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Terminologia e lingüística: aspectos ideológicos, lexicofráficos e metodológicos
Nelly Medeiros de Carvalho
Universidade Federal de Pernambuco
Brasil
Resumo
A presente exposição visa divulgar os pensamentos da teoria lingüística em que se baseiam os trabalhos terminológicos. Para tanto, examinou-se a relação nome/referente, partindo de aspectos lexicográficos envolvendo também os aspectos ideológico e metodológico. São teorias terminológicas desenvolvidas em outras línguas e culturas por lingüistas como Guilbert, Drozd e Rondeau, cuja divulgação se torna necessária para que se estabeleça uma terminologia de língua portuguesa, edificada em bases lingüísticas cientificamente planejadas.
Introdução
A terminologia é um setor particular do léxico, cujo estudo não pode ser isolado do estudo global de determinada língua. Este léxico particular terminológico é considerado o conjunto de termos específico de uma atividade e, desta forma, tem como referência o domínio da realidade de uma atividade concreta ou especulativa. Esta ligação nome/referente, através de um conceito, é a origem de toda e qualquer denominação, ocasionando dúvidas e dificuldades lingüísticas.
A denominação pressupõe o isolamento de um elemento lingüístico como unidade significante, que se realiza na ligação com um elemento significado (conceito), surgindo assim o signo lingüístico.
Para o lingüista, que considera o signo lingüístico como arbitrário, os virtuais desajustes entre linguagem (significante) e mundo (significado) não interessam. Extrapolam seu domínio. A terminologia, contudo, não pode admitir esta falha. Se para o falante comum o signo não é arbitrário, palavra e coisa se identificam, para o usuário de determinada terminologia, técnico, cientista ou leitor, isto é fundamental. O termo é o objeto. Não deve haver espaço para dúvidas.
A interação entre o conceito e a denominação não é percebida na linguagem cotidiana, porque os falantes têm uma bagagem lexical que não é questionada. Mas ela se revela na etapa de criação de um termo novo, que corresponda a um conceito de conteúdo novo.
Alguns teóricos são favoráveis a que a formação preceda a lexicalização. Eles definem que a diferença de significação, que se pode constatar entre palavras do vocabulário corrente e termos científicos, reside numa diferença específica de conteúdo e que a riqueza de conteúdo do termo científico deve-se ao rigor do conceito formado anteriormente (ex. raio na linguagem comum e no domínio da física). Mas esta diferença de conteúdo não é total. Depende do registro de fala até no mesmo falante.
A relação entre o nome e seu referente não interessa aos lingüistas, conforme já foi observado: é o extralingüístico. Mas, como observa Guilbert, não é fácil esquecer e não levar em conta a realidade do mundo em que vivemos.
Lingüistas de várias tendências, pragmatistas, behavioristas e neopositivistas adotam um ponto de vista para a ligação nome/coisa que poderia servir de orientação para a terminologia.
Consiste em definir a significação dos nomes dos termos pelo seu uso: "A significação do nome é seu uso na língua, e o sentido se define apontando o objeto assim nomeado." (Wittgstein).
Esta definição garante a eficácia da prática técnica e científica, na medida em que o nome assimila o objeto nomeado.
1) Fundamentos Lingüísticos
Esta concepção assim delimitada adapta-se bem à terminologia da nomenclatura em ciências, como astronomia, geografia, história, isto é, em ciências descritivas, realizando a univocidade: um só nome/uma só coisa.
A terminologia, no entanto, não pode ser identificada apenas como nomenclatura técnico-científica, pois ela integra a descrição também da prática tecnológica, isto é, da ação sobre as coisas. Não se trata portanto de um aspecto puramente lingüístico: o signo isolado do referente, no aspecto filosófico-conceptual, nem o conceito isolado do signo. A significação integra o processo de comunicação. Ela supõe, segundo Schaf, três elementos:
1- dois interlocutores;
2 - o objeto, nomeado pelo signo;
3 - o signo, transmissor de informações.
Neste esquema, aplicado à terminologia, os interlocutores são os especialistas, o objeto faz parte do domínio de conhecimento e o signo é uma referência direta.
O procedimento de predicação transforma-se sempre em um sintagma, em que o determinante especifica o tipo e a qualidade do determinado: trem-bala; navegação-aérea. Na forma de locução, ela é produto de uma relação predicativa em que o sintagma é fruto de uma forma transformada da sintaxe do discurso: avião-a-jato; ogiva-nuclear.
A unidade terminológica apresenta traços comuns com o vocabulário geral, com a predicação nominal e a verbal.
A homonímia ou a polissemia da unidade terminológica é desfeita pela predicação. Fonte (palavra do vocabulário geral), conforme a predicação, pertence a áreas diversas. Por exemplo, fonte em fonte-energética.
Para Guilbert, o termo especializado neológico procede de um discurso que apresenta e descreve o objeto novo. Ex: aparelho de ar condicionado, ilha energética, avião a jato. As normas de uso e de descrição asseguram a melhor utilização possível dos termos técnicos para evitar toda ambigüidade na comunicação.
A sinonímia, através de perífrases e paráfrases é parte integrante do discurso técnico ou científico, que utiliza descrições, aproximações sucessivas, antes de explicitar a denominação.
Este procedimento é a prática corrente enciclopédica dos dicionários técnicos.
O objeto ou a experiência serve de proposição de base e a noção é transmitida através de descritores, isto é, segmentos lingüísticos que a transmitem a nós.
Quando o termo técnico a ser nomeado é importado de outra língua e cultura, surgem os problemas de tradução. Se o termo técnico corresponde de uma maneira unívoca a um referente conceptual ou real, pode haver dois tipos de solução:
o termo da língua-fonte passa a ser indissociavelmente ligado ao objeto, ou seja, é intraduzível: video-tape, hardware, software;
a tradução é feita na língua com termos equivalentes em vista do princípio de univocidade. Ex: aeroplano/airplane; dormentes/sleeper; espaçonave/spaceship.
Nem sempre, contudo, esta tradução resulta ideal e por isso não tem êxito no uso, pois cada denominação é estritamente ligada ao tipo de estrutura sintática da língua. Ex: decibilímetro.
2) Aspectos ideológicos da terminologia
Embora o pensamento denominante seja de que a ciência e a técnica são os domínios da objetividade, isto nem sempre é verdade. Ambas podem ter, em sua raiz, um viés ideológico. Pesquisas são feitas sempre visando o interesse dos países dominantes e, assim, campos técnicos desenvolvidos são os que possam favorecer estes interesses. O levantamento das diversas funções da terminologia permite sua dimensão social.
A terminologia denominando o objeto, segundo L. Guilbert, tem uma função:
Enumerativa - classificação e nomenclatura
Cognitiva - designação e comunicação
Documentária - enquadramento do termo em determinado domínio
Neológica - realização técnica e científica nova
Jurídica - apropriações e contratos
Publicitária - conquista de clientela
Comunitária - expressão coletiva de acordo com o sistema.
A terminologia, assim, não pode estar dissociada das forças produtivas associadas a ela, e desta forma não é neutra, pois é elaborada por uma parte menor das forças produtivas: a classe social dominante, os tecnocratas.
O signo, isto é, o significante e sua sintaxe, apóia-se em um conhecimento anterior do conteúdo a ser expresso. Os termos são formados pelos teóricos, utilizando raízes gregas e latinas já conhecidas e divulgadas no ramo do saber. O lingüista geralmente apenas analisa e aprova/desaprova, examinando suas repercussões no sistema lingüístico. Desta forma, a terminologia entra no domínio da política das Línguas Nacionais para definir o limite de tolerância do sistema lingüístico e cultural, a fim de que se adotem medidas regulamentares e que se evitem atitudes laxistas. A terminologia toma-se assim o campo da rivalidade e dominação política e econômica.
Os grandes aliados da dominação são os executivos, pois, para eles, facilita bastante a adoção rápida de novos termos-empréstimos.
O uso generalizado de raízes greco-latinas corresponde ao desejo de universalidade na terminologia técnico-científica. Porém, há sempre a necessidade de tradução e adaptação na língua-alvo, por mínima que seja.
3) Aspectos lexicográficos
A análise das unidades terminológicas tem um caráter binário, isto é, ela se efetua do ponto de vista do significante (forma) e do significado (conceito). Por isto, inclui as relações palavra/frase/enunciado, língua/pensamento, língua/realidade extralingüística. Assim a terminologia está ligada às seguintes ramificações da lingüística:
lexicografia e lexicologia
semântica
sociolingüística
lingüística aplicada
Mas como a terminologia é baseada essencialmente no léxico, criando o léxico especializado, sua base é a lexicografia.
O termo técnico mantém uma ligação real e unívoca com o objeto e por isso não pode ser descrito e estudado da mesma forma que um termo da língua comum. Assim, a terminologia técnica faz parte do domínio da lexicografia, porém de uma lexicografia diferenciada, "técnica", por assim dizer.
O termo dicionarizado constituí uma unidade léxica extraída do enunciado, podendo ser submetida a uma análise sintática e semântica no discurso onde é usada. Esta análise indica o nível sócio-lingüístico do eventual emprego.
Já o termo técnico é o suporte da noção que ele descreve e define na sua totalidade, e este princípio acarreta conseqüências, por diferir da descrição do termo comum.
A classificação alfabética, usada na lexicografia da língua comum, não pode ser utilizada, pois não tem coerência e não favorece a aproximação de domínios específicos. A entrada não deve se basear no termo, mas no domínio de conhecimento.
A descrição do léxico terminológico não visa o estudo da língua em si; ele é por definição especializado num domínio delimitado, cujos termos não podem ser polissêmicos e remeter a vários domínios. A entidade lexical terminológica pode ser constituída por um sintagma mais ou menos desenvolvido e não somente por um termo.
O termo técnico-científico - como signo - é acompanhado de uma descrição, que tem o duplo aspecto de uma proposição ligada a um termo de compreensão mais ampla e de descrição do objeto com o uso da linguagem comum.
Assim, até no tratamento lexicográfico, o termo técnico-científico exige uma técnica específica.
4) Aspecto metodológico
Como já vimos, os métodos da terminologia e da lexicografia diferem em alguns pontos, sobretudo no objetivo e na ótica. Enquanto a lexicografia é descritiva, a terminologia é normativa. Na lexicografia terminológica, a tendência é de normalização em todos os aspectos do trabalho, havendo dois tipos de pesquisa: temática e pontual.
A terminologia pontual tem por fim fornecer respostas de qualidade a questões específicas.
A terminologia temática estabelece, de forma exaustiva, o conjunto de termos, noções ou denominações ligadas a um domínio.
Na pesquisa terminológica, temos como fases definidas: a coleta, o tratamento de dados e a difusão dos termos.
Na metodologia da terminologia pontual cumprem-se as seguintes etapas, fundadas numa terminologia bilíngüe:
1) estabelecimento de um macrocontexto;
2) estabelecimento de um microcontexto;
3) consulta a um banco de termos;
4) delimitação mais precisa da noção por meio de análise documentária e consulta a especialistas;
5) estabelecimento de uma equivalência nocional na língua-alvo;
6) estabelecimento de uma equivalência de denominação.
Na metodologia da terminologia temática, há dois tipos de ação:
a onomasiológica —cria novas nomenclaturas;
a semasiológica —utiliza métodos lexicográficos e lexicológicos;
Suas etapas do trabalho terminológico-temático são as seguintes:
escolha do domínio da língua do trabalho;
delimitação dos especialistas;
coleta de informações;
estabelecimento de árvore de domínio;
expansão da representação do domínio escolhido;
estabelecimento dos limites da pesquisa;
coleta e classificação de termos;
verificação e classificação das duplas —noção/denominação;
trabalhos de apresentação dos dados comparados.
5) Conclusão
A terminologia é desta forma uma ciência de bases lingüísticas, com características próprias, que a fazem um domínio especial de estudo e pesquisas com finalidades imediatas e práticas.
Por isto, é um ramo da lingüística que, ligado à política de língua, só pode ser desenvolvida e aplicada com o apoio de organismos públicos que lhe concedam recursos financeiros às pesquisas e trabalhos terminológicos, e respaldem e ratifiquem o uso, implantação e a adoção dos termos levantados.
6) Bibliografia
BOULANGER, Jean Claude. Problématique d'une Méthodologie de l'identification des néologismes en terminologie", in Néologie et Lexicologie, Larousse, Paris, 1979.
DROZD, L. "Science Terminologique: objet et méthode", in Textes Choisis en Terminologie , Girsterm, Québec, 1983.
DUBUC, Robert. Manuel Pratique de Terminologie, Québec, Linguatech,1978.
GUILBERT, Louis. "Terminologie et Linguistique", in Textes Choisis en Teminologie, Girsterm, Québec, 1983.
RONDEAU, Guy. Introduction à la Terminologie, Gäetan Mourin éditeur, Québec, 1984.
SIFOROV, V,I. "Terminologie Scientifique et Technique", in Textes Choisis en Teminologie, Girstern Québec, 1983.
WERSIG, G. "Procédés de la Rercherche Terminologique", in Textes Choisis en Teminologie, Girsterm Québec, 1983.
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