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As três fases do neologismo técnico-científico
Éda Heloísa T. Pilla
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Brasil
Resumo
A partir de uma definição operacional de neologismo técnico-científico, procuramos mostrar, baseados em nossa experiência pessoal como supervisora do Estágio de Tradução do curso de Tradutor e Intérprete da UFRGS durante 14 anos, e, através de consultas a obras de terminologia, a trajetória de três fases percorrida por esse neologismo: a sua criação, implantação e eventual transferência para outro vocabulário especializado ou para linguagem comum.
Detivemo-nos um pouco em cada uma delas analisando a situação brasileira, detectando "algumas causas da desorganização da nova terminologia científica no Brasil, algumas normas que determinam a aceitação ou não do novo termo, normas essas ditadas pelas próprias leis fonológicas e morfossintáticas da língua, bem como normas sociais e nacionais, e finalizamos registrando a questão do empréstimo interno (transferência de termos de uma área para outra).
Por uma questão de exigüidade de tempo, não nos ateremos alongadamente à questão da definição do neologismo (de agora em diante referido como N). Sabe-se que o conceito pode ser discutível havendo quem fale em pseudoneologismo [1].
Vamos tomar, isto, sim, uma definição operacional, a de Robert Dubuc [2] quando diz que "o N é uma inovação trazida aos hábitos lexicais de uma língua." E continua, "pode-se considerar que existe um N enquanto para o conjunto de usuários de uma língua não haja desaparecido o efeito do insólito."
Nota-se que a definição baseia-se em critérios bastante subjetivos. Critérios mensuráveis como número de usuários, características pessoais dos mesmos (idade, nível educacional, profissão, hábitos de leitura, etc.) não são detalhados.
Não é suficiente, entretanto, que uma palavra reputada como um emprego inédito, seja considerada um N. Este não existirá a não ser que ganhe um certo uso e que não se reduza a uma comunicação única entre o autor da palavra criada e aqueles que venham a tomar conhecimento desta produção. É necessário que um certo número de falantes o façam entrar em seus meios de expressão.
Existem, por exemplo, as onomatopéias, os fenômenos poéticos, as metáforas momentâneas que não podem se incluir entre os Ns. Estas talvez sejam preciosidades ou curiosidades mas não Ns. Para serem tratados como tal, devem ter um uso constante. Esse uso constante está subordinado a uma aceitabilidade, a qual se prende a um certo número de variáveis que vão desde regras morfossintáticas de produção do termo até a estrutura semântica geral subjacente à língua, e a uma certa norma social que rege o léxico dessa língua. Trataremos com mais detalhe desta questão na parte da aceitação do novo termo.
Na ausência, portanto, de um critério mais objetivo e confiável para decidir chamar uma palavra de N ou não, o procedimento mais viável parece ser a comparação das diferenças entre o conjunto lexical de duas edições próximas de um mesmo dicionário de um período contemporâneo.
Outro critério bastante flutuante, se é que existe algum, seria aquele para distinguir linguagem comum de linguagem científica. Novamente, por uma questão operacional diremos que os termos técnico-científicos são aqueles coletados em textos especializados (livros-textos, artigos de periódicos científicos, etc.) e os termos não técnico-científicos são extraídos de textos designados à população geral, leigos, que supostamente dominam uma linguagem comum (jornais, revistas de grande circulação, textos não especializados, etc.).
Nossas considerações, entretanto, vão visualizar o N numa perspectiva diacrônica e tentar mostrar as fases da vida do mesmo e a passagem de uma para outra.
1a) Fase da criação do N numa dada ciência ou técnica;
2a) Fase da implantação ou não-implantação do termo no vocabulário da ciência ou técnica em questão;
3a) Fase da eventual transferência do N para outro vocabulário especializado ou para o vocabulário dito comum.
1a Fase
Os criadores do N técnico e científico, é bem verdade, não são sempre identificados ou mesmo identificáveis. Normalmente, aí estão os pesquisadores, os construtores e fabricantes de aparelhos, máquinas, os técnicos especializados, os tradutores, os terminólogos e organismos ligados à terminologia. Em países que importam tecnologia como o Brasil, a grande tarefa, o grosso do trabalho, está mesmo nas mãos dos tradutores. Em países como o Canadá, onde os terminólogos têm status profissional, dada a situação bilíngüe do país, esses têm a autoridade e competência necessárias para se encarregarem da questão.
Em nosso país, entretanto, um pouco diferente é o caso das ciências humanas, cujo desenvolvimento autóctone é relativamente grande. Alguns autores são bastante produtivos (dentro dos nossos parâmetros) na criação neológica, e um estudo mais aprofundado para o caso de cada ciência poderia ser oportuno. Aí se examinaria as diversas categorias da criação neológica tal como os métodos de trabalho, as motivações, as tendências mais ou menos normativas ou liberais e o que anima um autor a criar Ns, se o cuidado escrupuloso com a precisão ou o desejo de se distinguir entre seus pares.
Quanto à tecnologia importada e suas conseqüências, o que se nota no Brasil em matéria de terminologia é uma grande desorganização regida por fatores tais como:
falta de terminólogos (que uniriam as qualidades de lingüistas com as de especialistas);
pressa na absorção da nova ciência ou técnica;
pouca difusão da nova ciência ou técnica (pouca tradução);
aceitação da terminologia estrangeira por falta de tradutores e receio de uso indevido ou impreciso (insegurança) de um termo;
uso truncado ou mais generalizado;
pronúncia errada, absorção de siglas, com eventual derivação;
muita invasão de sintagmas em vez de lexemas (paráfrase ou enunciação metalingüística sobre um signo);
maus tradutores.
Faz-se necessário, portanto, um maior conhecimento das necessidades e dificuldades dos criadores de Ns, bem como da qualidade das traduções que muitas vezes fabricam Ns que atrapalham a terminologia já pesada dos técnicos, sem falar da sinonímia desnecessária.
2a Fase: implantação ou não do novo termo
O sucesso ou o fracasso do estabelecimento de um N são tão difíceis de prever quanto de explicar.
O fracasso de um N não se deve tanto ao abandono de um dado conceito ou de um objeto (do referente), mas antes ao sucesso do outro N com o qual concorre.
O francês Wexler [3], em pesquisa sobre a formação do vocabulário sobre estrada de ferro na França, chamou atenção para o fato de que o lexema 'locomotiva" não se impôs como tal senão a partir de 1837, depois de conviver com numerosos termos entre eles, "cheval de fer", "chariot à vapeur", "chariot locomoteur", "machine locomotrice", "machine locomotive" e outros.
Vale citar aqui o caso do gramático português Dr. Castro Lopes que, em obra datada de 1909 [4], alegando "expurgar a linguagem vernácula de vozes bárbaras, de construções contrárias à índole daquela, e de criar, com bons elementos, termos que no idioma português faltem para traduzir os exóticos", sugeriu, para palavras francesas que invadiam o léxico do português, as criações seguintes, todas fundamentadas em derivação greco-latina (considerada nobre) ou autóctone.
para reclame, criou preconício
para pince-nez, criou nasóculo
para cache-nez, criou focále
para nuance, criou ancenúbio
para abat-jour, criou lucinéo
para massage, criou premagem
para greve, criou operinsurreição ou demostásia
para engrenage, criou entrosagem
para menu, criou cardápio
para avalanche, criou runimol
para carnet, criou choribel
para chalet, criou castelete
para chef d'oeuvre, criou obra-prima ou primor d'arte
E para termos ingleses
lunch(eon), sugeriu merenda
meeting, sugeriu concião
pic-nic, sugeriu convescote
tourist, sugeriu ludâmbulo
Dos citados (17), apenas três lograram aceitação (cardápio, merenda e obra-prima), sendo que desses, dois concorrem com seus sinônimos estrangeiros: lanche e merenda e cardápio e menu.
O léxico, enquanto soma dos elementos lexicais guardados na memória de uma comunidade lingüística, tem, sem dúvida, um aspecto social. Ele exprime a vida e as estruturas sociais desta comunidade, tornando-se, ele mesmo, uma estrutura social submetida a uma norma comum. Além disso, ele é um elemento funcional da comunicação, sendo o repositório de todas as palavras para a formação de frases cuja clareza e eficácia são uma necessidade social.
Nota-se aí uma tendência à normalização, contrapondo-se à liberdade individual, que se coloca como uma imposição do próprio comportamento dessa dinâmica, em prol de uma necessidade de organização para o sucesso da comunicação. Tal como no código escrito, onde há uma grafia para cada palavra, no código oral deve haver uma designação para cada conceito, desaparecendo ou se especializando os sinônimos.
Alguns fatores que podem determinar, a nosso ver, a aceitação de um novo termo são em primeiro lugar, de ordem lingüística.
Aí estão as questões fonológicas ou sintáticas, que agem como um filtro em relação aos empréstimos. Trata-se de observar a compatibilidade dos termos do léxico estrangeiro com o do léxico nacional. No que se refere aos termos emprestados ao inglês, há que observar uma reação contra aqueles de difícil pronúncia por parte do falante médio (ex.: design, engineering).
Já aqueles fonologicamente transponíveis são facilmente admitidos, especialmente os mono e dissílabos (ex.: basket, box, boon, campus).
Palavras com sintaxe equivalente na língua que empresta e a nacional normalmente não encontram obstáculos (ex.: container, performance) embora esta última tenha uma tradução precisa em português: desempenho.
Conceitos e objetos (referentes) sem equivalentes no domínio nacional serão, em princípio, aceitos incontinenti, já que uma das funções do léxico é a denominação de coisas novas. Veja-se o caso de "radar", "penicilina", "laser", "Aids".
São, portanto, normas lexicais geradas pelo próprio sistema lingüístico que acabam por determinar uma norma nacional, um comportamento típico.
Outro comportamento típico é gerado por uma norma social. Como na origem de um termo novo há uma motivação de falta, de não conformidade entre os termos existentes no léxico e o conteúdo a exprimir, se o falante não recorrer à paráfrase, ele terá, forçosamente, que suprir o termo ausente.
Em outros falantes, ainda pode se manifestar uma necessidade de recorrer a outras palavras que não as já existentes por uma questão de originalidade, por exemplo.
A iniciativa individual, entretanto, pela necessidade do falante de se fazer entender por seus interlocutores, necessariamente, há que se conformar a um esquema que já gerou termos pré-existentes no léxico. O que se pode chamar de analogia pode ser uma face desse problema, já que ela oferece uma garantia da aceitação do termo criado.
Esse princípio deve ser responsável pelo aparecimento e predomínio de verbos como "reflexionar" sobre "refletir" e "visualizar" sobre "Ver".
O uso de derivados dos substantivos (reflexão) e adjetivos (visual), em detrimento dos verbos existentes se coloca como uma tendência que mostra o caráter abstrato da língua. "Obstaculizar" e "agilizar" são exemplos de termos criados por sufixação, motivados pela economia (opor obstáculo e tornar ágil) e justificados pela analogia (veja-se "dinamizar", "impulsionar", etc.).
3a Fase: A eventual passagem de um subsistema para outro
Quando um N se lexicaliza em seu vocabulário especializado de origem, perdendo, portanto, seu status neológico, ele poderá ainda encontrar esse status passando para um outro vocabulário especializado ou para o léxico comum.
A passagem de um emprego técnico limitado a um meio sócio-profissional para um emprego generalizado é um caso bastante comum dentro da área neológica.
Em obras de lingüística moderna, notadamente Semântica e Pragmática, o leitor encontrará muitos termos tais como "lógica", "algoritmo" e outros, oriundos da matemática, que sentirá como Ns. Começando a funcionar em outro nível, aí são Ns, ou quem sabe poderíamos chamar de "empréstimos internos".
O mesmo pode ocorrer na passagem de um termo técnico-científico para a linguagem comum. Nesses casos, há que fazer uma distinção entre o empréstimo ou a metaforização, que está bastante ligada à vulgarização das ciências e técnicas. Nesse caso, palavras empregadas originalmente em vocabulários especializados passam a ter um uso metafórico ou figurado.
Nesse momento, nos vem à cabeça aquelas palavras extraídas do vocabulário automobilístico, como "acelerar", "frear", "combustível", "pára-choque", etc. A imprensa está cheia delas. Jornalistas e publicitários aparecem como criadores, por excelência, dessas metáforas.
Nessa área também se observam expressões como "colocar em órbita" e "rampa de lançamento". Normalmente as áreas técnicas ou especializadas mais fascinantes são as mais freqüentes, por provocar duplamente o impacto: o fascínio e a novidade do termo.

[1] REY, Alain. "Neologismo, un pseudo-concept?" in Cahiers de lexicologie, 1976, 28: 3-17, p. 17.
 [2] DUBUC, Robert. Manuel pratique de terminologie. Linguatech, 1985.
 [3] WEXLER, P J. La formation du vocabulaire des chemins de fer en France (1778-1842), Doz, 1955, p. 97.
 [4] LOPES, Castro. Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis. A Editora, Lisboa, 1909.
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