| Observações sobre a terminologia das ciências agrárias Alfeu Garcia Júnior Resumo
A análise da terminologia das Ciências Agrárias tem mostrado que esse domínio, de dimensões bastante amplas, abrange vários subdomínios: Agronomia, Ciência e Tecnologia de Alimentos, Engenharia Agrícola, Medicina Veterinária, Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca e Zootecnia.
As unidades terminológicas que fazem parte do domínio das Ciências Agrárias são formadas por diferentes processos. Dentre eles destacam-se as formações sintagmáticas, muito abundantes nas linguagens terminológicas por ser a terminologia uma disciplina de caráter onomasiológico: noção - termo.
O estudo da terminologia das Ciências Agrárias corresponde, na verdade, à análise de vários subdomínios, pois essa área, de dimensões bastante amplas, abrange várias subáreas. O corpus que estamos utilizando para a coleta de unidades terminológicas —de caráter neológico— relativas às Ciências Agrárias é constituído pelo suplemento agrícola Agrofolha, do jornal Folha de S. Paulo , e por revistas dedicadas especificamente a esse domínio: Globo Rural (editora Globo), Guia Rural (editora Abril) e Manchete Rural (editora Bloch), que têm sido analisados desde agosto de 1989. Consideramos neológicos os termos não-incluídos em um dicionário da língua portuguesa (Ferreira, 1986) e em dicionários especializados (Assoe. Brasileira de Irrigação e Drenagem, 1978; Haseloff, 1979). Este corpus, formado por revistas semi-especializadas, constitui uma linguagem dirigida não apenas a não-especialistas, mas também a usuários do domínio das Ciências Agrárias. É produzida por jornalistas, geralmente com alguma formação no domínio em questão. Nessas revistas e nesses suplementos jornalísticos, temos coletado neologismos referentes ao subdomínio das Ciências Agrárias. Esses subdomínios obedecem à classificação das áreas de conhecimento proposta pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a qual, por sua vez, resulta de um esforço conjunto entre diversos organismos e profissionais de diversos domínios: Agronomia: adubação verde ; Ciência e Tecnologia de Alimentos: adubadora-semeadora ; Medicina Veterinária: banhos carrapaticidas , tristeza bovina ; Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca: curral aquático ; Zootecnia: nível zootécnico .
Verificamos que as unidades terminológicas que constituem o vocabulário das Ciências Agrárias correspondem a diferentes formações: derivação sufixal (zootecnista) e prefixal (macro-poros); composição (galinheiro-hospital, melão-estufa); neologia sintagmática (mandioca amarela, palmito híbrido); acronímia (PC (por cruzamento)); neologia semântica (amarelinho (doença de planta)); empréstimo (free stall). Dentre os vários subdomínios —os quais, por sua vez, também se dividem em outros subdomínios— que compõem o domínio das Ciências Agrárias, pudemos constatar que as formações referentes à Agronomia são as mais numerosas e, entre elas, as formações sintagmáticas são as mais representativas quanto ao aspecto quantitativo. Por essa razão, este trabalho limitar-se-á ao estudo das formações sintagmáticas relativas ao subdomínio da Agronomia. Formações sintagmáticas no subdomínio da Agronomia Estamos adotando a denominação neologia sintagmática, proposta por Guilbert (1975,101-2). O mesmo conceito é designado grupo de palavras por Felber (1987, 144) e lexia complexa por Pottier (1974,266-7). Preferimos adotar a terminologia sugerida por Guilbert que observou, nos vocabulários científicos e técnicos, a grande ocorrência de formações sintagmáticas, tanto nas terminologias consolidadas como nas terminologias em formação (1965 e 1967). Felber (op.cit., 144) explica este fenômeno mostrando que, numa linguagem determinada, o número de raízes ou radicais é muito pequeno em relação ao número de noções para as quais é necessário encontrar ou criar um termo. Conseqüentemente, a maioria dos termos resulta de combinações que produzem uma unidade lexical composta ou uma formação sintagmática.
Nas formações sintagmáticas, a noção representada por um termo é ligada a uma ou diversas noções. As noções complementares ajustam-se às noções de determinação, numa seqüência linear. O gênero, ainda de acordo com Felber, é o determinado; as noções complementares constituem os determinantes (p. 144).
As formações sintagmáticas empregadas no vocabulário da Agronomia apresentam características variadas. A maioria desses sintagmas é constituída por substantivos, em função determinada, e por um adjetivo determinante; ou seja, o gênero mais a noção complementar (cultura intercalar):
"O capim pode ser utilizado por cortes periódicos ou ser deixado para pastejo após a colheita da < cultura intercalar >" ( Agrofolha, 19.12.89, p. H 4, c. 4);
ou por um substantivo determinado, seguido por preposição e substantivo em função determinante (microbiologia do solo):
"Mas esse nomadismo é só aparente: na vida, como no trabalho, a doutora Johanna Dobereiner, uma das maiores especialistas em <microbiologia do solo> é essencialmente uma mulher de razão" (Globo Rural , 12/89, p. 63, c. 1).
Além desses dois tipos de formação sintagmática, registramos outros sintagmas constituídos por um substantivo, em função determinada, e por complementos diversos, em função determinante: substantivo + preposição + sintagma (substantivo + preposição + substantivo) - produção de fundo de quintal , pulverizadores de fluxo de ar, substantivo + substantivo composto - estufa guarda-chuva; substantivo + adjetivo + adjetivo - fronteiras agrícolas internas, problemas climáticos cíclicos; substantivo + preposição + sintagma (substantivo + adjetivo) - sistema de semeadura direta, amendoim de casca branca; substantivo + adjetivo + preposição + substantivo - necrose-branca do fumo, bactérias fixadoras de nitrogénio. Essas diferentes formações sintagmáticas refletem, na verdade, diferentes relações entre noções. O grande número de neologismos de caráter sintagmático, em nosso corpus, permite-nos concluir que, apesar de termos trabalhado com uma linguagem semi-especializada, o corpus estudado apresenta características das linguagens técnicas e científicas propriamente ditas. Como já afirmamos, neologismos sintagmáticos são sempre numerosos nas linguagens terminológicas, uma vez que a terminologia constitui uma disciplina de caráter onomasiológico, em que da noção se atinge a unidade terminológica. Referências bibliográficas ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IRRIGAÇÃO E DRENAGEM. Dicionário de termos técnicos de irrigação e drenagem, Viçosa, Imprensa Univ. da Universidade Federal de Viçosa, 1978. FELBER, H. Manuel de terminologie, Paris, Unesco/Infoterm, 1987. FERREIRA, A.B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa, 2a ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. GUILBERT, L. La créativité lexicale, Paris, Larousse, 1975. _____. La formation du vocabulaire de l'aviation, Paris, Larousse, 1965. _____. Le vocabulaire de l'astronautique. Rouen, Presses de l'Université de Rouen, 1967. HASELOFF, B. Dicionário técnico de apicultura, São Paulo, Girassol, 1979. POTTIER, B. Linguistique générale. Théorie et description, Paris, Klincksieck, 1974. |