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Índice por autores

 

 

Terminologia brasileira em ciencia da informação:
una analise

B. Medeiros, Marisa B.
Instituto Brasileiro de Informaçao
em Ciência e Tecnologia (IBCIT)
Brasilia-Brasil

 

1. Introdução

Apesar da terminologia em geral, enquanto fenômeno de natureza lingüística não ser um fenômeno recente, foi a partir da década de 30 que se verificou um aumento progressivo de terminologias específicas, em conseqüência do desenvolvimento acelerado das disciplinas científicas, da micro-especialização, do desenvolvimento tecnológico e do crescente intercâmbio internacional em vários campos da ciência e tecnologia.

A sistematização dos estudos terminológicos tornou-se indispensável para acompanhar esse crescimento de terminologias específicas, na medida em que eles fornecem critérios ao estabelecimento de termos precisos para representar os conceitos em determinado campo do conhecimento.

A aplicação dos princípios e dos métodos terminológicos permite a expressão verbal dos novos conhecimentos adquiridos e a troca desses conhecimentos, tanto no contexto de uma área de especialização, quanto na comunicação interdisciplinar.

Apesar da indiscutível importância dos estudos terminológicos, constatase ainda, no Brasil, a carência desses estudos e de terminologías em Ciência da Informação. Em conseqüência, surgem problemas de ordem terminológica, tais como: ambigüidade, polissemia, uso indiscriminado de termos provenientes de línguas estrangeiras e criaçâo de neologismos, sem levar em conta os padrões morfosintáticos da língua portuguesa. Esses problemas evidenciam a necessidade de padronização da terminologia brasileira em Ciência da Informação.

Com o objetivo de identificar os principais problemas terminológicos na área e estabelecer as bases para um vocabulário especializado em língua portuguesa, baseado na linguagem dos especialistas, aplica-se neste trabalho, métodos consagrados no campo da Terminologia Teórica e Aplicada, amplamente discutidos na literatura especializada.

 

2. Terminologia

Entende-se por Terminologia Teórica e Aplicada (TTA) um campo interdisciplinar que tem corno objeto de estudo a denominação dos conceitos sob seus aspectos teóricos e metolológicos. Além do estudo da denominação dos conceitos, ela trata de sua representação sem ambigüidade no ámbito das linguagens especializadas.

As linguagens especializadas, isto é, linguagens utilizadas na comunicação entre especialistas de uma mesma área, possuem características distintas da linguagem comum. O estudio dessas linguagens exige, portanto, fundamentos teóricos e metodológicos próprios.

O estabelecimento de teorias sobre as linguagens especializadas e o desenvolvimento de metodologia própria para a análise dessas linguagens são objeto da TTA enquanto atividade científica, justificando o seu recente desenvolvimento como disciplina autônoma.

 

3. Linguagens especializadas

Desenvolvem-se em TTA princípios e métodos aplicáveis à análise das linguagens especializadas.

Embora, em grande parte derivadas da linguagem comun, essas linguagens são restritas à comunicação entre especialistas em determinado campo do conhecimento. Seu objetivo é representar a estrutura conceitual do campo a que se referem.

Enquanto a linguagem comum é constituída de unidades lexicais; necessárias à comunicação entre os indivíduos de uma comunidade, as linguagens especializadas apresentam, além de elementos da linguagem comum, elementos específicos, que são as terminologias especializadas. Essas terminologias constituem-se de um conjunto de unidades lexicais utilizadas na comunicação profissional, seja oral ou escrita, entre especialistas de determinado campo do conhecimento.

As linguagens especializadas possuem características próprias que permitem distingui-las de outros tipos de linguagem, pois originam-se da necessidade de exatidão na comunicação científica e tecnológica o que obriga a estabelecer um elo mais estreito e preciso entre termo e conceito.

 

3.1. Conceito

A formação de um conceito é feita através da identificação, no universo de itens (idéias, objetos, fatos, leis, etc), de um item de referência (entidades, propriedades, atividades e dimensões). Enunciados verdadeiros acerca desse item são formulados é sintetizados sob forma verbal (termo, palavra) que será utilizada no universo do discurso.

Os conceitos, são portanto, definidos como unidades do conhecimento, identificadas através de enunciados verdadeiros sobre um item de referência e representados por uma forma verbal [1].

 

3.2. Termo

Denomina-se termo um signo lingüístico que representa um conceito identificado na estructura conceitual de um campo especifico do conhecimento.

Distinguem-se os termos das palavras da linguagem comum pela relação de univocidade (a um conceito corresponde apenas uma denominação) e de monorreferencialidade (a uma denominação corresponde apenas um conceito), que são estabelecidas entre conceito e termo.

 

4. Pesquisa terminológica

Entende-se por pesquisa terminológica o conjunto de operações que compreendem a coleta, o tratamento e a difusão de dados terminológicos.

As pesquisas podem ser onomasiológicas - partem do significado (conceito) para estudar o significante (denominação), semasiológicas - partem do significante para estudar o significado ou mistas - utilizam ambos os tipos de enfoque [2].

Inicialmente deve-se definir a área de assunto que será pesquisada, podendo ser um campo do conhecimento, uma disciplina, uma ciência, uma técnica ou uma atividade práctica.

Após a escolha da área é necessário delimitar a abrangência da pesquisa quanto aos seguintes aspectos:

a) língua de trabalho: definir se a pesquisa será unilingüe, isto é, realizada em determinada língua ou multilingue, abrangendo duas ou mais linguas;

b) levantamento da situação terminológica da área: coletar e avaliar as terminologias disponíveis para decidir quanto à necessidade de atualização de terminologias já existentes, ou de realização de uma nova pesquisa terminológica mais atualizada;

c) análise de área: delimitar a estrutura conceitual do campo a ser estudado;

d) escolha da documentação: coletar, avaliar e selecionar as fontes que serão utilizadas para o levantamento e definição dos termos;

e) delimitação do número de termos: definir o número aproximado de termos que serão incluídos no vocabulário terminológico. De acordo com a recomendação da Organização Internacional de Normalização, um vocabulário não deve conter mais que 1000 termos, devendo ser dividido em subáreas caso ultrapasse esse limite [3]. Obviamente, numa pesquisa terminológica, a quantidade dos termos a serem levantados dependerá dos objetivos do trabalho e da especificidade lingüístico-terminológica da área pesquisada.

 

4.1. Coleta e análise dos termos

O processo de coleta dos termos consiste na análise dos documentos selecionados com o objetivo de identificar os termos pertencentes à área em questão.

A principio, os termos são apenas sublinhados na medida em que aparecem ao longo do texto analisado. Deve-se distinguir entre palavras da linguagem comum e palavras que constituem a terminologia da área, isto é, os termos propriamente ditos ou candidatos a termos padronizados.

Para cada termo levantado é elaborada uma ficha terminológica com os dados necessários para a caracterização do item levantado.

São muitos os modelos de ficha propostos [2, 4, 5] entretanto, certos dados podem ser considerados imprescindíveis em uma ficha terminológica:

a) entrada: campo da ficha que contém a denominação/termo em referência.

b) categoria lexical e gramatical: caracterização do termo como substantivo, verbo, adjetivo, feminino ou masculino, singular ou plural, etc.

c) definição ou nota explicativa: delimitação do conteúdo expresso pelo termo. Trata-se da parte mais importante da ficha terminológica.

d) contexto (com indicação de fontes): transcrição parcial do texto onde foi encontrado o termo em referência. Deve ser dada preferência a contextos explicativos ou que apresentem definições explícitas ou implícitas.

e) equivalências em outras línguas: incluir somente aquelas línguas que forem relevantes, de acordo com os objetivos do trabalho terminológico.

g) observações: podem referir-se à variação da forma e do uso, à frequência, à origem, a comentários de usuários, especialistas e do próprio autor da pesquisa.

 

4.2. Apresentação e difusão dos dados terminológicos

Vocabulários, glossários e dicionários são a forma tradicional de apresentação e difusão dos dados terminológicos os termos podem ser organizados alfabeticamente ou classificados de acordo com a estruturaçâo conceitual da área.

Atualmente os bancos terminológicos são considerados a melhor solução para fazer frente à intensa produtividade terminológica em ciência e tecnologia. Esses bancos são, na realidade, dicionários automáticos, nos quais a entrada dos dados é feita por meio de fichas terminológicas padronizadas [6].

 

5. Levantamento da terminologia brasileira em ciência da informação

Na pesquisa terminológica realizada não houve intenção de se levantar exaustivamente os termos da Ciência da Informação no Brasil. Por outro lado, não houve preocupação em organizar estruturalmente o vocabulário. Esse tipo de organização pressupõe uma análise conceitual da área para identificar a posição que determinado conceito vai ocupar na estrutura conceitual, estabelecendo-se, concomitantemente, as relações existentes entre os termos.

Apesar de incluir equivalentes em inglês e francês (quando foi possível identificá-los), a pesquisa em referência foi unilíngüe, isto é, refere-se somente ao Português do Brasil. Uma pesquisa multilingüe teria exigido levantamento terminológico equivalente em língua (s) estrangeira (s), a partir de textos concretos, enquanto que, para este trabalho, foram coletados os equivalentes em idiomas estrangeiros a partir de glossários e dicionários bilíngües ou multilíngües os quais, até a data da pesquisa, ainda não incluíam a lingua portuguesa.

São numerosas as dificuldades advindas na elaboração de um vocabulário estruturado, por exemplo em tesauro, quando os termos/conceitos de determinada área ainda não foram objeto de definições exatas ou, pelo menos, de notas explicativas. Em relação à terminologia brasileira em Ciência da Informação deparamo-nos exatamente com esse estado de coisas, razão pela qual optamos por: 1) levantar uma quantidade significativa de termos/conceitos na área (473 termos), ainda não padronizados, tais como se apresentam no uso de especialistas; 2) definir esses termos/ conceitos de acordo com as diretrizes fixadas pela TTA ou, pelo menos, descrever-lhes o conteúdo; 3) registrar e comentar criticamente as dificuldades e problemas específicos da terniinología brasileira em Ciência da Informação, surgidas ao longo da pesquisa.

Definir um termo/ conceito-nada mais é que descrevê-lo por meio de outros recursos terminológicos/conceituais já conhecidos entre usuários e especialistas da área em questão. Toda a definição seja intensional ou extensional implica em uma delimitação em relação a outros termos/conceitos. Decorre daí que pela definição implicitamente se determina a posição do termo/conceito num sistema conceitual, contribuindo-se concomitantemente para a construção desse sistema ou subsistemas-base para um futuro vocabulário estruturado.

No levantamento de terminologias brasileiras já existentes na área foram coletadas as seguintes fontes lexicográficas: Macrotesauro em Ciência da Informação [7], Vocabulário em Informação em Ciência e Temologia [8] e Glossário de termos usuais em Bíblioteconomia e Documentação [9].

Apesar de que na elaboração desses trabalhos não se observou diretrizes estritamente terminológicas, elas oferecem os primeiros subsídios para o levantamento da terminologia brasileira na área da Ciência da informação. Por tanto, no contexto da pesquisa terminológica, cabe-lhes função documentária.

 

5.1. Fontes consultadas

O periódico Ciência da Informação por ser o principal periódico brasileiro especializado na área, e o Catálogo de Dissertaçoes e Teses em Ciência de Informação e Bíblioteconomia [10], por incluir as teses defendidas no Mestrado em Ciência da Informação do IBICT (que marcou a evolução da Ciência da Informação no Brasil) foram consideradas fontes adequadas para a coleta de termos específicos da área.

Foram analisados os títulos e resumos dos artigos arrolados nos 12 volumes da Ciência da Informação desde sua publicação, em 1972, até o ano de 1983, num total de 24 ' fascículos. Os títulos e resumos das teses incluídas no Catálogo de Dissertaçoes e Teses, publicado em 1982, foram tambén, analisados, incluindo os suplementos 1 e 2, publicados, respectivamente em 1982 e 1984, perfazendo um total de 236 teses.

Para o levantamento das definiçôes e dos equivalentes em outras línguas, foram consultados os glossários e dicionários que se encontravam acessíveis, além de artigos e teses de cujos resumos e títulos foram coletados os termos.

Optou-se por fontes mais atuálizadas, considerando-se porém admissivel uma defasagem de dez años em relação à data de publicação. As fontes mais antigas foram utilizadas apenas quando os dados necessários para completar a ficha terminológica não constavam de fontes mais recentes.

Inicialmente os termos foram apenas sublinhados nos textos em que apareciam e, em seguida, foram transcritos em fichas terminológicas, anotando-se os dados recuperáveis no próprio texto, por exemplo:contexto, fonte, e eventualmente, equivalentes em outras línguas e definições. Os dados incompletos eram, então, preenchidos de acordo com outras fontes disponíveis.

 

6. Problemas específicos da terminologia brasileira em ciência da Informação

Os problemas terminológicos em Ciência da Informação não parecem ser diferentes dos problemas encontrados na terminologia das Ciências Sociais em geral, mencionados na literatura especializada:

a) uso de termos derivados da linguagem comum, resultando uma poliferação de significados diferentes para o mesmo termo;

b) produtividade terminológica inovatória, devido ao uso variado de modelos teóricos;

c) uso de "termos favoritos" para representar determinados conceitos, sem preocupação com a existência de termos adequados padronizados ou não;

d) criação desnecessária de termos novos (neologismos) para representar conceitos denominados por termos já existentes; e

e) variação semântica do termo, isto é, enquanto a forma externa do termo permanece igual, varia pelo uso que dele se faz, seu significado, resultando daí falta de precisão.

No caso específico da Ciência de Informação, Koblitz10 identifica algumas causas de problemas terminológicos, que julgamos válidas, tambén, para a terminologia brasileira na área:

a) o processo de denominação das atividades, objetos, métodos, etc., relacionados com a Ciência da Informação prescinde, freqüentemente, de fundamentação científica;

b) o desenvolvimento da terminologia na área não tem acompanhado a evolução das atividades práticas da Ciência da Informação;

c) subestima-se entre os profissionais da área, o valor e a importância da padronização terminológica;

d) freqüentemente entre os proponentes e usuários de termos novos constatase um desconhecimento das teorias e métodos terminológicos;

e) observa-se indiferença ou desconhecimento das normas internacionais de Terminologia.

A essas observações podem ser acrescentadas, no caso específico brasileiro:

a) insuficiência de glossários, vocabulários e dicionários na área;

b) inexistência de estudos relativos aos problemas terminológicos em Ciência da informação;

c) penetração e difusão descontrolada de termos provenientes de outras linguas, especialmente do inglês;

d) atuação ainda incipiente do órgão responsável pela normalização no Brasil (ABNT), na área da Terminologia.

Verifica-se ainda no caso brasileiro, uma ausência de padronização terminológica em Ciência da informação, prejudicando a comunicação entre os especialistas, bem como as atividades de indexação e recuperação da informação científica da área.

 

6.1. Problemas identificados nos termos coletados

6.1.1. Empréstimo

Consiste na adoção de termos de línguas estrangeiras, em sua quase totalidade provenientes do inglês. Esses termos são simplesmente incorporados ao uso lingüístico (terminológico) brasileiro. Exemplos: hardware, software, off-set, reliance.

Para os casos citados, bem como em outros deste tipo, não constaram nas fontes analisadas equivalentes em língua portuguesa. Entretanto, verifica-se também o uso de empréstimos quando já existe termo em vernáculo para representar o conceito proveniente de uma língua estrangeira. Exemplos: abstracts, input, papers, thesaurus, online, termos que podem ser expressos, em vernáculo, por resumos, entrada, comunicações, tesauro, em linha.

No caso dos termos exemplificados a seguir, os empréstimos continuam a ser utilizados, porque não há consenso quanto ao termo em vernáculo. Em conseqüência, aparecem, às vezes, vários termos para representar o mesmo conceito. Exemplos:

Gatekeepers - em português foram registrados: indivíduo-chave, pessoa-fonte; sentinelas tecnológicas; e

Marketing - utilizam-se os termos promoção, propaganda e publicidade, sem que haja um equivalente exato para o empréstimo proveniente da língua inglesa.

6.1.2. Ambigüidade

Consiste na utilização do mesmo termo para representar conceitos diferentes. Na terminologia analisada, observa-se o uso de termos ambíguos, como demonstram os exemplos a seguir:

Comunicação, designando um tipo de documento, ou o processo comunicativo.

Entrada, com significados diferentes em catalogação e em processamento de dados.

Além desses exemplos, mencionamos ainda o uso ambíguo dos termos: índice, resumo, documentação e bibliografia, entre outros.

6.1.3. Neologia

Neologismos são termos ou palavras novas incorporadas ao uso lingüístico, que resultam de um proceso de criação de unidades lexicais, denominado neologia. Podem ser divididos em três categorias:

neologismo de forma:

novos termos ou palavras criadas por meio da derivação,composiçâo, compressão/redução morfológica, ou por outros recursos lingüísticos;

neologismo de significado:

termos ou palavras já existentes na língua que passam a ser utilizados para denominar novos conceitos. São portanto, termos que recebem novos significados;

neologismo por empréstimo
e empréstimo por tradução:

são considerados nelogismos por empréstimo os termos provenientes de línguas estrangeiras usados na forma original, ou adaptados de acordo com a estrutura fonológica e ortográfica da língua receptora. Entretanto, neste trabalho, concederam-se neologismos por empréstimo apenas os termos que sofreram modificações em sua forma original ou aqueles que foram traduzidos, pois os termos adotados na língua original não podem ser considerados produtos de um processo de criação neológica.

 

No âmbito deste trabalho, portanto, foram considerados neologismos os termos que ainda não foram registrados no Novo Dicionário da Língua Portuguesa [11].

Na terminologia brasileira em Ciência da Informação, foram observadas as seguintes categorias de neologismos, a seguir exemplificadas:

a) Neologismos de forma

Por derivação:

transiência - substantivo derivado do adjetivo transiente;

truncamento - substantivo derivado do verbo truncar;

tematicidade- substantivo derivado do adjetivo temático. Por composição:

teleprocessamento - substantivo composto pelo substantivo processamento modificado pelo prefixo de origen grega telós (longe, à distância).

lndividuo-chave - composição por justaposição dos substantivos indivíduo, que é o elemento determinado, e chave, que é determinante.

b) Neologismos de significado:

comutação - substantivo proveniente da linguagem comum (= substituição; permutação), utilizado em Ciência da Informação para designar a operação que permite ao usuário obter cópia de documentos existentes em outras bibliotecas ou serviços de informação.

terminal - substantivo que, em linguagem comum significa extremidade, fim; adotado em Ciência da Computação com o significado de unidade de emtrada/saída através da qual o usuário se comunica com o sistema de processamente eletrônico de dados.

c) Neologismos por tradução e por empréstimo:

pré-impresso - (ingl. preprint.); substantivo formado pelo prefixo de origem latina-pré- (anterioridade), anteposto ao substantivo impresso,

legível por máquina (ingl. machine-readable); expressão formada pelo adjetivo legível e pelo substantivo preposicionado máquina.

Com respeito à aceitabilidade do neologismo, deve ser levada em conta a sua forma, isto é, sua estrutura morfológica e sintática em relação à língua em questão.

Na terminologia brasileira de Ciência da Informação, foram encontrados neologismos que não são compatíveis com a estrutura de língua portuguesa.

Assim, o termo sobrecidade constitui-se num neologismo por tradução de morfemas erroneamente combinados em vernáculo, uma vez que, de acordo com as regras gramaticais de derivação, as preposições em protuguês (ex. sobre) não são passíveis de derivação lexical (ingl. aboutness).

Já o neologismo tematicidade é mais apropiado para representar o conceito expresso pelo termo inglês aboutness, pois foi criado observandose os padrões gramaticais da Iíngua portuguesa (derivação do adjetivo temático com o sufixo - (d)ade).

Os termos bibliotecário público e bíbliotecário escolar são exemplos de uma mal sucedida creação neológica baseada em modelos lexicais originários da lingua inglesa (public librarian, school librarian), que, semanticamente, são inadequados à Iíngua portuguesa, pois, embora às vezes adotados para denominar bibliotecários especializados no tratamento de informação em áreas específicas do conhecimento, não refletem com clareza o respectivo conceito.

Por outro lado, ao analisar-se os termos bibliotecário-médico/ bibliotecãrio-engenheiro, tem-se a impressão que se trata de profissionais que, além de bibliotecários, são, também, médicos ou engenheiros, o que não ocorre na prática brasileira.

Os termos bibliotecário da área biomédica, bibliotecário da área médica e bibliotecário da área de engenharia, apesar de serem extensos e de não corresponderem ao critério da simplicadade, se enquadram melhor nos padrões lexicais e semânticos do português, refletindo, claramente, o respectivo conceito a que se referem.

O termo colégio-invisivel é um neologismo por tradução do inglês invisible-college. Entretanto, apesar de estar em conformidade com a estrutura da língua portuguesa, foi criado com base numa tradução errônea do termo inglês college que, traduzido para o português, no Brasil, significa facultade, ou escola de nível superior. Esse termo tem sido amplamente aceito na terminologia brasileira de Ciência da Informação, constando, também, do Macrotesauro em Ciência da Informação. Por esse motivo, não será fácil sibstituí-lo, a não ser por um ato normativo de padronização.

Os exemplos apresentados refletem, de maneira geral, os tipos de problemas que surgen na terminologia brasileira em Ciência da informação. Grande parte desses problemas se deve à carência de padronização terminológica na área.

 

7. Conclusão

No levantamento terminológico realizado, foram coletados aproximadamente 600 termos, dos quais se optou por definir ou descrecer 473 de acordo corri as diretrizes estabelecidas em trabalhos sobre Terminologia Teórica e Aplicada (TTA), campo de pesquisa interdisciplinar recente, já estabelecido nos países avançados em Ciência e Tecnologia.

Verifica-se o uso de empréstimos que são, em sua maioria, da Iíngua inglesa. Carvalho [12], referindo-se à terminologia tecnológica no Brasil, afirma que o termo inglês tem predominância sobre o termo português existentes devido ao fato de que o indivíduo, ao comparar o seu saber e seu poder com o da língua que empresta, decide adotar os termos dessa língua porque reconhece sua suposta superioridade, A língua inglesa possui prestígio internacional, o que se reflete também sobre os que dela se utilizam.

Entretanto, não se pode excluir aqui, também, como causa a inexistência de terminologias especializadas em vernáculo, padronizadas, constituindose, portanto, o círculo vicioso do empréstimo: empresta-se por inexistir o termo e não se estabelece o termo vernáculo, porque há a possibilidade de emprestar o termo.

Os esforços no sentido de estabelecer uma terminologia brasileira na área têm sido insuficientes como assim o demonstra a carência de glossários, dicionários e vocabulários e de estudos terminológicos na área de Ciência da Informação, tormando difícil a implantação e o fortalecimento de uma terminologia em língua portuguesa.

Entretanto, como ressalta Carvalho [12], deve-se ter consciência de que quando uma forma estrangeira se Impõe não é apenas um grupo fônico ou um novo grupo de letras que se instalam, mas um signo que possui um significado, um referente e suas características. É mais que um ato lingüístico, é um ato social, uma tentativa de impor uma visão do mundo a um grupo social.

Neste sentido, faz-se necessária a conscientização dos profissionais atuantes na área de informação quanto à necessidade de estudos terminológicos visando a implantação de uma terminologia padronizada no Brasil.

 

Bibliografía

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Culturel Inc. 1981. 226 p.

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[5] DAHLBERG, I. ConceptuaI definitions for INTERCONCEPT; International Classification, 8(1).- 16-22,1981.

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[7] IBICT. Macrotesauro; Ciência da Informação. Brasília, 1982. n. p.

[8] IBICT. Vocabulário de termos tecnicos em informação em ciência e tecnologia; português-inglês, Inglês-português. Brasília, 1984. 55 p.

[9] ZAMBEL M. M. Glossário de termos usuais em Biblioteconomia e Documentação. São Carlos, Fundação Theodoret Souto, 1978. 102 p.

[10] KOBLITZ, J. The essential features of information and documentation Science. In: FID. Theoretical problems of Informatics; new trends in Informatics and its terminology, FID 568. Moscou, 1979. p. 19-29.

[11] BUARQUE DE HOLANDA, A. Novo dicionário da língua portuguesa. 1975. 1499 p.

[12] CARVALHO, N. ¿Transfert de technologie ou intervention et domination culturelle et linguistique? In: COLOQUE INTERNATIONAL DE TERMINOLOGIA, Luxemburg, 27-29 agosto 1984. TERMIA 84; terminologie et coopération internationale, la terminologie, outil indispensable ou transfert des tecnologies. Association Internationale de Terminologie, (1985). p. 66-75

 

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