|
Algumas necessidades de suporte da tradução
técnico-científica profissional
assistida por computador no Brasil
Francis Henrik Aubert
Universidade de São Paulo
Brasil
Resumo
No Brasil, vem-se generalizando entre os tradutores profissionais o uso de microcom-putadores do padrão PC. Até o presente, porém, tal utilização restringe-se, essencialmente, ao processamento de texto, com ocasionais desdobramentos para "desktop publishing". Assim configurado, os processos de automação mais avançada do ato tradutório ainda lhe escapam e se afiguram distantes, enquanto que necessidades mais prementes, que não apresentam maiores dificuldades técnicas, quer do ponto de vista computacional (hardware/software), quer em termos de compatibilização de estruturas lingüísticas bi- e multilíngües/informática, deixam de ser satisfeitas. Propõe-se, para preencher tal lacuna, o desenvolvimento sistemático de glossários eletrônicos compatíveis com os processadores de texto disponíveis no mercado.
A proposta que se pretende aqui delinear parte de determinadas constatações factuais e praxiológicas que compete, inicialmente, detalhar, tomando por base a realidade cotidiana do tradutor profissional. Tais constatações dizem respeito à natureza da operação tradutória, à natureza dos textos, às possibilidades e limitações da automatização do ato tradutório, à situação atual do exercício da tradução por seus profissionais e dos recursos no momento disponíveis para tal exercício.
Em primeiro lugar, é preciso frisar a limitação inerente à concepção do ato tradutório como uma operação estritamente lingüística. Na realidade, todo ato tradutório, intra ou interlingual, constitui, na sua essência, um ato de comunicação, que engloba mas não se esgota na natureza dos códigos lingüísticos e/ou registros de língua em confronto. A realização plena da operação tradutória exige, portanto, não apenas o domínio dos recursos estritamente lingüísticos (ortográficos, morfossintáticos, lexicais, semânticos e estilísticos) mas, igualmente, uma clara visão dos parâmetros específicos da situação comunicativa em que se pretende executá-la. Tais parâmetros referem-se ao emissor original, ao receptor intermediário, ao usuário final, ao canal, à intencionalidade comunicativa da tradução, coincidente ou não com a intencionalidade comunicativa da produção original do texto de partida, ao suporte material do texto final e seu "layout" gráfico, entre outros.
Outro aspecto a ressaltar, e que configura uma clara dificuldade para a automatização do processo tradutório, é a existência de um número bastante elevado de textos de natureza híbrida, em termos de referente (p. ex.: química aplicada à metalurgia, "marketing" de resinas plásticas para uso em eletro-eletrônica), ou em termos estilísticos (p. ex.: registros de patente que fundem, num mesmo texto, a terminologia e fraseologia do direito e da especialidade a que se refere a invenção em pauta). Ainda no domínio textual, vem-se tornando cada vez mais comum a circulação, difusão e tradução de textos com variados problemas de adequação lingüística e/ou comunicativa, exigindo, de saída, uma reescrita na língua de partida (LP) previamente à sua inserção num processo tradutório interlingual.
As considerações que precedem colocam em evidência algumas limitações inerentes à tradução automática no sentido mais popularizado do termo, ou seja, a tradução por computador sem interferência humana. Na realidade, e tal conceito já se encontra bastante difundido, trata-se, quando muito, de optar por uma ou outra ênfase, ou seja, pela tradução automática assistida pelo homem ou pela tradução humana assistida pelo computador. Inversamente, ampliam a concepção do profissional da tradução, para o qual a "mera" tradução, isto é, a transposição puramente lingüística de um texto a outro mediante a mudança de código lingüístico, constitui apenas uma parcela de uma atividade que se define, mais ampla e mais corretamente, como a de consultoria textual e produção de texto .
No que tange ao Brasil e à profissão de tradutor técnico nesse país, a tradução humana assistida por computador constituí a opção já em fase de implementação, enquanto que a tradução mais tipicamente automatizada, em que o tradutor é concebido como o elemento auxiliar, ainda configura uma perspectiva de médio e longo prazo e, como ficou dito, de qualquer forma talvez menos apropriada, ao menos em situação comunicativa não-neutra. Assim, no que segue, concentrar-se-á a atenção maior sobre a situação atual e as necessidades de curto a médio prazo da tradução no Brasil.
Uma parcela significativa dos tradutores brasileiros tem optado pela informatização do seu trabalho, em parte pela flexibilidade e agilidade maiores proporcionadas pelo processamento eletrônico de textos, em face dos prazos sempre exíguos, em parte premidos pela clientela que, progressivamente, vem solicitando serviços de tradução entregues em disquete de preferência à entrega em forma datilografada. No entanto, tal desenvolvimento tem sofrido alguns percalços, a maioria originada de problemas de compatibilidade de "hardware" (padrões Apple e IBM-PC) e "software" (Editei, Word, Wordstar, Wordperfect, Redator, Carta Certa e outros, em suas diversas versões nem sempre sequer mutuamente compatíveis), gerando dificuldades não apenas na relação tradutor/tradutor e tradutor/cliente como também para um melhor aproveitamento dos recursos complementares disponíveis (revisores ortográficos, estilísticos, thesauri). Por outro lado, esses mesmos recursos complementares não estão, na maioria, disponíveis para a língua portuguesa, exceção feita dos primeiros revisores ortográficos, que começaram a ser comercializados há pouco mais de um ano. Desta forma, a tradução humana assistida por computador deixa de realizar, entre nós, sua plena potencialidade.
Agilizada a produção de texto com os recursos já existentes em qualquer processador de texto disponível no mercado, observa-se, no cotidiano profissional da tradução, dois pontos de relativo estrangulamento em termos de dispêndio de tempo: a revisão gramatical/estilística e a consulta terminológica. Assim, duas seriam as tarefas mais imediatas para possibilitar uma melhor desobstrução das rotinas de trabalho, e permitir ao tradutor consolidar sua posição como consultor e produtor de textos de alto nível a despeito dos prazos sempre prementes: a produção de programas de revisão gramatical e/ou estilística e a produção de dicionários técnicos eletrônicos.
Revisores gramaticais e estilísticos já existem para o idioma inglês, com desempenho relativamente interessante. A confecção de programas equivalentes para a língua portuguesa, em sua versão brasileira, a despeito do peso maior da morfologia na sua estrutura e da maior complexidade da concordância nominal em nosso vernáculo, configura-se, pois, como algo tecnicamente factível e de aplicabilidade que excede, de longe, o campo mais restrito da tradução técnico-científica. O principal obstáculo, provavelmente, residirá na ausência de descrições sistematizadas da estilística contemporânea do português, particularmente para a produção de textos científicos e técnicos.
É da própria natureza do trabalho terminológico, quer em sentido normalizador quer em sentido descritivo, monolíngüe ou bilíngüe, alcançar seus objetivos parceladamente, ao longo de um prazo mais ou menos extenso. Apesar desse condicionante que, tomado em isolamento, tenderia a frustrar a compreensível sensação de urgência na obtenção de recursos complementares por parte dos tradutores/textólogos, os conhecimentos terminológicos e lexicográficos já disponíveis deveriam permitir a produção de dicionários técnico-científicos eletrônicos monolíngües e bilíngües (pelo menos para o inglês e o alemão), compatíveis com os principais processadores de texto no mercado, para utilização com janelas ou com consulta "on line" (como o Thesaurus da versão em inglês do MS-Word), passíveis de atualização e expansão permanente, pelo usuário tanto quanto pelo fornecedor.
No caso dos léxicos e glossários terminológicos bilíngües, que configuram nosso interesse maior, alguns pontos devem ser levados em conta desde sua concepção inicial: a) compatibilidade nos códigos de caracteres; b) abrangência; c) direção.
Um dos principais problemas de compatibilidade entre tradutores, entre esses e seus clientes e entre os processadores de texto e os programas complementares reside na utilização de códigos e tabelas diferentes para caracteres especiais e com diacríticos. Evidentemente, tal problema tende a se aguçar em contexto interlingual. Uma solução apropriada, e que leve em conta os diversos padrões em uso, passaria, possivelmente, pela substituição dos caracteres especiais por sinais codificados passíveis de atualização pelo próprio usuário, conforme seu ambiente de trabalho específico, mediante comandos de busca e troca.
Dada a relativa freqüência dos textos híbridos caracterizados anteriormente, bem como a variedade de textos com que cada tradutor se defronta a cada momento, os léxicos e thesauri eletrônicos deveriam, preferencialmente, ser de natureza abrangente, ou seja, abarcarem vários ramos do saber científico e técnico ou, alternativamente, permitirem sua integração num mesmo diretório ou subdiretório de consulta.
Por fim, tendo em vista a crescente demanda no mercado brasileiro por traduções para idiomas estrangeiros, os recursos lexicográficos e terminológicos eletrônicos devem sistematicamente possibilitar a consulta bidirecional.
Realizadas essas tarefas, ou, pelo menos, colhidos os seus primeiros frutos operacionais, a tradução humana automatizada poderá, então, efetivamente entrever a realização da plenitude de sua eficiência e qualidade.
|