| Dificuldades de divulgação e uso de técnicas
de informática
na micro, pequena e média indústria
devido ao uso excessivo
de estrangeirismos
José Rousso
Confederação Nacional da Indústria
Brasil
Introdução A questão do uso exagerado de vocábulos e termos estrangeiros em produtos informacionais dirigidos às indústrias de pequeno porte (PMIs) não deve ser analisada de forma isolada, quando se pretende avaliar as dificuldades de se transferir conhecimentos para aquele estrato industrial. Desta maneira, a opção escolhida foi a de dar ao tema uma abordagem articulada com outras questões que, claramente, afetam a comunicação dos serviços de informação com as PMIs. A indústria brasileira, de forma geral, e as de menor porte em particular enfrentam, na conjuntura econômica atual, o desafio de obter ganhos tecnológicos de curto prazo, não só face à estratégia governamental de, gradativamente, expô-las à concorrência internacional, como também, pela eminente edição do código de defesa do consumidor que passará a ser um mecanismo, não disponível anteriormente, que irá regular segundo novas perspectivas, a relação fornecedor-consumidor. Modernização, reestruturação, melhoria da qualidade e aumento de produtividade são questões que ganham nova dimensão e que se amparam na adoção de métodos de gestão e processos de produção com elas compatíveis. Neste cenário a informática desempenha papel de fundamental importância, já que por suas peculiaridades permeia praticamente todos os setores industriais. É, portanto, oportuno e fundamental que num painel em que se discute terminologia e transferência de tecnologia, a questão da difusão dos conhecimentos e das potencialidades desta ciência venha a tona, sobretudo quando polarizada para o segmento das PMIs que, se por um lado se distinguem pela agilidade em seus processos decisórios e pela capacidade de rápidas mudanças e adaptações de rumo, são pouco permeáveis a absorção de conhecimentos via produtos de informação, principalmente, quando não se considera as dificuldades que lhes são próprias. A estas dificuldades, peculiares ao estrato industrial objeto destes comentários, aliam-se outras de naturezas diferentes, que se referem a forma como foram historicamente estruturados no país os serviços de informação científica e tecnológica e, as provenientes do conteúdo e origem dos conhecimentos difundidos através dos mecanismos tradicionalmente adotados por órgãos e instituições envolvidas nestas atividades. Características das PMIs Ao se tecer considerações sobre as dificuldades de comunicação com as pequenas e médias unidades industriais, não se pode deixar, sem correr o risco de deformação da argumentação utilizada, de tratar da questão conceitual. Existem diferentes critérios utilizados para desagregar o universo industrial segundo o tamanho das empresas que o compõe, porém, nenhum deles isoladamente mostrou-se capaz de, genericamente, adequar-se a todas as finalidades que em geral, inspiram a classificação desejada. Para fins estatísticos, o parâmetro usualmente adotado é o número de pessoas ocupadas, porém, quando se tem em mente objetivos diferentes é comum a utilização de outras variáveis tais como faturamento, investimento em capital fixo, etc. Sem que se entre no mérito da discussão conceitual, que é polêmica e eventualmente inócua face a desigualdades regionais e a grande diversificação do nosso parque produtivo pode-se, entretanto, afirmar que qualquer que seja o critério adotado, desde que lógico e consistente, é possível identificar-se características muito semelhantes no extrato de empresas classificado como de pequeno e médio porte. Elas dizem respeito, além de fatores que no âmbito destas apreciações tem importância secundária, à forma como estas empresas estão estruturadas do ponto de vista organizacional e administrativo, a seu modelo de inserção na economia, à participação efetiva e ativa do empresário no desempenho de, praticamente, todas as funções empresariais e à formação e perfil do pequeno e médio industrial. O empresário paulista Ricardo Semler, em seu livro Virando a própria mesa , aborda com muita peculiaridade os modelos de gestão empresarial adotados em empresas sediadas no país, procurando destacar o comportamento diferenciado das PMIs, quando cotejadas com as grandes empresas nacionais e as multinacionais. Ali se observa desempenho comparativo favorável, quando se avalia temas como criatividade, processo decisório, mudança e adaptação de rumos em contrapartida a posições desvantajosas com relação a visão estratégica de longo prazo, técnicas de gestão utilizadas, sistemas de informação, grau de profissionalização e uso de consultoria externa, entre outros. Merecem também destaque, pesquisas desenvolvidas não só no Brasil, mas também em outros países com características e níveis de desenvolvimento diferentes, que se reportam aos mecanismos e instrumentos utilizados pelas PMIs, para obtenção de informações tecnológicas. Nelas se observa que as principais fontes utilizadas são os próprios clientes, os fabricantes de máquinas e equipamentos, os fornecedores de matérias primas e as empresas subcontratantes em oposição a uma contribuição pouco significativa das instituições públicas, universidades e centros de pesquisas. A estruturação dos serviços de informação Uma das características marcantes do processo de industrialização do País, é que ele ocorreu, pelo menos até o final da década de 60, sem nenhuma sintonia com o desenvolvimento do setor de ciência e tecnologia. Neste cenário, os serviços de informação que aqui se estruturam, foram historicamente direcionados para a ciência, com vista a atendimento de necessidades de cientistas e pesquisadores. Por outro lado, no que diz respeito as demandas do usuário industrial, elas não encontravam ressonância nos serviços já implantados, pois buscava-se seu atendimento, via de regra, através dos mesmos modelos e mecanismos utilizados com êxito, para o atendimento de necessidades de cientistas e pesquisadores que, reconhecidamente, têm formação e perfil significativamente diferenciado do usuário industrial. Uma conseqüência claramente identificada foi a estruturação de serviços de informação no âmbito das próprias empresas. Observa-se ainda, sem dificuldade, que face a características diferenciadas do parque industrial e da complexidade e custos envolvidos neste tipo de serviço, eles só foram viabilizados em empresas estatais, multinacionais e empresas nacionais de grande porte. Desta forma, as pequenas e médias indústrias, mantiveram-se à margem dos benefícios dos serviços destinados à difusão de informações tecnológicas, salvo durante um período de cerca de 7 anos, correspondente ao tempo de vida de uma experiência bem sucedida de iniciativa do INT - Instituto Nacional de Tecnologia e da CNI - Confederação Nacional da Indústria, que foi o CIT - Centro de Informações Tecnológicas, cujas atividades tiveram início em 1968, e extinguindo-se em 1975 por razões que nesta oportunidade não necessitam ser comentadas. Uma experiência mais recente e bastante promissora data de 1985, com o projeto de implantação de uma rede de núcleos de informação tecnológica no âmbito do Subprograma de Tecnologia Industrial Básica do PADCT - Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Esta rede de núcleos, nas suas diferentes versões (núcleos básicos, núcleos setoriais e núcleos regionais), contemplam em sua concepção, implantação e consolidação, estratégias que, do ponto de vista teórico, podem garantir resultados bastante auspiciosos para o atendimento das necessidades de informações das indústrias em geral, e das PMIs, em particular. A difusão da informação tecnológica e o uso de estrangeirismo A informação tecnológica é divulgada por via documental, utilizando-se instrumentos convencionais e não convencionais. Tanto uns quanto outros são documentos complexos por natureza e origem, para o usuário ligado às PMIs, o que explica, pelo menos em parte, a sua contribuição pouco significativa para o desenvolvimento técnico destas unidades industriais que, face a peculiaridades já anteriormente destacadas, não estão adequadamente capacitadas a tratá-las de forma dirigida e em conformidade com suas necessidades. Menciona-se, geralmente, como fatores impeditivos a uma maior e melhor utilização dos serviços de informação tecnológica, a inadequação dos produtos informacionais, a sua regionalização excessiva, a dificuldade de comunicação (até pelo uso de linguagens diferentes) entre os profissionais da área de informações e os usuários (além do desconhecimento de suas reais necessidades) e, domínio e fluência de idiomas estrangeiros, entre outros. Se a estas condicionantes acrescenta-se um outro ingrediente relacionado ao uso excessivo de vocábulos e termos estrangeiros, como os que são freqüentemente mencionados nos produtos de informação que abordam as diferentes áreas da informática, constata-se, sem muita dificuldade, que a disseminação destas técnicas junto as PMIs pode se tornar mais eficaz se as conseqüências deste obstáculo adicional puderem ser minimizadas. Um aspecto que merece cuidados especiais, dado ao envolvimento quase que completo do pequeno empresário típico nos seus negócios, é a clareza e objetividade das informações a serem divulgadas. Neste sentido, uma questão que de pronto se coloca é que não basta pura e simplesmente substituir vocábulos e termos estrangeiros por outros em língua portuguesa, já que em inúmeros casos a simplicidade e concisão do texto, bem como a adequada equivalência entre os vocábulos ou termos (substituídos e substitutos), podem ficar seriamente prejudicadas. Da mesma forma e com vistas ao atendimento dos mesmos objetivos, um forte grau de uniformização dos termos (estrangeiros e nacionais) e de suas grafias, deve ser perseguido. Neste sentido, é fundamental um elevado grau de interação entre os centros geradores e difusores de tecnologia e os fabricantes de máquinas, equipamentos e sistemas, de modo a que se estabeleça e se consolide uma linguagem adequada que venha a contribuir para facilitar o acesso do usuário das indústrias de menor porte, às informações destinadas a difundir o uso da informática que, conforme já destacado anteriormente, é fundamental para que o desafio com que ora se depara a indústria brasileira, notadamente as de pequeno e médio porte, possa ser superado. |