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Observações sobre a terminologia do turismo

Rosane Aparecida Rabelo

 

Resumo

O estudo da terminologia no Turismo tem-nos revelado que esse domínio congrega vários subdomínios: culinária, hotelaria, transportes, comércio, lazer, características regionais e esportes.

Unidades terminológicas de diferentes formações fazem parte da terminologia do Turismo. Pudemos observar, no entanto, que os neologismos recebidos por empréstimo são, numericamente, os mais importantes. Constatamos ainda que a língua inglesa é a que oferece o maior número de elementos a essa terminologia.

 

O estudo da terminologia do Turismo tem revelado que esse domínio congrega, na verdade, vários subdomínios. No seio desse vocabulário agregam-se vários subdomínios referentes a diferentes aspectos da atividade turística.

O corpus que serve de base a este estudo é constituído por elementos neológicos coletados nos cadernos turísticos publicados semanalmente, durante o primeiro semestre de 1990, nos periódicos paulistas Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo . Tratamos como neológicas as unidades terminológicas não registradas em um dicionário da língua portuguesa (Ferreira, 1986) e em um dicionário especializado do Turismo (Ferreira, 1975).

Seguimos, neste trabalho, a distinção proposta por Galisson a respeito da linguagem banalizada e da linguagem técnica (1978). Segundo o Autor, a "linguagem técnica banalizada, ou linguagem banalizada, constitui uma segunda linguagem, baseada numa linguagem técnica. Tem a finalidade de assegurar uma ampla difusão para as informações concernentes ao domínio de experiência, coberto pela linguagem técnica em questão" (p. 9). De acordo com a distinção estabelecida por Galisson, o corpus que estudamos enquadra-se dentro das características da linguagem técnica banalizada, que se dirige ao público geral - e não apenas a especialistas —e é produzida por jornalistas.

A observação desse corpus permite-nos constatar que elementos pertencentes a sete subdomínios integram a terminologia do Turismo:

Características regionais: spas, torres-santuário;
Comércio: trade;
Gastronomia: croque-monsieur;
Esportes: jet-ski, trekkings;
Hotelaria: barco-hotel, hotel-fazenda;
Lazer: jazz-fusion;
Transportes: avião-carreta.

Dentre esses subdomínios, os da Gastronomia e da Hotelaria são os que oferecem o maior número de neologismos.

O fato de o vocabulário do Turismo estudado apresentar vários subdomínios possibilita-nos reiterar que sua linguagem é banalizada, pois, ainda segundo Galisson, o vocabulário banalizado constitui um vocabulário de empréstimos de diferente natureza (op. cit., 373). Em nosso trabalho, como já afirmamos, podemos constatar que diferentes subdomínios emprestam seus termos à terminologia do Turismo.

Podemos também observar que elementos de diferentes formações fazem parte da terminologia do Turismo: neologismos formados por derivação sufixal (espagueteira, sacoleiro) ou prefixal (mínizôo), por composição (carreta-avião, mercado-alvo), neologismos sintagmáticos (mercado turístico, rato de aeroporto), neologismos por empréstimo (Kneipes, Waffles).

Poucos são os neologismos sintagmáticos registrados em nosso corpus , ao contrário das bases simples, muito abundantes. Este fato confirma, mais uma vez, que o corpus de que dispomos constitui uma linguagem técnica banalizada: os neologismos sintagmáticos são muito mais freqüentes nas linguagens técnicas propriamente ditas (Galisson, op. cit , 388-9).

 

Os empréstimos na terminologia do Turismo

As unidades terminológicas recebidas por empréstimo são, numericamente, as mais importantes de nosso corpus e, por isso, vamos analisar suas características específicas.

A língua inglesa é a que oferece o maior número de empréstimos à terminologia do Turismo, segundo nossos dados, pois termos ingleses aparecem em quase todos os subdomínios que compõem essa terminologia: bodyboarding, trekkings (esportes); check-in (hotelaria); highways (características regionais); shopping-times (comércio); cheeseburger (gastronomia) e jazz-fusion (lazer).

Do francês, o vocabulário do Turismo recebe termos relativos à gastronomia (mini-pâtisserie) e ao lazer (balmusette); do alemão, recebe frequentemente termos próprios dos subdomínios do lazer (Weiberfastnach) e da gastronomia (Bratwurst).

Os termos italianos referem-se, em grande parte, à gastronomia italiana: cappellini paglia, porpettone alia parmigiana, riso difazerano. Diferentes línguas contribuem com empréstimos relativos ao subdomínio das características regionais: cuernos (espanhol), shtetel (polonês), tainitã (romeno)...

Os empréstimos empregados na terminologia do Turismo caracterizam-se, em sua maioria, como estrangerismos: elementos empregados esporadicamente, que não têm, ainda, o caráter de empréstimos propriamente ditos. Emprestam ao contexto uma cor local, relativa ao país ou à região mencionada (Guilbert, 1975,92). Assim, a referência à França provoca o emprego dos termos franceses baguette e croque-monsieur:

"Finalmente, ninguém queria perder o melhor do programa de Paris: passear sem compromisso pelas ruas da cidade, parando de vez em quando para tomar vinho e comer um sanduíche de "baguette" com queijo ou um "croque-monsieur", o misto-quente de lá" (O Estado de São Paulo, Caderno de Turismo, 23.01.90, p. 5, c. 2).

Por ter um emprego esporádico e portanto efêmero, o estrangeirismo tende a ser traduzido, já que o emissor é consciente de que o leitor, provavelmente, não conhece o significado desse elemento:

"No início da noite, o famoso campeonato de puxa-corda, protagonizado por venezianos "foresti" (forasteiros), precede os bailes, que vão até o nascer do sol" ( Folha de São Paulo, Caderno de Turismo, 15.02.90, G. 1, c. 6).

 

Considerações finais

Comparando nossas observações com as conclusões apresentadas por Lima (1990), num estudo sobre o vocabulário da imprensa especializada do Turismo, em Portugal, podemos verificar que os dois corpora apresentam as seguintes características: a) formação de um vocabulário a partir de elementos pertencentes a vários subdomínios; b) emprego freqüente de estrangeirismos; c) registro freqüente de unidades terminológicas constituídas por uma única base e escassas formações sintagmáticas.

Esses aspectos similares, observados em um corpus de linguagem técnica banalizada, no português brasileiro, e em um corpus de linguagem técnica propriamente dita, no português europeu, levam-nos à conclusão de que a terminologia do Turismo, técnica ou banalizada, apresenta aspectos comuns.

A observação da terminologia do Turismo mostra-nos ainda que esse vocabulário revela características específicas em relação às demais linguagens terminológicas. Alguns termos estrangeiros aparecem constantemente em diferentes contextos e já integram essa terminologia: bodyboarding, deck, trekkings, ... A maioria dos elementos estrangeiros, entretanto, é constituída por estrangeirismos, que conotam cor local e apresentam-se esporadicamente. Parece-nos, por isso, que tais elementos não necessitam de normalização - adaptação à língua portuguesa. A normalização torna-se necessária, a nosso ver, apenas nos casos em que o termo estrangeiro revela freqüência e integra, de fato, a terminologia do Turismo.

 

Referências bibliográficas

FERREIRA, A.B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa, 2a ed, Rio, Nova Fronteira, 1986.

GALISSON, R. Recherches de lexicologie descriptive: la banalisation lexicale. Paris, Fernand Nathan, 1978.

GUILBERT, L. La créativité lexicale. Paris, Larousse, 1975.

LIMA, A.I.M. de. "Vocabulário do Turismo: banalização ou especialização?" in Terminologias, Lisboa: 62-92, 1990.

FERREIRA, F.L. V. Dicionário brasileiro de Turismo. Rio, Vozes, 1975.

 

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