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Terminologia: uniformização vs. criatividade

Isabel Pettermann Fraústo
Instituto de Linguística Teórica e Computacional
Portugal

 

Resumo

Esta comunicação apresenta uma experiência concreta, em que a criatividade foi um dos princípios essenciais que nortearam a construção de uma base de dados terminológica (ILTERM). Ao mesmo tempo, são abordadas algumas questões relativas às limitações que voluntariamente se adaptam para o trabalho terminológico e que julgamos serem prejudiciais ao seu desenvolvimento. Pretendemos com esta comunicação incentivar o diálogo sobre o binômio uniformização-criatividade, de forma a que possamos refletir sobre a verdadeira dimensão da normalização.

 

0. Introdução

Durante mais de um ano em que me dediquei a um projecto de terminologias informatizadas (ILTERM), que começa agora a poder ser transformado em produto (sobre papel, disquete ou de consulta em linha), pude verificar que a construção de uma terminologia, informatizada ou não, implica uma forte componente criativa. Ao mesmo tempo verifiquei que a criatividade é uma palavra proibida no "meio", chamemos-lhe assim de tão fechado que começa a tornar-se. Pessoas e instituições trabalham em terminologia com a forte convicção de que se estão a fazer leis (as normas internacionais são leis, as nacionais serão lei também; as definições, que deveriam ser encaradas apenas como a nossa possibilidade linguística de representar conceitos, são consideradas leis; os termos registrados, muitas vezes em detrimento de outros, tomam-se repentinamente, e por vezes com alguma violência, a lei de "bem falar, de bem usar uma linguagem especializada"). Assim, e se a criatividade se torna "tabu", é difícil avançar.

Não quero com isto defender a anarquia ou o caos para o trabalho terminológico, o que pretendo é deixar aqui presente a importância de se trabalhar "de porta aberta", ou seja, explicar como, num trabalho que se pretende que tenha a honestidade de um trabalho científico, é importante que não haja mais limitações do que aquelas que nos colocamos a nós próprios por questões de método. Por isso, espero que a crítica que o meu ponto de vista implica não seja tomada como uma espécie de denúncia mas sim como uma chamada de atenção para todos aqueles que se esforçam para que o seu trabalho na área da terminologia seja realmente útil.

 

1. A elaboração de uma ficha terminológica para aplicação informática.

Na instituição onde trabalho, o ILTEC, começámos do zero em termos de métodos e aplicações. Isto é, o ILTEC abriu as portas à criatividade quando, ao iniciar o seu projecto de construção de terminologias informatizadas, encarregou os seus investigadores da elaboração de uma ficha terminológica. Foi-lhes dito que essa ficha deveria ser o mais completa possível em termos de informação, que deveriam ter em conta que se destinava a uma aplicação informática e ainda que a INFOTERM (instituição internacional de investigação terminológica e de normalização de vocabulário especializado) apresentara exemplos de fichas que poderiam ser adoptados. Foi entretanto convidado o responsável pela INFOTERM (dr. Galinsky), para uma aproximação teórica a estas questões, tendo apresentado aos investigadores do ILTEC o ponto de vista da sua instituição.

E assim começámos o nosso trabalho, livres do peso da "lei", embora sabendo que ela existe, e que existe certamente por alguma razão, já que é o fruto de um cuidadoso trabalho que deve ser tido em conta. Felizmente nem a instituição nem as pessoas que trabalham neste projecto pensaram, uma única vez, que a solução mais correcta fosse adoptar a ficha internacionalmente recomendada e, por isso, podemos encará-la apenas como um exemplo a ter em conta.

Quando digo felizmente estou, como é óbvio a congratular-me pelo facto de que as possibilidades de aproximação às questões e à sua análise não tiveram qualquer limitação e podíamos, por isso, elaborar a ficha que melhor correspondesse, em nosso entender, às necessidades de um utilizador de uma terminologia em que a língua portuguesa ocupa lugar de destaque.

Quais as implicações desta atitude?

Em primeiro lugar, a possibilidade de obter resultados realmente originais, que não sejam meras cópias do trabalho alheio; em segundo lugar, a possibilidade de contemplar aquilo que acreditámos ser realmente necessário, tendo em atenção os vários perfis dos futuros utilizadores e, finalmente, a simples constatação de que podemos, de facto, responder pelo nosso trabalho com a convicção de quem esteve, e se sente, envolvido na elaboração e concretização de um projecto. Creio que estas são as mais importantes vantagens de se permitir "dar largas à criatividade" quando se trata de um trabalho deste tipo.

 

2. O trabalho informático na construção da base de dados terminológica

Paralelamente ao trabalho desenvolvido para a construção da ficha terminológica, desenvolveu-se também um trabalho informático no sentido de construir uma base de dados relacional utilizando o S.G.B.D. INFORMIX-SQ, e a respectiva linguagem de 4 a geração (INFORMIX 4GL).

O que se verificou foi um diálogo positivo entre linguistas e informáticos para adaptar os meios informáticos a este caso específico. Verificámos que não houve necessidade de limitar as questões puramente terminológicas aos meios informáticos, já que a equipa informática se esforçou, dentro de um princípio de criatividade que deu óptimos resultados, por adaptar o desenho e funcionamento da base de dados às opções dos linguistas.

Assim, conseguiu-se uma ficha informatizada que pode ser pesquisada de forma multidireccional e que é mostrada ao utilizador de forma circular.

 

Este movimento circular pode ser interrompido sempre que necessário para, através de um menu, acedermos a uma determinada informação.

Problemas como a transitividade ou não dos termos relacionados foram resolvidos graças ao diálogo com a equipa informática e ao princípio da criatividade e experimentação.

 

3. A recolha de informação, os especialistas e a norma.

Uma vez preparado o terreno para se iniciar o trabalho concreto (três terminologias: informática, linguística e telecomunicações), contactámos especialistas das áreas em questão para que preenchessem a ficha que tínhamos elaborado. Era, portanto, da sua competência fazer o levantamento dos termos, atribuir equivalentes, sinónimos, elaborar definições, etc.

Abordarei apenas as terminologias de linguística e de informática, uma vez que a terminologia de telecomunicações se encontra de momento em fase estacionária.

 

3.1. Linguística

Nesta área não se pôs qualquer problema de liberdade de trabalho e de criatividade, porque não existe disponível qualquer terminologia linguística que pudesse ser tomada como "lei". Assim, a nossa terminologia de linguística resultou de uma colaboração com a Associação Portuguesa de Linguística, que preparava já há algum tempo um glossário de termos linguísticos. O trabalho já efectuado foi-nos fornecido para carregamento na nossa base de dados, e os aspectos que não tinham sido tratados (por exemplo o estabelecimento de termos relacionados e relações conceptuais) foram posteriormente alvo de atenção e completados pelos especialistas.

 

3.2. Informática

Nesta área a questão "criatividade vs. uniformização" é já um caso concreto e sério, porque com grandes e graves implicações.

De facto, há normas internacionais de terminologia informática, e quando há normas verificamos que os especialistas têm algumas reservas em contrariar essas normas, como se com isso ficassem "fora da norma" que é o mesmo que dizer "fora da lei". Ora, o que acontece é que, por várias razões, entre as quais o facto de Portugal não ser ainda membro participante da ISO, as normas nem sempre satisfazem as nossas necessidades e as nossas exigências. É frequente depararmos com traduções de definições que, nem em termos técnicos nem em termos da construção sintáctica, nos parecem aceitáveis e então vemos os especialistas argumentando que "a norma é assim e não se pode modificar a norma".

Para não ficarmos isolados só há duas opções possíveis: ou assumimos a responsabilidade de uma informação diferente, adaptando cuidadosamente essa informação à norma ou tranquilamente contrariamos as nossas convicções e adoptamos a norma que ganha, assim, mais um registo, mais um atestado de validade. Tenho verificado que esta última hipótese é a mais praticada por vários grupos de trabalho (por exemplo na Comissão Técnica para a Normalização de Terminologia Informática, em cujos trabalhos participo como representante do ILTEC, e onde é frequente traduzir-se ipsis verbis a Norma Internacional que se irá tornar a Norma Portuguesa). Mas se este é o caminho mais adoptado, é também aquele que critico mais fortemente porque ele alimenta um círculo vicioso que não poderemos nunca admitir quando se fala de credibilidade científica: a NP confirma a NI e esta confirma, assim, a NP. Assim se impede o espírito crítico de produzir algum efeito positivo e assim se criam uma espécie de dogmas como se as NORMAS fossem a Bíblia dos tempos modernos.

 

4. Conclusão

Os casos que apresentei estão directamente relacionados com a minha experiência pessoal, mas parecem-me exemplificativos daquilo que se vem fazendo nesta área, e por isso os relatei para que se compreenda esta "defesa da criatividade". É evidente que a norma tem um papel importante, talvez o mais importante porque implica a uniformização e o bom entendimento internacionais, impedindo o "caos linguístico" nas áreas técnica e científica. Mas assim como reconhecemos que o seu papel é importante, devemos também reconhecer que não é o único e que a norma está ao nosso serviço e não nós ao serviço da norma.

Se relativamente à criação de neologismos, e embora respeitando critérios de formação de palavras, nos esforçamos por ter em atenção o uso real concretizado pelos utilizadores das linguagens especializadas, também o registo de sinónimos, formas abreviadas e a formulação de definições se deveria preocupar com o perfil dos utilizadores a que se destina. Isto parece-me mais importante do que preocuparmo-nos com a norma estabelecida por uma entidade que, embora idónea, é, por ser uma instituição e sobretudo para os utilizadores portugueses, uma entidade abstracta.

Além disso, lidamos com linguagens, lidamos com a capacidade comunicativa, e todos sabemos que nessa área o Homem sempre se orgulhou de ser inovador. Penso, por isso, que não devemos limitar as suas possibilidades nem devemos querer para nós o papel de impedir o crescimento de formas de expressão, a nossa língua só poderá enriquecer-se se confiarmos nas suas capacidades de inovação.

Para terminar quero retomar o que anteriormente disse serem as nossas únicas opções para não cair no isolamento ,quando uma norma nos parece insuficiente, é que nem a primeira nem a segunda opções acima apresentadas me parecem as mais correctas. Correcto seria, na minha opinião, inovar sempre que necessário e adoptar o estabelecido sempre que satisfatório. O chamado "esforço de uniformização" é louvável mas apenas se o peso da normalização não o transformar no "sacrifício da criatividade".

 

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