Actas / Atas
1988-2002
Presentación / Apresentação
I Simposio (1988)

II Simpósio (1990)

    Índice
III Simposio (1992)
IV Simposio (1994)
V Simposio (1996)
VI Simposio (1998)
VII Simpósio (2000)
VIII Simpósio (2002)
Índice por autores

 

 

Observações sobre a terminologia das ciências agrárias

Alfeu Garcia Júnior

 

Resumo

A análise da terminologia das Ciências Agrárias tem mostrado que esse domínio, de dimensões bastante amplas, abrange vários subdomínios: Agronomia, Ciência e Tecnologia de Alimentos, Engenharia Agrícola, Medicina Veterinária, Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca e Zootecnia.

As unidades terminológicas que fazem parte do domínio das Ciências Agrárias são formadas por diferentes processos. Dentre eles destacam-se as formações sintagmáticas, muito abundantes nas linguagens terminológicas por ser a terminologia uma disciplina de caráter onomasiológico: noção - termo.

 

O estudo da terminologia das Ciências Agrárias corresponde, na verdade, à análise de vários subdomínios, pois essa área, de dimensões bastante amplas, abrange várias subáreas.

O corpus que estamos utilizando para a coleta de unidades terminológicas —de caráter neológico— relativas às Ciências Agrárias é constituído pelo suplemento agrícola Agrofolha, do jornal Folha de S. Paulo , e por revistas dedicadas especificamente a esse domínio: Globo Rural (editora Globo), Guia Rural (editora Abril) e Manchete Rural (editora Bloch), que têm sido analisados desde agosto de 1989. Consideramos neológicos os termos não-incluídos em um dicionário da língua portuguesa (Ferreira, 1986) e em dicionários especializados (Assoe. Brasileira de Irrigação e Drenagem, 1978; Haseloff, 1979).

Este corpus, formado por revistas semi-especializadas, constitui uma linguagem dirigida não apenas a não-especialistas, mas também a usuários do domínio das Ciências Agrárias. É produzida por jornalistas, geralmente com alguma formação no domínio em questão.

Nessas revistas e nesses suplementos jornalísticos, temos coletado neologismos referentes ao subdomínio das Ciências Agrárias. Esses subdomínios obedecem à classificação das áreas de conhecimento proposta pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a qual, por sua vez, resulta de um esforço conjunto entre diversos organismos e profissionais de diversos domínios:

Agronomia: adubação verde ;

Ciência e Tecnologia de Alimentos: adubadora-semeadora ;

Medicina Veterinária: banhos carrapaticidas , tristeza bovina ;

Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca: curral aquático ;

Zootecnia: nível zootécnico .

Verificamos que as unidades terminológicas que constituem o vocabulário das Ciências Agrárias correspondem a diferentes formações: derivação sufixal (zootecnista) e prefixal (macro-poros); composição (galinheiro-hospital, melão-estufa); neologia sintagmática (mandioca amarela, palmito híbrido); acronímia (PC (por cruzamento)); neologia semântica (amarelinho (doença de planta)); empréstimo (free stall).

Dentre os vários subdomínios —os quais, por sua vez, também se dividem em outros subdomínios— que compõem o domínio das Ciências Agrárias, pudemos constatar que as formações referentes à Agronomia são as mais numerosas e, entre elas, as formações sintagmáticas são as mais representativas quanto ao aspecto quantitativo. Por essa razão, este trabalho limitar-se-á ao estudo das formações sintagmáticas relativas ao subdomínio da Agronomia.

 

Formações sintagmáticas no subdomínio da Agronomia

Estamos adotando a denominação neologia sintagmática, proposta por Guilbert (1975,101-2).

O mesmo conceito é designado grupo de palavras por Felber (1987, 144) e lexia complexa por Pottier (1974,266-7). Preferimos adotar a terminologia sugerida por Guilbert que observou, nos vocabulários científicos e técnicos, a grande ocorrência de formações sintagmáticas, tanto nas terminologias consolidadas como nas terminologias em formação (1965 e 1967).

Felber (op.cit., 144) explica este fenômeno mostrando que, numa linguagem determinada, o número de raízes ou radicais é muito pequeno em relação ao número de noções para as quais é necessário encontrar ou criar um termo. Conseqüentemente, a maioria dos termos resulta de combinações que produzem uma unidade lexical composta ou uma formação sintagmática.

Nas formações sintagmáticas, a noção representada por um termo é ligada a uma ou diversas noções. As noções complementares ajustam-se às noções de determinação, numa seqüência linear. O gênero, ainda de acordo com Felber, é o determinado; as noções complementares constituem os determinantes (p. 144).

As formações sintagmáticas empregadas no vocabulário da Agronomia apresentam características variadas. A maioria desses sintagmas é constituída por substantivos, em função determinada, e por um adjetivo determinante; ou seja, o gênero mais a noção complementar (cultura intercalar):

"O capim pode ser utilizado por cortes periódicos ou ser deixado para pastejo após a colheita da < cultura intercalar >" ( Agrofolha, 19.12.89, p. H 4, c. 4);

ou por um substantivo determinado, seguido por preposição e substantivo em função determinante (microbiologia do solo):

"Mas esse nomadismo é só aparente: na vida, como no trabalho, a doutora Johanna Dobereiner, uma das maiores especialistas em <microbiologia do solo> é essencialmente uma mulher de razão" (Globo Rural , 12/89, p. 63, c. 1).

Além desses dois tipos de formação sintagmática, registramos outros sintagmas constituídos por um substantivo, em função determinada, e por complementos diversos, em função determinante:

substantivo + preposição + sintagma (substantivo + preposição + substantivo) - produção de fundo de quintal , pulverizadores de fluxo de ar,

substantivo + substantivo composto - estufa guarda-chuva;

substantivo + adjetivo + adjetivo - fronteiras agrícolas internas, problemas climáticos cíclicos;

substantivo + preposição + sintagma (substantivo + adjetivo) - sistema de semeadura direta, amendoim de casca branca;

substantivo + adjetivo + preposição + substantivo - necrose-branca do fumo, bactérias fixadoras de nitrogénio.

Essas diferentes formações sintagmáticas refletem, na verdade, diferentes relações entre noções.

O grande número de neologismos de caráter sintagmático, em nosso corpus, permite-nos concluir que, apesar de termos trabalhado com uma linguagem semi-especializada, o corpus estudado apresenta características das linguagens técnicas e científicas propriamente ditas. Como já afirmamos, neologismos sintagmáticos são sempre numerosos nas linguagens terminológicas, uma vez que a terminologia constitui uma disciplina de caráter onomasiológico, em que da noção se atinge a unidade terminológica.

 

Referências bibliográficas

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IRRIGAÇÃO E DRENAGEM. Dicionário de termos técnicos de irrigação e drenagem, Viçosa, Imprensa Univ. da Universidade Federal de Viçosa, 1978.

FELBER, H. Manuel de terminologie, Paris, Unesco/Infoterm, 1987.

FERREIRA, A.B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa, 2a ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.

GUILBERT, L. La créativité lexicale, Paris, Larousse, 1975.

_____. La formation du vocabulaire de l'aviation, Paris, Larousse, 1965.

_____. Le vocabulaire de l'astronautique. Rouen, Presses de l'Université de Rouen, 1967.

HASELOFF, B. Dicionário técnico de apicultura, São Paulo, Girassol, 1979.

POTTIER, B. Linguistique générale. Théorie et description, Paris, Klincksieck, 1974.

 

Editado con el apoyo de
Editado com o apoio da: