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Índice por autores

 

 

A definição do termo: aspectos semânticos e aspectos pragmáticos

Luis A. S. Passeggi
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Brasil

 

Neste trabalho apresento uma análise da definição do termo (no sentido de: vocábulo técnico-científico), utilizável tanto para explicitar mecanismos subjacentes às definições existentes quanto para produzir novas definições. A análise será semântica na medida em que tratará da estruturação de conteúdos lógicos e cognitivos, mas independentemente de uma situação concreta de comunicação; será pragmática na medida em que levará em consideração as condições de produção da definição e sua utilidade prática, utilidade esta que não é garantida necessariamente pelo grau de elaboração semântica atingido.

Para efeitos práticos, "definição" será entendida aqui como equivalente a "sentido", "significado", "significação", "conceito" ou "noção" do termo, o que corresponde aliás à correlação usual na linguagem comum.

 

1. A estruturação semântica da definição

Partiremos da seguinte observação: o termo é o pivô de um duplo movimento, de condensação e de expansão, operando continuamente na linguagem: o termo é o estágio final de um movimento de condensação, ou implicitação de elementos significantes. Simultaneamente, é o ponto inicial de um movimento de expansão, ou explicitação de elementos significantes, como mostra a Fig.1:

Estes movimentos correspondem aos processos lingüísticos habituais de produção/compreensão: o locutor condensa significações no termo utilizado, e o alocutário explicita significações no momento da recepção. Assim, a definição não é senão um movimento de explicitação da significação, "à direita" do termo:

Os cortes perpendiculares [a,b,c,d,e] indicam os elementos de significação da definição, os quais são, na nossa perspectiva, "proposições interpretantes" da forma P --> f (x,y), onde f é o predicado, x o termo que funciona como primeiro argumento, e y o segundo argumento. As proposições, por sua vez, podem ser argumentos de outras proposições, por exemplo:
P n --> f(x,P m ), ou P n --> f(P m ,y).

Nesta abordagem, a definição terá a seguinte estrutura: x --> P 1 + P 2 + P 3 ... P n . O termo é portanto uma implicitação de proposições nas quais ele figura como primeiro argumento. Organizados sintaticamente, os elementos das proposições aparecem na seguinte ordem: x + f + y, correspondendo globalmente às categorias gramaticais SN + SV + SN (ou SN + SV). Referencialmente, a seqüência [f + y] corresponde a uma propriedade prática de x , tida como relevante num dado contexto de enunciação para denotar o objeto.

Exemplificando a partir de alguns vocábulos correntes, teríamos a seguinte análise (a partir das definições do Aurélio):

gato -->

SER (x, mamífero)

 

SER (x, carnívoro)

 

POSSUIR (x, unhas retráteis)

 

SERVIR (x, combater os ratos)

 

 

sapateiro -->

SER (x, pessoa)

 

CONSERTAR (x, sapatos)

 

 

garrafa -->

SER (x, vaso)

 

SER (x, vidro)

 

POSSUIR (x, gargalo estreito)

 

SERVIR (x, conter líquidos)

 

 

faca -->

SER (x, instrumento)

 

SERVIR (x, cortar)

 

POSSUIR (x, cabo)

 

POSSUIR (x, lâmina)

 

 

enxada -->

SER (x, instrumento)

 

SERVIR (x, capinar)

 

 

vinho -->

SER (x, bebida)

 

SER (x, alcoólico)

 

RESULTAR (x, fermentação do mosto de uva)

Sem pretender discutir aqui os detalhes da análise (cf. para isso Passeggi 1982), e apenas para ilustrar, podemos colocar os vocábulos e as proposições que explicitam sua significação numa matriz que permite depreender as regularidades dos predicados (Fig. 3).

 

SER

POSSUIR

FAZER

SERVIR

RESULTAR

gato

+

+

Ø

+

Ø

sapateiro

+

Ø

+

Ø

Ø

garrafa

+

+

Ø

+

Ø

faca

+

+

Ø

+

Ø

enxada

+

Ø

Ø

+

Ø

rinho

+

Ø

Ø

Ø

Ø

Generalizando outras análises empíricas (cf. Passeggi 1982 e 1983), podemos avançar que os predicados mais freqüentes na estruturação das proposições são os seguintes:

Ser , que pode desdobrar-se em um Ser de inclusão e um Ser de qualificação (cf. "o gato é um mamífero" vs. "o gato é carnívoro"). A notação habitual subentende o predicado e apresenta os adjetivos como predicados. Entendemos que é importante explicitar os predicados das proposições interpretantes, pelo menos até identificar os principais padrões preposicionais.

Fazer , que engloba as representações do agir, no caso "consertar". Este predicado funciona como um hiperônimo dos predicados que expressam ações ou processos.

Servir ( Usar , Utilizar , Empregar , etc.) indica a relação entre o objeto e o usuário, quando de tipo instrumental.

Possuir ( Ter , etc.) indica a relação parte/totalidade: partes do corpo, componentes de um objeto, etc.

Resultar ( Obter ), este predicado denota o trabalho humano de produção, do qual resultam objetos e substâncias.

Assim, para os nomes ou expressões nominais, teríamos uma matriz de formas preposicionais do seguinte tipo:

1) x + SERincl + y
2) x + SERqual + y
3) x + POSSUIR + y
4) x + FAZER + y
5) x + SERVIRpara + y
6) x + RESULTARde + y

Teoricamente, um conjunto de seis proposições interpretantes, com possibilidade de recursividade, seria suficiente para desenvolver os elementos significantes do nome. Mas esta matriz preposicional não pode ser fechada, pois ela é uma generalização a partir de dados empíricos e de hipóteses que se mostraram adequadas para a análise das ocorrências consideradas. Não há dúvida, entretanto, quanto ao fato da realidade lingüística e psicológica de uma matriz com um número reduzido de elementos lógicos.

A utilidade deste tipo de análise é dupla: permite uma compreensão maior do mecanismo semântico (e pragmático) expresso pela definição, e abre a possibilidade de produção de definições que sejam mais articuladas e homogêneas.

Esta matriz preposicional pode caracterizar os diferentes tipos de referentes designados pelos termos. No caso de um glossário, podemos fazer a hipótese de que os termos denotarão referentes de três tipos básicos: Objetos, Processos e Agentes, e de que para cada tipo de referente haverá uma submatriz característica.

 

2. A abordagem pragmática: a construção da definição

Podemos fazer agora algumas observações com relação à construção da definição, que engaja um componente eminentemente pragmático, além do propriamente semântico.

Para a elaboração de definições de um glossário técnico-científico, sugerimos um trabalho em três etapas:

A) Levantamento e seleção de contextos onde aparece o termo. Tratando-se de vocabulário técnico-científico, os contextos podem ser identificados com mais rapidez e segurança do que no caso do vocabulário usual. Há entretanto uma seleção a ser feita, e aí começa a regulação da significação por parte do terminógrafo.

B) Desdobramento dos contextos em proposições interpretantes e seleção das proposições para elaboração da definição. Nesta etapa transparece ainda a filtragem da significação a ser efetivada: quais proposições reter? Quais são as mais importantes, no sentido de fazer parte de uma definição "mínima"? O que quer dizer "definição mínima" no âmbito do vocabulário técnico-científico? Sem dúvida, os critérios devem ser aqui eminentemente utilitários: a melhor definição para um glossário é aquela que é mais útil para o seu usuário. Mas aqui se coloca uma outra questão: Como será definido o usuário do glossário? A quem se destina o glossário? Observe-se que estas interrogações não são muito diferentes daquelas a que deve responder a lexicografia tradicional, a qual define, com muita competência, a faixa de usuários a que se destina o produto, em razão de imperativos comerciais. Seria falso supor que, pelo fato de tratar-se de vocabulário técnico-científico, haveria uma homogeneidade total dos consulentes. Estes, apesar de partilharem uma mesma área de conhecimento ou atividade, permanecem estratificados.

C) Redação da definição, procurando as formas lingüísticas mais adequadas para a expressão das proposições interpretantes e, o que não é menos importante, procurando uma redação coerente com a redação das outras definições do glossário.

 

3. Um exemplo: a definição de "cupulate"

A) Levantamento e seleção de contextos para a definição de "cupulate"

1°) "Produto semelhante ao chocolate, feito das sementes de cupuaçu".

2°) "O novo produto, batizado "cupulate", pode ser confeccionado na forma de tabletes (branco, meio-amargo e com leite) ou de pó, a ser utilizado em padarias, no preparo de bolos e doces, ou dissolvido no leite".

3°) "A tecnologia do cupulate já foi desenvolvida pelo Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Úmido (CPATU) em Belém, PA".

Neste caso, pelo reduzido número de contextos da exemplificação, não houve nenhuma seleção (supressão de redundâncias, ou simples variantes, por exemplo): eliminou-se apenas a seqüência "batizado "cupulate" ", na medida em que reproduz o termo a ser definido.

 

B) Desdobramento dos contextos em proposições

As proposições abaixo, expressas lingüisticamente e, ao lado, na notação proposta, são apenas indicativas da metodologia que sugerimos. Cada proposição é o resultado de escolhas baseadas nos critérios básicos apresentados, e em outros ainda, que não foi possível desenvolver por falta de espaço. Mas cada uma das proposições mereceria uma discussão na medida em que ilustra aspectos específicos da problemática que nos interessa, e que não podemos detalhar aqui.

Proposições do Contexto 1

 

 

P1 --> x é um produto

SERincl (x, produto)

P2--> x é semelhante ao chocolate

SERqual (x, chocolate)

P3 --> x é feito de sementes de cupuaçu

RESULTAR (x, sementes de cupuaçu)

 

 

Proposições do Contexto 2

 

 

P4 --> x é novo

SERqual (x, novo)

P5 --> x é em tabletes

SERqual (x, tabletes)

P6 --> "x em tablete" é branco

SERqual ( P5 , branco)

P7--> "x em tablete" é meio amargo

SERqual ( P5 , meio amargo)

P8 --> "x em tablete" é com leite SERqual

(P5, com leite)

P9 --> x é em pó

SERqual (x, pó)

P10 --> x é utilizado em padarias

SERVIR (x, padarias)

P11 --> x é utilizado no preparo de bolos

SERVIR (x, preparar bolos)

P12 --> x é utilizado no preparo de doces

SERVIR (x, preparar doces)

P13 --> x é utilizado dissolvido no leite

SERVIR (x, dissolver no leite)

P14 --> x resulta de uma tecnologia desenvolvida pelo CPATU

RESULTAR (x, P15 )

P15 --> CPATU desenvolveu a tecnologia do cupulate

DESENVOLVER (CPATU, tecnologia do cupulante)

Assim, extraem-se dos contextos quinze proposições interpretantes, que serão a base para a elaboração da definição:

Proposição inclusiva:

SERincl (x, produto)

Proposições qualificativas:

SERqual (x, semelhante ao chocolate)

 

SERqual (x, novo)

 

SERqual (x, tablete) = x'

 

SERqual (x', branco)

 

SERqual (x', meio amargo)

 

SERqual (x', com leite)

 

SERqual (X, pó)

Proposições instrumentais:

SERVIR (x, padarias)

 

SERVIR (x, preparar bolos)

 

SERVIR (x, preparar doces)

 

SERVIR (x, dissolver no leite)

Proposições resultativas:

RESULTAR (x, sementes de cupuaçu)

 

RESULTAR (x,y)

Proposição factitiva: (y)

DESENVOLVER (CPATU, tecnologia do cupulate)

 

C) Redação da definição

As proposições interpretantes depreendidas permitem sugerir duas definições, entre várias outras possíveis. Uma definição "extensa" e uma definição "reduzida"; mais uma vez, coloca-se o problema da regulação da significação.

Definição "extensa"

Definição "reduzida"

Cupulate: Novo produto, semelhante ao chocolate, feito das sementes do cupuaçu. Pode ser confeccionado na forma de tabletes (branco, meio amargo, com leite) ou de pó. Utiliza-se em padaria (preparo de bolos e doces) ou como bebida, dissolvido no leite.
Obs . A tecnologia do cupulate foi desenvolvida pelo Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Úmido (CPATU), Belém-PA.

Cupulate: Produto feito da sementes do cupuaçu, semelhante ao chocolate. Confeccionado na forma de tabletes ou de pó, é utilizado na alimentação (padaria, preparo de bebidas).

Várias outras definições seriam possíveis, a partir das mesmas proposições, consistindo basicamente em variantes, baseadas na sinonímia das seqüências. Por exemplo, ao invés de "semelhante a" poderíamos ter: "similar a", "parecido com". Ao invés de "pode ser confeccionado na forma de" = " fabrica-se sob forma de".

Teríamos assim variantes definicionais que não afetariam o conteúdo preposicional, na medida em que são formulações lingüísticas sinônimas (no contexto de definição de "cupulate"). A escolha final das seqüências, assim como sua ordenação no momento da redação ficam a critério do terminógrafo, de acordo com sua percepção das necessidades do usuário, auxiliado por eventuais testes onde poderá recorrer ao próprio usuário. Trata-se de uma regulação fina dos elementos significantes que devem aparecer na definição final do termo. Entretanto, entendemos que a formulação lingüística deve basear-se em matrizes preposicionais do tipo da sugerida neste trabalho, na medida em que tais matrizes correspondem a mecanismos cognitivos gerais, mas estreitamente ligados a praxis humanas manipuladoras e transformadoras, dimensão particularmente evidente quando se trata do vocabulário técnico.

 

Bibliografia

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Lafont, R. Le travail et la langue, Paris, Flammarion, 1978.

Passeggi, L.A.S. Le réglage du sens dans le dictionnaire de langue, Natal, UFRN, Col. Textos Acadêmicos 234, 1982.

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Riegel, M. "Définition directe et indirecte dans le langage ordinaire: les énoncés définitoires copulatifs", Langue Française 73, Paris, Larousse, 1987, pp. 29-53.

 

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