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Metodologia para projeto terminográfico
Enilde L. de J. Faulstich
Universidade de Brasília
Brasil
Resumo
Como conseqüência da importação de tecnologias estrangeiras e do desenvolvimento de tecnologias de ponta no país, estamos trabalhando na redação de um glossário da subárea Engenharia Genética, especificamente, Melhoramento Genético de Plantas, com cerca de 3000 termos. Pretendemos, assim, contribuir para a normalização da terminologia, bem como oferecer à comunidade informações atualizadas e adequadas em Língua Portuguesa. A metodologia a ser seguida observa duas feições: a macroestrutural, que leva em conta critérios que confirmarão o conjunto de entradas, se em ordem alfabética, se agrupada por campos lexicais, se ordenadas de acordo com Hiperônimos, hipônimos e co-hipônimos e a microestrutural, que formula o tipo de descrição do verbete, segundo um paradigma informacional. Como execução de tarefas, a pesquisa terminográfica pressupõe o trabalho lexicológico (norma lexicológica), o lexicográfico (recolha do termo) e o terminológico (significado claramente definido), e determinação do processo de remissivas (relação normativa entre signos). Um projeto dessa natureza exige interface com equipe multidisciplinar especializada para fins de consultoria, e auxiliares de pesquisa para recolha de corpus e para proceder à entrada de dados no computador. Testa-se, no momento, um programa de automação suficiente para elaboração de glossário.
Apresentação
"Metodologia para projeto terminográfico" constitui-se numa tentativa de sistematização de procedimentos a serem seguidos na elaboração de glossário.
Ao fazer a busca de uma literatura nacional que explicitasse como escrever um livro dessa natureza, constatamos a lacuna na área bibliográfica, não preenchida nem mesmo pelas "apresentações" que constam, raras vezes, nos dicionários de Língua Portuguesa produzidos no Brasil. O nosso objetivo, desde o início, é o de elaborar um glossário de termos de natureza técnico-científica. Para isso, contudo, precisava saber como fazê-lo.
Na falta de informação metodológica, invertemos nosso percurso. Assim, antes de iniciar a pesquisa terminológica, resolvemos desenvolver os procedimentos metodológicos que venham a servir de roteiro e de base para a produção de documentos terminográfícos.
É o que se apresenta a seguir.
1. O projeto
TEMA GERAL:
DOMÍNIO ESPECÍFICO:
SUBDOMÍNIO: NATUREZA DO TRABALHO LINGUÍSTICO: Glossário com terminologia monolíngüe
Os dados acima deverão ser preenchidos de acordo com o trabalho a ser desenvolvido.
1.1. Introdução
A Terminologia é uma área de pesquisa emergente que requer, no Brasil, a atenção e o interesse de especialistas terminólogos, lexicógrafos, lexicólogos e documentalistas para exercerem a tarefa de regular a incorporação de termos neológicos na língua portuguesa, bem como a de normalizar as novas criações que se fazem necessárias no sistema do português, como conseqüência da importação de tecnologias estrangeiras e do desenvolvimento de tecnologias de ponta no país.
Este projeto pretende demonstrar procedimentos básicos para elaboração de glossário, segundo metodologias terminográfica e lexicográfica e fundamentos de terminologia e de lexicologia.
Entendemos glossário como inventário terminológico, de caráter seletivo que tem como finalidade registrar e definir termos de domínios científicos, técnicos ou culturais, independentemente do suporte material em que se apresenta.
Por tratar-se de projeto terminográfico, convém iniciar a discussão metodológica com relevância à terminografia, enquanto processo para elaboração de trabalhos terminológicos.
A terminografia tem como função primeira a descrição de um objeto. É, de fato, a prática da terminologia - que se realiza por meio de um estudo sistemático dos termos - em que a atividade do terminólogo prático ou terminógrafo consiste em recolher e organizar os termos e as noções de uma mesma área, sob a forma de léxicos, glossários, dicionários, etc.; é também tarefa do terminógrafo difundir seu trabalho entre clientelas selecionadas sob a forma de consultorias e, finalmente, ordenar e classificar lingüisticamente o produto da recolha (Rey, 1976). Terminografia implica univocidade, em que a relação se estabelece de um (termo-entrada) para um (conceito). Assim, como a terminografia não pode prescindir da terminologia, o mesmo postulado se faz verdadeiro em relação à lexicografia.
A terminologia, atividade que vai do "conceito" ao signo, é de natureza onomasiológica; é uma práxis nomeadora e global que responde a necessidades de expressão e de comunicação. Um conceito pode ser definido como uma unidade de conhecimento, compreendendo predicações verificáveis sobre um item de referência selecionado, representado na forma verbal. Em síntese, os termos são apenas a aparência externa de algo que pode e deve ser explicitado sob a forma lingüística (Dahlberg, 1982). Para fins de ilustração, tomemos o seguinte conceito acerca de Melhoramento Genético da cana: "coloca-se o meristema apical, ou seja, o tecido da ponta da cana que não é atingido pelas doenças, numa solução especial com hormônio e nutrientes. Passados quinze dias, em lugar do minúsculo meristema existem dez pequenas plantas (as mudas), que vão para tubos de ensaio" (Guia Rural, junho/90, p. 33). Em seguida, o terminógrafo busca no(s) texto(s) o termo que recobre o conceito ou, então, consulta o técnico para obter resposta para a seguinte pergunta: "Que nome se dá à operação que consiste em colocar o meristema apical... numa solução especial... ?" E a resposta deverá ser "Sistema de cultura de tecidos da cana-de-açúcar".
A lexicografia, por sua vez, é uma atividade semasiológica que vai do signo ao conceito. Assim, no contexto de Melhoramento Genético da cana-de-açúcar, "Sistema de cultura de tecidos" pode ser definido como "imersão do meristema apical da cana numa solução especial com hormônio e nutrientes; o meristema desenvolve-se e produz pequenas plantas que vão para tubos de ensaio". Sob o ponto de vista terminográfico, a entrada e a(s) predicação(ões) para a expressão "Sistema de cultura de tecidos" devem ser: CULTURA DE TECIDOS é um conjunto de técnicas que envolve a manipulação de pequenos pedaços ou tecidos de plantas para regenerar novas espécies (Globo Ciência).
Como prática, o terminógrafo recolhe e seleciona os termos e as noções, os contextos e as definições, para, então, organizá-los em um instrumento lexical. É mister que ao nível epistemológico de uma ciência corresponde um nível de expressão lingüística. Este identifica o termo. TERMO é, pois, "toda unidade lingüística que denomina uma noção de forma unívoca dentro de um campo" (Auger, P. e Rousseau, L., 1978).
A tarefa de recolha sistemática de termos equivale a fazer o inventário terminológico. Para inventariar termos, impõe-se ao terminólogo a necessidade de adquirir conhecimentos do campo do saber e de sua estrutura; para isso se faz necessário consultoria a profissionais e práticos do meio, o que resulta normalmente na formação de um comitê. Já, o terminógrafo, para determinar a terminologia do campo, deve, em primeiro lugar, examinar a documentação a seu alcance e, em seguida, proceder a uma série de operações que constituem as partes do projeto de trabalho.
1.2. Orientação geral
Em vista da importância registrada na área científica, a terminologia de suas diversas áreas de abrangência precisa ser descrita, para que adequemos esse corpus a necessidades terminológicas (Rey, 1979), tais como:
a. necessidade de descrição sistemática dos conjuntos de termos fundamentais à formação dos discursos sobre um domínio socialmente distinto, sob o ponto de vista da socioterminologia;
b. necessidade de transmissão e de difusão dos conhecimentos de áreas temáticas, num domínio específico, por meio de sua terminologia;
c. necessidade de normas que se aplicarão aos usos lingüísticos na formação do termo e ao arcabouço teórico na formação do glossário.
1.3. Formulação
1.3.1. Objetivos
a. Geral
Um trabalho terminográfico objetiva descrever a terminologia de um domínio específico, conforme metodologias lexicográfica e terminográfica e fundamentos de lexicologia, para chegar à elaboração de um glossário.
b. Específicos
O pesquisador deve ter sob perspectiva a definição da macroestrutura do glossário, depois de escolhida a maneira como as entradas serão ordenadas (Cf. 1.5.4A), e então proceder à redação de cada verbete, obedecendo à fórmula determinada para essa microestrutura (Cf. 1.5.4.B).
1.3.2. Cronograma
O projeto deve ser dividido em quantas etapas forem necessárias para que se distribuam em ano(s) e meses as tarefas a serem executadas. Como, por exemplo: (gráfico 1)
Gráfico 1
| 1a Etapa |
| Atividades |
199 |
| Abr |
Mai |
Jun |
Jul |
Ago |
Set |
Out |
Nov |
Dez |
Meses |
| 1. Planejamento |
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| 1.1. Estudos preliminares |
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| 1.2. Elaboração do projeto |
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| 1.3. Discussão com assessoria |
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| 2. Execução |
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| 2.1. Seleção dos corpus |
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| 2.2. Coleta de dados: leitura de documentos; recolhi de dados; análise de contextos |
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| 2.3. Automação do léxico terminológico |
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| 3. Avaliação |
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| 3.1. Relatório n°- 1- avaliação parcial da pesquisa |
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| 2a Etapa |
| Atividades |
199 |
199 |
| Out |
No |
Dez |
Jan |
Fev |
Mar |
Abr |
Mai |
Jun |
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| 1. Execução |
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| 1.1. Automação do léxico terminológico (cont.) |
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| 1.2. Análise de contextos |
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| 2. Avaliação |
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| 2.1. Relatório n°- 2 - avaliação parcial da pesquisa |
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| 3a Etapa |
| Atividades |
199 |
| Abr |
Mai |
Jun |
Jul |
Ago |
Set |
Out |
Nov |
Dez |
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| 1. Execução |
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| 1.1. Definição da macroestrutura do glossário |
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| 1.2. Redação de verbetes |
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| 1.3. Montagem do glossário |
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| 2. Avaliação |
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| 2.1. Relatório final |
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1.3.3. Tempo (previsto) total de desenvolvimento do projeto
Trata-se de uma estimativa de acordo com os passos a serem cumpridos nas etapas do cronograma. Este procedimento permite ao pesquisador ter a noção de seu desempenho no trabalho em execução.
1.4. Meios e instrumentos. Mecanismos de execução
1.4.1. Interfaces
A. Na etapa inicial da pesquisa é necessária a interação entre o lingüista-terminólogo e o especialista no domínio temático de interesse, para que se definam corpus e objetivos socioterminológicos.
B. Nas etapas posteriores, é de fundamental importância que se organize equipe multidisciplinar de pesquisa composta de:
B.1. Coordernador(a) da equipe e pesquisador (a) principal.
B.2. Consultoria especializada, que se formará de profissionais que tenham pleno conhecimento do assunto temático, de profissionais da área própria do pesquisador e de profissionais de áreas afins que definitivamente consubstanciem informações e auxiliem na análise de dados.
B.3. Auxiliares de pesquisa. Desempenharão esta tarefa alunos de curso de graduação e/ou de pós-graduação que tenham afinidade com o projeto em curso, conhecimento do assunto e interesse pela área.
1.5. Definição de tarefas e etapas de trabalho
1.5.1. Documentos que servem para coleta de dados
A etapa fundamental na elaboração de um glossário é a coleta de dados em textos documentais, que respaldem o lingüista de informações fidedignas. Estes documentos devem ser de base e auxiliares.
São documentos de base os resumos de projetos de pesquisa da área específica, relatórios da pesquisa em curso e concluída.
São documentos auxiliares para recuperação de conceitos, dissertações, teses, periódicos especializados, revistas especializadas, etc.
1.5.2. Etapas de trabalho
Estas procuram responder às necessidades do lingüista, como proposta adequada para a articulação entre si de termo-conceito-definição e contexto(s).
A. Trabalho lexicológico
Tem por base a determinação dos tipos de lexias —simples, composta ou agrupada— conforme o recorte lexical que se possa executar no contexto discursivo, bem como o estabelecimento da dimensão semântica da lexia. Aqui também o terminógrafo tem de determinar a norma lexical que regerá os princípios lingüísticos do glossário e os fatores extralingüísticos que não devem ser abandonados.
Sob a perspectiva lingüística, é preciso levar em conta:
a. os processos de composição e/ou de derivação da lexia/termo e as regras morfossintáticas que subjazem nessa formação;
b. o paradigma da entrada, tais como, nome no singular, verbo no infinitivo, adjetivo como determinante no sintagma;
c. diferenças entre homonímia e polissemia;
d. diferenças entre hiperônimo, hipônimo e sinônimo.
Sob a perspectiva extralingüística, é preciso observar a aceitabilidade do verbete estruturado, isto é, do discurso produzido, em relação aos vários grupos de falantes a quem o glossário poderá servir.
B. Trabalho lexicográfico
Entre outros objetivos, busca responder a questões do tipo:
a. que unidades podem ser codificadas em um dicionário, observando-se os critérios de seleção e o método de incorporação lexical?
b. que estrutura de definição é exigida pela unidade monossêmica?
c. quais as vantagens ou não de se organizar a estrutura do glossário de acordo com os sistemas conceituais das obras onomasiológicas?
O recorte do termo exige o reconhecimento de seus contextos, sob o enfoque de 3 dimensões:
1. Contexto referencial que leva em conta as referências universais, as observações enciclopédicas, etc.
2. Contexto conceitual que é onde se instaura a definição, ou os índices que formalizam a definição.
3. Contexto lexical que representa a norma lexicológica estabelecida, tendo por base as referências gramaticais, morfológicas, as equivalências semântico-lexicais.
C. Trabalho terminológico
Principia com a retirada do termo, ao mesmo tempo que busca a identificação de elementos descritivos que revelem sua noção (ou conceito), ajustado aos princípios da onomasiologia. Quando não houver o termo específico, no texto, em Língua Portuguesa, será necessária sua criação obedecendo à morfologia da língua (norma lexicológica).
Nessa fase do trabalho, os contextos mais significativos são os que exprimem a natureza, o objetivo e o modo de operação, tais como:
1. Contexto definitório, que surge dos elementos descritivos inseridos em uma proposição do tipo Sujeito (= Entrada) + Predicações (= seqüências da definição). As predicações constituem verbalizações das propriedades práticas do objeto designado pela entrada.
2. Contexto associativo que ajuda a definir a noção por associação e não por elementos descritivos.
3. Contexto explicativo que revela a natureza, o objetivo ou um aspecto da noção estudada.
Devem ser privilegiados os contextos mais informativos (definitórios e explicativos), porém os associativos também podem ser retidos.
1.5.3. Recolha e armazenamento de termos: a informática aplicada à terminologia
A terminografia moderna resulta da interação entre a Informática e a Terminologia; da terminologia automatizada surgiu uma nova área de investigação: a terminótica.
A terminótica, que tem como objeto o tratamento automático do termo, requer que o pesquisador elabore (ou se utilize de) softwares específicos para, entre outras ações:
a. gerir (ou consultar) bancos de dados bibliográficos;
b. indexar termos, para levantar dados numéricos de freqüência e disponibilidade de ocorrências nos textos;
c. preencher (ou gerir) ficha terminológica durante a coleta de termos;
d. gerir (ou consultar) bancos de dados terminológicos que servirão de conteúdo para o glossário;
e. gerir (ou consultar) bancos de dados morfolexicais, tendo como substrato bases morfológicas (ou radicais) para controle de hiperônimos e de hipônimos;
f. armazenar os dados - conteúdos do glossário - de acordo com a maneira como as entradas deverão ser ordenadas - se em ordem alfabética; se de modo sistemático, por campos léxicos;
g. editar o glossário sob diversos suportes: disquetes, texto impresso, CD-ROM, impressões várias, etc.
Um dos aspectos particulares e fundamentais requeridos pela terminótica é a elaboração e uso de FICHA TERMINOLÓGICA, constituída por vários campos, os quais contenão informações de natureza documental, como domínio(s), fonte(s), data(s), nome do autor da ficha, etc.; terminológica, como termo-entrada, nome científico, definição, contextos, etc.; lingüística, como categoria gramatical, variante gráfica, termos remissivos (relações semântico-lexicais), equivalentes, normalização, etc.
1.5.3.1. Ficha terminológica
Uma ficha terminológica de um banco de dados é um conjunto estruturado de informações sobre um termo. Fazem parte da natureza da ficha as informações inerentes ao termo e as sobre o termo. Grosso modo, a ficha terminológica pode ser comparada à certidão de nascimento do termo.
A elaboração de uma ficha requer do pesquisador um comportamento sistemático e normativo que leva em conta primeiramente a ética lexicográfica, em seguida a verdade terminográfica, tudo isso em função do texto final —o discurso produzido— a ser consultado pela comunidade social para quem o mesmo se dirige.
Elaboramos uma ficha que se compõe de 17 campos, os quais, dependendo de como esteja sendo feita a coleta de dados, em conformidade com os objetivos da pesquisa, podem ou não ser todos preenchidos. Tivemos, contudo, a preocupação de elaborar um documento que venha a satisfazer detalhamentos requeridos por certas recolhas. Veja o modelo a seguir.
Convém observar que do conteúdo exposto no campo 8 - Definição - saem as unidades terminológicas que preencherão o campo 10, quero dizer, os hiperônimos e/ou hipônimos e/ou conceitos conexos e/ou sinônimos, aparecem no contexto da definição. O procedimento mais adequado para que não se percam as informações imediatas é abrir logo uma ficha nova para qualquer uma das remissivas. Assim, o glossário vai tomando a forma de uma estrutura sistemática, em que os campos léxicos vão se organizando naturalmente.
O item 9 —Contextos— tem a função de abonar e/ou ilustrar o uso do termo no discurso em que ele aparece. Em vez de se servir de exemplos próprios na redação do verbete, de exemplos inventados "ad hoc", o terminógrafo deve copiar as frases dos documentos onde o próprio termo aparece, para, assim, fundamentar a verdade textual.
1.5.3.2. Banco de dados terminológico
É preciso distinguir o conceito geral de banco de dados do de banco de dados terminológico especificamente.
Um banco de dados é qualquer conjunto eletrônico com uma ou mais memórias onde se armazenam informações, às quais é possível ter acesso de uma forma preestabelecida.
Um banco terminológico, por sua vez, é um banco de dados que contém informação sobre as unidades lingüísticas que se usam especificamente em uma ou mais áreas de especialidade.
Naturalmente, os dados que os bancos contêm são os termos, enquanto unidades de denominação de conceitos de uma área especializada, os quais se organizam em conjuntos semântico-formais que designam um segmento de realidade em um domínio profissional. Um banco terminológico é, portanto, um banco de conjuntos formais e semânticos.
A constituição de um banco terminológico pressupõe etapas fundamentais, como:
1. a entrada do material, ou seja, a alimentação do banco;
2. a armazenagem do material na memória;
3. a busca ou recuperação da informação.
A entrada deve ser analisada, estruturada e elaborada para poder ser inserida no banco computadorizado. Para isso, há três operações básicas:
a. análise e tratamento terminológico do termo - elaboração de ficha individual;
b. consulta aos especialistas; consulta a outros bancos para controle do trabalho em etapas posteriores;
c. passagem da ficha manual para a ficha automática. Registro, na ficha automatizada, de informações adicionais pertinentes, como a data de entrada na máquina, etc.
O armazenamento é a criação de um fichário eletrônico por meio de todo o material que entra na máquina, em forma de ficha terminológica. Os fichários dependem de softwares elaborados de acordo com certas finalidades terminológicas e conceituais. O certo é que o banco deve permitir verificação automática de cada ficha, para que se eliminem informações desnecessárias, se introduzam conteúdos novos e se reelabore o conteúdo de cada entrada, se os critérios terminológicos assim o exigirem.
A recuperação da informação se faz de maneira pontual ou sistemática. A pontual consulta cada ficha terminológica individualmente; a recuperação sistemática chama blocos de informações procedentes de um campo léxico sistematizado por meio de um conjunto de fichas. O procedimento usado nesse tipo de operação é idêntico ao do tesauro, em que os termos se relacionam segundo categorias ou classes.
O trabalho automatizado permite reduzir ao mínimo o custo e o tempo dispensados à tarefa terminográfica.
1.5.4. Elaboração de verbetes: da macroestrutura, da microestrutura e dos processos de remissivas do discurso terminográfico
A. A macroestrutura da obra terminográfica, constituída pelo conjunto de entradas, obedecerá a critérios em conformidade com a natureza do corpus. Os critérios a serem rigorosamente observados são:
A.1. A entrada de cada verbete se fará em ordem alfabética? Se assim o for, o glossário estará de acordo comum com a lexicografia tradicional, que organiza seus dicionários seguindo o abecedário.
A2. As entradas serão agrupadas por campo lexical e ordem alfabética? Desse modo, o glossário cria um paradigma macroestrutural não comum à lexicografia brasileira, mas privilegia a consulta segundo os centros de interesse descritos.
A.3. As entradas serão ordenadas de acordo com os hiperônimos, hipônimos e sinónimos? Organizado assim, o glossário, de modelo inédito, se comporá por meio de relações de significação inclusivas, em que quanto menor for a extensão do termo, maior será sua compreensão, porque cada termo estará amparado em campo léxico-semântico próprio.
O modelo mais adequado se revelará com base no próprio corpus recolhido.
B. A microestrutura da obra, isto é, a fórmula para descrição do verbete terá a seguinte configuração:
Verbete = + Termo-entrada + Enunciado lexicográfico
Donde: Enunciado lexicográfico = + Paradigma informacional (± substantivo, ± sintagma) + Paradigma definicional ( = significado do termo naquele discurso concreto) + Paradigma pragmático (= abonações ou ilustrações) ± Paradigma lexical (= remissivas).
Constitui o paradigma um comportamento descritivo uniforme na estrutura do texto.
1.5.5. Processo de remissivas
Estabelece a relação normativa entre um termo e outro no universo do discurso terminográfico. Os termos se relacionam segundo critérios qualitativos dos conteúdos semânticos.
Os critérios qualitativos têm por base relações hierárquicas, equivalentes e associativas. Estas relações dependem de maior ou menor tensão entre os significados em causa, a partir dos traços semânticos constantes na base de cada termo-semema. Neste caso, as relações hierárquicas entre hiperônimos e hipônimos se articulam e funcionam dentro do próprio conjunto de sememas. As de equivalência, do tipo sinonímia, mantêm alguns traços sêmicos em comum produtores da identidade de unidades entre si; as associativas relacionam termos que, aleatoriamente, apresentam algo em comum e que existem na memória virtual de cada indivíduo.
As unidades remissivas perspectivam a moldura de cada campo, ao incluir no significado de um termo genérico os outros semicamente relacionados a ele, o que resulta, normalmente, na organização de uma rede léxica.
1.5.6. Norma lexicológica
Para o estabelecimento de aspectos normativos na organização de um vocabulário técnico-científico devem ser observados, entre outros, os seguintes aspectos:
1. Uma norma deve ser constante e sistemática, mesmo que as soluções adotadas firam determinados aspectos da tradição gramatical.
2. A composição e a derivação de termos neonímicos são feitas de acordo com as regras morfossintáticas e morfofonêmicas da língua.
3. O paradigma de entrada para os verbos é sempre o infinitivo; para os nomes, o singular.
4. O termo estrangeiro passa pela adequação morfossintática da língua receptora.
5. A unidade sintagmática não admite segmentação de suas partes. Etc.
1.6. Softwares necessários (sugestão)
A. Para a primeira etapa da pesquisa são necessários softwares que permitam a execução das seguintes tarefas:
1. gestão de banco de dados bibliográficos;
2. geração de lista, segundo freqüência e disponibilidade dos termos no corpus em análise;
3. inserção de ficha terminológica no computador para posterior preenchimento;
4. gestão de banco de dados terminológicos.
B. Para a segunda etapa, são necessários softwares que permitam a execução das seguintes etapas:
1. gestão de banco de dados terminológico);
2. redação de verbetes, tal e qual o modelo anteriormente descrito;
3. edição do glossário.
1.6.1. Equipamento necessário
Especificação
Microcomputador de 16 bits com placa de vídeo compatível a CGA, com memória RAM inicial de, no mínimo, 640 kb, processador central 8088; 2 drives para discos flexíveis; teclado alfanumérico com, no mínimo, 99 teclas; monitor de vídeo monocromático, fósforo verde, com 1 drive de disco Winchester com 16 Mb.
Impressora matricial com capacidade para 132 colunas e velocidade pelo menos 220 CPS.
Caixas de disquetes dupla/dupla.
Formulários contínuos.
Fitas para impressora.
1.7. Mecanismos de acompanhamento, avaliação e controle
Ao final de cada uma das etapas da pesquisa deve ser redigido um relatório, o qual funcionará como instrumento de controle para as etapas seguintes do projeto.
1.8. Comunicação e difusão
O pesquisador e sua equipe devem:
A Expor as diversas etapas da pesquisa em Fóruns que possibilitem debate, tais como, Congressos, Simpósios, Encontros, Grupos de Estudos, Seminários, etc.
B. Publicar artigos com resultados parciais da pesquisa, bem como artigos e/ou ensaios sobre assuntos pontuais do trabalho. Neste projeto, são passíveis de um artigo com análise própria, conteúdos, como a elaboração da ficha terminológica, a estrutura do verbete, a metodologia da definição, os tipos de relação léxico-semânticas entre termos, gestão de banco de dados, a criação dos softwares específicos, etc.
Gráfico
Ficha terminologica

Bibliografia básica
ACTAS do Primeiro Simpósio Latino-Americano de Terminologia. Grupo de Investigación Terminológica (GIT). Universidad Simón Bolívar, Caracas, Venezuela, 1988.
ALVES, leda M. "Desenvolvimento de um projeto: A terminologia da Inteligência Artificial". Conferência apresentada no II Encontro Nacional de Pesquisadores/Professores de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia. Brasília-DF, CNPq/UnB/LTV, 22 a 24 de março de 1990.
ANCIÃES, Wanderley & CASSIOLATO, José Eduardo. Biotecnologia: seus impactos no setor industrial. Brasília: CNPq/Coord. Edit. 1985. 172 p.
BARBOSA, Maria Aparecida. "Natureza, estrutura e funções da obra lexicográfica: condições de produção". Conferência apresentada no II Encontro Nacional de Pesquisadores/Professores de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia. Brasília-DF, CNPq/UnB/LIV, 22 a 24 de março de 1990.
BARTHOLOMEW, Doris A. & SCHOENHALS, Louise C. Bilingual dictionaries for indigenous languages. Summer Institute of Linguistics. Publicado por el Instituto Linguístico de Verano, México, DF, 1988,370 p.
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TERMINOMETRO . Boletim Informativo de Terminologia, Lingüística Automatizada e Edição de Dicionários. Paris, União Latina (vários números).
Obs.: Todas as conferências e comunicações apresentadas no II ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES/PROFESSORES DE LEXICOLOGIA, LEXICOGRAFIA E TERMINOLOGIA estão reunidas em um CADERNO DE RESUMOS, organizado pela Coordenadora do evento, Prof a Enilde L. de J. Faulstich.
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