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Índice por autores

 

 

Mecanismos de tradução do vocabulário científico
para o discurso cotidiano

Lilian M. Simões Zamboni
Universidade de Campinas
Brasil

 

Resumo

No quadro de uma abordagem dialógica do discurso (cf. M. Backtin), a representação do dialogismo no "gênero" particular da vulgarização científica se realiza em dois níveis: o do quadro enunciativo e o do fio do discurso (cf. J. Authier). É mais precisamente o último nível que focalizo neste trabalho. Procuro descrever os mecanismos lingüísticos para o discurso cotidiano. Entre as formas de colocar os dois discursos em equivalência, citam-se a justaposição e o distanciamento metalingüístico.

 

1. A atividade de vulgarização científica

Inserida no conjunto das práticas de reformulação textual-discursiva, a atividade de vulgarização científica é reconhecida como produtora de um texto segundo, vasado em linguagem coloquial (D2), cuja origem reside num texto científico, cifrado num discurso de/para especialistas (D1). Destinado a um público específico, o texto científico tem sua circulação restrita a um domínio sócio-cultural que se circunscreve a instituições acadêmicas [1]. Com o alvo da destinação do saber científico dirigido para o "grande público", a produção científica ganha a mediação de um vulgarizador, que, dependendo da natureza do veículo de informação e das finalidades do ato informativo, pode ser o próprio produtor desse saber, ou um jornalista/repórter especializado.

Sem focalizar centralmente o intrincado aparato das condições, restrições e possibilidades da prática da atividade de produção e geração do conhecimento, a atividade de vulgarização científica (VC) se assume como uma ação fundamentalmente comunicativa, chamada a dissolver problemas de intercompreensão. Quando ultrapassa o muro da comunidade científica, a língua dos cientistas se transforma em língua estrangeira e necessita de um "tradutor" que a leve ao acesso da grande massa de homens comuns, dissociados da elite científica e, portanto, colocados à margem de um saber cada vez mais técnico, numa sociedade cada vez mais funcionalmente especializada.

As representações simbólicas que se constroem na atividade de VC apontam para uma função-ponte que interliga dois grupos historicamente apartados por uma ruptura cultural: a dos cientistas e a do homem leigo. Aos primeiros, cabe o poder pela autorização do saber competente. Aos segundos, restou a privação. Para remediar o alheamento causado pelo não-saber, difunde-se o conhecimento ao conjunto da sociedade [2].

A atividade de VC caracteriza-se, assim, não apenas por deslanchar a almejada função social de partilha do saber, mas também por acionar um mecanismo comunicativo que põe em relevo um trabalho de mediação essencialmente discursivo.

 

2. O domínio lexical nos textos de VC

Desse trabalho discursivo que "traduz" um discurso-fonte (D1) para um discurso-alvo (D2), estarei selecionando para investigação as operações que se efetuam no componente lexical do texto vulgarizado, e aí aparecem como resíduos, vestígios ou marcas de um trabalho de reformulação lingüística que teve no leitor destinatário um dos fatores determinantes de sua ocorrência.

O material que analisei constituía um conjunto de matérias jornalísticas das seções Ciência e Tecnologia de O Estado de São Paulo , Folha de São Paulo , Jornal do Brasil e O Globo, todas publicações do ano 1990. Centrei-me no chamado jornalismo científico, evitando revistas de informação e periódicos de divulgação científica, para aproximar-me mais do ideal de homogeneidade do autor-destinador (um jornalista) e do leitor-destinatário (o suposto público leitor de jornais diários). Assim, evitei também as matérias jornalísticas produzidas por cientistas. O que foi impossível evitar foram os artigos escritos por jornalistas brasileiros a partir de publicações da mídia estrangeira, uma vez que o jornalismo científico no Brasil tem "o contorno de uma prática dependente, que se respalda na ciência e na tecnologia geradas e transferidas pelos países hegemônicos" Bueno, 1985:21.

A análise que faço se desenvolve dentro de uma abordagem bakhtiniana do discurso [3], em que o dialogismo é tomado como condição mesma de existência de todo discurso. O princípio do dialogismo opera em dois níveis. De um lado, considera-se que nenhuma palavra é virgem, dado que as palavras estão contaminadas pelos discursos onde se constituíram e adquiriram sua significação. Todo discurso remete, então, a outros discursos já enunciados e por enunciar, de tal maneira que a produção do sentido se concebe dentro e pelo interdiscurso. Por outro lado, o discurso não existe independentemente daquele a quem é endereçado. Isso implica dizer que o destinatário se faz presente no discurso que lhe é destinado, interferindo no processo mesmo de constituição discursiva [4].

Com base nesse duplo dialogismo, Authier-Revuz (1984) formula o princípio da heterogeneidade constitutiva e descreve a heterogeneidade mostrada como "formes linguistiques représentant des modes divers de négociation du sujet parlant avec l'hétérogénéité constitutive de son discours". P. 99.

Estudando o discurso de vulgarização científica em jornais e revistas franceses, Authier (1982) distingue dois níveis nos quais se realiza a representação do dialogismo: o do quadro enunciativo e o do fio do discurso. No primeiro, verifica-se a insistência numa dupla estrutura de enunciação: a do discurso científico, que aparece grandemente sob a forma do discurso indireto Fulano diz que..., e a do discurso vulgarizador, que associa o jornalista e o leitor num mesmo ato de comunicação Cremos que é nosso dever informar aos leitores... Daí resulta uma estrutura ternária com a forma Eu lhes digo que eles dizem que P.

A nível agora do fio do discurso, a VC representa a ação de colocar em contato dois discursos no próprio desenrolar da atividade, através de um fio explicitamente heterogêneo. O fenômeno se realiza pela utilização de duas estruturas principais: a justaposição dos dois discursos por recurso a numerosas formas de colocação em equivalência, e o posicionamento à distância metalingüística de um ou outro discurso, alternativamente, recorrendo-se ao emprego do itálico e do aspeamento [5].

São os mecanismos de tradução lexical pertencentes à primeira estrutura que focalizarei neste trabalho. A operação local, micro-textual, que se verifica no nível do vocabulário, quer indo do científico para o vulgar ou vice-versa, assume diversas formas da heterogeneidade mostrada, num movimento contínuo de aproximação e equivalência dos dois discursos. Em termos dos recortes que vão se processando, vai-se definindo o espaço de exterioridade de um discurso em relação ao outro, ao mesmo tempo em que esse exterior não cessa de penetrar no discurso que não lhe é próprio, mas é do alheio, do outro. Com base nas marcas da heterogeneidade que se realizam sob o modo da justaposição no fio do discurso, apresento uma tipologia desses mecanismos que se assenta, de um lado, na função insersora do item ou segmento lexical no discurso em uso, e, de outro lado, nas formas do recurso lingüístico com que se envelopa a função insersora.

 

3. As funções e as formas lingüísticas das inserções lexicais na sintaxe discursiva

Embora eu não vá tratar do modo de apresentar o vocabulário técnico-científico em D2 ou o vocabulário familiar em D1 segundo o que Authier chama de mise à distance métalinguistique , ou seja, marcar com aspas ou itálico determinados elementos para lhes conferir um grau de distanciamento em relação às demais palavras ou segmentos usados numa produção escrita (e até mesmo oral, usando-se glosas metalingüísticas ou gestos de aspear!) —vou fornecer alguns exemplos do uso desse procedimento nos textos de VC, para o leitor ter uma compreensão mais completa do conjunto de fenômenos que acontecem no nível da sintaxe discursiva [6].

Ainda segundo Authier (1981), o aspeamento pode assumir o valor de autonímia ou de conotação autonímica (cf. nota 5). São exemplos do primeiro caso:

[1] "A PCR pode dar resultados falsos, por isso procuramos ter um experimento-controle" disse Corbitt, 47. FSP/27-07/G-L

[2] Esse experimento foi possível devido à variedade de lasers disponíveis para pesquisa médica. "Laser" é uma abreviatura para (...). O equipamento funciona através da excitação de átomos por partículas de luz (...) FSP/13-07/G-1.

Nesses dois casos, é o resultado autônomo do elemento aspeado que está indicado. Além disso, a autonomia vem marcada no co-texto: em [1], pelo verbo dicendi e pela ruptura sintética própria do discurso relatado em forma direta; em [2], pela presença do elemento metalingüístico abreviatura e pela ruptura que o segmento destacado provoca no trecho que o precede e no que o segue. Para Authier, o locutor faz menção e não uso das palavras aspeadas. São palavras suas: " L'élément autonyme constitue, dans l'énoncé où il figure, un corps étranger, un objet "montré" au récepteur; en ce sens on peut considérer ces mots guillemetés comme "ténues à distance", en un premier sens, comme on tient à bout de bras un objet que l'on regarde et que l'on montre ". (1981:127).

Exemplos de conotação autonímica:

[3] Em seguida, os geofísicos têm sua vez. Eles avaliarão as condições do subsolo para procura de "corpos quentes", termo técnico para as fontes. FSP/31-08/G-5.

[4] Com o uso de gravímetros —aparelhos na forma de um cilindro que mede a variação do campo gravitacional terrestre—, os pesquisadores iniciam a "caça" às fontes. FSP/31-08/G-5.

A conotação autonímica faz uso da palavra com conotação de menção, donde ser uma usage doublé. Em [3], as aspas efetuam uma operação metalingüística sobre corpos quentes, que marca a pertinência da expressão a um outro discurso, o científico, tal como o redefine a glosa explícita que se segue ao uso da expressão. Em [4], temos o mesmo procedimento de marcar a estranheza e o distanciamento relativo ao emprego da palavra caça, que, oriunda de outras formações discursivas, adquire nesse texto conotação metafórica. Aliás, embora pretensamente unívoco, literal e objetivo, o discurso científico não se isenta de incorporar usos metafóricos [7]. Além desses dois casos mencionados, há vários outros arrolados por Authier que exprimem a conotação autonímica.

O que se deve notar quanto ao aspeamento nos textos de VC, é que tanto ocorre de o termo técnico-científico vir marcado, quanto palavras familiares ou coloquiais. Não pré-existe um discurso referencial único em relação ao qual as palavras que não lhe pertencem devam vir entre aspas. O discurso tomado como referencial ora é o científico, ora o vulgar. Isso provoca uma movimentação constante de perspectivas discursivas sendo postas em referência. Ao discurso que no momento de determinada enunciação se toma como fio condutor, contrapõe-se o outro discurso, num movimento que define continuamente os limites, as bordas, a exterioridade dos dois discursos. O autor-enunciador do texto de VC age, na sua produção discursiva, como se estivesse com dois glossários à mão, e se servisse alternativamente de um e de outro, de modo que a cada instância lexical de D1 (ou de D2) fizesse corresponder a sua tradução em D2 (ou D1). Essa dupla alteridade se manifesta em qualquer das formas de ocorrência lexical no nível da sintaxe discursiva.

Baseando-me então na determinação (sempre provisória) de um discurso que ocupe a posição referencial, proponho uma diferenciação. Vamos distinguir, inicialmente, dois casos, que, embora semelhantes no formato lingüístico, guardam divergências discursivas.

Vamos examinar os trechos abaixo.

[5] Um período de calmaria em uma região sujeita a tremores de terra constantes pode não ser um bom sinal. Pelo contrário, pode significar justamente que uma "tempestade" está a caminho. (...) Essa falta de atividade pouco característica é chamada de quíescência. FSP/22-06/G-1.

[6] A junção de cada intervalo forma um ponto no gráfico. É a partir dessas uniões que surge o que a teoria do caos denomina "atratores". Um atrator, em geral, representa um padrão estável de ritmos. FSP/06-07/G-3.

[7] Somente em 1983 o geneticista Walter Gehring descobriu em seu laboratório que vários desses genes-mestres tinham uma seqüência, ou receita, quase igual. Mais, descobriu que esses genes, batizados de homeobox, eram incrivelmente semelhantes tanto nas minhocas... ESP/31-03/12.

[8] A intenção de McGraw é avaliar se o "equipamento" dessas plantas, ajustado para um Ártico de centenas de anos atrás, é capaz de sobreviver na tundra (como é chamada a flora típica das regiões geladas) atual, em concorrência direta com outras espécies. FSP/29-06/G-l.

[9] Uma aplicação recente foi para checar o movimento dos cromossomos durante a divisão celular. Cromossomos são estruturas encontradas no núcleo das células que servem de suporte ao material genético. Quando o núcleo se divide para a formação de dois novos —o processo chamado mitose,— dois grupos de cromossomos são puxados para as metades da célula. FSP/13-07/G-1.

Uma primeira visada nos diria que o léxico científico entra nesses textos do mesmo modo, ainda mais porque todos vêm introduzidos por fórmulas metalingüísticas. Mas, olhando-se sob a perspectiva textual-discursiva, aparecem as diferenças.

Repare que em [5], [6] e [7], os termos científicos quiescência, atratores, homeobox estão no fio do discurso de D2 (variedade coloquial, lembremos). O segmento discursivo que os antecede está numa formulação que não é a científica. O autor-vulgarizador, nestes segmentos, age discursivamente tendo como co-enunciador o leitor leigo. Em vista disso, o assunto de que falou o cientista e que o vulgarizador retoma, recebe um tratamento "mundano", digamos, que não é o mesmo que lhe deu o cientista (cf. as dicotomias fenômeno/dado de ciência, mundo/teoria). Predomina um léxico cotidiano e estratégias retórico-discursivas que facilitam a compreensibilidade, na tentativa de aproximar o leigo do recorte de mundo de que vai se tratar. Em D2, que é o discurso-referência dessas instâncias, insere-se o termo científico. Em geral, essas inserções são acompanhadas de fórmulas metalingüísticas (a teoria chama de x..., os cientistas denominam de x..., batizados de x..., x ê o nome da técnica que..., o processo chamado de x..., situação conhecida como x... , etc.) que explicitam o ato ilocucional que se realiza nelas, qual seja o ato de nomear. São esses casos que identifico como nomeação. Dado que o fenômeno a que esses termos dão nome já foram de alguma forma explicitados pelo vulgarizador, o segmento que nomeia adquire um estatuto autônomo, independente do fio sintático, e se mostra semanticamente como uma "parte" desnecessária, acessória, suprimível até. No entanto, do ponto de vista pragmático-discursivo, as nomeações cumprem uma função importantíssima na produção de VC, que é a de legitimar a sua própria atividade. Colocado no papel de mediador entre o cientista que produz e o leigo que recebe, o vulgarizador tem, na dependência de um e do outro, a razão de seus compromissos. A remissão constante ao discurso científico-fonte de seu dizer é a garantia de seu próprio dizer face à confiabilidade dos leitores. Ainda outro ponto: dissociado das esferas de decisão e produção do conhecimento científico e tecnológico, e atrelado a uma estrutura empresarial que faz da notícia uma mercadoria que tem de ser vendida, resta-lhe apenas a tarefa de reprodução, de compilação, de comentário (no sentido que lhe dá Foucault).

Já quanto aos exemplos [8] e [9], tem-se um processo discursivo diferente deste da nomeação, embora semelhante na superfície lingüística. Os termos científicos tundra e cromossomos se inserem no fio do discurso de D1 (o científico). As instâncias insersoras "pegam" o texto sendo dito não apenas pelo vulgarizador, mas também pelo cientista. Sobrepõem-se duas falas simultâneas. O co-enunciador do vulgarizador é agora o cientista, do qual se adota o aparelho discursivo. Mas como do outro lado está o leigo, é necessário que se explicitem os termos da ciência.

Em [8], a inserção parentética como é chamada a flora típica das regiões geladas), cumpre essa função. Em [9], a inserção se dá no segundo parágrafo (Cromossomos são estruturas...). A esses casos chamo de definição. Ainda no trecho [9], compare-se a entrada textual do inciso —o processo chamado mitose— com as entradas de definição. Tem-se aí a nomeação, e não a definição.

Dada a natureza funcionalmente intrínseca de explicitação de que se revestem os segmentos que pertencem à classe da definição, atribuo-lhes a função explicitadora. Diferentemente da função legitimadora, que apontava para o outro-cientista, a função explicitadora tem no outro-leitor seu alvo.

A seguir, esboço algumas formas de definição encontradas nos textos com os quais trabalhei, à guisa de orientar para uma tipologia a ser construída.

a) Definição por aproximação

[10] A falha de San Andreas corresponde ao encontro entre as placas tectônicas Continental e do Pacífico. Essas placas são como "pedaços" da crosta terrestre que flutuam sobre o manto viscoso abaixo dela. FSP/22-06/G-1.

O recurso à comparação é um dos casos em que se busca facilitar a compreensibilidade do leitor, ao se buscar na sua própria experiência com o mundo elementos que guardam certa equivalência conceitual com o objeto científico a ser explicado.

b) Definição por justaposição metalingüística

[11] Outro artigo na Nature (...) descreve genes cujos dedos de zinco zif/268 são responsáveis pela "rápida resposta genética à estimulação neuronal" que levam ao reformaçamento de sinapses - nome científico para o mecanismo básico de formação da memória e das associações de idéias. ESP/31-03/12.

[12] Ironicamente, o plano de formação das minhocas tem alguma homologia (um termo técnico para designar semelhanças) com o desenvolvimento de partes do mais poderoso e complexo órgão vivo, o cérebro. ESP/31-03/12.

A justaposição do segmento explicitador se dá via fórmulas metalingüísticas introdutórias, no caso: nome científico e um termo técnico. Tais formas funcionam à maneira de dêiticos-anafóricos que apontam para um objeto ao falar deles. O processo tem semelhanças também com o que Authier chama de conotação autonímica, uma vez que dá-se uma suspensão sintática na qual, ao mesmo tempo em que se mostra o objeto, faz-se uso dele.

c) Definição por conceituação

[13] (...) o genial pintor holandês [Van Gogh] não era epiléptico ou louco. Sofria (...) do Mal de Menière, uma doença que ataca o ouvido com dores lancinantes e alucinações auditivas. (...) O Mal de Menière é uma disfunção no ouvido interno caracterizada por recorrentes ataques de vertigem, perda de audição e sons de zumbido ou rugido no ouvido. OG/26-06/21.

Enquadro este exemplo, assim como o [9], no grupo de definição por conceituação. O termo científico é conceituado para ser melhor compreendido. Nesse tipo de definição, o segmento explicitador pode se situar mais próximo de D1 ou de D2. Estes dois casos aparecem no exemplo [13]: mais próximo de D2 está o segmento uma doença que... ; mais próximo de D1 está o trecho O Mal de Menière é uma disfunção... Embora nesse último caso pareça contraditório o fato de se tomar do discurso científico suas próprias enunciações se se pretende divulgá-las para um público leigo, na verdade não o é. Não podemos deixar de considerar, em primeiro lugar, que o próprio D1 incorpora mecanismos de explicitação, facilitadores da compreensibilidade, e, em segundo lugar, que, dada a natureza mesma da relação do dizer científico com as coisas que são ditas, a conceituação é um recurso de necessária utilização para identificar fenômenos naturais e criar objetos de ciência.

Por último, vou tratar de uma ocorrência de largo uso nos textos de VC, que se situam tanto no fio de D1 quanto no de D2, numa alternância que revela, com exemplaridade, a heterogeneidade discursiva. Trato-os como casos de aposição. Alguns exemplos:

[14] ... o médico foz pequenos cortes pelos quais passam uma pequena câmara de televisão - videoendoscópios -... FSP/31-08/G-1.

[15] O equipamento funciona através da excitação de átomos por partículas de luz —os fótons—... FSP/13-07/G-1.

[16] Os ratos atletas treinam em esteiras, ou ratódromos, que se movem na velocidade... JB/22-07/17.

[17]... além de um padrão único de avaliação das coleções de germoplasmas (parte reprodutiva da planta). JB/17-07/17.

[18] O paciente é submetido a uma ecocardiografia (obtenção de imagens do coração através de ultrasom). OG/28-07/21.

[19] Os besouros estudados têm uma função importante na decomposição do material orgânico. São coprófagos ou necrófagos - se alimentam de estrume ou de carne podre. FSP/29-06/G-3.

Nos três primeiros casos, a inserção do termo técnico-científico se dá em D2; nos três seguintes, em D1. No primeiro grupo, destaca-se a função legitimadora. No segundo, a função explicitadora. Quanto à sua função, portanto, eles se situam ou no grupo da nomeação ou no da definição. Quanto ao recurso formal com que se apresentam, fazem parte do mesmo grupo da aposição.

 

4. A representação sócio-simbólica do discurso de VC

Englobado nas práticas de reformulação de um texto primeiro —produto de um discurso-fonte— em um texto segundo —produto de um discurso-meta—, a atividade de VC destaca-se, no entanto, das demais (tradução inter-língua, resumo, resenha, comentário, glosa, livro didático, material de publicidade). O que a caracteriza e a transforma num gênero particular é o fato de fazer x, ao mesmo tempo em que se mostra fazendo x. O efeito do dialogismo na VC opera num nível tal de explicitude, que torna o falar pelos outros do fenômeno da alteridade matéria constitutiva de sua própria razão de ser. A VC não apenas estabelece o reatamento de uma união historicamente rompida (especialista/leigo), mas o faz, mostrando que o faz. Os pólos que se dissociaram representam-se como parceiros de uma nova comunicação instaurada, mediada pelo papel tornado socialmente necessário do vulgarizador. Assim unidos, recupera-se o ideal de escolaridade dos privados do saber, que participam do jogo ilusório da partilha do saber. Desnaturalizado, o processo de produção do saber adquire a simbologia dos mitos intocáveis, e, no nível de sua materialização em linguagem, opera-se a sacralização do discurso científico. As tentativas da linguagem coloquial de reproduzir o discurso científico, através de aproximações, analogias, comparações, acabam cada vez mais por legitimar o mito de um discurso da verdade, do qual a ciência é o agente impulsionador e a VC é a imagem esmaecida.

 

[1] Esta última afirmação não nos deve deixar ignorar que a idéia de uma comunidade científica, na qual a informação circula livremente entre cientistas e pesquisadores de todas as áreas e de todos os países, tem sido recentemente assaltada por freios de natureza econômico-política, mormente nos domínios do conhecimento de ponta, como a informática e a biotecnologia. No contexto dos países centrais, principalmente, a ciência e a tecnologia transformaram-se em mercadoria de propriedade nacional ou industrial, cuja circulação está restrita aos parceiros das chamadas redes de pesquisadores. A esse respeito, cf. Georges Ferné, "La science, une nouvelle marchandise", La recherche n° 298, março de 1989. São palavras suas: Une part de l'information identifique et technique ne circule donc plus librement ou sein de la communauté des chercheurs, mais se voit de plus enplus explicitement appropriée par des coalitions d'intérêts scientifiques, économiques et stratégiques. P. 432.

[2] Pode-se ver, a esse respeito, o artigo de Marilena Chauí: "O discurso competente", em Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas, São Paulo, Ed. Moderna, 1981. Dele, destaco o trecho: A invasão dos mercados letrados por uma avalanche de discursos de popularização do conhecimento não é signo de uma cultura enlouquecida que perdeu os bons rumos do bom sabe, é apenas uma das manifestações de um procedimento ideológico pelo qual a ilusão coletiva de conhecer apenas confirma o poderio daqueles a quem a burocracia e a organização determinaram previamente como autorizados a saber. P. 13.

[3] Cf. T. Todorov, 1981, Mikhail Bakhtine, le principe dialogique, Paris, Seuil.

[4] Em diferentes quadros teóricos (cf. lingüística da enunciação, pragmática, análise do discurso, lingüística textual, descrição de gêneros literários, etc.) têm despontado noções, conceitos, princípios —tais como: polifonia, co-enunciador, alteridade, intersubjetividade, intertextualidade, desdobramento do sujeito enunciador— que contribuem para abalar a idéia de uma mensagem monológica, homogênea, una.

[5] Jacqueline Authier trata especificamente dos valores do aspeamento no texto "Paroles tenues à distance". Matérialités discoursives, Colloque des 24, 25, 26 avril 1980, Presses Universitaires de Lille, 1981. Nesse texto, a A. distingue dois valores diferentes para o uso de aspas: a autonímia (o locutor faz menção, e não uso das palavras aspeadas, que restam mostradas ao receptor, mantidas à distância) e a conotação autonímica (o locutor faz uso das palavras com conotação de menção, à maneira de um duplo uso).

[6] Estou entendendo por sintaxe discursiva a superfície mesma do texto, a linearidade espaço-temporal do discurso, isto é, que incorpora as condições de produção nas quais se deu o acontecimento do discurso, aí incluídas as formações imaginárias, o veículo de divulgação, certas relações de poder, etc.

[7] Ver, a respeito da metáfora no discurso científico, a tese de doutorado de Maria José Coracini, A subjetividade no discurso científico, PUC/SP, 1987, principalmente o capítulo 4: A linguagem metafórica.

 

Referências bibliográficas

AUTHIER, Jacqueline (1981). "Paroles tenues à distance". In: CONEIN, B, et alii (1981): Matérialités discursives, Actes du Colloque des 24-26, avril 1980, Paris X, Nanterre, Presses Universitaires de Lille.

AUTHIER, Jacqueline (1982). "La mise en scène de la communication dans des discours de vulgarisation scientifique". Langue Française, Larousse, Paris, n° 53, p. 34-47.

AUTHIER-REVUZ, Jacqueline (1984). "Hétérogénéité(s) énonciative(s). Langages, Larousse, Paris, n° 73, p. 98-111.

BUENO, Wilson da Costa (1985). "Jornalismo e ciência no Brasil: os compromissos de uma prática dependente". RBT, Brasília, n° 16(3), 21-25.

CHAU, Marilena (1981). Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo, Moderna, 2a ed.

CORACINI, Maria José R.F. "(1987). A subjetividade no discurso científico - análise do discurso científico primário em português e em francês. Tese de doutorado, PUC/SP.

FERNÉ, Georges (1989). "La science, une nouvelle marchandise". La recherche, n° 208, p. 428-435.

TODOROV, Tzvetan (1981). Mikhail Bakhtine, le principe dialogique. Paris, Le Seuil.

 

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