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Índice por autores

 

 

Classificação e terminologia

Hagar Espanha Gomes
Secretaria da Administração Federal Brasil
Maria Luiza de Almeida Campos
Universidade Federal Fluminense
Brasil

 

Resumo

Um dos postulados da Terminologia é que os conceitos de um dado domínio do conhecimento se relacionam entre si, formando um sistema de conceitos. O método classificatório se justifica, então, pela própria natureza sistemática da Terminologia. Um estudo de caso de conceitos gerais ligados à área de Agricultura mostra que, a partir de princípios da Lógica e da Ontologia se pode chegar a uma estrutura hierárquica e partitiva, com relacionamentos genéricos e por afinidade entre os conceitos, formados a partir do estudo dos conceitos iniciais.

Os princípios de sistematização de conceitos, desenvolvidos pela Teoria Geral da Terminologia e utilizados no estudo de caso, evidenciam que a abordagem onomasiológica é aquela capaz de levar ao relacionamento entre os conceitos, ficando as questões de natureza lingüística restritas, em princípio, a homonímia, à equivalência vocabular e à estrutura do termo.

 

Introdução

O objetivo desta comunicação é demonstrar que o processo classificatório é fundamental para a sistematização dos conceitos, ou seja, para determinar o conteúdo de cada conceito e relacioná-los entre si.

Antes de ser apresentado o estudo de caso, que analisa três conceitos segundo princípios lógicos e ontológicos (princípios classificatórios), serão abordadas algumas questões conceituais a respeito do "Conceito" e da natureza sistemática da Terminologia.

 

2. Aspectos teóricos do conceito

A Terminologia é uma área do conhecimento interdisciplinar e transdisciplinar que trata dos conceitos e de sua representação. Segundo a Teoria Geral da Terminologia, os conceitos de uma área do conhecimento se definem uns em relação aos outros, formando um sistema de conceitos.

Neste capítulo tentaremos abordar algumas questões teóricas sobre o que são conceitos, fazendo comparações entre as normas da ISO [1], a Teoria do Conceito [2] e o universo de relações entre Termos, com base para definição [3].

A Recomendação ISO 1087 define "conceito" como "unidade do pensamento". Tal definição pode nos parecer adequada mas, se fizermos uma análise um pouco mais profunda dos termos que compõem a definição (no caso, "unidade" e "pensamento"), verificaremos que aí se instaura uma contradição.

Como sabemos, o pensamento é gerado por processos cognitivos, "algo que está na cabeça de alguém", sobre alguma coisa observável, que é único do indivíduo e que, dessa forma, não pressupõe o estabelecimento de unidade, pois unidade é o que é comum a todos. Dahlberg, à luz da Teoria do Conceito, reconhecendo essa contradição, propõe que "conceito" seja definido como "unidade de conhecimento", pois conhecimento pressupõe um entendimento comum do objeto observável. Assim, a partir do pensamento, o homem reconhece fatos no mundo (referente), que geram os processos cognitivos; esses processos só se transformam em processos comunicativos (onde o conhecimento se instaura), quando ele expõe esses fatos a critérios de verdade, o que pressupõe a aceitabilidade e o reconhecimento desses fatos por um grupo de indivíduos que estabelecem o que poderíamos chamar de "Verdades universais".

Dessa forma, Dahlberg define conceito como uma unidade do conhecimento, compreendendo afirmações verificáveis sobre um dado item de referência, representado numa forma verbal.

Podemos apresentar essa definição através do seu triângulo conceitual


Fig. 1 - Triângulo conceitual

 

Essa análise nos leva a certas constatações, na medida em que verificamos o estabelecimento de dois espaços de analogia para o entendimento da definição de Dahlberg: Distanciando o Referente da Linguagem, o referente é aquilo que observamos; para formarmos o conceito, predicamos sobre ele e o designamos. A nosso ver, Dahlberg apresenta dois universos, o Universo das Formas e dos Sentidos, onde o referente está inserido, e o Universo da Linguagem, onde as características e a forma verbal se apresentam (Fig. 1).

 


Fig. 2 - Relação entre o Universo das Formas e Sentidos
e o Universo da Linguagem para o estabelecimento do Conceito.

Drozd, preocupado em estabelecer pré-requisitos para a definição, apresenta, de forma clara, os limites desses espaços, definindo, em vez de dois Universos, três Sistemas, a saber: o Sistema de Entidades Extralingüísticas, o Sistema de Conceitos e o Sistema Terminológico. O "sistema de entidades extralingüísticas" é a "realidade do mundo, controlada pelas leis da natureza". O "sistema de conceitos" é "o sistema de entidades abstraído sobre o nível teórico da consciência social, controlado pelas leis do pensamento" e, por último, o "sistema terminológico" é definido como um "sistema de "nomeação" para um dado sistema de conceito, controlado pelas leis da Linguagem e da Lógica".

Então, quando Dahlberg apresenta o referente como parte do triângulo conceitual, ele (o referente) está, a nosso ver, inserido no que Drozd chamou de Sistema de entidades extralingüísticas, que faz parte do Universo das Formas e dos Sentidos, assim como as características e a designação (no triângulo conceitual de Dahlberg) e os Sistemas de Conceito e Terminológico, de Drozd, estão inseridos no Universo da Linguagem (Fig. 2).

A partir desses modelos formais (modelos classificatórios da realidade), é que podemos definir o que são conceitos. Para ambos, a relação entre características e forma verbal (Dahlberg) ou entre Sistema de Conceitos e Sistema de Termos (Drozd), é decisiva para o ganho de conhecimento de coisas ou atividades, especialmente por meio da análise e definições feitas pelos cientistas do assunto.

Sendo assim, o entendimento dos conceitos (ou, a função da definição) visa a obter precisão na comunicação, que, no caso da Terminologia, se dá no ambiente científico e tecnológico.

 

3. Aspectos sistemáticos da Terminologia

Tendo em vista que, segundo a Teoria Geral da Terminologia, os termos se definem uns em relação aos outros, formando um sistema de conceitos, vamos focalizar neste capítulo alguns princípios básicos para se estabelecer o relacionamento entre os conceitos.

O termo é a representação do conceito. Para a formação de um conceito é necessário identificar as características ou traços distintivos de uma entidade individual (referente). As entidades individuais podem ser de natureza material, por exemplo, pedras, máquinas, e entidades não materiais, por exemplo, processos que ocorrem na construção civil.

Para identificar as características de tais entidades, no entanto, é preciso fazê-lo dentro de um contexto específico.

Muitas são as variáveis que interferem na determinação do conceito, sendo fundamentais o domínio do conhecimento em que ele se insere e o ponto de vista ou aspecto pelo qual a entidade está sendo observada. Assim, os conceitos são, em última instância, a síntese das características relevantes (contextualizadas) e coletivas de entidades individuais. O conjunto dessas características relevantes constitui o conteúdo conceitual.

A natureza sistemática da Terminologia exige abordagem metodológica própria para a organização dos conceitos. Esta organização ou sistematização é necessária não apenas para estabelecer de forma precisa o conteúdo do conceito (definição), mas para facilitar a denominação de novos conceitos (neonímia) e estabelecer a rede de conceitos, visto que os termos se definem uns em relação aos outros. É importante enfatizar que, através dessa sistematização, é que será possível elaborar definições coerentes e harmônicas entre si.

Sistema pressupõe estrutura ou relações que ligam todos os conceitos de um domínio e na base dessa estrutura estão os princípios de classificação. Essas relações podem ser identificadas de uma forma geral sob dois aspectos: relação lógica - que relaciona o sujeito-referente com sua espécie; e a relação ontológica- que relaciona o sujeito-referente com a realidade.

O estabelecimento do conceito pode se dar em duas direções: a partir do nome, para se chegar ao referente, ou a partir do referente, para chegar ao nome [4]. Ambos os percursos passam pelas características do conceito. A não ser no caso de novas denominações, o percurso mais comum é o primeiro.

Levando-se em consideração que o termo é a representação do conceito, é correto afirmar que a sistematização ocorre entre conceitos e não dentro do vocabulário de um domínio do conhecimento.

O domínio é, pois, o parâmetro não só para a seleção dos conceitos mas das características destes conceitos. Pode-se dizer que o princípio da contextualização - em que os conceitos são abordados dentro de um domínio do conhecimento - é fundamental para a identificação e seleção das características úteis dos conceitos.

Entender, então, que um referente pertença a várias áreas do conhecimento e que, para cada uma delas, um conjunto de características não necessariamente idêntico seja relevante, é aceitar que a monossemia do termo - um dos postulados da Terminologia - é relativa [5]. A monossemia deve ser assegurada em cada domínio do conhecimento que esteja sendo sistematizado.

A delimitação da área do conhecimento é, pois, o primeiro passo na sistematização dos conceitos. A partir daí será possível identificar o conteúdo do conceito bem como estabelecer as relações entre eles, ou seja, agrupar os conceitos segundo características comuns, o que é um processo classificatório.

No estudo de caso relatado a seguir procura-se, em primeiro lugar, fazer uma análise de algumas características de cada conceito estudado num dado domínio do conhecimento e, dada a natureza sistêmica da Terminologia, essa análise é feita entre os conceitos e não isoladamente para cada um deles.

 

4. Estudo de caso

O estudo de caso serve para demonstrar a aplicação do método terminológico. Nem todos os princípios estarão presentes, nem o estudo se esgota nos relacionamentos aqui estabelecidos. E importante ressaltar que nossa maior preocupação foi o método.

São estudados três conceitos: Touro, Boi, Vaca. Apesar de serem conceitos comuns e, portanto, não incluídos no âmbito da Terminologia, podem ser estudados no âmbito da Agricultura e a determinação de seu conteúdo permite chegar a outros conceitos os quais, estes sim, integram a terminologia da Agricultura.

No Anexo 1 transcrevem-se os verbetes de "Boi", Touro" e "Vaca" de alguns dicionários gerais da Língua Portuguesa. Embora não sejam dicionários especializados, as definições ali presentes, resultantes, provavelmente, do método semasiológico, são um bom meio de se iniciar uma reflexão, não sobre os significados possíveis de cada palavra, mas sobre os respectivos referentes (sentido denotativo). Como se viu anteriormente, a análise de cada referente, representado por seu nome (abordagem onomasiológica) leva à formação dos respectivos conceitos e esta abordagem metodológica influi no resultado final, ou seja, na definição.

O método utilizado na Terminologia é centrado no conceito e não em qualquer aspecto lingüístico. Aqui está uma diferença fundamental entre a Lexicografia e a Terminologia.

Como se pode observar, em duas fontes há definições circulares para "Boi" e "Touro". Na verdade, entre estes dois conceitos acontece um fenômeno interessante: o referente Touro" é anterior ao referente "Boi", no mundo real, ou seja, para que exista o Boi é preciso haver antes o Touro.

Segundo princípios lógicos, um conceito se subordina a outro quando o referente possui todas as características do conceito superordenado e, pelo menos, mais uma que o diferencia. Portanto, o conceito superordenado tem, no mínimo, menos uma característica que seu conceito subordinado, ou seja, tem menor intensão.

Se aplicarmos este raciocínio aos conceitos Touro e Boi vamos concluir que Boi é genérico de Touro (!), uma vez que o touro tem todas as características de boi e mais uma, visto que ele é inteiro, não castrado.

Na verdade, são conceitos de mesmo nível, pois além das características comuns, cada um tem uma característica a mais que lhe é própria, a saber, o Touro é não castrado e o Boi é castrado . Graficamente poderíamos mostrar essa hierarquia da seguinte maneira:


Fig. 3 - Falsa hierarquia

 

Mas o relacionamento lógico não resolve essa questão, porque Touro e Boi não podem ser combinados para formar um conceito superordenado, genérico.

Uma vez que a característica que diferencia Boi é extrínseca, não pressupõe uma relação lógica e sim uma relação do sujeito (Boi) com o mundo, então por que não procurarmos as relações ontológicas para ver se elas apontam a solução?

Boi e Touro guardam entre si uma "relação genética": um só pode existir depois do outro, tem origem nele.

Os conceitos de "Boi", "Vaca" e 'Touro" relacionam-se, ainda, com outros conceitos. Por exemplo, a relação partitiva - que é ontológica - ocorre quando entidades distintas de um mesmo tipo levam à criação de uma nova entidade. Ao contrário da relação lógica hierárquica vertical, em que dois conceitos membros combinados formam um conceito superordenado, entre a entidade distinta inicial e aquela resultante de sua união, não ocorre uma relação superordenada, mas partitiva.

A natureza da relação partitiva é de integração; o símbolo de integração é Y e o resultado da união de entidades distintas resulta:

boi Y boi Y boi Y... = gado de corte
touro Y touro Y touro Y... = gado reprodutor
vaca Y vaca Y vaca Y... = gado leiteiro

Fig. 4 - Integração de entidades

Observe-se, mais uma vez, que a questão do contexto está presente. A integração das entidades distintas, por exemplo, "Boi", forma o conceito "Gado de corte" na realidade ocidental. O mesmo não aconteceria em algumas comunidades orientais, em que tal entidade, por questões religiosas, não é usada para o corte.

Como conceitos gerais, "Gado de corte", "Gado reprodutor" e "Gado leiteiro" apresentam uma relação lógica lateral quando subordinados ao conceito genérico "Gado" (Fig. 5).


Fig. 5 - Relação hierárquica

Entre "Boi" e "Gado de corte" existe uma relação partitiva, da mesma forma que entre 'Touro" e "Gado reprodutor", e entre "Vaca" e "Gado leiteiro".

Podemos ir mais longe; entre 'Touro", "Boi" e "Vaca" existe uma característica comum: são bovídeos (este conceito deveria também ser estudado, numa situação de trabalho real). Pelo mesmo método, chega-se ao conceito "Gado bovino" - conceito abstrato - que se relaciona, portanto, com "Gado" (relação hierárquica) e com "Touro", "Boi" e "Vaca" (relação partitiva) (Fig. 6).


Fig. 6 - Relação partitiva

 

Graficamente pode-se representar esse conjunto assim:


Fig. 7 - Representação gráfica do conceito "Gado"

 

Observe-se que o conceito "Gado reprodutor" existe, embora o nome, como termo técnico, não. Foi criado aqui para compor a estrutura.

Como é que o conceito "Vaca" se relaciona com "Touro" e "Boi"?

Existe entre 'Touro" e "Vaca" uma característica comum que os une, que é a função de reprodução, e entre "Vaca" e "Boi" existe, também, uma característica comum, que é a produção de alimentos, respectivamente Leite e Carne.

Embora o objetivo desta comunicação não seja a definição, pode-se observar que, esgotando-se as possibilidades de classificação/sistematização dos conceitos analisados, à luz do contexto "Agricultura", ali estarão as características relevantes que deverão figurar na definição.

 

3. Comentários finais

O método de classificação nos leva a olhar para os termos de maneira sistêmica, isto é, uns em relação aos outros.

A organização de vocabulários especializados segundo outros métodos, que não tenham no conceito seu ponto de partida, certamente não resultará numa terminologia, mas em dicionários voltados para uma dada área do conhecimento (ou, especializados em uma área).

Enquanto aparentemente se possa crer que um dicionário especializado seja uma terminologia, o método é fundamental para se identificar, num dado produto, se ele tem os requisitos necessários para ser considerado uma terminologia.

Como o Termo possui natureza lingüística, é nesta área do conhecimento que poderão ser buscadas as orientações para a denominação correta de um conceito, mas esta não é a questão central: na Terminologia o termo é o término. O termo é tão somente a representação do conceito, e é este que se procura identificar e relacionar para verdadeiramente dominar seu conteúdo conceitual.

A Lógica, a Ontologia, a Teoria da Linguagem, entre outras, são áreas que têm contribuído para a formação de uma Teoria capaz de dar conta da organização dos conceitos, pois na busca de uma Teoria da Terminologia importa não apenas a criação de modelos formais, mas a interação desses modelos para um processo de comunicação.

 

Referências bibliográficas

[1] ISO/R 1087 - Vocabulary of temtinology .

[2] DAHLBERG, L "Referent-oriented concept theory for INTERGONCEPT". International Classification 5 (3): 142-151, 1978.

[3] DROZD, L. "Terminological synonyms and the function of definition: theses". In: Colloque International de terminologie, Québec, 23-27 mai 1982. Actes . 1983. p. 87-100.

[4] GORKOVA, V.I. Some methodological recommendations on dictionary development . Moscow, FID, 1980.

[5] LOTTE, D.S. "Principes d'établissement d'une terminologje scientifique et technique". In: RONDEAU, G. & FELBER, H. ed. Textes choisis de Terminologie . Quebec, GIRSTERM, 1981. p. 7.

 

Anexo

Definições extraídas de dicionários gerais da Língua Portuguesa.

Fonte: Aurélio, 1 a ed.

Boi:

1. Animal mamífero, artiodátilo, ruminante, da família dos bovídeos, pertencente ao gênero Bos Linnaeus.
2. O touro castrado usado no trabalho de carga e na alimentação.

Touro:

1. Boi inteiro.
2. Boi bravo (fem.: Vaca)

Vaca:

A fêmea do touro.

Fonte: Pequeno dicionário brasileiro da Língua Portuguesa. 11 a ed., 1967.

Boi:

1. Quadrúpede ruminante que serve para os trabalhos de carga e para alimentação.
2. Designação geral dos bóvidas.
3. O touro.

Touro:

1. Boi para castrar.
2. Boi bravo (fem.: Vaca).
3. Touro inteiro, em condições de sofrer a capa ou capação (Rio Grande do Sul).

Vaca:

A fêmea do touro.

Fonte: Caldas Aulete.

Boi:

1. Quadrúpede ruminante bovídeo, utilizado principalmente para os trabalhos do campo ou de carga e para a alimentação do homem.
2. Nome de um gênero, tipo da família dos bovídeos, compreendendo as espécies boi, búfalo, iaque e bonacho.

Touro:

1. Boi não castrado.
2. Boi bravo.

Vaca:

A fêmea do boi.

 

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