| Um desafio terminológico aos lingüistas:
a construção de glossários Francisco Gomes de Matos
Universidade Federal de Pernambuco
Brasil
Resumo
À luz de um enfoque sociolingüístico, serão analisados alguns dos problemas terminológicos em glossários de obras introdutórias escritas por lingüistas brasileiros. Objetivando contribuir à formação terminológica de autores especializados em ciências da linguagem, serão formuladas diretrizes norteadoras da construção do glossários.
O senso terminológico dos lingüistas: 3 exemplos 1. Na organização de obras introdutórias:
BOLINGER, DWIGHT. Aspects of Language. New York, Harcourt Brace, 1968.
Cada capítulo apresenta listagem: KEY TERMS AND CONCEPTS. 2. Em obras destinadas à formação de especialistas:
HASAN, RUQAIYA. Linguistics, language and verbal art. Oxford University Press, 1989.
penúltima página do livro, uma listagem: TECHNICAL TERMS. 3. Em obra resultante de pesquisa empírica:
CAVALCANTI, MARILDA DO COUTO. Interação Leitor-Texto. Aspectos de Interpretação Pragmática. Campinas, Editora da UNICAMP, 1989.
página 25: Panorama da terminologia usada em literatura com base em conhecimento prévio.
página 27: Quadro 1.2. Definição dos principais termos usados em diferentes áreas. (A autora parte do Pesquisador focalizado, registra os Principais termos usados e dá a Definição do termo). A necessidade de cooperação: 1 exemplo Maria Carmelita Pádua Dias, tradutora e adaptadora da obra Dicionário de Lingüística e Fonética , do lingüista britânico David Crystal (Rio, Jorge Zahar Editor, 1988). Original: A Dictionary of Linguistics and Phonetics , 2nd ed., Oxford, Basil Blackwell, 1985 —esclarece, em Nota (p. 11) que recorreu a seis colegas da PUC-RJ para elucidação de "pontos relativos as suas respectivas especialidades". Uma série para iniciação: PRINCÍPIOS, Editora Ática, São Paulo. Nossa amostra: 10 livros, escritos por lingüistas com diferentes formações e orientações. A antiguidade do termo glossário: em língua inglesa, segundo o The Rondam House Dictionary of the English Language . Unabridged edition (New York, Random House, 1987), a datação para GLOSSARY seria 1350-1400; para DICTIONARY, 1520-1530 NOMENCLATURE, 1600-1610; TERMINOLOGY, 1795-1805. O referido dicionário também esclarece a datação para TECHNICAL, 1610-1620 e para SCIENTIFIC, 1500-1590. VOCABULARY ? Dataria de 1525-1530. INDEX ? 1350-1400. DEFINIÇÃO DE GLOSSÁRIO POR UM LINGUISTA:
Glossário - uma lista, em ordem alfabética, de termos usados num campo
especializado.
CRYSTAL, DAVID. The Cambridge Encyclopedia of Language . Cambridge University Press, 1987, p. 422. DEFINIÇÃO DE GLOSSÁRIO POR TERMINÓLOGOS:
Glossário - Um glossário é uma lista de termos com explicações e/ou definições.
SAGER, J.C., David Dungworth & Peter F. McDonald. English Special Languages .
Principies and practices in science and terminology . Wiesbaden, Brandstetter, 1980, p. 162. UMA LISTA PARA AVALIAÇÃO DA QUALIDADE TERMINOLÓGICA DE GLOSSÁRIOS ELABORADOS POR LINGUISTAS BRASILEIROS
Pergunta-chave
1. Há evidência de senso terminológico ? Onde?
2. Usa o termo termo e/ou terminologia ? Onde? Quantas vezes?
3. Usa um estilo definitório conciso, claro, adequado?
4. Registra sinonímia, justificando-se? Termos concorrentes?
5. Adota empréstimos, sem aportuguesá-los?
6. Dá o sentido mais recente do termo?
7. Ilustra o uso do termo em contexto? Remete ao corpo do trabalho?
8. Esclarece a origem do termo?
9. Distingue o termo de outros, que designam conceitos semelhantes?
10. O tratamento dos termos é consistente?
AMOSTRA: 10 livros da série PRINCÍPIOS, publicados pela Ática, São Paulo.
1. BASLIO, Margarida. Teoria lexical, 1987 (22 entradas)
2. BECHARA, Evanildo. Ensino de Gramática: Opressão? Liberdade?, 1985. (55)
3. CARONE, Flávia de Baixos. Subordinação e coordenação. Confrontos e Contrastes, 1985. (25)
4. CARVALHO, Nelly. Empréstimos lingüísticos, 1989. (14)
5. ELIA, Sílvio. A língua portuguesa no mundo, 1989.
6. LEMLE, Miriam. Guia teórico do alfabetizador, 1987. (10)
7. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da conversação, 1986. (6)
8. PERINI, Mário. Para uma nova gramática do português, 1985. (11)
9. STEINBERG, Martha. Morfologia inglesa. Noções introdutórias, 1985. (21)
10. TARALLO, Fernando. A Pesquisa Sociolingüística , 1985. (37).
OS DADOS Identificação : sobrenome do(a) autor(a) e página.
BASLIO, p. 91
Morfema : elemento mínimo constituinte de palavra; formativo. Em algumas nomenclaturas, o termo é usado em referência a elementos gramaticais, em oposição aos lexicais. No estruturalismo norte-americano, o morfema era freqüentemente definido como o elemento mínimo portador de significado na estrutura de uma língua.
Problema : grau de informatividade: elevado demais.
BECHARA, p. 71
Gramática gerativa e transformacional : a que trata das relações, expressamente das relações de equivalência entre estrutura superficial e a chamada estrutura profunda.
Problema : subjetivismo: uso pejorativo do adjetivo chamada.
CARONE, p.80
Glossemática : Hjelmslev parte da palavra grega glossa ("língua"), de que faz derivar glossema (unidade lingüística). A Glossemática é, portanto, a teoria da linguagem que se fundamenta nos glossemas.
Problema : circularidade.
CARVALHO, p. 78
Parole (fala) : termo introduzido por Saussure para caracterizar os enunciados produzidos pelos indivíduos em situações reais. Pode ser substituído por fala ou discurso.
Problema : exatidão sinonímica.
ELIA, p. 70
Língua padrão (ou standard) : variedade lingüística que, por motivos de ordem sociocultural, é elevada à condição de modelo gramatical a ser ensinado nas escolas, constituindo-se assim na norma culta de determinada sociedade.
Problema : confusão entre o todo e a parte (superordenação).
LEMLE, p. 67
Som da fala : segmento de som em uma cadeia lingüística, tratado no nível da representação, que retrata apenas as características do som, sem separar os traços distintivos dos que são redundantes, ou seja, previsíveis por regra.
Problema : complexidade definitória (processabilidade).
MARCUSCHI, p. 89
Frame : termo proveniente da área dos estudos cognitivistas, e que serve para designar algum modelo global que abrange o conhecimento conceptual e prático a respeito de algo...
Problema : uso do empréstimo em vez de equivalente em português (moldura).
PERINI, p. 89
Dêixis (adj. dêitico): chamam-se dêiticos os elementos lingüísticos cuja referência só se pode determinar com base no contexto extralingüístico. Por exemplo, a palavra EU, ou a palavra ISSO em: ISSO É MUITO CARO PARA MIM.
Problema : Atenção desviada para o termo derivado.
STEINBERG, p. 57
Homófono : que tem o mesmo som e a mesma pronúncia.
Problema : Redundância.
TARALLO, p. 87
Normalização : no texto, forma de regularização lingüística; o contrário de variação: estandardização.
Problema : antonímia inadequada.
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