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Índice por autores

 

 

Indexação: ponto de vista dos autores
de artigos científicos versus indexadores

João Luiz Moreira Continuo Azevedo*
Dinah Aguiar Población **
Saul Goldenberg *
* Escola Paulista de Medicina
** Universidade de São Paulo
Brasil

 

Resumo

Foi estudada a indexação no INDEX MEDICUS LATINO-AMERICANO de 46 artigos publicados na ACTA CIRÚRGICA BRASILEIRA, no sentido de pesquisar o grau de adequação das propostas de indexação dos autores dos artigos e das indexações feitas pela BIREME. Constatou-se que os autores empregaram descritores que não constavam no catálogo de descritores da BIREME (DeCS).

Além disso, eles omitiram qualificadores que deveriam ter sido empregados. Por outro lado, a indexação da BIREME foi insatisfatória em muitos casos, ao escolher descritores que não transmitiram fielmente o conteúdo dos artigos indexados. Dessa forma, parece que os autores de artigos científicos devem se adestrar na utilização do DeCS e os indexadores da BIREME devem consultar mais freqüentemente a assessoria científica da área biomédica da BIREME. Observou-se que o DeCS oferece terminologia biomédica adequada para indexação de artigos, mas o seu vocabulário necessita de aperfeiçoamento e de ampliação pela admissão de novos termos.

 

Introdução

As mudanças sociais e culturais que ocorreram no Brasil durante o século XIX encontram suas raízes no fato histórico da transferência da família real portuguesa, em 1808.

A partir dessa época, cresceram os movimentos políticos e a influência da cultura francesa, a qual já predominava entre os estudantes brasileiros que tinham o privilégio de estudar em universidades européias. Cresceu também a presença da Inglaterra, que exportava para o Brasil a tecnologia necessária para a agricultura e o comércio.

Tal era o ambiente social no Brasil colonial.

Nele florescia uma elite intelectual na qual sobressaiam os médicos.

Nesse contexto, pode-se considerar que a classe médica foi a pioneira em demonstrar o seu interesse pela área científica e exigir o apoio da documentação organizada.

A importação de modelos europeus, com a finalidade de implantá-los nas instituições brasileiras, foi iniciada pelo médico Ramiz Galvão, por ocasião da sua administração como diretor da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no período de 1870 a 1882.

Ainda no século XIX destaca-se o Dr. Juliano Moreira, que filiou-se ao Instituto Internacional de Bibliografia e introduziu o sistema da Classificação Internacional Universal (CDU) nos Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia.

Embora as escolas médicas tenham surgido no Rio de Janeiro e na Bahia em 1808, no entanto a produção científica só foi registrada em São Paulo, quando surgiu a primeira bibliografia médica.

A preocupação com a indexação da literatura médica brasileira foi demonstrada pelo médico Jorge de Andrade Maia, que publicou o índice Catálogo Médico Paulista , volumes 1 a 3, correspondentes ao período de 1860 a 1936. A partir de 1937 (volume 4), Andrade Maia ampliou o escopo da bibliografia, transformando-a de regional (paulista) em nacional ( Bibliografia Brasileira de Medicina ). Vencendo todas as dificuldades inerentes a esse trabalho, ele conseguiu publicá-la até 1958.

Posteriormente, a partir de 1965, o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) assumiu a publicação da Bibliografia Brasileira de Medicina , apesar de o trabalho de indexação ter permanecido sob a responsabilidade da equipe de profissionais da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, orientada por Andrade Maia.

O IBICT conseguiu manter a publicação da Bibliografia Brasileira de Medicina até 1978/79 (o material relativo a esse biênio foi publicado com atraso, em 1981).

Nessa época, Bibliografia Brasileira de Medicina , ao ser interrompida em 1979, incluía apenas 136 títulos de periódicos médicos que remanesceram dos 2079 títulos publicados de 1827 a 1978.

Atualmente, a área da saúde está representada por, aproximadamente, 200 títulos de periódicos brasileiros, desde os gerais até os especializados. Esses títulos estão incorporados à base de dados LILACS, mantida pela BIREME.

O presente trabalho objetiva avaliar os descritores atribuídos pelos autores de artigos científicos, publicados em revistas de cirurgia, e compará-los com aqueles utilizados pelos indexadores que elaboram bases de dados nacionais e internacionais.

 

Método

Dentre as revistas de cirurgia foi escolhida para a pesquisa a Acta Cirúrgica Brasileira, publicação periódica trimestral, órgão da Sociedade Brasileira para o Desenvolvimento da Pesquisa em Cirurgia "Professor David Rosenberg" - SOBRADPEC. Iniciado em 1986, o periódico tem abrangência nacional mediante a sua distribuição gratuita a centros de pesquisa e bibliotecas do país e, também, pela divulgação que é feita pelas secções regionais da SOBRADPEC.

O estudo restringiu-se a uma amostra aleatória de 46 artigos publicados nos três primeiros volumes, referentes ao período de 1986 a 1988.

Procedeu-se da seguinte forma:

1 - De cada artigo foi extraída a referência bibliográfica completa, acompanhada dos descritores atribuídos pelos respectivos autores.

2 - Esses descritores foram confrontados com a lista denominada Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), elaborada pela BIREME em 1988 e com o suplemento referente ao período 1988/89.

3 - Os 46 artigos que compõem a amostra foram localizados na base de dados "Literatura Latino-Americana de Ciências da Saúde - LILACS", elaborada pela BIREME. Na indexação desses artigos foi utilizado o DeCS.

4 - Os descritores atribuídos pelos autores dos artigos foram confrontados com aqueles utilizados pelos indexadores da BIREME para gerar a base de dados LDLACS.

5 - A adequação da escolha dos descritores foi avaliada por dois juizes que são professores de Cirurgia, e estão envolvidos com o Curso de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Escola Paulista de Medicina. Nesse Curso, os alunos são treinados no uso dos descritores, tanto para indexar a produção científica como também para, na qualidade de usuários, utilizar o sistema visando recuperar a literatura pertinente às linhas de pesquisa do Curso.

6 - Para o julgamento dos descritores, os juizes utilizaram as instruções do DeCS e avaliaram a pertinência ou não da escolha dos descritores, feita tanto pelos autores dos artigos quanto pelos indexadores da BIREME. Considerou-se como critérios de inadequação da escolha dos descritores quando: a) havia descritor adequado no DeCS que não foi utilizado, tendo-se escolhido descritor ausente da lista; b) a escolha recaiu em descritor que, embora presente no DeCS, não era o mais adequado ao caso, em detrimento da escolha de outros mais pertinentes, também presentes no DeCS; c) recomendações expressas de indexação, constantes no DeCS, foram ignoradas; d) o qualificador (sub-descritor) foi omitido; e) o descritor escolhido não logrou refletir o conteúdo do artigo; f) o descritor utilizado tinha sentido muito amplo ou g) muito restrito.

 

Resultados

Dos 46 artigos foram realizadas 290 indexações, sendo utilizados pelos autores 127 descritores e pelos indexadores 163 (gráfico 1).

Dos 127 descritores utilizados pelos autores, 90 (71%) constavam do DeCS e 37 (29%) não constavam (gráfico 2). Os autores aplicaram qualificadores em 3 (2%) descritores (gráfico 8).

Dos 163 descritores utilizados pelos indexadores, apenas um (0,8%) não constava do DeCS. Os indexadores empregaram qualificadores em 94 descritores (54%).

Dos 127 descritores atribuídos pelos autores aos seus artigos, os indexadores da BIREME utilizaram 55 (43%) e desprezaram 72 (57%) (gráfico 3).

Desses 127 descritores atribuídos pelos autores dos artigos, 72 (57%) foram julgados adequados pelos juízes e 55 (43%) foram julgados inadequados (gráfico 4). As diversas causas da inadequação estão expressas no gráfico 5.

Em relação aos 55 descritores inadequados atribuídos pelos autores dos artigos estudados, 9 (16,3%) o foram pela escolha de descritor do DeCS menos adequado que outros, também existentes no DeCS, que refletem melhor o artigo em foco (gráfico 5, Al). Quinze (27,2%) foram inadequados por causa da omissão do qualificador (gráfico 5, A2); quatro (7,2%) por não se ter conseguido expressar com propriedade o conteúdo dos artigos (gráfico 5, A3); cinco (9%) por ser muito abrangente (gráfico 5, A4); oito (14,5%) por ser demasiado restrito (gráfico 5, A5); sete (12,7%) por desobediência ao DeCS (gráfico 5, A6) e sete (12,7%) por não constarem no DeCS (gráfico 5, A7).

Dos 163 descritores utilizados pelos indexadores, os juízes reputaram 124 (76%) adequados e 39 (24%) inadequados (gráfico 6). As causas da inadequação estão expressas no gráfico 7.

Em relação às causas dessas indexações inadequadas, 3 (7,6%) o foram pela escolha de descritores do DeCS menos adequados em detrimento de outros, também constantes no DeCS, que indexariam melhor o artigo em questão (gráfico 7, BI). Um descritor (2,5%) foi considerado inadequado em função da omissão do qualificador (gráfico 7, B2); vinte e cinco (64,1%) por não se ter conseguido expressar apropriadamente o conteúdo dos artigos (gráfico 7, B3); três (7,6%) por serem de sentido muito amplo (gráfico 7, B4); cinco (12,8%) por serem restritos demais (gráfico 7, B5); um (2^%) por desobediência a recomendações do DeCS (gráfico 7, B6) e outro (2,5%) por não se encontrar no DeCS (gráfico 7, B7).

 

Discussão

Os autores dos artigos científicos estudados atribuem um número de descritores aos seus artigos (gráfico 1) menor do que o atribuído pelos indexadores. Os autores visam uma indexação mais objetiva, uma vez que dominam o assunto. No entanto, eles apresentam como maior falha a falta de domínio das técnicas de indexação. Constatou-se que freqüentemente os autores omitem qualificadores, pois os aplicaram em apenas 3 dos 127 descritores (2%), enquanto que nos restantes 124 (98%) deixaram de considerar a necessidade ou não de utilizá-los (gráfico 8).

Ainda: os autores comumente deixam de consultar os descritores que constam no DeCS (gráfico 2) e, conseqüentemente, não atendem às recomendações do DeCS (gráficos 5, A6). Esses motivos fazem com que os indexadores não possam aproveitar na indexação a maioria dos descritores atribuídos pelos autores aos seus artigos científicos (gráfico 3).

Quanto aos indexadores, eles obtiveram um melhor desempenho (gráfico 6) que os autores (gráfico 4) em relação à adequação dos descritores que empregaram. Os indexadores dominam as técnicas de indexação e quase nunca deixam de utilizar os descritores que constam no DeCS (gráfico 7, B7). Raramente omitem qualificadores (gráfico 7, B2), porém predomina como falha a dificuldade que apresentam para a compreensão e interpretação do conteúdo (gráfico 7, B3).

Para a análise do conteúdo de cada documento por parte dos juízes, foram utilizados os critérios pré-estabelecidos e já referidos no capítulo referente ao Método. Procurou-se neutralizar as tendências subjetivas. Pesou substancialmente na avaliação a experiência dos juízes na área específica, além do bom senso que deve prevalecer tanto no gerador como no consumidor da informação.

 

Conclusões

1 - Os autores de artigos científicos, ao prepararem o documento para publicação, devem elaborar o resumo acompanhado dos descritores adequados, visando a recuperação do artigo pelos consumidores de informação. Para tanto devem estar familiarizados com os instrumentos terminológicos e/ou com os tesauros da área específica.

2 - Os indexadores, para executarem um trabalho técnico em áreas específicas, devem estar familiarizados com as necessidades de informação dos geradores e consumidores das áreas especializadas. Para tanto devem participar de equipes multidisciplinares e entrosarem-se com as peculiaridades da terminologia específica.

 

Recomendações

1 - Que os editores de periódicos técnicos e científicos obedeçam à normalização para publicações e propiciem condições aos autores para incluir na referenciação dos artigos os descritores que objetivem a recuperação da informação.

2 - Que os indexadores avaliem os descritores atribuídos pelos autores e estabeleçam contato com os editores visando garantir a eficiência do fluxo de comunicação.

3 - Que os cursos de pós-graduação incluam a disciplina de comunicação científica com um conteúdo que privilegie a normalização e os processos de indexação e recuperação da informação.

 

Referências Bibliográficas

1. BIREME - CENTRO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE - Index Medicus Latino-Americano . São Paulo, Organização Pan-Americana de Saúde/Organização Mundial de Saúde, 1986,1987,1988,1989. v. 7, 8, 9 e 10.

2. BIREME - CENTRO LATINO-AMERICANO EDO CARIBE DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE - Descritores em Ciências de Saúde (DeCS). São Paulo, Organização Pan-Americana de Saúde, Organização Mundial da Saúde, 1988, 688 p.

3. BIREME - CENTRO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE - Descritores em Ciências de Saúde (DeCS) (supl. 1988-1989). São Paulo, Organização Pan-Americana de Saúde, Organização Mundial de Saúde, 1989.53p.

4. COMISSÃO LUSO-BRASILEIRA DE NOMENCLATURA MORFOLÓGICA - Nomenclatura Histológica da Língua Portuguesa . São Paulo, 1987,107p.

5. INTERNATIONAL ANATOMICAL NOMENCLATURE COMMITTEE - Nomina Anatomica . Rio de Janeiro, Editora Médica e Científica, 1984. 110 p.

6. NATIONAL LIBRARY OFMEDICINE - Medical Subject Headings (MeSH). Bethesda, U.S. Department of Health and Human Services, 1989.955 p.

7. NATIONAL LIBRARY OFMEDICINE Index Medicus . Bethesda, U.S. Department of Health and Human Services, 1989.12v.

 

Gráfico 1
Total de descritores = 290

Gráfico 2
Presença no DeCS
Descritores dos autores

 

Gráfico 3
Descritores dos autores

 

Gráfico 4
Descritores dos autores

 

Gráfico 5
Descritores dos autores


A1 = Descritores do DeCS menos adequados
A2 = Omissão do qualificador
A3 = Falha na expressão do conteúdo
A4 = Descritor muito amplo
A5 = Descritor muito restrito
A6 = Desobediência ao DeCS
A7 = Descritor ausente do DeCS

 

Gráfico 6
Descritores dos indexadores

 

Gráfico 7
Descritores dos indexadores


B1 = Descritores do DeCS menos adequados
B2 = Omissão do qualificador
B3 = Falha na expressão do conteúdo
B4 = Descritor muito amplo
B5 = Descritor muito restrito
B6 = Desobediência ao DeCS
B7 = Descritor ausente do DeCS

 

Gráfico 8
Descritores dos indexadores

 

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