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Fundamentos de terminologia: conceitos necessários na formação de tradutores. Avaliação e crítica
Maria Cândida Rocha Bordenave
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Brasil
Resumo
No contexto dos recentes desenvolvimentos da Terminologia no Brasil, destacamos e analisamos a relevância dos estudos terminológicos para a formação de tradutores. Tais estudos têm por objetivo iniciar o futuro tradutor nas questões terminológicas, na metodologia específica de pesquisa, na relevância deste trabalho para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, na necessidade de formação de pesquisadores da área. Discutimos o conteúdo de tal programa constando de fundamentos teóricos e aplicações práticas. Fazemos uma dupla crítica e avaliação dos resultados, tanto em relação ao estudante como à difusão da pesquisa terminológica.
Justificativa
A existência de linguagens especializadas não é nova no mundo, mas a sua proliferação e o surgimento de estudos com o objetivo de organizá-las e padronizá-las é relativamente recente, datando, talvez, do fim da Segunda Guerra Mundial.
No Brasil, o movimento é recentíssimo, apesar da necessidade premente sentida nos meios científico-tecnológicos. E só agora, graças à iniciativa do IBICT, temos a realização do lc Encontro Brasileiro de Terminologia.
As dificuldades terminológicas existentes são uma constatação óbvia e um sofrimento para tradutores, intérpretes e redatores técnicos. Os próprios especialistas freqüentemente preferem recorrer a termos em língua estrangeira, na insegurança de usar um termo em português ainda mal integrado no ambiente cientifico nacional.
A partir das idéias acima e do reconhecimento de que os estudos terminológicos precisavam se fazer presentes no ambiente acadêmico, foi criada a disciplina Introdução à Terminologia para alunos de graduação do Curso de Formação de Tradutores do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, disciplina que tem sido ministrada anualmente a partir do primeiro semestre de 1987.
Era nossa opinião que a formação de tradutores deveria incluir, ainda que sucintamente, noções de Terminologia, como teoria e prática, noções sobre a inserção desta nova área no desenvolvimento científico-tecnológico do país, sobre seu papel na defesa da nossa autonomia lingüística frente à invasão de termos estrangeiros? e a relativa desordem e ambigüidade de termos existente em áreas mais recentes do saber científico.
Acreditávamos que os futuros tradutores deveriam conhecer a realidade lingüística dos países em desenvolvimento - o nosso -, mais ou menos dependentes dos países centrais, para poderem lidar com tais dificuldades e buscar soluções adequadas para o problema lingüístico que, de certa forma, reflete a maior ou menor autonomia do país. Contemplava-se uma questão lingüística de grandes proporções articulada a uma questão política.
Tais pressupostos foram as justificativas para se criar a disciplina que deveria constituir mais uma ferramenta de trabalho para o futuro tradutor.
Conteúdo do Programa
A estruturação do programa, deveria obedecer aos parâmetros da realidade em que se inseria.
Não foi uma tarefa fácil selecionar o conteúdo que interessasse a estudantes de Tradução, uma área que diferia em sua natureza da nova disciplina proposta. Apesar de sua base eminentemente lingüística, a Terminologia se apresenta como prática que se pretende exata, com uma metodologia rigorosa, o que nem sempre ocorre com as disciplinas de Letras. Assim, o programa foi planejado para ser ministrado em um semestre com uma aula semanal de duas horas e destinado a estudantes com outra carreira em mira, a de Tradutor. São estudantes que não estão prioritariamente interessados na área ou com vocação para este tipo de pesquisa. A terminologia surgia, então, como um corpo estranho, um acréscimo ao conjunto integrado do programa.
Diante destes condicionamentos, o programa consistiu em pontos básicos da teoria terminológica com ênfase em trabalhos práticos, como aplicação dos conhecimentos teóricos.
Em vez da listagem dos itens do programa, as questões serão apresentadas em quatro núcleos programáticos, seqüencialmente integrados e que veremos a seguir.
O primeiro núcleo programático tem por objetivo colocar as fundamentações e justificativas para a disciplina.
A partir da conceituação da terminologia como área aplicada interdisciplinar, busca-se apontar a sua relevância e imprescindibilidade no mundo moderno polifacetado em termos do saber humano. O aparecimento de novas invenções, fatos e processos constitui o contexto que exige o desenvolvimento da área terminológica na sua teoria e na multiplicação dos trabalhos de pesquisa. A terminologia surge como o instrumento de demarcação, organização e hierarquização dos conceitos e suas denominações, contribuindo para melhor comunicação e eficiência dos cientistas, estudiosos e usuários de áreas da ciência, tecnologia, artes, cultura, e atividades humanas em geral. Enfatiza-se aqui a sua necessidade, principalmente, em um país como o Brasil, tanto pela sua insularidade lingüística como pelo seu atual estágio de desenvolvimento.
É também apresentada uma visão cronológica da Terminologia com seus principais marcos históricos, entidades e instituições com a finalidade de inserir o estudante no movimento terminológico internacional.
O segundo núcleo programático discute conceitos específicos da área, com análise de definições e distinções que levam a uma compreensão adequada e exata do corpo de conhecimentos necessários ao trabalho terminológico. As características distintivas de termo e palavra, linguagem comum e linguagem especializada, estudos terminológicos e estudos lexicográficos, sentido onomasiológico ou semasiológico são abordadas, para que uma rede de novos conceitos próprios da área seja apreendida pelo estudante.
O terceiro núcleo apresenta os princípios operacionais da pesquisa terminológica propriamente dita, destacando sua metodologia específica, tanto para os estudos pontuais como para os temáticos. Abordagens monolíngües e plurilíngües são analisadas em seus vários aspectos, bem como a composição da ficha terminológica.
O quarto núcleo programático engloba os modos especiais de formação dos termos, item que se articula seqüencial e conceitualmente com os aspectos da neologia terminológica, objetivo de uma discussão mais aprofundada no curso. Esta constitui uma questão relevante e fundamental para a ciência terminológica no Brasil, em face da velocidade do desenvolvimento científico-tecnológico e da proliferação de termos no mundo moderno. Outras questões relevantes, mas externas à pesquisa propriamente dita, são ainda abordadas e longamente discutidas, tal como o processo de normalização terminológica, envolvendo os vários fatores lingüísticos, sociais, psicológicos, culturais e científicos, os diferentes métodos de difusão e, especialmente, a constituição de um Banco de Termos.
Simultaneamente às apresentações e discussões de caráter teórico, o curso tem um forte componente prático, no qual se espera que o estudante aplique aqueles conhecimentos a trabalhos práticos de pesquisa. Ele é levado a se familiarizar com trabalhos existentes e analisá-los como, por exemplo, o trabalho ora sendo realizado pela CT:21 da ABNT/ISO sobre o vocabulário de Informática, o modelo de estudo terminológico sobre meio ambiente feito na Universidade do México e outros mais. Principalmente ele deve realizar exercícios breves de pesquisa monolíngües ou bilíngües, cujas áreas estejam no âmbito de sua compreensão, e apresentar uma pesquisa de final de curso para fins de avaliação, em que a maior ênfase é dada à metodologia rigorosa do trabalho.
Crítica e Avaliação
A terceira parte desta comunicação consiste em uma avaliação e crítica da nossa proposta, isto é, da inserção da disciplina Introdução à Terminologia em curso de graduação de formação de tradutores.
Abordaremos esta questão, primeiro, sob um ponto de vista interno, isto é, se os objetivos do curso foram atingidos e qual a resposta dos estudantes a ele.
Os objetivos propostos foram:
destacar a necessidade dos trabalhos terminológicos no mundo moderno marcado por extraordinárias e rápidas inovações científico-tecnológicas;
enfatizar esta necessidade para um país como o Brasil;
familiarizar os futuros tradutores com os conceitos de terminologia e sua metodologia específica de pesquisa;
exercitá-los na aplicação daqueles conceitos e da metodologia em trabalhos práticos;
contribuir para o desenvolvimento da área terminológica no país e assentar as bases para o eventual surgimento de trabalhos terminológicos abrangentes, tanto na universidade como em outras instituições.
É nossa opinião que tais objetivos foram alcançados, o que se pôde comprovar pelo interesse e motivação dos estudantes pelas diversas questões discutidas.
Ao ser inserida no currículo de formação de tradutores, embora distanciada em forma e conteúdo das disciplinas usualmente cursadas por aqueles estudantes, ela veio ao encontro das necessidades da tradução. Constantemente, tais alunos se deparavam com a problemática da inexistência ou da ambigüidade dos termos em português, principalmente nas áreas científicas de desenvolvimento recente.
A aprendizagem também realizou-se adequadamente, comprovada que foi, não sopeia participação interessada dos estudantes nas aulas, como também pela qualidade dos trabalhos práticos realizados, em especial os trabalhos finais. Usando os critérios de:
1) rigor na metodologia de pesquisa;
2) uso adequado de definições e contextos na delimitação dos termos;
3) preenchimento correto das fichas terminológicas; e
4) pesquisa de sinonímia e equivalência correta em língua estrangeira, pode-se concluir que o aproveitamento da maioria dos estudantes foi altamente satisfatório.
Os trabalhos finais tinham uma grande variedade de temas abrangendo desde Botânica (Plantas ornamentais e Plantas condimentares) a Aeronáutica (Instrumentos de vôo do painel do avião), a Música (Formas musicais e Instrumentos de Orquestra Sinfônica), a Zoologia (Mamíferos Aquáticos), a Engenharia Naval (Acessórios do convés do navio), Esportes (golfe), Teatro (Termos do palco) e muitos outros.
O conteúdo programático também foi julgado adequado. Dentro das condições explicitadas no início desta exposição - tempo breve e disciplina inserida em programa diverso -, julgamos os resultados muito bons, considerando que o objetivo do curso não foi a formação de terminólogos, mas de tradutores conscientes dos problemas terminológicos e capazes de usar corretamente a metodologia de trabalho proposta, o que ficou comprovado pelas características dos trabalhos realizados.
Podemos também fazer uma dupla avaliação dos resultados, usando um critério externo, isto é, do ponto de vista da área da Terminologia ou a partir dos efeitos do curso na formação dos tradutores.
Qual seria a contribuição recíproca dos dois pólos da experiência? O tradutor estaria mais integralmente formado com o conhecimento, ainda que introdutório, da área de estudos terminológicos? Até que ponto este conhecimento contribui para o trabalho profissional do tradutor?
E, em segundo lugar, a área emergente da Terminologia teria algo a ganhar com a introdução da disciplina nos cursos universitários de formação de tradutores?
Começando com esta última questão, a resposta é relativamente mais simples e óbvia.
Para uma área de estudo emergente e relativamente desconhecida, a divulgação de seus princípios, objetivos e resultados no âmbito da Universidade é sempre proveitosa. A terminologia surge como algo importante, novo e necessário, e suas pesquisas atraem interesse, sensibilizando também as áreas científico-tecnológicas. O estudante de tradução descobre mais uma potencialidade na sua formação acadêmica. Na medida em que a área se desenvolva no país e se estabeleçam projetos abrangentes de pesquisa, ele poderá se interessar em deles participar, já em caráter profissional.
A primeira pergunta acima proposta é mais complexa e mais produtiva, isto é, qual é a contribuição do conhecimento terminológico para a formação do tradutor?
Com base nos cursos já ministrados por mim a partir de 1988, considero a disciplina altamente proveitosa para o futuro tradutor, pelas razões que se seguem:
Ao lidar com os problemas concretos dos termos, ele vê fortalecidos os seus conhecimentos de Lingüística e, em especial, de Semântica Lexical
Ele percebe que sua formação de Letras, seus estudos de Morfologia, Sintaxe e Semântica, juntamente com sua experiência em Tradução, lhe dão ótimas condições para compreender a problemática terminológica e nela intervir na sua prática tradutória, se for necessário e conveniente.
Ele desenvolve habilidade no uso de conceitos e processos lógicos, como, por exemplo, a classificação hierárquica dos conceitos, no uso dos conceitos de superordinação e subordinação na estruturação de uma árvore de domínio, de exclusão e inclusão, de distinção entre qualidades extrínsecas e intrínsecas, fundamentais na delimitação de uma noção e na definição do termo.
Concluindo a avaliação, o aprofundamento ou conscientização dos processos lingüísticos, juntamente com o desenvolvimento das operações mentais necessárias à atividade tradutória só pode levar ao aperfeiçoamento dessa atividade. Pois a tradução se faz, sim, com conhecimentos adquiridos, mas também, e sobremaneira, com o desenvolvimento das habilidades intelectuais intrínsecas ao processo tradutório.
Aqui está, em breves linhas, o relato de uma experiência de três anos que me foi altamente satisfatória e, acredito, também para os estudantes. A intenção desta apresentação foi não só trazer esta experiência ao conhecimento dos participantes deste Simpósio, como também chamar a atenção para a necessidade e a utilidade de se incluírem os estudos terminológicos nos currículos universitários, fazendo das universidades núcleos de pesquisa e de expansão da nova ciência da Terminologia.
Bibliografia
DUBUC, Robert. Manuel Pratique de Teminologie. Linguatech, 1985, Montreal.
REY, Alain. La terminologie: noms et notions. PUF, Paris.
RONDEAU, Guy. Introduction à la terminologie. Centre Educatif et Culturel, 1981, Montreal
ISO - Documentos.
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