| Tecnoleto dos lingüistas em banco de dados em formação Emmanoel Santos
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Brasil
Resumo
O projeto de um banco de dados lingüísticos acoplado à implantação, no final dos anos 60, de um programa de pós-graduação em Lingüística no Museu Nacional da UFRJ, logo transplantada para a Faculdade de Letras da UFRJ, então funcionando em um desativado pavilhão de exposições. O conseqüente cancelamento do apoio financeiro até então garantido pela Fundação Ford e o desaparecimento do acervo em um sinistro na biblioteca.
Instalação da Faculdade de Letras em sede no "campus" do Fundão, no meio da década de 80, e primeiras tentativas para a formação de um novo Banco, direcionando-o para os cursos de graduação. A recuperação do acervo antigo e a constatação de suas insuficiências para servir às finalidades didáticas desejadas. Para observações lingüísticas, porém, as entradas antigas e as novas formam um apreciável "corpus". Na área do Empréstimo, por exemplo, pedem-se explicações para a presença quase total do vernáculo em entradas fornecidas por literatura estrangeira e nota-se a integração Português-Espanhol no tecnoleto.
Um programa de pós-graduação em Lingüística surgiu, no final da década de 60, sob a condução do Prof. Aryon Rodrigues, no Setor de Lingüística do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, uma unidade da UFRJ. Além do apoio que se podia obter de uma universidade pública, sempre muito limitado, o Programa contou com ajuda financeira da Fundação Ford, sem a qual seria impossível na época, por exemplo, oferecer aos alunos as indispensáveis bolsas. Enquanto a qualidade discente era garantida pelo competente crivo do Prof. Aryon, a qualidade docente o era pela presença do ilustre professor Mattoso Câmara Jr., por professores-doutores estrangeiros visitantes, por professores brasileiros com formação norte-americana e pelo próprio Prof. Aryon. No que mais nos interessa aqui, registre-se que o apoio financeiro recebido pelo Programa, criteriosa e laboriosamente administrado pelo Prof. Aryon, permitiu a organização de selecionada e atualizada biblioteca, que, embora modesta, dava cobertura às disciplinas e estava sempre bem ao alcance dos alunos. Para facilitar o trânsito dos alunos pela bibliografia, iniciou-se, também sob a supervisão do Prof. Aryon, a montagem de um fichário de entradas para itens presentes na bibliografia selecionada. Tratava-se, pois, da organização de um índice analítico (índice temático, índice remissivo) em sentido amplo, remetendo não para apenas um, mas para um alentado conjunto de livros de Lingüística. O usuário tinha a informação das obras que tratavam do item de seu interesse e das páginas em que tal item aparecia. Mas, muito antes que o fichário atingisse dimensão mínima indispensável para servir a seus fins, o Programa foi transferido para a Faculdade de Letras da UFRJ. Não se quer discutir aqui as questões de economia interna, que levaram o Programa a ter outra base. O fato é que a Faculdade de Letras estava, na ocasião, provisoriamente instalada no centro da cidade em um galpão que fora construído para uma exposição. Não é difícil imaginar a precariedade dessas instalações e sua extrema vulnerabilidade. Ao que se quer mencionar aqui —a biblioteca e o fichário de itens— a transferência causou prejuízos desde o início. Colocada no acervo comum, a biblioteca setorizada mantida no Museu ficou distanciada de seus usuários, pois passou-se a sofrer a mediação da Biblioteca da Faculdade, sempre às voltas com número insuficiente de funcionários e, portanto, sem condições de oferecer um bom atendimento. A Fundação Ford suspendeu o seu apoio financeiro e isto, no que diz respeito à Biblioteca, determinou o fim da atualização do acervo. O fichário de itens foi deixado de lado, já que não mais havia recursos para continuar pagando os profissionais que o organizavam, nem condições para a Biblioteca da Faculdade assumir a tarefa, pelo motivo já apresentado. Pouco tempo depois da mudança em causa, parte da Biblioteca desabou e não se teve mais notícias do "arquivo do Prof. Aryon", nome pelo qual ficou sendo mencionado o fichário de itens de Lingüística. A partir de 1981, quando assumiu a chefia do Departamento de Lingüística e Filologia, este comunicador tentou várias vezes localizar o "arquivo do Prof. Aryon", sempre sem sucesso, mesmo recebendo toda a colaboração que as esforçadas bibliotecárias podiam oferecer. O acervo poderia ter sido removido com o entulho que resultou do desabamento, e então estaria perdido; ou estaria misturado ao material que fora salvo e estava à espera de recuperação e classificação. Diga-se que o interesse maior das bibliotecárias estava voltado para a recuperação de livros danificados pelo sinistro. Em 1985, então na direção da Faculdade de Letras, este comunicador acompanhou os trabalhos de mudança da sede da Faculdade para instalações amplas e apropriadas, construídas no "campus" do Fundão. Aproveitando a oportunidade, novamente tentou, ainda sem sucesso, localizar o fichário desaparecido. A partir do momento em que ganhou, na nova sede, um espaço físico próprio, o Departamento de Lingüística e Filologia iniciou projetos e retomou outros, que pediam essa base material. Surgiu então a idéia de organizar um novo fichário de itens de Lingüística, voltado agora para as necessidades dos alunos de graduação, começando-se com as obras em português (mesmo sem traduções) que serviam às disciplinas em curso, com possível presença complementar de obras em espanhol. Esta nova orientação atende a uma necessidade maior, já que os nossos alunos de graduação estão em condições mais desfavoráveis para transitar na bibliografia especializada de Lingüística. O forte privilegiamento da língua portuguesa explica-se pelo fato de não serem os alunos da graduação necessariamente obrigados a ler em língua estrangeira e, no caso dos que são, essa língua não será necessariamente o inglês, fonte predominante, quase exclusiva, do fichário desaparecido. A nova orientação também mostra que não se perdera de todo a esperança de recuperar o tal "arquivo do Prof. Aryon", sempre falado e nunca mais visto. Ou seja, trabalhando-se com obras em português minimizava-se a possibilidade de repetir trabalho já feito. Por falta de uma posição oficial do Departamento, que só recentemente indicou um coordenador, o projeto pouco avançou. Mas nesse tempo as bibliotecárias descobriram o "arquivo do Prof. Aryon". (Não foi sem emoção que este comunicador recebeu aquelas poucas caixas, ainda com fortes marcas da caliça solta no desabamento.) Embora obviamente desatualizado, o fichário ainda tinha utilidade, pois remetia para obras clássicas, ainda hoje consultadas. Era, contudo, ainda muito pequeno para oferecer ajuda substancial a um curso de pós-graduação em Lingüística dos dias de hoje. Não pelo número de entradas, as quais cobrem quase totalmente as áreas de interesse central da Lingüística; mas pelo fato de a maioria das entradas remeter a poucas, embora básicas, obras. Ou seja, o trabalho ainda estava muito no começo quando foi interrompido nas circunstâncias mencionadas. Agora o Departamento vem se manifestar oficialmente pela continuação do projeto, designando um coordenador. Unidos os fichários, já há material suficiente para suscitar o apoio da computação eletrônica. E é preciso fazer com que as entradas remetam a mais obras, não só as atuais, como também as muito antigas. Para a primeira tarefa —o processamento eletrônico dos dados— é possível obter mão-de-obra. Para a segunda —ampliar as remessas— isto é muito mais difícil. O avanço será penoso se não acontecer auxílio de fora do Departamento. É preciso, então, fazer contatos. Era nisso que se pensava, e mesmo alguns passos já se dava, quando chegou a notícia deste encontro. A necessidade de contato, portanto, explica nossa presença aqui. Mesmo reunidos, o fichário antigo e o moderno ainda não oferecem aos alunos o auxilio que um dia, espera-se, venha a fornecer. Mas o número de entradas já estabelecidas formam um "corpus" bem alentado, convidando um lingüista a reflexões sobre o fenômeno do empréstimo no tecnoleto da Lingüística. Observando-se, por exemplo, as entradas do fichário antigo, que, como já se mencionou, foram quase sempre retiradas de literatura em inglês, vê-se que são formadas por uma esmagadora maioria de palavras do vernáculo. Nos dicionários de Lingüística, o favorecimento do vernáculo não surpreende por várias razões: um público-alvo mais amplo, a maior permanência da obra, tempo para reflexão que possibilite a criação de um neologismo, de um decalque, ou de um outro artifício que afaste o termo estrangeiro. Enfim, elaborar dicionários em vernáculo é receber forte convite para o exercício de uma política de língua que o favoreça. Na apresentação que fez da 111 edição, em 1956, de seu Dicionário de Fatos Gramaticais , Mattoso Câmara Jr. deixa bem claro o tipo de policiamento que presidiu a escolha da nomenclatura. O resultado dessa opção terminológica foi um dicionário totalmente ocupado por verbetes em vernáculo, se considerarmos como tal os latinismos e helenismos tradicionais, principalmente os últimos, que comparecem em grande quantidade. Nos verbetes do tecnoleto nada se vê do francês. Do inglês, grande fonte do dicionário, ficou apenas um termo, mas com remessa para o verbete em português, onde o caso é apresentado ("overlapping" ver debordamento). Do alemão ficaram dois termos, igualmente com remessa para o vernáculo ("ablaut" ver apofonia; "umlaut" ver metafonia). A 2 a edição ganhou um outro título, Dicionário de Filologia e Gramática, mas conservou o mesmo conteúdo da 14 a , sendo assim, é o ano de 1956 que deve ser a referência para ela. Será possível considerar, então, que o dicionário de Mattoso Câmara Jr. refletiu uma Lingüística em fase de sedimentação teórica, com a corrente dominante apenas se preocupando com o aperfeiçoamento de detalhes, a salvo de maiores conflitos e contestações. Ou seja, o terremoto chamado "gerativismo transformacional" não havia ainda sacudido os até então tranqüilos e sólidos alicerces do estruturalismo taxonômico. Na 3 a edição, de 1977, com um terceiro título Dicionário de Lingüística e Gramática, o vendaval teórico estava em plena ação, com o próprio gerativismo a sofrer as conseqüências. É, porém, uma edição póstuma e os editores, respeitosamente, conservaram a forma original, com modificações —mínimas, como a inclusão de um galicismo e de um hebraísmo apresentado como tal, ambos adaptados ao português: "patuá" e "xuá", respectivamente. Para dar conta das novidades, foram acrescentados, em um posfácio, alguns verbetes, todos em vernáculo. O Dicionário de Lingüística, de Zélio dos Santos Jota, é também, já na sua primeira edição, de 1976, uma obra póstuma. Com base no prefácio do autor, datado de 1970, vê-se que é e dicionário uma obra de "longos anos". Assim, como o dicionário de Mattoso Câmara Jr., também sem condições de atualidade que permitissem refletir a gigantesca produção (principalmente em inglês) suscitada pelo gerativismo, em primeiro lugar, mas também por outras teorias e correntes. O dicionário de Zélio dos Santos Jota tem um objeto mais amplo e, conseqüentemente, um número de verbetes muito maior que o encontrado no dicionário de Mattoso Câmara Jr. Ainda assim, são raríssimas as presenças de verbetes em línguas estrangeiras modernas, conservando a ortografia original. Das que marcam o tecnoleto dos lingüistas aparecem quatro em inglês, três em francês, duas em alemão e uma em dinamarquês e em espanhol. Perde-se, porém, a conta do número de helenismos e latinismos. Grego e Latim aparecem, nos diferentes graus de adaptação ao vernáculo, tanto nos termos de uso clássico, como nos neologismos. No conjunto de entradas, estabelecidas pelo Prof. Aryon Rodrigues, cuja fonte principal, como já se mencionou, foi bibliografia em língua inglesa, seria razoável esperar que, ao lado dos muitos helenismos e latinismos consagrados, a língua inglesa estivesse presente ';com grande força. Mas praticamente não existe inglês nas entradas. Isto seria impensável em certas áreas, nem sendo necessário mencionar a informática. Em Lingüística é possível, pela existência de nomenclatura tradicional e pelo também tradicional respeito a ela. Mesmo que o referente já não seja exatamente o mesmo, o termo já consagrado é mantido. Um significante de presença tradicional pode mesmo ser convocado para relacionar-se a um significado que nada tenha a ver com o anteriormente associado àquele significante. Ou seja, sempre fica um respeito conservador, nem que seja apenas pelo significante. Um outro caminho seguido pelos lingüistas, sempre respeitando o tradicional, é procurar o grego e o latim para criar os neologismos. Mas, em casos especiais, apela-se para o vernáculo, disfarçando-se o empréstimo pelo processo de decalque. Nessa prática de preservar os termos cunhados a partir de línguas clássicas (grego, latim, sânscrito) e a de usar essas línguas também para os neologismos (o que acontece também em outros tecnoletos), o léxico dos lingüistas brasileiros apenas se alinha com tendência antiga e internacional. A diferença é que nas línguas dos centros onde nascem e crescem as avalanches de teorias (e conseqüentes montanhas de bibliografia), é menos rara do que entre nós a criação de neologismos na base da língua materna, pois as referências, afinal, nascem muito mais lá do que entre nós. Para a criação de neologismos, nesses centros registra-se até o apelo à língua moderna outra, que não aquela em que o tecnoleto está inserido. Isto vale principalmente para o inglês, uma espécie de língua franca também entre os lingüistas. Entendemos que os tecnoletos primariamente integram uma determinada língua e que, primariamente também, não são uma língua franca especializada. Os tecnoletos são dialetos entre os muitos dialetos que formam uma língua particular. Portanto, em primeiro lugar os tecnoletos servem a falantes de uma dada língua que exercem atividades na mesma área. O termo área aqui tanto remete para o conhecimento especializado, como para o aspecto diatópico: o espaço geográfico em que a língua atua. Admite-se que se trata de boa política ampliar tanto quanto possível a área geográfica de atuação de um tecnoleto. E, realmente, existe tal preocupação com a universalidade, pois crê-se que ela seria útil, até mesmo em algum caso raro em que só falantes nativos de uma certa língua exercessem um tipo qualquer de atividade, não praticada pelo resto do universo. Ou só eles tivessem acesso a uma dada área do conhecimento. Não deveria ser difícil a ampliação do universo de usuário de um tecnoleto, ou seja, o uso de um tecnoleto bem definido por um número cada vez maior de indivíduos, enquanto se permanecesse dentro da mesma língua, mesmo que esta fosse distribuída por territórios distintos, até muito afastados. Se nos limitarmos ao aspecto lexical, isto seria também possível entre línguas muito semelhantes. Sendo assim, antevê-se como bastante viável uma integração com toda a lusofonia, seja qual for o tecnoleto em causa. Com relação ao tecnoleto dos lingüistas e havendo limitação ao terreno do léxico, isto também uniria espanhol e português. Ter-se-ia a favorecer a integração, de saída, a multidão de helenismos e latinismos tradicional e universalmente usados. Formariam tais itens lexicais de base clássica, provavelmente majoritários, um enorme e, portanto, tranqüilizador núcleo comum. Ficarão sempre alguns casos problemáticos, que talvez venham a surpreender pela pequenez de seu número. Encontros como este aqui podem realizar as recomendações do Prof. Celso Cunha, no sentido de que se tentasse uma integração começando onde ela fosse possível a um prazo mais curto e sem maiores traumas. É este o caso dos tecnoletos. E em um ou outro item particular de mais difícil solução, valeria a pena lembrar outras palavras do saudoso Celso Cunha: mais vale um estrangeirismo que nos una, do que um purismo que nos separe. Se isto se referia a todo e qualquer estrangeirismo, tem muito mais força quando diz respeito a uma língua nem tanto estrangeira assim. Portanto, um embrião de Banco de Dados, planejado com motivações exclusivamente pedagógicas, mesmo em fase tão incipiente, revela-se útil para o lngüista interessado em léxico e já oferece apoio para uma determinada política de língua. |