposta por Silviano: estaremos mesmo progredindo, nos aproximando das nações mais avançadas —ou nos distanciando cada vez mais— "se o nosso saber não circula lá, se é apenas o saber de lá que circula aqui? Quantos livros nossos foram traduzidos para uma língua estrangeira?"

Como citado no XX Congresso Nacional de Informática (São Paulo), o vocabulário normalizado não só viabiliza a tradução de textos técnicos como também a versão de textos originalmente escritos em português, os quais se destinam ao mercado internacional. Assim sendo, podemos encarar a normalização terminológica como um dos instrumentos importantes na circulação do saber.

 

3. A falta que faz a Normalização

A falta de padronização da terminologia técnica no Brasil tem sido a causa de inúmeros problemas. Podemos verificar que existem muitos neologismos técnicos para os quais não existe equivalência em português e que ainda não têm uma tradução consagrada. É importante lembrar, contudo, que os termos com base greco-latina não causam tantos problemas e que, no entanto, os termos na área de Informática não são desse tipo, mas de raiz anglo-saxônica. Sendo assim, a tradução desses termos é difícil e trabalhosa, dando margem então, não só à existência mas também à permanência de palavras tais como software, hardware, bit, byte, etc...

Com a falta de terminologia normalizada e generalizada acaba-se tendo que conviver com diferentes traduções e neologismos, além do próprio termo original, referindo-se a um mesmo conceito. Conseqüentemente, surge a ambigüidade, pois podem existir termos diferentes com o mesmo significado, ou significados diferentes para termos iguais. Não é difícil perceber que isto dificulta muito a transferência e difusão do conhecimento.

São vários os problemas relativos à flutuação dos conceitos dos neologismos. Além da falta de padronização da terminologia, temos que lidar ainda com questões tais como o grau de aceitabilidade do neologismo quando criado ou importado, tanto no campo léxico quanto no social. É importante, também, ressaltar o problema de estrangeirismos ou empréstimos, pois a adoção dos mesmos faz com que surja grande polêmica não só pela descaracterização da língua nacional, mas também no que diz respeito à pronúncia e à grafia dos termos em questão.

Vale lembrar ainda que o "trabalho terminológico constitui uma grande deficiência no Brasil, no sentido em que a terminologia não está devidamente estudada e desenvolvida". A profissão de terminólogo, tão imprescindível na Europa e no Canadá, não existe aqui. O terminólogo teria como objetivo trabalhar a terminologia de diferentes áreas científicas, a partir de sua literatura e de contatos com os profissionais da área. Uma vez obtida a idéia precisa do significado de cada termo, e respeitando as características, a etimologia e a morfologia da língua, ele teria a responsabilidade de cunhar o termo apropriado. Este trabalho científico levaria, então à normalização terminológica.

Dizem que a língua é "como um ser vivo: alimenta-se, desenvolve-se, mas deve crescer saudável e harmoniosamente". Todas as línguas sempre tomaram emprestado e assimilaram termos daquelas com que entraram em contato, mas há quem pense que isso se faz em excesso hoje em dia, especialmente na área de Informática. A crescente necessidade de integração desses termos na estrutura lingüística do país disseminou a importância da tradução desses termos dando origem, paralelamente, a diversas correntes, as quais discutiremos a seguir.

 

4. Tradução: qual o melhor caminho?

Avaliaremos agora, então, os vários critérios utilizados para a tradução de termos informáticos, abrangendo não só os diversos trabalhos e posições defendidas por nossos técnicos e tradutores, como também os de comissões internacionais de normalização (como por exemplo, França e Portugal). Exporemos, ainda, a razão pela qual alguns desses critérios, embora teoricamente ideais, não se adaptam a nosso país no presente momento.

No II Encontro Nacional de Tradutores realizado na PUC/RJ em maio de 1985, foram identificadas duas correntes de tradução na área de Informática. A primeira defende a tradução ao pé da letra ou o aportuguesamento dos termos. Nesse caso, são produzidas palavras tais como "setar" e "ressetar", ou seja, termos em inglês acrescidos de -ar, -cão, etc. A segunda corrente julga necessário criar termos próprios no vernáculo. Como já mencionamos, às vezes estes termos são de difícil aceitação, pois embora com uma acepção correta, não se parecem com aqueles utilizados em inglês.

Outros exemplos desses critérios são apresentados a seguir:

1) Tradução direta ou biunívoca.
(Ex.: input/output - entrada/saída; window - janela)

2) Aportuguesamento do termo, conservando-se a pronúncia original e aportuguesando-se a grafia.
(Ex.: byte - baite; joystick - joistique)

3) Criação de novos termos,

Procurando a correspondência conceituai (Ex.: light pen - caneta óptica)

Respeitando a lingüística (Ex.: computer graphics - compugrafia).

Este último exemplo encontra muitos adeptos e já tem tradução estabelecida no modelo francês, onde existem instituições com a função de definir e traduzir para a língua francesa os termos de origem inglesa. Tal trabalho é apoiado pelo governo daquele país que, dentre outras coisas, obriga a utilização exclusiva dos termos aprovados nos documentos oficiais.

Por se tratar da língua portuguesa, o trabalho da Comissão Técnica de Normalização de Terminologia Informática (CT113) de Portugal merece nossa atenção. Essa Comissão iniciou sua atividade em 1982, tendo definido como objetivos a análise e tradução para a língua portuguesa da Norma ISO 2382 —Processamento de Dados— Vocabulário, além da elaboração de um dicionário automatizado composto dos termos aprovados.

A ISO é uma organização internacional importante na elaboração de normas, sendo que a Norma ISO 2382 vem a ser um bom resultado de trabalhos terminológicos nas línguas inglesa e francesa, que consideram normas internacionais já publicadas e em projeto na área de Informática, bem como documentos oficiais de diversas organizações internacionais.Tal norma é composta de mais de 20 partes e tem por objetivo a definição rigorosa e concisa dos termos nela contidos.

Desde a data de sua formação, a CT113 de Portugal analisou e aprovou várias partes da referida Norma, compreendendo diversos termos com suas respectivas definições. Além de especialistas da área de Informática, participam dessa Comissão representantes da Administração Pública, do Exército, de firmas construtoras e de empresas públicas e, ainda, um terminólogo da área de Informática.

Da mesma forma como ocorre no Brasil, também em Portugal muitos termos em inglês são utilizados no dia-a-dia da Informática. Os critérios utilizados pela Comissão em relação à tradução desses termos, são os seguintes:

Tentar que a correspondência criada entre o termo em inglês e o termo em português seja a mais correta possível, não só do ponto de vista terminológico, como também do ponto de vista técnico.

Sempre que na língua portuguesa não existirem os termos adequados para a expressão de certos conceitos, estes terão de ser criados —neologismos— de acordo com os princípios etimológicos e morfológicos corretos.

A Comissão está consciente do fato de que alguns termos se enraizaram profundamente na linguagem corrente e, provavelmente, não deixarão de ser utilizados em sua versão original, pelo menos pela atual geração da área de Informática. Nesses casos, a Comissão tentou criar o termo correspondente em português ao mesmo tempo que permitiu a utilização do termo em inglês. Para aqueles termos mal traduzidos foram adotados os termos corretos no vernáculo, esperando que, através da divulgação da Norma, eles pouco a pouco venham a ser utilizados corretamente.

A utilização de uma palavra dentro de determinada comunidade realmente é um fator importante a ser considerado, pois, como confirma Wittgenstein, "o significado de uma palavra é o seu uso na linguagem". O hábito vem a cristalizar a esfera semântica de um dado termo e o tradutor deverá estar sempre atento à procura da correspondência dinâmica.

Considerando todos os problemas decorrentes da falta de padronização de terminologia informática no Brasil, bem como as metodologias de tradução existentes e o "uso" corrente de alguns vocábulos em inglês, gostaríamos de propor alguns critérios para a normalização desses termos, visando uma solução que poderia ser implementada a curto prazo e que representaria apenas a etapa inicial do processo de normalização terminológica no país.

1) Em existindo uma tradução direta ou uma correspondência biunívoca, ou seja, que não provoque ambigüidade no entendimento do termo, esta opção deverá ser seguida.

2) Caso contrário, deverá ser verificado quais vocábulos correspondentes ao termo original estão sendo usados pela comunidade de Informática, a fim de identificar um termo consagrado e aceito.

3) Se o termo original estiver muito enraizado, poderá ser adotado o uso do termo em inglês, mas sem qualquer modificação do mesmo, para evitar dúvidas associadas à própria grafia.

4) Se o termo ainda não tiver sido introduzido na área de Informática no Brasil e não possuir uma tradução direta, deverá ser criado um novo termo na língua portuguesa, considerando todas as recomendações já levantadas neste trabalho. Esta opção, no entanto, somente poderá vir a ser adotada a partir do momento em que a normalização terminológica for regida por um mecanismo centralizado.

 

5. Comissões de Terminologia: uma Tentativa de Normalização

Uma das recomendações do II Encontro Nacional de Tradutores, realizado na PUC/RJ de 29 a 31 de maio de 1985, foi a uniformização da terminologia técnica, que deveria ficar a cargo de uma instituição específica.

A instituição que no momento está tentando normalizar o vocabulário da área de Informática é a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Esta Associação instalou em 14/05/87 a Comissão de Estudo de Tesauro de Informática em Língua Portuguesa (CE-21:401.01), a qual faz parte do Comitê Brasileiro de Computadores e Processamento de Dados - Informática (CB-21). O Tesauro teria como objetivo não só a normalização da terminologia, mas também a indexação e recuperação de informações nessa área.

A Comissão de Estudo reúne representantes de diversas empresas, entidades técnicas, órgãos governamentais e universidades. Esse grupo de estudo deu início aos trabalhos com a análise e o estabelecimento das grandes áreas de abrangência do Tesauro, visando a classificação dos termos. A Comissão decidiu utilizar como ponto de partida o Sistema de Classificação CR (Computing Reviews) de 1986, e um Tesauro Experimental feito pelo SERPRO. Após cuidadoso estudo desses documentos e tendo em vista as alterações que a Comissão julgou pertinentes, ficou finalmente estabelecido que as dez grandes áreas seriam as seguintes: Hardware, Organização de Sistemas de Computador, Software, Teoria da Computação, Matemática Computacional, Sistemas de Informação, Processamento Especializado, Administração em Computação, Computação e Sociedade e Aplicações do Computador.

Uma vez estabelecidas essas grandes áreas, a Comissão passou então a estudar o detalhamento das mesmas, a fim de poder definir qual a abrangência de cada uma delas, tentando assim evitar que surgissem possíveis dúvidas na classificação dos termos.

Seria interessante lembrar, ainda, que as dez grandes áreas estabelecidas são da responsabilidade da ABNT. Contudo, o Tesauro em sua forma final reunirá os esforços dessa Associação e também do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), que vem desenvolvendo a terminologia referente à área de informação.

Reconhecendo a necessidade de ir além da classificação e validação dos termos que irão compor o Tesauro, para chegar a uma definição formal dos conceitos a eles associados, a ABNT instalou em 28/03/88 a Comissão de Estudo do Vocabulário ISO de Informática (CE-21:401.02). Essa Comissão tem por objetivo a elaboração de um vocabulário nacional de informática, baseado na Norma ISO 2382.

Embora não exista nenhuma dependência direta entre essa Comissão e a CE-21: 401.01 - Comissão de Estudo de Tesauro de Informática em Língua Portuguesa, espera-se um intercâmbio significativo entre as duas, até porque algumas entidades participam efetivamente de ambas.

Além dessas duas Comissões da Comissão Técnica de Terminologia (CT-21: 401), foi instalada em 19/12/89 a Comissão de Estudo de Terminologia em Computação Gráfica (Ce-21: 601.02), a qual está subordinada à Comissão Técnica de Arquitetura de Sistemas Gráficos (CT-21: 601). Essa Comissão tem por objetivo gerar um vocabulário de computação gráfica a nível nacional, o qual poderá conseqüentemente enriquecer em muito os trabalhos das CE's relacionadas às áreas de Terminologia e Computação Gráfica.

É importante ressaltar, no entanto, que os trabalhos resultantes dessas três comissões de terminologia, a continuidade e a utilidade dos mesmos, dependem de sua divulgação, bem como da participação e sugestão de todos aqueles que estão direta ou indiretamente ligados à área de Informática.

É fácil perceber, também, que esse tipo de trabalho não tem seu fim determinado quando da inclusão ou definição de um "último" termo no Tesauro, no Vocabulário ISO ou no Vocabulário de Computação Gráfica. E, por que não? Justamente por ser esse um trabalho "sem fim" que necessita ser atualizado periodicamente, a fim de que continue representando instrumento de apoio aos profissionais da área. Sendo assim, podemos concluir que essas ferramentas só serão valiosas se refletirem a realidade veloz e dinâmica da área de Informática.

Como já mencionado anteriormente, a normalização terminológica é difícil em todas as áreas, mas especialmente nesta. Portanto, toma-se indispensável a colaboração e até mesmo a fiscalização de todos para que o Tesauro, o Vocabulário ISO e o Vocabulário de Computação Gráfica se tornem instrumentos indispensáveis a todo e qualquer profissional ligado à área.

Salvo pequenas alterações, este trabalho foi publicado nos Anais do XXII Congresso Nacional de Informática (SUCESU - São Paulo -1989).

 

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