Actas / Atas
1988-2002
Presentación / Apresentação
I Simposio (1988)

II Simpósio (1990)

    Índice
III Simposio (1992)
IV Simposio (1994)
V Simposio (1996)
VI Simposio (1998)
VII Simpósio (2000)
VIII Simpósio (2002)
Índice por autores

 

 

Conferência de abertura

Prof. António Houaiss

 

Não acompanhando, como profissional, os trabalhos terminológicos técnico-científicos que vêm sendo desenvolvidos no mundo contemporâneo, sigo-os apaixonadamente como estudioso de lingüística e filologia desde que tenho consciência de mim. Mas desculpo-me antecipadamente se lhes disser algo que lhes soará como óbvio, na certeza de que, compensatoriamente, lhes direi algo que não lhes soará óbvio, algo que deriva do convívio interessado com esse monstro celeste e diabólico, de mil faces mais uma, que é a palavra.

Permitam-me que lhes proponha a recapitulação de algumas premissas relativas à palavra: a sua história, a sua amplitude, o seu uso instrumental.

Primeiro, já hoje, começamos a suspeitar - creio que com muito fundamento - que só somos seres humanos a partir de três traços inovadores e fundadores, a saber: um, somos manipuladores da natureza por uma ação transformadora a que damos o nome de trabalho, se se quiser, de ação, que não se contenta de repetir-se sempre igualmente, mas busca, desde as origens, ser cada vez mais eficiente ou eficaz, isto é, obter não resultados iguais, mas cada vez quantitativa e qualitativamente maiores e melhores; dois, somos, por isso, insaciavelmente insatisfeitos, deslocando-nos nos espaços e nos tempos continuamente, fazendo-nos ubíquos e sonhando com a eternidade; três, somos isso porque somos o resultado de se haver em nós investido a palavra.

Foi ela que nos deu - num processo basicamente igual, geneticamente falando, mas extremamente diferenciado de grupo humano a grupo humano fenotipicamente falando - a capacidade universalmente igual de estabelecer nexos intrínsecos entre certos conjuntos de sons ou fonemas, relativamente estabilizados, e certas idéias por sua vez ligadas ou provindas de certas coisas reais ou relações ou processos analogamente reais, isto é, virtuais ou potenciais.

Nisso que é aí dito, somos, creio, todos iguais, de há um milhão e oitocentos mil anos (com o genus Homo) ou de 120-80 mil anos (com o Homo sapiens) para cá. É impressionante como, se de uma escala cronológica longa ou se de uma curta, já hoje abandonamos a ingênua escala ainda dezenovesca de um mítico tempo bíblico literal que recuava, se tanto, a seis mil anos atrás.

Há um segundo dado que considero relevante aqui dar como premissa das palavras que adiante considerarei. A amplitude da palavra confunde-se no conhecimento humano com a amplitude das línguas. Há razões muito boas para crer que, há um milhão e oitocentos mil anos, quando seríamos menos de dez ou cem seres apenas, tínhamos uma língua só. Mas ao cabo de pouco tempo depois, seríamos um milhão de seres, com alguns milhares de línguas que, há apenas dez mil anos, seriam - sem as extintas - algo em torno de 20 mil línguas sobreviventes. Todas teriam características comuns: usariam de entre pouco mais de 20 a pouco menos de 55 fonemas - num animal capaz de emitir diferenciadamente digamos 20 mil sons - em cada língua, que se estruturavam com mil a mil e quinhentas regras sistemáticas e usavam em torno de três mil palavras - tudo internalizadamente, isto é, com mnemônica natural, isto é, numa aquisição e retenção mental tão aparentemente espontâneas que dispensavam escolas, professores, alunos e aprendizado: aos 10 a 13 anos de idade, esse ser sabia tudo que todos os seres de sua grei ou clã ou grupo ou tribo ou gente sabia.

Mas já então, em certos grupos humanos, o concurso das virtualidades humanas - fazer e conhecer produtivos e inovadores - haveria acumulado fórmulas em demasia para a memória. Talvez desde então uma das lutas permanentes de nossa condição tenha sido vencer a barreira dos limites de nossa memória natural.

É fácil recapitular as grandes fases disso: tivemos uma primeira em que cada povo começou a ter arquivos vivos, isto é, humanos mesmos, isto é, seres humanos cuja função social terá sido armazenar o saber coletivo, tornado cimento e crença e esperança da perduração coletiva: que seus nomes fossem aedos, rapsodos, vares, profetas, cantores, poetas, pajés, xamãs é coisa irrelevante; relevante é que acumulavam e retinham toda a tradição-transmissão-inovação, inventando apoios mnemotécnicos, como estrofes, ritmos, aliterações, cognatismos, repetições, rimas, anáforas, homeoteleutos, em suma, uma panóplia de isotopias e isossemias que lhes facultava a preservação fidedigna do saber e crer acumulados.

Depois, demos o primeiro grande passo físico, há 8-6 mil anos apenas, após havermos tentado o mimetismo icônico da pintura e da escultura, que já vinha de vários milhares de anos antes. Demos o salto gráfico, o ideográfico, o quipográfico, para, ato contínuo, nos lançarmos ao fonográfico, das escrituras ainda hoje perdurantes sem solução de continuidade. Essa fase deixa-nos as literaturas ditas genericamente clássicas, a egípcia, a chinesa, a sânscrita, a hebraica, a grega, a latina, a árabe, como principais - para citarmos apenas algumas -, prosseguidas pelas modernas oriundas dos ramos românico, germânico, anglo-saxônico, eslavo, do tronco indo-europeu, e as do semítico, do uralo-altaico, do mongólico, do chino-tai - e fiquemos nisso. Foi uma floração de palavras, já não de palavras que voavam, mas de palavras escritas, que permaneciam.

Novamente a memória humana natural foi desafiada. Como usar dessa imensa floração escrita mas caoticamente acumulada, quanto ao léxico, à temática, aos fins? Como dar-lhe a possibilidade de uma ordenação?

Três séculos antes de nossa era, pela primeira vez os elementos de um código escrito - o grego - foram usados como alfa-beta-gama-delta etc. para designar ou indicar os dezoito sucessivos episódios da Ilíada. Essa fixação de seqüência teve resultados práticos só dezoito séculos depois, quando no Renascimento, a erudição notou que, grupando as palavras iniciadas por a, podia propor-se a distribuição em vinte e cinco ou seis caixilhas de universo verbal, tornando luminoso o achamento de cada palavra, em cada seqüência da letra de base, dessa letra mais a de novo, ou mais b, ou mais c, e assim até a última letra de cada palavra, já agora verbete de um dicionário alfabético. Foi uma invenção espantosa, graças à qual a floração de dicionários e enciclopédias, em todas as línguas de cultura, pode fazer-se com crescente riqueza, por crescente faculdade de organização e sobretudo de achamento do encerrado neles, dicionários ou enciclopédias.

Se tomarmos como termo de referência dois traços apenas da aventura humana, o de fazer, pelas profissões, e o de conhecer, pela escrita, veremos uma correlação constante: quanto mais o léxico se enriquece de unidades, mais a língua de cultura a que ele pertence passa a ser geradora de bens materiais e imateriais.

Assim, durante um período imenso - quase um milhão e setecentos e noventa mil anos ou quase 110-90 mil anos, segundo a cronologia longa ou a curta a que me referi antes - o dia-a-dia humano terá transitado de uma ou duas profissões apenas, originais, para, pela divisão do trabalho, umas duas dezenas. Há dez mil anos, teremos chegado a isso ou pouco mais ou menos. Sabemos que pelos fins do mundo clássico ocidental, aí pelo século VI depois de Cristo, o léxico grego e o latino nos autorizam a discriminar cerca de 55 profissões, entre ciências, técnicas, artes, artesanias, artesanatos e serviços e afins. Nosso padre Rafael Bluteau, pelos inícios do século XVIII, discrimina já para mais de noventa profissões, que Comte, pelos meados do século XIX, elevava a pouco mais de quatrocentas.

Em 1963, a UNESCO, para ajudar os trabalhos da IUNCTAD, elaborou um catálogo das profissões humanas, com cerca de 24 mil entradas, que nesta altura já devem ser 30 mil; e nada autoriza a supor que sua floração esteja estancada.

De outro lado, tudo leva a crer que, durante o imenso lapso de tempo em que o ser humano foi literalmente agrafo, nenhuma dos milhares de línguas de seu uso tenha tido léxico de mais de três mil palavras, que terão, talvez, chegado a oito mil quando das culturas de canto mnemônico, entre 10 e 4 mil anos atrás. Com as culturas gráficas, chegamos, após um milênio de escrita, a acervos lexicais de em torno de 50 mil palavras, que pelos meados do século XIX chegavam a noventa mil palavras. É então que explodem as profissões modernas, essas trinta mil a que me referi pouco atrás.

Se cada uma dessas trinta mil novas profissões tivesse gerado dez neologias, haveria a partir de meados do século XIX a gestação de trezentas mil palavras: pois os léxicos das grandes línguas de cultura modernas acusam, com efeito, entre quatrocentas a quatrocentas e cinqüenta mil palavras. Essa - dir-se-ia - brutal, melhor, notável, sensacional, estupenda, estúpida, estapafúrdia floração é, de novo, um ônus aparentemente caótico que pesa sobre a memória humana, por mais que amparada por recursos físicos, mecânicos, eletrônicos e cibernéticos.

Espero que me considerem aborrecido, aborrente e aborrecível nestas minhas considerações - mas lhes rego alguns minutos mais de paciência e aborrecimento. Nas esteiras de Lineu, creio eu, em especial no universo da botânica, e nas esteiras de médicos desde a Antiguidade, os termos técnicos, que já se exemplificam aqui e ali nos léxicos das línguas clássicas, são a fonte por excelência da explosão vocabular do mundo moderno. Enquanto na remota tradição gráfica, o acúmulo semântico num vocábulo só foi algo, digamos, normal, a partir de modernidade profissional, científica, técnica, a vocação terminológica foi-se afeiçoando com uma diretriz subjacente - a cada vocábulo, um sentido.

Mas é possível ver alguns traços característicos dessa explosão vocabular:

1°) enquanto a inovação científica e técnica foi comunicada ao mundo em latim, desde os fins da Idade Média até inícios, pelo menos, do século XX, os neologismos foram predominantemente forjados com radicais e morfemas preferentemente latinos e gregos, estes, alatinados, de tal arte que todas as línguas de cultura moderna, em especial as ocidentais, cedo souberam adaptar, quando necessários, esses vocábulos do latim científico aos respectivos vernáculos;

2°) com isso, quase espontaneamente, se logravam dois ideais terminológicos: a univocidade - um só sentido em cada vocábulo - e a biunivocidade - um só sentido para um só vocábulo - mas com um terceiro admirável requisito: a internacionalidade ou internacionabilidade, ou a universalidade ou universabilidade, dessa biunivocidade;

3°) mesmo quando se distinga - e convém - nomenclatura de terminologia, dando-se àquela o sentido de convenção pactuada conscientemente pelos homens para fixar o modo de nomear entes (muitas vezes ainda inominados) de um universo cognitivo-operativo especial, por exemplo, na química, bioquímica, farmacoquímica e afins, os traços latino-helenizantes perduraram, facilitando a sua universalização relativa, em função de uma experiência havia já secular, digo multissecular;

4°) não sem razão, por conseguinte, vêm constituindo tropeços nomenclatores ou terminológicos vocábulos montados sobre palavras de curso vernacular (qualquer que seja o vernáculo) apenas - veja-se o que acontece com spin , com stress, com zoom e quejandos, na esteira de croupe, écran e afins, e a lista poderia ser longa; se chegarmos, e chegaremos, a uma convenção sobre criação terminológica, será ideal que voltemos aos recursos greco-latinos, que, longe de estarem esgotados em suas potencialidades, não só ofereceram a base de abertura do mundo moderno para os fins aqui considerados, mas são ainda uma base segura com que se possa prosseguir no imperativo da criação neológica. É que o progresso humano é discriminador e denominador - como que não existindo os seres ou os entes da razão se não lhes dermos, a cada um, um nome.

Um prestante dicionário de formantes - isto é, prefixos, sufixos, radicais, raízes memas - com que se formaram os neologismos do mundo moderno, quero dizer, do Renascimento aos dias de hoje, oferece um total não superior a três mil unidades que, embora não exaustivas, dão conta de uma imensa floração terminológica desses cinco últimos séculos, com aplicabilidade a todas as línguas românicas, anglo-saxônicas, germânicas e não raro eslavas, com extrapolabilidade - ousaria dizer - a todas as línguas de cultura modernas em todas as latitudes e longitudes.

Como se vê, esse seria um tentame colegiado que valeria a pena ser feito por técnicos e filólogos dos países ou de suas seções profissionais, interessados num padrão universalizável de nomenclatura e terminologia. É que, muitas vezes, a adaptação de neologismos internacionalizáveis se faz sem conhecimento dos precedentes, o que torna, fonte de equívocos e más formações que, por constituírem excepcionalidades, constituem também sobrecarga mnemônica e desvio de sistema.

Permitam-me que ressalte mais uma vez o caráter predominantemente internacionalizante das nomenclaturas e terminologias modernas, sem o qual o mérito delas ficaria muito reduzido. Há nisso um ideal de biunivocidade interlinguageiro, em face das crescentes necessidades de tradução na intercomunicação mundial. Mas esse caráter é resultado, como que espontâneo, disso que vem sendo chamado latim científico há mais de um século, mas praticado com progressiva coerência nos mundos das ciências e das técnicas há mais de cinco séculos, com raízes de alguns séculos antes, no latim das primeiras universidades, por sua vez não mais que mero continuador do latim eclesiástico, por sua vez do latim da cristandade, por sua vez do latim pura e simplesmente. Esse instrumental linguageiro, dessa essência greco-latina, é que, por sua vez, foi sendo adaptado quando necessário aos vernáculos, com regras de adaptação quase sempre coerentes e quase sempre constantes.

Nessa coerência e nessa constância, relativas embora, é que se embebe a tradição de cada vernáculo, ao lidar com tais vocábulos. Não foi Comte que, ao forjar a palavra sociologie - quase universalmente aceita em cada vernáculo -, desacreditou a obsessão dos puristas contra os hibridismos, isto é, vocábulos com formantes oriundos de línguas diversas. Já vários séculos antes isso vinha ocorrendo com os grecismos que floresceram no universo clássico latino, não só na onomasiologia - as palavras do vocabulário comum -, mas também no onomástico - os nomes próprios de pessoas e lugares, mais especificamente os antropônimos, os topônimos, os astrônimos, os geônimos, os potamônimos, os talassônimos, os orônimos e o que sei eu mais.

Há, creio, que reconhecer que as grandes línguas modernas de cultura não se abriram com igual facilidade à invasão da neologia terminológica, tão forte e intensa a partir da segunda metade do século XIX. Isso pode ser aferido pelo exame dos grandes dicionários que, também desse meio século XIX ao presente, foram realizados.

Havia um ponto de estrangulamento, quase nunca confessado: quando, num dicionário, não havia registro de certas palavras, a justificativa disso era consabida: tratar-se-ia de terminologias... Acontecia, porém, que a linguagem dos periódicos, a linguagem do cotidiano, a linguagem da prosa, da ficção, da poesia não eram infensas às terminologias - ainda que as incorporassem a si de modo aleatório ou, para ser mais real, de modo prático assistemático em que o comércio, a venda dos produtos novos ou inovadores eram os árbitros da difusão de neologismos terminológicos.

Mas perduravam os problemas, acrescidos, das terminologias entre si. Se, por sua vocação expressa nos seus formantes, deveriam ser internacionalizantes, muitas vezes se esqueceram disso - por exemplo, em filosofia e em psicanálise, entre alemães, com dificuldades adaptativas não pequenas, pelo caráter altamente sintético de suas palavras: o não uso do latim científico criou obstáculos à intemacionalização.

A tradição parece, porém, ser o caminho por excelência, porque é uma tradição muito aberta, muito didática, muito receptiva ao novo. E o é, se não me engano, por três razões principais: porque é a mais difundida e porque é possível, a curto prazo, fazer-se um dicionário internacional de formantes usados nas terminologias e nomenclaturas das línguas modernas de cultura, não apenas com entradas dos significantes formantes, mas também com entradas de significados formantes; segundo, o arranjamento desse material iria permitir que brotasse uma sistemática de uso virtual e potencial desses formantes; terceiro, os usuários de cada terminologia seriam habituados a verificar que seus problemas específicos, de cada terminologia, talvez tivessem muitas coisas em comum com outra ou outras terminologias - o que talvez viesse a sugerir soluções mais abrangentes de tais tipos de problemas.

O fato é que é sentida universalmente a necessidade de se erguer, num futuro tão próximo quanto possível, uma nomenclatura da terminologia, ou uma nomenclatura da terminologização, ou uma terminologia da terminologizacão. Do ponto de vista formal, do significante, a tarefa é - relativamente - fácil, quer dizer, factível, exeqüível. Do ponto de vista semântico ou semiológico ou semasiológico, só especialistas da área cognitivo-operativa em causa é que devem dirimir.

Recordo-me de ter tido, não faz muito, a oportunidade, em Paris, de ver em atuação um grupo de trabalho terminológico, mercê do trabalho benévolo, isto é, de funcionários públicos ou de empresas estatais, paraestatais ou privadas que, convidados por seu notório saber na área, numas quantas horas se punham de acordo quanto à forma significante, davam-lhe exemplos de uso e sua definição na área específica.

No caso concreto das relações hispano-portuguesas ou latino-americano-brasileiras, não há como fugir dos precedentes sistemáticos já logrados em inglês, francês, alemão e russo, ou mais, latamente, em línguas anglo-saxônicas, germânicas, românicas ou eslavas em geral. Os riscos de poluir - permitam-me a palavra neste contexto - as terminologias em espanhol e português, pelo recurso a isso, é menor do que sem o recurso a isso.

Parto, também, de um pressuposto, já experimentado, que é muito fecundo: adotados textos em tais ou quais línguas como precedentes de referência, há sempre uma tarefa escrita prévia in absentia dos decisores, que se reunirão apenas quando a matéria já for bastante para um convívio in praesentia que seja rendoso e fecundo.

Já antevejo os glossários, léxicos, vocabulários, dicionários nomenclatores e terminológicos florescendo ante os meus olhos. E gostaria, realmente, que isso acontecesse. Apenas, tomo a liberdade de lembrar-lhes que, na minha idade, não se pode esperar muito.

Mas pode-se dizer, até com ênfase, muito obrigado pela paciência de todos.

 

Editado con el apoyo de
Editado com o apoio da: