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Índice por autores

 

 

A guerra vai começar... A terminologia técnico-científica
na agronomia: pareceres de quatro filólogos

Lígia Abramides Testa
Instituto Agronómico de Campinas
Brasil

 

Resumo

A. Pesquisa composta de análise e perguntas a três grandes filólogos - António Houaiss, Adriano da Gama Kury e Domingos Cegalla, e à professora titular de Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - Juracy Salzano Fiori, sobre os temas: 1) Ciência do Solo: além de 50 pareceres, e 2) Dúvidas gerais de termos e expressões técnico-científicas: cerca de 20 pareceres.

B. Falhas corrigíveis em certas construções e termos adotados também na linguagem científica: mais de 20 dúvidas pesquisadas pela autora.

 

Prefácio

A tradição linguageira do mundo em geral, resumida, oferece uma fase de um milhão e oitocentos mil anos, mais ou menos, em que, usando de palavras, não as incluía em campos científicos ou profissionais - isto é, terminológicos - simplesmente porque não os havia.

Há seis mil e quinhentos anos, apenasmente, teria sido possível começar a haver terminologia, a partir de quando, lentamente, se esboçou a separação do saber em saberes. Já na Antiguidade clássica, grega e romana (e certamente chinesa, sânscrita e que sei eu), surgem palavras que têm sentido especial em certas áreas —direito, medicina, gramática, retórica, música, botânica, zoologia, alquimia, astrologia...

O mundo árabe corânico antecipou-se de muito ao Renascimento na construção da divisão (hoje, pulverização) do saber e fazer - numa crescente divisão do trabalho físico e espiritual: no século V, em grego e em latim não haveria mais de cinqüenta palavras para designar os saberes e os fazeres; no início do século XVIII, um sábio português relaciona cerca de noventa; em meados do século XIX, Augusto Comte vai a pouco mais de quatrocentas; em 1963, uma publicação da Unesco lhes dá vinte e quatro mil palavras e locuções; hoje, serão trinta mil, com uma média de produtividade terminológica de dez palavras, que, acrescidas das cem mil já existentes no fim do século XIX, explicam o atual 'afogamento' do homem sob as palavras por ele mesmo criadas.

É que estas, de um tempo para cá, são terminologias, na imensa maioria dos casos - e, o que é grave, de terminologias criadas, na melhor boa fé, sem consulta de criador para criador.

A luta pela "normalização" ou "normalização" ou "padronização" ou "estandardização" ou que nome tenha, visa a pôr a ordem possível no caos emergente: há campos humanos inuniformizáveis (!): imagine-se decretar como as pessoas devem cumprimentar-se, falar-se, relacionar-se, negociar, pechinchar, brigar, pronunciar, sem levar em conta idades, regiões de vida, hábitos históricos e quanta coisa mais; mas não é o caso em certos casos; por exemplo, no dos pedólogos ou pedologistas, que têm em comum um campo de interesses comuns tão vastos, como tiveram em comum uma formação que aproximativamente lhes foi comum e que lhes convém que continue, na prática comum, tão comum quanto possível —para melhor se entenderem no que lhes for comum e sobretudo no que lhes for ainda incomum. Não há, no seu léxico específico (em grande parte neomórfico ou neossemântico - isto é [desculpai-me], de "formas e de significantes novos" e de "sentidos e significados novos"), uma enorme vantagem em pô-lo em ordem, evitando-lhe o caos?

É pelo menos o que está ocorrendo nas línguas modernas de cultura - em inglês, em francês, em espanhol, em chinês, em russo, em japonês, em árabe, isto é, em línguas em que todos (ou quase) conhecimentos e práticas e técnicas e terminologias e ciências e artes e fazeres e (mesmo) creres se manifestem.

Felizmente, esse esforço de racionalização ocorre também entre nós, quero dizer, na lusofonia - esse universo de cento e setenta milhões de usuários/utentes de língua portuguesa que, pelo menos em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe têm pelo menos um pedólogo/pedologista que - como em todas as outras áreas - gostaria de comunicar-se e entender-se sem os tropeços dos equívocos e das polissemias - essa multiplicidade de sentidos que criam o sem-sentido nas ciências (embora, noutras áreas, possam criar poesia...).

A SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIÊNCIA DO SOLO, em consonância com o esforço normalizador que existe em Portugal e no Brasil, aceita e patrocina a luta pela normalização do seu léxico e descobre, com intuição e felicidade raras, quem pode ajudá-la nesse esforço na pessoa apaixonada, estudiosa, culta de filóloga e lingüista de Lígia Abramides Testa. Tenho convivido (epistolarmente) com ela e tenho, daí, a medida do seu saber e capacidade e devoção na matéria. Dessa associação sairão bons frutos, estou certo.

Rio de Janeiro, 22 de março de 1990.
António Houaiss
Academia Brasileira de Letras

 

A terminologia técnico-científica na agronomia: pareceres de quatro filólogos

1. Abrupto ? [1] Ab-rupto ?

Segundo o Formulário Ortográfico (...), "deve-se empregar hífen nos seguintes casos: (...)

5° - Nos vocábulos formados pelos prefixos (...) (e): ab, ad, ob, sob e sub, quando seguidos de elementos iniciados por r: ab-rogar, ad-renal, (...), sub-reino, etc."

Dos livros que pesquisei, apenas 1.000 Perguntas - Gama Rury, assinala: ab-rupto. Os demais dão o modo de escrever abrupto, indicando a pronúncia, ab-rupto: Caldas Aulete Dicionário (C. Aulete); Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa - da Encyclopaedia Britannica do Brasil (Dic. Bras. LP); Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa, de Cândido Jucá Filho (Dic. Dif. LP de Jucá F); Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, Mirador (Mirador) e Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (NDA da LP). O Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse (KLS) só registra o modo de escrever, abrupto. Por sua vez, Napoleão Mendes de Almeida (Napoleão), no Dicionário de Questões Vernáculas (Quest. Vern.), assegura:

"Lexicógrafos existem completamente afastados da realidade; vão eles copiando uns dos outros certas barbaridades e morrem antes que tenham tempo de corrigi-las. Veja-se o que dizem da pronúncia de abrupto: é inacreditável que todos tragam a pronúncia ab-rrupto. (Dois rr para tornar mais clara a aberração prosódica) Em palavras como sub reptício, ab reação, sub locar, as letras que concorrem para a formação dos grupos consonantais br e bl são pronunciadas separadamente, porque se formaram dentro do português (de ab ou sub mais a palavra começada por r , que por ser inicial tem pronúncia forte) sem que até hoje nenhuma assimilação se tivesse efetuado.

"Outras, porém, como abrenunciar, ablegar, sublevação, pronunciam-se a-BRE-nunciar, a-BLE-gar, su-BLE-vação, por terem vindo já formadas do latim (popularmente não há consciência de composição vocabular). Ora, neste segundo grupo está abrupto . Escrever ab-rupto, ab-rupcão é 'contraditório e escandaloso' (...) não é demais dizer que a pronúncia é a-BRU-pto.

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Eu sempre disse e ouvi dizer a-brup-to, pronunciado naturalmente, sem submeter os órgãos da fala a uma tremenda ginástica. (Acerca do que disse Napoleão: "De acordo, mas a divisão silábica mais aceita é a-brup-to".)"

GAMAKURY: "Nas 1.000 Perguntas sigo o Voe. de 42. Hoje, porém, vejo que se deve admitir também a-brup-to, pronúncia geral." (Igualmente, corrige a divisão silábica de Napoleão.)

HOUAISS: "Abrupto ou ab-rupto: eis uma bela área de lana caprina: quando a heróica façanha de padronizar uma terminologia envereda pela de padronizar uma língua, perdem-se os padronizadores e a padronização... Todos nós que convivemos com os usuários de uma língua mais ou menos culturalizados, sabemos como variam de opiniões metalingüísticas. Por isso, sabemos que os há "os bem menos e os bem mais". Um dos pontos de referência válidos para a matéria é buscar a autonomia vocabular do 'primitivo'. Há rupto em português, há, não há? Daí, há abrupto ou ab-rupto? Daí, manter os opinantes em um dos lados do maniqueísmo é puro maniqueísmo. Grafando ou pronunciando os componentes distintivamente, os usuários apenas marcam um grau de sua consciência lingüística, mais ou menos formal. Não busque, na sua área, um rigor que não há (digo eu, felizmente) na sua língua. Respeite as alternativas, válidas, dos usuários. A língua jamais está pronta e acabada: sempre infieri , revela sempre o jogo de alternativas desse infieri (o que a faz mais bela e fascinante)."

SALZANO FIORI: "Segundo Artur Oliveira Fonseca (Tudo sobre hífen , Elos, Rio, 1960), o uso do hífen em vocábulos prefixados justifica-se pela clareza ou expressividade gráfica e de sentido, para se evitar leitura incorreta, ou quando o exige a estrutura fonética do composto e os morfemas sejam acentuados graficamente, ou tenham evidência semântica especial'. "O NDA da LP registra ab-rogar , mas abrupto . Porém marca para esta última palavra a pronúncia ab-ru... Há um novo projeto em discussão, para uniformizar grafias. Esperemos que o capítulo do hífen seja bem cuidado."

 

2. Aeração e Arejar?

Quando se introduz, com uma bomba, ar em uma solução nutritiva, como em um aquário, qual a ação correspondente? E o verbo?

C Aulete, Dic. Bras. LP, Globo, KLS, Mirador e NDAdaLP:

"Aeração: ato de arejar; arejamento; aeragem; arejo; ventilação."

C. Aulete, Dic. Bras. LP, Globo, KLS, Mirador e NDA da LP:

"Arejar: expor ao ar; renovar o ar; ventilar."

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Para o caso, não conheço outros termos, senão estes."

GAMA KURY: "Arejar, aeração (do francês) formam aerar, arejamento.

HOUAISS: "Há arejar, aerar (e mesmo airar, arear), com arejação, aeração (airação, areação). A língua encerra uma grande massa de divergentes diacrônicos ou estruturais, aparentemente excessivos; mas é arriscadíssimo dizer que A serve e B, C, D não servem para determinado fim. Isso não é pertinência da normalização, senão na sua própria área terminológica."

SALZANO FIORI: "De arejar: arejação, arejo, arejamento. De aerar (não registrado no NDA da LP): aeração. De airar (do espanhol): airação, airado."

 

3. Aeróbio? Aeróbico?

Aeróbio: Registram o termo como adj. e subst. masc.: C. Aulete; Globo; KLS; Mirador e NDA da LP. Este último, porém, escorrega: no próprio verbete, define: organismo aeróbico [2].

Aeróbico: Registram como adj. (o mesmo que aeróbio): D. Bras. LP e Mirador.

 

Pareceres dos filólogos consultados

 

CEGALLA: "Existem os dois adjetivos. O primeiro não oferece dificuldade. O segundo é tradução do neologismo inglês aerobic e aplica-se a certo tipo de ginástica, no qual se ativa a respiração com movimentos do corpo e saltos coordenados."

GAMA KURY: " Aeróbio: substantivo (melhor) e adjetivo. Aeróbico: adjetivo."

HOUAISS: " Aeróbio é originalmente adjetivo; faz-se, desde cedo, adjetivo e substantivo, cuja distinção é contextual; têm-se, em não poucas correlações, um substantivo e dois adjetivos; nossa língua está cheia dessas redundâncias in vitro, não nos contextos."

SALZANO FIORI: "Os adjetivos em epígrafe estão na língua, embora o segundo não esteja registrado no NDA da LP."

 

4. Ambiente? Ambiental?

Ambiente: Como adjetivo e substantivo, encontra-se em: C. Aulete, Dic. Bras. LP, Globo, KLS, Mirador e NDA da LP.

Ambiental: Essa forma de adjetivo só é registrada por: Dic. Bras. LP, Mirador e NDA da LP. Este, aliás, na edição anterior, dava só ambiente, mas escorregava no verbete: Climatização: (...) condições ambientais".

E Napoleão, que acha? Vejamos no seu Dicionário:

"Ambiente: é, antes de mais nada, adjetivo, proveniente da forma participial presente latina (...); significa, em latim e em português, que rodeia, que cerca . Substantivamente, é em português usada a palavra para indicar o ar que nos cerca, o meio em que estamos, mas —repetimos— é em primeiro lugar usada como adjetivo (a substantivação é fato posterior): meio ambiente, ar ambiente . É procedimento enganoso usar ambiental em vez de ambiente ; não existe essa forma nem dela precisamos; (...); a poluição ambiente é que devemos dizer, como dizemos água corrente e não água corrental, não obstante termos corrente como substantivo."

CEGALLA: "Os dois. Ambiente (do adj. latino ambientem = que envolve, que cerca) é, pela origem, adj.: o meio ambiente. Depois passou a ser usado também como subst. (= lugar, espaço). De ambiente se originou ambiental."

GAMA KURY: "Existem ambos os adjetivos."

HOUAISS: "Ambiente é originalmente adj. (ou até particípio presente); faz-se, desde cedo, adj. e subst., cuja distinção é contextual. Nos contextos em que ambiente tende a ser sistematicamente subst., emerge a necessidade de um adj. distintivo morfologicamente, eis ambiental (na sua área, haveria quem tivesse preferido ambiêntico...). Isso, dentro da deriva de incidente/incidental, continente/continental, etc."

SALZANO FIORI: "Ambiente (subst. e adj.). Ambiental (adj.) registrado no NDA da LP (cf. continente - continental). Meio ambiente (subst. e adj.) aparece no NDA da LP, na explicação do sentido de ambiente."

 

5. Becher? Bécher? Béquer?

Becher: aparece no Dic. Bras. LP (pron. aprox.: béquer) e no Mirador. Já o NDA da LP registra: bécher e béquer.

Assim: Que forma preferir? Qual o plural?

CEGALLA: "Deve-se preferir a mais generalizada entre os cientistas que trabalham em laboratórios. Só uma pesquisa poderá fornecer os dados para uma opção acertada. Aurélio dá as duas últimas formas. Cabe saber qual a pronúncia de maior aceitação."

GAMA KURY: "Bécher e bécheres."

HOUAISS: "béquer: béqueres :: bécher: bechers."

SALZANO FIORI: "A expressão "copo de Becher" só pode ter plural, logicamente, em "copos de Becher". Os usuários de laboratório, num processo de conversão e adaptação fonética ao português, usam béquer (que não reproduz exatamente o som do ch em alemão), cujo plural deve, então, ser béqueres."

 

6. Canaleta? Canalete?

...Todos os dicionários citados, nesta pergunta, dão os sufixos ícula, ículo e ete na formação do diminutivo de canal. O termo canaleta, muito empregado em Pedologia —que se encontraria Enciclopédia Mirador— não nos Dicionários), em texto (volume 19, SOLO, págs. 10.565.66), pode ser consagrado pelo uso?

CEGALLA: "Sem dúvida alguma, e com a mesma tranqüilidade com que empregamos cadern eta (derivado de caderno), e mur eta (de muro). Canal + eta (sufixo diminutivo), com mudança de gênero."

SALZANO FIORI: "Canalete ou canaleta? Ambas as formas. Canal : canaleta : banco : banqueta Observar, porém, que a primeira é masculina e a segunda, feminina."

GAMA KURY: "Sim."

HOUAISS: "Obviamente. Os usuários, no conjunto, estão sempre à frente dos dicionários. O sufixo -eta feminino está implícito no sufixo -ete masculino (ambos com o timbre fechado na tônica) e vice-versa."

 

7. O Cultivar? A cultivar?

As instituições de pesquisa ainda não chegaram a um acordo sobre o gênero da palavra, como mostram os dois artigos abaixo: o primeiro, de um cientista da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, foi publicado na Revista da Agricultura (Piracicaba, SP); o segundo, de dois jornalistas da EMBRAPA, no Jornal O Berrante (Brasília, DF).

Cultivar, substantivo masculino ou feminino?

F. PIMENTEL GOMES

"De uns anos para cá se vem discutindo no Brasil se o substantivo cultivar é masculino ou feminino. Como masculino o considera o Novo Dicionário Aurélio (...).

(...) O gramático Napoleão Mendes de Almeida chega à mesma conclusão, por considerar o vocábulo nada mais do que um infinitivo (cultivar) substantivado. Assim como dizemos "o comer", "o escrever", deveríamos também dizer "o cultivar" e não "a cultivar".

No entanto, há opiniões contrárias a essas. Assim, o Dicionário Mirador (...) considera feminino o vocábulo, tido como formado a partir da expressão inglesa "cultivated variety". A mesma opinião tem Rech, que julga a palavra proveniente do inglês.

Por outro lado, o substantivo "cultivar" é neutro na língua inglesa e masculino no francês (...) e também no espanhol (...). Assim, se é substantivo feminino, por ser sinônimo de variedade, como quer Rech (...), como se explica que seja masculino no francês e no espanhol, em que variété e variedad são nomes femininos? E se vem do inglês, onde é neutro, deveria ser masculino no português, uma vez que na nossa língua o gênero masculino inclui as poucas palavras neutras que nos restam. Por exemplo, o pronome isto , que é neutro, nos dá a frase Isto é bom , e não Isto é boa .

Nestas condições, julgo mais razoável que se considere masculino o substantivo cultivar, mesmo que provindo do inglês, e não obstante sua sinonímia com variedade."

Pesquisa em foco: o cultivar ou a cultivar?

José RECH & Felisberto ALMEIDA

"O infinitivo quando exerce as funções de substantivo é do gênero masculino. Para que esta regra se aplique são necessárias duas condições:

1a) o substantivo derive do próprio verbo;

2a) ao infinitivo possa ser acrescentada uma das expressões: o ato ou o modo de - sem alterar o sentido. (...)

A regra que exige masculino não se aplica a substantivos que não derivam diretamente do infinitivo e são homônimos por acaso. Neste caso, não se pode acrescentar ao infinitivo uma das expressões: o ato de ou o modo de.

O seguinte exemplo é muito elucidativo. O agir de Pedro na Agir era exemplar. O primeiro agir é do masculino, pois deriva do verbo e pode ser substituído por: o modo de agir. O segundo não deriva do verbo e não pode ser substituído por: o modo de agir. Agir aqui é o nome de uma editora. Neste exemplo há homônimos de sentido e origem inteiramente diferentes.

Conforme mostrado na pesquisa anterior, a palavra cultivar é do masculino quando deriva do verbo cultivar e pode ser substituída por: o cultivo, o ato de cultivar, o modo de cultivar. O cultivar ( = o ato de cultivar) exige trabalho, bom mesmo é o colher (= o ato de colher).

No sentido de variedade é do feminino, pois não deriva do verbo cultivar nem pode ser substituída por: cultivo, ato de cultivar, modo de cultivar. Aqui cultivar significa não o ato de cultivar, mas a planta, a variedade que é cultivada. Neste sentido, cultivar deriva diretamente do inglês (cultivated variety) e é uma palavra criada em ambiente internacional para significar, em todas as línguas, a variedade. Uma palavra inglesa que encontrou, por acaso, um homônimo masculino em português. E homônimos de sentidos diferentes podem pertencer a gêneros diferentes. Pode-se muito bem dizer: o cultivar (= o cultivo, o ato de cultivar) da cultivar ( = variedade) Santa Rosa foi mais lucrativo.

Como a palavra variedade é importante na nomenclatura das plantas, o Código Internacional da Nomenclatura das Plantas Cultivadas criou a palavra cultivar como termo internacional (do mesmo modo que internacionais são os nomes científicos das plantas), para substituir os seguintes termos: em francês, variété (feminino); italiano, varietá (feminino); espanhol, variedad (feminino); alemão, Sorte ou Varietät (feminino); russo, sort (feminino); latim, varietas (feminino); português, variedade (feminino). Nada mais lógico que cultivar seja também do feminino.

Afirmar que cultivar no sentido de variedade é do feminino não é desconhecer a gramática ou basear-se em uma opinião errônea dos tradutores do Código International da Nomenclatura das Plantas Cultivadas , mas prova de que se conhece a origem e o significado da palavra.

Vejamos agora o que encontramos sobre o gênero da palavra no sentido de variedade. Primeiramente, temos a tradução portuguesa autorizada do Código Internacional da Nomenclatura das Plantas Cultivadas . Este Código de 1961 foi traduzido em 1962, em Portugal, pela Direção Geral dos Serviços Agrícolas.

A tradução só usa a cultivar. "Art. 19: Um nome de cultivar (variedade) não deve ser usado para mais de uma cultivar (variedade). Art. 33: Se o uso de um mesmo nome para duas ou mais cultivares (variedades), largamente cultivadas (...). Art. 36: Quando uma cultivar (variedade) é introduzida..."

No Art. 10, apresenta a seguinte nota dos tradutores: A adoção desta palavra em português merece alguns comentários. Considerar "cultivar" como termo técnico internacional não evita que haja que cuidar das suas características gramaticais na língua em que for assimilado. Assim, em português, língua na qual - infelizmente - tal termo é homônimo de um verbo largamente usado (...), o novo substantivo (distinto ainda da forma substantivada do citado verbo, homônima masculina) deverá, parece-nos, por analogia com outros termos designativos de categorias nomenclaturais (espécie, variedade, forma, estirpe, casta) e tida em vista a sua origem (variedade cultivada = cultivated variety ) ser considerada feminino.

O Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa da Mirador Internacional dá em separado os dois sentidos de cultivar.

Cultivar 2 , s.f. (t. ingl. de cultivated variety ): forma cultivada de alguma espécie, correspondente a mutação ou recombinação ou a determinada linhagem.

Apenas uma discordância: o Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira:

Cultivar (do it. coltivare ) v.td. Fertilizar a terra, s. m. Neol. Designação comum às variedades de plantas obtidas por meio de cultivo.

Pelo exposto nesta pesquisa, fica fácil discordar de Aurélio. Uma coisa ele constatou certo: é um neologismo. Errou, porém, na origem e no gênero. Cultivar, no sentido de variedade, não vem do italiano, mas da combinação de duas palavras inglesas: "cultivated variety", conforme mostram os vários dicionários ingleses citados e o Código Internacional da Nomenclatura das Plantas Cultivadas . O erro na origem ocasionou o erro no gênero.

Resumindo: cultivar no sentido de plantas é do masculino e tem o mesmo significado de cultivo. Cultivar, no sentido de variedade, é do feminino e não pode ser substituída por cultivo, mas pela palavra variedade."

Apresentados esses dois artigos, acrescento apenas o que assegurou a respeito um gramático paulista: 'Toda e qualquer sigla, sem exceção, formada por sílabas de uma expressão, ou mesmo por letras iniciais, recebe o gênero do substantivo da referida expressão. Assim, cultivated variety só poderia dar a cultivar."

Se é assim... Vejamos duas siglas no NDA da LP:

fortran (Das sílabas iniciais dos voc. da expr. ingl. formula translation ) S. m. Proc. Dados (...) Compilador científico...

laser (Ingl., das iniciais de light amplification by stimulated emission of radiation ). S. m. Tec. (...) Fonte de luz monocromática...

E agora... O cultivar? A cultivar?

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Não se deve invocar o inglês, o espanhol, o italiano ou o francês, para explicar que uma palavra portuguesa é do gênero masculino ou feminino. Nem sempre há coincidência genérica em vocábulos desses idiomas, embora provenientes da mesma fonte. Árvore , por exemplo, é palavra feminina em português, e masculina em francês (un grand arbre). Com o vocábulo mar ocorre o inverso: masculino em português e feminino em francês (la mer). A argumentação do Prof. Pimentel, portanto, não convence.

A explanação dos dois autores —segundo artigo— é mais erudita e convincente que a do Pimentel Gomes. Abonam o gênero feminino de cultivar com a autoridade do Código Internacional da Nomenclatura das Plantas Cultivadas, traduzido em Portugal. Fica no ar, porém, a pergunta: Os especialistas no assunto (professores, botânicos, autores de livros sobre agronomia, etc.) em sua generalidade, que gênero dão ao polêmico vocábulo cultivar? Em outras palavras, qual a tendência mais acentuada que se observa com relação ao gênero do substantivo em pauta? Encontrada a resposta a essa pergunta, opte-se pelo gênero que tiver preferência. Pela lógica, cultivar (substantivo) deve ser feminino. Contudo, cumpre salientar que os trilhos da língua nem sempre são os da lógica.

Não falta, em nossa língua, substantivo de gênero incerto, duvidoso, oscilante. Personagens, por exemplo, que, com o mesmo significado, uns empregam como feminino e, outros, como masculino.

É utópico querer submeter os fatos lingüísticos ao determinismo das leis físicas. As variantes são inevitáveis, em todos os idiomas. Considera-se correto, em linguagem, o que está de acordo com a norma culta, com o uso generalizado entre as pessoas eruditas. No caso em discussão, não vejo senão duas saídas: ou se convenciona um gênero único para cultivar, pois se trata de palavra forjada pelos cientistas, ou se deixa que cada um lhe dê o gênero que achar melhor. São infundados e falhos todos os argumentos invocados tanto pelos feministas como pelos masculinistas . Afirmar, por exemplo, que esta palavra deve ser masculina por ser um infinitivo substantivado é disparate que não tem tamanho. Cultivar, no caso em foco, jamais pode ser considerado infinitivo (...) se é redução de cultivated variety.

E o revisor, como deve proceder em pontos polêmicos como este?

Simplesmente, respeitar a opção do autor do texto. A tarefa do revisor deve limitar-se a corrigir erros e falhas evidentes e, sendo necessário, ajudar o autor a melhorar sua redação, no sentido de torná-la mais clara, objetiva, etc."

GAMA KURY: "É muito simplório considerar cultivar como infinitivo substantivado, quando se sabe que é uma formação artificial baseada na expressão cultivated variety . Outra bobagem é dizer (trecho não apresentado), para justificar o uso do masculino, que "não existe" palavra feminina terminada em -ar na língua portuguesa. Isso é irrelevante para o caso: o neologismo é do gênero neutro em inglês, e por isto "devia" ser masculino em português, como radar e o citado laser. Mas, ao contrário do que ocorre com estas duas palavras, em cultivar a influência de um substantivo feminino, variedade, é muito forte. (Além disso, a homonímia com o nosso verbo, de largo uso em Agricultura).

Esses fatores, a meu ver, levam cultivar, irresistivelmente, para o feminino. Pode-se dizer que há uma concordância por atração com variedade, em oposição ao machismo da linguagem que preceitua(ria) o masculino."

SALZANO FIORI: "a) o cultivar é substantivação do infinitivo; b) o cultivar é, segundo o NDA da LP e a opinião de muitos, 'designação comum às variedades de plantas obtidas por meio do cultivo'; a cultivar, pela origem inglesa da expressão culti(vated) var(iety) ou var(iation), em que o segundo elemento (provindo do latim) é feminino (e isso prevalece na maioria das línguas)."

Conclusão: um glossário especializado deveria estabelecer essa diferença de gênero em português e terminar para sempre com uma discussão inócua."

HOUAISS: "Cultivar: não merece o tempo e o excesso de erudição que está demandando. Num dicionário, dar-se-the-á s. m. ou f. (substantivo masculino ou feminino), acrescentando algo pitorescamente, mais ou menos isto: "os cientistas do solo, agrônomos, botânicos e afins divergem quanto ao gênero gramatical, porque mostram que a palavra provém do ingl. culti(vated) var(iety) ou var(iation) : embora o ingl. variation não tenha gênero gramatical, o feminino seria de rigor porque o segundo elemento é do lat. varietas ou variatio , ambos femininos". Em contrapartida, nas línguas em que essa forma coincidir com a do verbo cultivar, como é o caso em português e em espanhol, será muito difícil fazer prevalecer, fora da área técnica, o feminino, já que há cerca de 10 mil verbos em -ar , todos substantiváveis, mas sempre e só no masculino, havendo, ademais, ab origine, substantivos em -ar, todos masculinos (as formas em -ar masculinas ou femininas, freqüentemente masculinas e femininas, provêm de adjetivos em -ar , tipo preliminar). (...)

Dar os dois gêneros não é escapismo. A palavra teria nascido em inglês, por 1922, só recentemente foi averbada num dos suplementos do grande Oxford, não tendo, por isso, tradição tal que se possa dizer que o uso propendeu para tal gênero.

Daqui a cinqüenta anos talvez possamos dirimir o problema nessa base, embora, propensivamente, sou todo do masculino por amor da regra e ódio das excepcionalidades aristocratizantes inúteis: vejo um pouco de soberba nos que querem impor, ex-cathedra , saberes inúteis e —pergunto-me— insuficientemente pesquisados."

 

8. O degrane? A degrana?

Alguns dicionários registram apenas degranar. Outros, nem isso. Os pesquisadores se dividem, a respeito do seu deverbal, que encontrei só no "Diccionario de Botánica", de P. Font Quer: "desgrane, m. Acción y efecto de desgranar o desgranar-se".

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Prefiro o segundo, mas ambos os deverbais são corretos, porquanto sua formação obedece ao processo da derivação regressiva (desinências -a, -e, -o ). Acho que o revisor não deve corrigir "o degrane" (= a debulha). Para o ato de "tirar os bagos de uva do cacho" o novo dicionário AULETE registra desengace e desengaço."

GAMAKURY: 'Deve dizer-se o degrane (como o combate, o decalque, o abate), mas a degrana (como a desova, a engorda, a apanha)."

HOUAISS: "Degrane, degrana? Há muitos regressivos ou deverbais desses dois tipos, havendo mesmo dos dois tipos na mesma estrutura radical, às vezes, semanticamente distintos. A priori , optar por um, quando convivem dois, é puro autoritarismo. Deixe o tempo decantar."

SALZANO FIORI: "Degranar e desgranar são derivações perfeitas, embora o segundo não conste, por exemplo, do NDA da LP e esteja em Caldas Aullete, porém com outro sentido (tirar levemente as rugosidades a objeto que se vai dourar). Os derivados regressivos degrane , desgrana (ou desgrane ) são perfeitos."

 

9. Evolução? Evolação? [3]

É de uso corrente, sobretudo em Microbiologia do Solo, a expressão 'evolução de CO2', significando a saída de dióxido de carbono do solo. Esse CO2 seria proveniente da respiração de organismos em atividade no solo, e sua quantificação é um dos métodos de determinação de biomassa microbiana. Todavia, Aurélio registra: 'Evolução, s.f. 1. Desenvolvimento progressivo duma idéia... 2. Movimento progressivo... 3. Cada um de uma série de determinados movimentos harmônicos... 4. Movimento regular de tropas em manobras... 5. Biol. Ger. Teoria que admite a transformação progressiva das espécies... 6. Filos. Transformação dum agregado de partes homogêneas em outro'..."

Como se pode observar, nenhuma das acepções possui o significado em que o vocábulo evolução é usado, isto é, o de emissão ou liberação de gases. Onde se teria originado, então, tal uso?

Não é preciso pensar muito: muitos pesquisadores brasileiros estudaram em países de língua inglesa. Mais que isso: o inglês é a língua mais empregada, pelo menos em Ciência do Solo, para a transmissão de informações entre a comunidade científica internacional. Ora, o Webster's New World Dictionary of the American Language registra, em 'evolution', termo prontamente traduzido para evolução, entre várias acepções:

"Evolution: [(...) see Evolve] 4. a setting free; giving off; emission or disengagmg..."
"Evolve: (...) 2. to set free or give off (gas, heat, etc.); emit or disengage..."

Percebe-se facilmente o que deve ter ocorrido: a tradução direta do inglês para o português resultou em termos que, embora tenham origem comum no latim, não têm o mesmo significado nas duas línguas. Isso não é incomum, a maioria de nós já se deparou com textos cuja tradução para o português resultou até cômica, porquanto feita por pessoas não muito cuidadosas ou não muito conhecedoras do nosso idioma."

"Seria correto introduzir com esse significado a palavra evolação?"

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Não acho que seja correto, uma vez que não faz falta. Em português, existem, pelo menos, três palavras com esse significado: emanação, emissão e exalação. Um anglicismo inútil e que não merece contemplação."

HOUAISS: "Evolução, como termo final de um processo temporal, se não está dicionarizado, é por deficiência dos dicionários e dicionaristas. O seu uso, nas circunstâncias, é absolutamente correto."

SALZANOFIORT. " Evolução: de evoluir, evolver. Evolação: de evolar-se. Evolar-se: (1) voar; (2) evaporar-se, vaporizar-se. Aceita-se, pois, evolação no sentido de (2)."

 

10. Frasco de Erlenmeyer podemos transformar em substantivo comum? Se sim, qual o seu plural?

CEGALLA: "Só se a expressão estiver aportuguesada e de largo uso entre os cientistas. Os dicionários não a registram, o que me leva a crer que não é recomendável transformá-la em substantivo comum. Ao reler a resposta, notei que sua pergunta parece referir-se apenas ao substantivo Erlenmeyer, que Aurélio registra como substantivo comum, mas precedido do sinal (expressão estrangeira). Mas Aurélio não dá o plural, que, por ser estrangeirismo não aportuguesado, deve ser, na minha opinião: erlenmeyers.

Na hipótese de haver um substantivo comum aportuguesado, escrever-se-ia: frasco-d'erlenmeyer. Seu plural seria: frascos-d'erlenmeyer. (Cp. galinhas-d'angola)"

GAMA KURY: "Como? Um erlenmeyer? Sim. Se for inevitável, use com o final normal es. (Eu preferiria dizer: dois frascos-de-Erlenmeyer ...')"

SALZANO FIORI: "frasco-de-erlenmeyer pode transformar-se em substantivo comum com plural no primeiro elemento (cf. pé-de-moleque, pés-de-moleque).

HOUAISS: "Poderíamos, podemos: frasco(s) -de-erlenmeyer (o plural foi, é e —por ora— será no determinado)."

 

11. Germoplasma? Germiniplasma?

Embora usadíssimo, só encontrei registrado o primeiro termo no Diccionario de Botánica (Dr. P. Font Quer), com as variáveis germinoplasma e germiniplasma. Se o elemento de composição é germin(i) , segundo o NDA da LP e outros: germinação, germinal, germífugo, germicultura...

Que fazer? Considerar germoplasma consagrado pelo uso?

CEGALLA: "A forma correta seria germiniplasma. Germin - o (elemento de ligação) - plasma também é aceitável. Germoplasma deve ser cópia de terminologia científica estrangeira. Mas se é, como você diz, "usadíssima pelos técnicos", deve ser aceita, não há como condená-la. O uso, em questões de linguagem, é um fator soberano, ao qual, muitas vezes, temos que nos curvar, embora discordando."

GAMA KURY: "Sim, consagrado pelo uso."

HOUAISS: "Há precedentes, registrados no Vocabulário Ortográfico da Academia: germostasia, germostático, germovitelário. A partir da palavra sociologia (fr. sociologie , de A. Comte), ficou algo desmoralizada a luta não só contra os hibridismos (no caso, latim + grego), mas também quanto à vogal de ligação (lat -i-, gr. -o-). Isso, de fato, facilitou a criação neológica internacionalizante, ante as grandes necessidades lexicais criadas pela explosão do conhecimento e técnicas conexas."

SALZANO FIORI: "O elemento de composição germo, reduzido de germin (i), aparece no Vocabulário Ortográfico em germostasia, germostático, germovitelário. Portanto, aceite-se germoplasma."

 

12. Hemácia? Hematia?

O artigo abaixo foi publicado na Revista da Agricultura (dez. 1986):

"Hemácia" é palavra que não existe em português.

Luiz Gonzaga E. LORDELLO

Em Questões Vernáculas -150 (V. O Estado de São Paulo de 11 de janeiro de 1937 [4]), o eminente gramaticólogo Prof. Dr. Napoleão Mendes de Almeida tratou do vocábulo hematia (paroxítono), nome correto dos glóbulos vermelhos do sangue ou eritrócitos. Como o termo é de uso corrente de muitos colaboradores desta Revista, transcrevemos os dizeres publicados:

"HEMATIA: Quando a terminação ia de um derivado grego pertence ao próprio grego, isto é, quando a palavra já possui no grego essa terminação, o i não é acentuado. Quando, porém (caso de hematia), a um derivado grego acrescentarmos, dentro do português, essa terminação, o i será acentuado.

Muito embora Ramiz Galvão consigne em seu vocabulário o acento proparoxítono, o acento verdadeiro é o paroxítono — hematía — uma vez que o sufixo ia é nosso, pois a palavra foi formada dentro do português. Rebelo Gonçalves demonstra mais conhecimento ou, pelo menos, mais atenção no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa , atribuindo ao vocábulo o acento aqui definido, ou seja, no i do sufixo vernáculo.

"Hemácia" é palavra que não existe em português. O vocábulo é hematia, de origem grega, formado do radical hemat (gregc haima, sangue) mais o sufixo vernáculo ia, sufixo longo em compostos semelhantes. O t dessa palavra conserva em português seu legítimo som alfabético, coisa operada com todos os vocábulos derivados em condições idênticas do grego. A forma correta é hematia, com acento tónico no i."

É da mesma opinião Jucá F°: Dic. Líng. Port. registra apenas hematia. Por sua vez, o Dic. Bras. LP e o Mirador só assinalam hemácia. Os demais apresentam ambas as formas.

Então: hemácia ou hematia?

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Hemácia: palavra que, segundo Aurélio, penetrou na terminologia biomédica através do francês hématie (...) No Brasil, podemos afirmar que hemácia desbancou a forma correta hematia. A Enciclopédia Médica, de Justus J. Schífferes, traduzida por um médico, professor da PUC, só emprega hemácia."

GAMA KURY: " Hemácia: forma preferível."

SALZANO FIORI: "Hematia vem do grego através do francês hématie. Hemácia só se emprega porque está consagrado pelo uso."

HOUAISS: "Hematia está documentado em português desde 1971 e hemácia (aceita universalmente em Portugal e no Brasil) pouco depois sem alternativas. Vamos nesta altura querer "corrigir" o uso? Explicar (e a explicação invocada não é boa) é tudo o que se poderá fazer."

 

13. Hemateína? Emateína?

Todos os dicionários registram hemateína. Vejam, porém, o que registra o NDA da LP:

campeche. S.m. Árvore da família (...) de que se extrai um corante, a h ematoxilina, que, oxidando-se, passa a e mateína, (...).

Julgando tratar-se de um erro tipográfico, procurei o verbete. Ei-lo: emateína ...

Que aconteceu? O h desabou?

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Com h: não resta a menor dúvida, pois hemateína contém o radical hemat (do grego haima, haímatos, sangue)."

GAMA KURY: "Deve escrever-se h emateína. O Aurélio cometeu um lapso ao retirar o h".

SALZANO FIORI: "Hemateína deve ser grafado com h (o h representa em latim a aspiração forte do grego no ditongo (...))."

HOUAISS: "Erro tipográfico"

 

14. Lablab? Lablabe? Labelabe?

Dessa planta leguminosa, cujo nome científico é Dolichos lablab L., encontro duas formas: (1) Caldas Aulete: lablab e (2) NDA da LP: labla d. Nos dois, o mesmo gênero: feminino. Alguns pesquisadores gostariam de registrar labelabe, temendo que o lb seja pronunciado junto. Realmente, isso acontece: o Vocabulário Ortográfico Nova Fronteira, de Antônio G. da Cunha, assim divide o termo: la - bla - de ...

Como grafá-lo? Qual o seu gênero?

 

Pareceres dos filólogos consultados

SALZANO FIORI: "As melhores formas são lablab ou lablabe (cf. pronúncia subliminar, sublinhar, etc.)."

CEGALLA: "Para eu lhe dar uma reposta satisfatória, precisaria efetuar uma pesquisa a fim de conhecer a pronúncia mais em voga nos meios científicos (botânicos, principalmente). Conhecida a pronúncia, será fácil determinar-lhe a grafia. O mesmo se diga para o gênero (fem. ou masc.)."

HOUAISS: "Não é boa a solução lab e labe, como não é af e ga, como não seria sub e liminar ou af e tosa... O jeito mesmo é lablab ou lablabe (note que em tais palavras o limite entre abla-tivo e ab-lativo —se não pronunciado a-be-la-tivo é nulo). A divisão ocorrerá num percentual desprezível, os dicionários saberão como indicá-lo e os da área não irão matar-se por isso. Masculino, como mostra Dolichos..."

 

15. Micorriza? Micorrizo?

Micorriza: "Associação simbiótica do micélio de um fungo (...) com raízes de uma planta espermatófita... s.f." É assim que entendemos no IAC e que o Dic. Bras. LP registra: micorriza. O NDA da LP, porém, com a mesma idéia, emprega micorrizo, s.m. (O Dic. Bras. LP chama micorrizo a um cogumelo que se cria na raiz dos vegetais.)" [5]

CEGALLA: "Cabe aqui a mesma observação que fiz no item 14. São minúcias científicas que requerem pesquisa."

GAMA KURY: "Mantenham a diferença adotada cientificamente."

HOUAISS: "Os dois modos são bons. Há -rizo e -riza. É decisão terminológica (mas não necessariamente proibitiva da outra, será consultiva, sugestiva)."

SALZANO FIORI: "Mico (deveria ser mique, do grego myke ) está no NDA da LP como cogumelo (assim é no grego) e é elemento de composição. Se as palavras em epígrafe têm na botânica sentidos diferentes, essa distinção deve ser mantida, mesmo que aquele dicionário registre só o masculino micorrizo."

 

16. Qui quadrado? Qui-quadrado? Quiquadrado?

Encontrei qui quadrado no NDA da LP, mas dentro do verbete variável:

variável:.....................................
S.f. Variável qui quadrado.

Estou em dúvida se há analogia dessa expressão com as palavras quiasma, quiastro, ou se ela faz parte da norma apresentada por Gama Kury, em 1.000 Perguntas - Português, caso em que seria quiquadrado:

"As palavras compostas de radicais gregos e latinos não se escrevem com hífen."

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Só lhe poderia dar uma resposta correta se dispusesse de tempo para descobrir a etimologia deste vocábulo. Se a sílaba inicial for o X grego, como em quiasma (cruzamento sintático), não deve hesitar em continuar grafando quiquadrado."

GAMA KURY: " Qui quadrado."

SALZANO FIORI: "A expressão de uso universal é: teste de X 2 , que se lê teste de qui ao quadrado. Com redução escreve-se teste (de) qui quadrado. Qui é X , a 22 a letra do alfabeto grego, transcrito no latim (e no português antigo) por ch, numa tentativa de se marcar um som aspirado."

HOUAISS: " Qui quadrado. O qui ( khi ) é o nome da letra grega."

 

17. Saturação: de em? por?

Encontro no Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos de Francisco Fernandes:

Saturação - por: A saturação dos álcalis pelos ácidos; a saturação do ar pelo ambiente.

 

Respostas dos filólogos consultados

CEGALLA: "Se forem as bases que saturam: por . Sendo as bases a substância saturada: de."

GAMA KURY: "Será saturação de uma coisa por outra."

HOUAISS: "Os maniqueístas, os preto-ou-branco, os camisa-de-forcistas: servem a, de, por, com, mercê de, por meio de e que sei eu mais?"

SALZANO FIORI: "a) Saturação em bases; b) Saturação de bases; c) Saturação por bases; d) Saturação com bases; e) Saturação por meio de bases.

As regências (a) e (b) não são aceitáveis. Francisco Fernandes, no seu dicionário de regência de nomes, registra somente (c). Mas (c), (d), (e) são usadas e com razão. A melhor é (e)."

 

18. Silicioso? Silicoso?

Os dicionários, de modo geral, empregam silicioso tanto em relação a sílex como a sílica. Para esta, não se pode adotar silicoso? [6]

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Desde meus tempos de estudante, sempre ouvi dizer: terreno silicoso (que é formado predominantemente de sílica)."

GAMA KURY: "Não vejo por que o Aurélio só registra silicioso (que viria de silício e não de sílica, que nos dá silicoso, tal como argiloso, siltoso). Aliás, o Voe. de 1981 registro também silicoso."

HOUAISS: "Do ponto de vista meramente vocabular, há a seguinte relação; sílica : silicoso :: silício : silicioso. O problema é conceitual e ôntico: silício, mais técnico, ger: também um adjetivo mais técnico —mas haverá duas "realidades"? Se houver, o convívio dos dois substantivos (com os dois respectivos adjetivos) se imporá, distintivamente."

SALZANO FIORI: "Note-se a relação: silício - > silicioso;
                                                               sílica-> silicoso ."

 

19. Simbiôntico? Simbiótico?

O NDA da LP registra: simbiôntico: em que ocorre simbiose. Os outros assinalam simbiótico. Não seria mais certo se simbiôntico fosse reservado para simbionte e, simbiótico, para simbiose?

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Não sou autoridade em assuntos científicos, mas respondo SIM à si pergunta:

simbiose ->

simbiótico

}

Gramaticalmente
corretíssimo."

simbionte -> simbiôntico

GAMA KURY: "Sim; correspondência OK."

HOUAISS: "Simbionte: simbiôntico:: simbiose : simbiótico."

SALZANO FIORI: Note-se a relação:
simbiose -> simbiótico
simbionte -> simbiôntico."

 

20. Suborizonte? Sub-horizonte?

Eis a Pesquisa 28, de O Berrante (Jornal da EMBRAPA, abril de 1983):

"Diz a regra que o prefixo sub é seguido de hífen quando se lhe junta elemento começado por r ou b, (...). Surge uma dificuldade quando o segundo elemento começa com h.

As palavras começadas por h que não se pronuncia (humano se pronuncia como umano) perdem o h quando entram como segundo elemento de uma palavra (humano: desumano). Aplicando estas duas regras, deve-se escrever suborizonte subepático. Entretanto, parece que alguns têm medo de suprimir o h, por isso o Vocabulário Ortográfico registra subepático e sub-hepático, subumano e sub-humano, suborizonte.

As duas grafias podem ser usadas, mas suborizonte merece a preferência, pois é alicerçada nas regras gerais, ao passo que sub-horizonte seria uma exceção da regra prefixo sub."

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "A bem da simplificação ortográfica, é preferível escrever suborizoronte, bem como subepático, subumano, pois a eliminação do hífen e do h não induz a pronúncias errôneas de tais palavras."

GAMA KURY: " Sub-horizonte. (Apesar da regra, pois as formas sem o hífen, como subumano, são repugnantes, e contrariam a pronúncia...) O novo anteprojeto de unificação ortográfica, ainda em discussão, adota o hífen antes de h."

SALZANO FIORI: "Segundo Artur Oliveira Fonseca (Tudo sobre hífen, Elos, Rio, 1960), o uso do hífen em vocábulos prefixados justifica-se pela clareza ou expressividade gráfica e de sentido, para se evitar leitura incorreta, ou quando o exige a estrutura fonética do composto e os morfemas sejam acentuados graficamente, ou tenham evidência semântica especial.' Segundo o autor, 'teríamos compostos grafados inexpressivamente ou em desacordo com a pronúncia, como estes: sobreumano (so-breu-ma-no), malumorado, subase'... (página 63). Porém, na página 76, o autor registra subarmônico e, portanto, escorrega"

HOUAISS: "Suborizonte. Leia-se direito o Vocabulário ortográfico, da Academia,"

 

21. Vesicular-arbusculares? Vesicularbusculares? Vesículo-arbusculares?

Veja-se o que diz a Pesquisa 53, de O Berrante (EMBRAPA: ag. de 1985):

"Quando um adjetivo é composto só varia o segundo elemento. O adjetivo é vesicular e não vesiculares.
CERTO: vesicular-arbusculares;
ERRADO: vesiculares-arbusculares (variação do l°elemento); vesículo-arbusculares (o adjetivo é vesicular)."

 

Pareceres dos filólogos consultados

CEGALLA: "Neste tipo de adjetivo composto, é comum reduzir-se o primeiro elemento, tornando-o simples radical, sem uso autónomo: oculonasal (por ocular-nasal); gastrintestinal (em vez de gástrico-intestinal); arenargiloso (em vez de arenoso-argiloso) (...). Quanto ao uso do hífen, nesses compostos, reina muita confusão, muita incoerência, A tendência é suprimir, sempre que possível, o traço-de-união, justapondo-se ou aglutinando-se os dois elementos do adjetivo."

GAMA KURY (Resposta a item de outra série): "Pode-se, indiferentemente, escrever arenoargiloso (sem hífen) ou arenargiloso, hidroelétrico ou hidrelétrico."

HOUAISS (Resposta a item de outra série): "Quando o elemento antepositivo é inflexível, não flexionável, não flexionado, não há hífen e a junção sem contração (em geral nas formações novas) ou com ela (em geral subseqüentes): psicoanálise (por 1920-1940): psicanálise."

SALZANO FIORI: "No livro mencionado, Tudo sobre hífen (com prefácio de AB. de Holanda Ferreira), encontram-se: vesicabdominal; vesicorrenal, (...). Com apoio nessa seqüência e, especialmente, em vesicabdominal, propõe-se vesicarbusculares.

 

[1] Nota da Autora: Muitos pedólogos, achando talvez que abrupto não dissesse tudo, adotaram, para "seu" relevo, como adjetivo, abrúptico...

[2] Observação da Pesquisadora Científica Sueli dos Santos Freitas, do IAC.

[3] Texto da Pesquisadora Científica Sueli dos Santos Freitas, do IAC.

[4] Nota da Autora: cf. "Quest. Vern." (1981), p. 336.

[5] Observação da Pesquisadora Científica Sueli dos Santos Freitas, do IAC.

[6] Nota da Autora: Encontrei o adjetivo silicoso no verbete escória (NDA da LP, p. 689).

 

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