|
Algumas reflexões a favor da diferenciação entre
terminologia
e terminografia Catherine Carras
Université Lumière Lyon II
França
Universidade de São Paulo
Brasil
Resumo
Constituindo o que se denomina habitualmente "Terminologia'' essencialmente uma atividade prática, não seria mais adequado denominá-la "terminografia", na mesma linha da distinção que se estabelece entre lexicologia e lexicografia? Nesse caso, a palavra "terminologia" designaria a teoria. Entretanto, seria conveniente falar de teoria, tratando-se de uma atividade concebida para resolver problemas de expressão e comunicação imediatos? Contudo, a distinção parece pertinente. O "terminógrafo" dever ser também ma "terminólogo", ou seja, deve ser capaz de definir os princípios e métodos que regem sua prática. Sem bases teóricas (mesmo implícitas) não se poderia falar de terminologia nem de terminografía.
Gostaríamos de apresentar algumas reflexões a favor da diferenciação e, portanto, do emprego dos dois termos, terminologia e terminografia, relembrando que para nós a palavra "terminologia" designa o conjunto dos termos que constituem o vocabulário de uma ciência ou tecnologia, mas também a atividade de constituição e compilação desse conjunto de termos. No estado atual dos conhecimentos sobre a ciência terminológica, uma pergunta pode ser colocada: será pertinente estabelecer uma distinção entre terminologia e terminografia, ou seja, entre a terminologia como ciência básica e a terminografia como atividade prática? Essa pergunta pode ser posta em paralelo com a diferenciação que se pode estabelecer entre a lexicografia, como pesquisa fundamental e metadiscurso sobre a obra lexicográfica, e a prática lexicográfica. No entanto, a terminologia sendo, atualmente, mais uma prática que uma ciência, poder-se-á falar de teoria? Com efeito, a atividade terminológica é concebida sobretudo para resolver problemas de expressão e comunicação imediatos, e a palavra "terminologia" designa essencialmente essa atividade prática. E, dada a finalidade dessa prática, podemos pensar que a primeira preocupação dos terminólogos não é a de desenvolver um metadiscurso sobre a sua atividade. Mas diversos argumentos podem jogar a favor da diferenciação entre terminologia-teoria e terminografia-prática. Em primeiro lugar, dado o desenvolvimento atual da prática terminológica e a necessidade crescente dessa atividade, torna-se indispensável uma reflexão teórica que, até agora, não foi inexistente, mas permaneceu talvez "implícita". Depois, o fato de não estabelecer alguma distinção entre terminologia e terminografia seria esquecer que os terminógrafos são também terminólogos, ou seja, além da prática, apóiam-se numa teoria e são capazes de definir os princípios e métodos que regem essa prática. De outro ponto de vista, não pode haver teoria terminológica sem prática. Segundo Alain Rey "il n'y a pas de théorie terminologique possible (ou sérieuse) sans terminographie", e fica claro que a reflexão teórica não pode anteceder a prática, mas deve fundamentar-se, enraizar-se nela, como a prática se apóia na teoria. É justamente a prática que leva a descobrir a possível falta de uma teoria explícita. É possível relembrar que a situação é parecida em lexicografia, em que, pelo menos na França, a reflexão teórica em lexicografia é, em grande maioria, obra de lexicógrafos (por exemplo Alain Rey e Josette Rey-Debove dos dicionários Robert, Claude Dubois dos dicionários Larousse). Nesse caso, e pela nossa própria experiência, pensamos que a teoria e a prática alimentam-se mutuamente, é difícil definir qual antecede a outra, e que a atividade lexicográfica é um vaivém perpétuo entre a teoria e a prática. Portanto, a teoria e a prática são mutuamente ligadas, embora distintas, e o emprego de dois termos (terminologia/terminografia) permitiria estabelecer a distinção entre elas. A terminografia designaria, portanto, a atividade que consiste em descrever um conjunto terminológico. A palavra "terminologia" designaria, por sua vez, esse conjunto de termos e também a ciência terminológica. Assim, torna-se necessário desenvolver uma teoria terminológica distinta da prática, o que não foi realmente o caso até agora. A "construção" de uma teoria terminológica explícita só poderá servir à prática, que terá assim bases sólidas. Consideramos como "teoria" terminológica o fato de, primeiro, definir claramente o objeto e os limites dessa ciência, nomeadamente em relação às outras ciências cujo objeto é o léxico, ou seja, a lexicologia e a lexicografia. Com efeito, muita gente acredita que a terminologia não é mais que uma lexicografia dos domínios especializados, nomeadamente técnico-científicos. Se a terminologia quer constituir-se em ciência, é necessário distingui-la claramente dessas duas ciências, mesmo reconhecendo a sua ligação, e possível articulação, e o fato de que são complementares. Depois, pensamos que seria útil que a terminologia pudesse existir como uma ciência "à part entière", e não consistisse só em resolver problemas pontuais. A função teórica da terminologia seria a de estudar cientificamente as relações entre os sistemas de termos e os conjuntos funcionais conceitualizados. Aqui, tratar-se-ia, mais precisamente, de metaterminologia. Cabe portanto ao terminógrafo a tarefa de suscitar essa reflexão.
|